﻿<?xml version="1.0" encoding="utf-8" ?><Search><Pages Count="378"><Page Number="1">viva português 3 volume ensino médio língua portuguesa elizabeth campos paula marques cardoso silvia letícia de andrade viva português 3 volume viva português a coleção viva português apresenta uma proposta diferenciada de ensino. com temas que aproximam da vivência cotidiana dos jovens o estudo da língua, cada unidade apresenta um capítulo dedicado à análise de um gênero textual e outro voltado ao estudo da literatura. o trabalho realizado nesses capítulos respeita uma sequência didática elaborada para facilitar o processo de ensino/aprendizagem. ponto forte da coleção, a produção escrita é trabalhada no processo da sequência didática, em atividades que preparam a produção do texto final, de autoria. o projeto proposto em cada volume garante não só a circulação social dessa produção como o exercício do convívio ético e responsável entre os jovens. resultado da experiência em sala de aula das autoras, viva português é uma coleção especialmente elaborada para o novo perfil dos alunos do ensino médio hoje. ao comprar um livro, você remune-ra e reconhece o trabalho do autor e o de muitos outros proﬁssionais envolvi-dos na produção editorial e na comerciali-zação das obras: editores, revisores, diagramadores, ilustradores, gráﬁcos, di-vulgadores, distribuidores, livreiros, entre outros. ajude-nos a combater a cópia ilegal! ela gera desemprego, prejudica a difusão da cultura e encarece os livros que você compra. cópia ilegal não é legal! www.atica.com.br vivaportugues_v3_capa_al.indd  1 7/1/11  10:55 am</Page><Page Number="2">lançamento um projeto envolvente para alunos do ensino médio hoje. estrutura dinâmica em cada unidade, um capítulo é dedicado à exploração de um gênero textual e outro à literatura. temas da vivência cotidiana dos alunos são a base para a introdução dos estudos da língua e da literatura como parte de sua formação cidadã. destaques da obra • ponto forte da coleção, a elaboração de textos é trabalhada  em sequência didática, com atividades que preparam  a produção de autoria. • o estudo das estruturas linguísticas dos gêneros  em foco favorece a refexão sobre a língua em situações  reais de uso. os conceitos são exercitados em atividades  de fxação e de aplicação. • o quadro das habilidades leitoras, que explicita as estratégias  envolvidas nas atividades de leitura, visa a tornar o aluno consciente  de seu processo para aplicá-lo a outros textos.</Page><Page Number="3">ampliação dos conhecimentos viva português prepara o aluno para buscar informações novas e aplicá-las a diferentes contextos. projetos um projeto por volume garante a circulação social das produções. conheça também a seção e por falar em... propõe atividades que permitem simular no contexto da sala de aula situações cotidianas para a refexão sobre o papel do ser humano na sociedade. sugestões de leitura, flmes e sites pretendem contribuir tanto para o desenvolvimento cultural dos alunos como para a pesquisa. viva português ensino fundamental ii viva português vol. único ensino médio</Page><Page Number="4">elizabeth campos graduada em letras pela faculdade de filosoﬁa nossa senhora medianeira-sp. licenciada em pedagogia pela faculdade de filosoﬁa nossa senhora medianeira-sp. professora da rede particular de ensino da cidade de são paulo. paula marques cardoso graduada em letras pela universidade mackenzie-sp. mestra em língua portuguesa pela puc-sp. professora da rede particular de ensino da cidade de são paulo. silvia letícia de andrade graduada em letras pela universidade de são paulo. licenciada em letras pela universidade de são paulo. mestranda da área de filologia e língua portuguesa da universidade de são paulo. professora da rede particular de ensino do estado de são paulo. viva português ensino médio língua portuguesa 3 volume vivaport_frontiscred_v3.indd  1 6/20/11  3:07 pm</Page><Page Number="5">3 apresentação é com muito entusiasmo que apresentamos esta coleção. ela é o resultado de nossos trabalhos em sala de aula, bem como de nossas constantes pesquisas sobre metodologias de ensino de leitura, análi-se da linguagem e produção de textos. e o que isso significa? significa que você encontrará aqui atividades elaboradas com o objetivo de facilitar seu domínio de mecanismos da língua portuguesa neces-sários à boa compreensão de um texto e a uma comunicação oral e escrita mais consciente. o propósito, portanto, a partir das sugestões de trabalhos propostas, é que você leia mais e melhor, escreva mais e melhor, utilize recursos da língua cada vez mais e melhor. ao longo dos três volumes desta coleção, você estudará textos de diversos gêneros e alguns dos mecanismos linguísticos e textuais que os organizam. terá, ainda, a possibilidade de exercitar esse con-teúdo e aproveitá-lo em suas próprias produções. observe que é nossa preocupação integrar leitura, análise lin-guística e escrita. isso para que cada parte do estudo faça sentido e tenha como principais objetivos ampliar sua competência leitora e sua capacidade de escrever textos claros, que atinjam o público ao qual se destinam. considerando a importância do interlocutor potencial dos textos, pensamos também que as produções elaboradas ao final de cada caracterização de gênero textual poderiam não ficar restritas à lei-tura do professor, mas ser divulgadas para a comunidade escolar, ganhando, assim, novos destinatários. daí a proposta de um projeto anual para cada volume, que envolverá exposição, no final do pri-meiro ano, sarau, no final do segundo, e elaboração de revista, no final do terceiro. em todas as situações, parte dos textos produzidos até então é resgatada e poderá compor o projeto. esperamos que você goste das diferentes propostas de atividades e que esta coleção se torne um instrumento significativo para aper-feiçoar o uso de uma língua que você já conhece tão bem. bom trabalho! as autoras vpem_vol.3_iniciais_003a005.indd  3 4/15/10  2:17:44 pm</Page><Page Number="6">4 projeto – revista............................................ 6 unidade 1 – um olhar crítico.................... 8 capítulo 1 – a resenha crítica.......................... 9 antes de ler.......................................................... 9 texto 1 – crítica ao mundo dos trouxas, lia zatz e maria da graça mendes de abreu................................ 10 texto 2 – herói de uniforme, elisa tozzi............... 14 conhecimentos linguísticos................................ 17 orações subordinadas adjetivas........................ 17 ortografia e outras questões............................... 22 os pronomes relativos...................................... 22 produção de texto............................................... 26 resenha crítica................................................ 26 e por falar em resenha crítica…......................... 30 no mundo da oralidade...................................... 31 aproveite para…................................................. 31 capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1 o momento do modernismo em portugal......... 32 antes de ler......................................................... 32 no mundo da oralidade...................................... 34 texto 1 – o meu olhar, fernando pessoa (heterônimo alberto caeiro)................. 35 texto 2 – poema, fernando pessoa (heterônimo ricardo reis)................... 37 texto 3 – poema, fernando pessoa (ortônimo)...... 38 texto 4 – lisbon revisited (1923), fernando pessoa (heterônimo álvaro de campos)............. 40 para entender o modernismo português............. 41 vanguardas europeias e o cenário do modernismo...41 primeiro modernismo em portugal (1915-1927)...... 44 segundo modernismo em portugal (1927-1940)...... 44 características do modernismo português.......... 44 principais autores............................................. 45 fernando pessoa, mário de sá-carneiro, florbela espanca....................................... 45 comparando textos............................................. 49 e por falar em vanguardas europeias…............. 50 no mundo da oralidade...................................... 51 aproveite para…................................................. 52 unidade 2 – tecendo conversas............. 53 capítulo 1 – a entrevista................................. 54 antes de ler......................................................... 54 texto 1 – rir é uma obrigação, revista veja........... 55 texto 2 – faz-me rir, priscilla santos................... 60 conhecimentos linguísticos................................ 63 orações subordinadas adverbiais...................... 63 ortografia e outras questões............................... 74 meio................................................................ 74 produção de texto............................................... 75 entrevista – o texto escrito................................ 75 e por falar em entrevista…................................ 77 no mundo da oralidade...................................... 78 aproveite para….................................................. 79 capítulo 2 – modernismo no brasil – poesia e prosa da primeira geração........ 80 antes de ler......................................................... 80 texto 1 – madrigal melancólico, manuel bandeira.... 83 texto 2 – madrigal tão engraçadinho, manuel bandeira................................. 85 texto 3 – relicário, oswald de andrade............... 86 texto 4 – paisagem n o 1, mário de andrade......... 87 para entender o modernismo em seu primeiro momento...................................... 88 contexto histórico e social................................ 88 a semana de arte moderna............................... 90 características do modernismo – primeiro momento.......................................... 90 principais autores............................................. 91 mário de andrade, oswald de andrade, manuel bandeira, alcântara machado.......... 91 comparando textos............................................ 100 e por falar em modernismo…........................... 101 no mundo da oralidade..................................... 102 aproveite para…................................................ 102 capítulo 3 – modernismo no brasil – poesia da segunda geração (1930-1945).................. 104 antes de ler....................................................... 104 texto 1 – o sobrevivente, carlos drummond de andrade......................................... 106 texto 2 – os ombros suportam o mundo, carlos drummond de andrade.......... 108 texto 3 – invenção de orfeu, jorge de lima......... 110 para entender a poesia da segunda geração do modernismo................................... 111 contexto histórico........................................... 112 características da poesia da segunda geração do modernismo................................. 113 principais autores............................................ 113 carlos drummond de andrade, cecília meireles, jorge de lima, murilo mendes, vinícius de moraes............. 113 comparando textos............................................ 125 e por falar em segunda geração modernista…..... 127 no mundo da oralidade..................................... 128 aproveite para…................................................ 129 unidade 3 – outra voz: a voz do outro.... 130 capítulo 1 – a carta argumentativa............. 131 antes de ler....................................................... 131 texto 1 – carta aberta de artistas brasileiros sobre a devastação da amazônia....... 132 texto 2 – um país que dança na chuva, revista veja......................................... 135 conhecimentos linguísticos............................... 137 conjunções, locuções conjuntivas e relações de sentido...................................... 137 ortografia e outras questões.............................. 141 sumário vpem_vol.3_iniciais_003a005.indd  4 4/15/10  2:17:45 pm</Page><Page Number="7">5 produção de texto.............................................. 142 carta argumentativa....................................... 142 e por falar em cartas…...................................... 156 aproveite para…................................................ 157 capítulo 2 – prosa modernista – geração de 1930......................... 158 antes de ler....................................................... 158 texto 1 – o quinze, raquel de queirós............... 160 texto 2 – vidas secas (o soldado amarelo), graciliano ramos............................... 162 texto 3 – o navio (capítulo 6), jorge amado....... 166 para entender a prosa da década de 1930.......... 168 características da prosa brasileira de 1930............ 170 principais autores............................................ 171 graciliano ramos, josé lins do rego, raquel de queirós, jorge amado, érico veríssimo........ 171 comparando textos............................................ 177 tipos de discurso............................................. 177 e por falar em regionalismo….......................... 180 no mundo da oralidade..................................... 181 aproveite para…................................................ 182 unidade 4 – do cotidiano ao extraordinário.................... 183 capítulo 1 – a crônica.................................... 184 antes de ler....................................................... 184 texto 1 – sobre o amor, desamor, rubem braga...................................... 185 texto 2 – o amor acaba, paulo mendes campos....................... 187 conhecimentos linguísticos............................... 189 parágrafo........................................................ 189 ortografia e outras questões.............................. 197 produção de texto.............................................. 198 crônica........................................................... 198 e por falar em crônica….................................... 202 no mundo da oralidade..................................... 202 aproveite para…................................................ 203 capítulo 2 – geração de 1945 – poesia e prosa............................ 204 antes de ler....................................................... 204 texto 1 – morte e vida severina, joão cabral de melo neto................... 205 texto 2 – grande sertão: veredas, joão guimarães rosa.......................... 209 no mundo da oralidade..................................... 210 texto 3 – uma história de tanto amor, clarice lispector................................. 211 para entender a geração de 1945........................ 214 contexto histórico........................................... 215 características da literatura da geração de 1945... 217 principais autores............................................ 218 joão cabral de melo neto, guimarães rosa, clarice lispector.............. 218 comparando textos............................................ 225 e por falar em gerações de novos escritores….... 227 no mundo da oralidade..................................... 227 seminário....................................................... 227 aproveite para…................................................ 228 unidade 5 – pontos de vista................... 230 capítulo 1 – o artigo de opinião................... 231 antes de ler....................................................... 231 texto 1 – falsos estágios, cláudio de moura castro.................... 232 texto 2 – jeitos novos, anna veronica mautner..... 234 conhecimentos linguísticos............................... 237 concordância (nominal e verbal)...................... 237 no mundo da oralidade..................................... 241 produção de texto.............................................. 244 artigo de opinião............................................. 244 e por falar em opiniões….................................. 247 aproveite para…................................................ 249 capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea – poesia.......... 250 antes de ler....................................................... 250 texto 1 – homem comum, ferreira gullar............ 251 texto 2 – torneio, armando freitas filho........... 253 texto 3 – poema, arnaldo antunes................... 254 para entender a literatura brasileira contemporânea................................. 255 contexto histórico........................................... 256 marcantes manifestações artísticas do período..... 258 principais características................................. 260 comparando textos............................................ 269 e por falar em poesia contemporânea….......... 270 aproveite para…................................................ 272 unidade 6 – temas e cenas................... 273 capítulo 1 – a dissertação............................. 274 antes de ler....................................................... 274 texto – divina dádiva, www.fuvest.br/ vest2007/bestred/bestred.stm............... 274 produção de texto.............................................. 279 o texto dissertativo......................................... 279 e por falar em dissertação…............................. 291 aproveite para…................................................ 294 capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea – prosa........... 295 antes de ler....................................................... 295 texto 1 – tio galileu, dalton trevisan................ 295 texto 2 – varandas da eva, milton hatoum........ 299 para entender a prosa brasileira contemporânea.... 303 características da prosa contemporânea........... 303 autores da prosa contemporânea em língua portuguesa.................................... 304 cristovão tezza, ricardo ramos, moacyr scliar, luiz garcia-rosa, fernando bonassi, rubem braga, fernando sabino, marina colasanti, patrícia melo, dalton trevisan, milton hatoum, ignácio de loyola brandão, josé saramago, antónio lobo antunes, mia couto, josé luandino vieira................................... 304 comparando textos............................................ 323 e por falar em literatura contemporânea…...... 324 no mundo da oralidade..................................... 324 aproveite para…................................................ 325 projeto – revista........................................ 326 bibliografia......................................................... 328 vpem_vol.3_iniciais_003a005.indd  5 4/15/10  2:17:45 pm</Page><Page Number="8">6 projeto revista a o longo deste ano, você e seus colegas vão criar uma revista em que serão publicados os textos produzidos: resenha crítica (unidade 1), entrevista (unidade 2), carta argumentati-va (unidade 3), crônica (unidade 4), artigo de opinião (unidade 5) e dissertação (unidade 6). outros textos estudados nos anos anteriores poderão entrar também, se quiserem, mas pri-meiro é preciso definir uma série de questões gerais sobre a publicação de vocês. forme um grupo com alguns colegas e comecem a discutir que revista será essa. o projeto editorial com a equipe reunida, decidam qual será o público-alvo da revista, que seções essa publi-cação vai apresentar e se a linguagem será mais formal ou mais informal. propomos a seguir um pequeno roteiro que pode ajudá-los a definir a publicação a ser criada e o projeto editorial adequado para ela. registrem suas decisões no caderno. lembrem-se de que provavelmente já há revistas destinadas ao mesmo público escolhido por vocês, por isso observem diversas revistas para ter uma ideia de como são essas publicações. prof.(a), antes de iniciar o trabalho da primeira unidade, leia com os alunos estas primeiras orientações para o projeto a ser concretizado no final do ano. neste momento, você já pode dividir a classe em equipes. explique aos alunos que, como o projeto reunirá trabalhos realizados ao longo do ano, eles devem guardar o resultado das produções de autoria de todas as unidades. esses textos entrarão na revista proposta neste projeto. caso a escola ofereça condições, você poderá optar pela publicação dos textos na internet, numa revista eletrônica. veja aqui algumas capas de revistas destinadas a diferentes leitores. a revista de vocês tem algo a ver com alguma delas? da esquerda para a direita, de cima para baixo: capricho, 14 fev. 2010; gloss, jan. 2009; istoé, 13 jan. 2010; superinteressante, mar. 2010; elle, fev. 2009; recreio, 4 mar. 2010; língua portuguesa, fev. 2009; quatro rodas, jan. 2010; educação, mar., 2010; gadgets info, fev. 2010. observem diversas revistas para ter uma ideia de como são essas publicações. veja aqui algumas capas de revistas destinadas a diferentes leitores. a revista de vocês tem algo a ver com alguma delas? da esquerda para revista recreio/editora abril revista capricho/editora abril revista quatro rodas/editora abril revista gloss/editora abril revista isto é/editora três revista educação/editora segmento revista elle/editora abril revista superinteressante/editora abril revista gadgets info/editora abril revista língua portuguesa/editora segmento vpem_vol.3_proj.abertura_006a007.indd  6 4/15/10  2:19:02 pm</Page><Page Number="9">7 roteiro que tipo de revista vocês querem editar? quem  serão os leitores? a escolha do tipo de revista está ligada à esco-lha do público-alvo. qual é esse público a quem vai interessar a revista? os colegas das outras turmas? colegas de outro ano da escola? só os garotos? só as garotas? seus pais e familiares? que assuntos em geral a revista vai abordar?  agora que vocês definiram de que tipo será a revista e qual seu público-alvo, decidam os assuntos a serem tratados nela. a maneira mais eficiente de descobrir os assuntos preferidos do público a que ela se destina é fazer uma pesquisa. depois de entrevistarem as pessoas, reúnam-se novamente e verifiquem se o que haviam planejado trabalhar na revista parece interessar realmente a esse público, se vale a pena mudar alguma seção ou algum tipo de enfoque. na medida do possível, criem uma revista ino­ vadora, que traga informações diferenciadas e voltadas às expectativas do público-alvo, que apre­ sente diversos movimentos culturais, trate do com-portamento juvenil em suas várias manifestações, reflita sobre o impacto da política e da economia na vida dos jovens, etc. qual será o nome da revista?  o nome da revista deve refletir o tipo de assun­to sobre o qual ela fala, seus leitores, sua linguagem, etc. além disso, precisa ser atraente e original, para despertar no leitor o desejo de folheá-la, de ler suas matérias. que seções a revista terá?  este ano vocês vão estudar e produzir artigos de opinião, crônicas, resenhas, cartas argumen-tativas e entrevistas. portanto, a revista obrigatoriamente deverá ter uma seção para cada um desses gêneros. para tornar a publicação bem atraente, no entanto, é interessante criar seções de outros gêneros textuais, como quadrinhos, curiosidades, dicas culturais, letras de música, poemas, repor-tagens, etc. nesse caso vocês terão de elaborar esses textos especialmente para a revista. sugerimos que, definido o público da re­vista, o gru­po selecione pelo menos vinte participantes desse grupo de pessoas e peça a eles que respondam ao questionário a seguir. fiquem à vontade para adaptar as perguntas ou criar outras, de acordo com o que considerarem mais importante para descobrir do que eles gostam e, assim, o que a revista precisa contemplar. 1. o que você costuma fazer nas horas vagas? 2. que lugares você frequenta, além da escola? 3. o que você gosta de ler? 4. você costuma ler revista? por quê? 5. se você lê revista, que tipo de revista prefere:  de moda; de esporte; de assuntos gerais; de educação; de música; de cinema; de informática; outra: ? 6. que tipo de assunto você gostaria que as revistas abordassem? vpem_vol.3_proj.abertura_006a007.indd  7 4/15/10  2:19:02 pm</Page><Page Number="10">unidade 1 um olhar crítico nesta unidade, você vai estudar o gênero resenha crítica e o período literário marcado pelas inovações artísticas das vanguardas europeias. verá que o olhar crítico sobre o que há no mundo caracterizará o estudo dos dois capítulos. trois femmes, óleo sobre tela de pablo picasso, 1908. nesta tela, picasso retrata a figura feminina de maneira inusitada. as formas naturalmente arredondadas dão lugar a figuras geométricas perfeitamente trabalhadas. há nos quadros de picasso nesta época, como em outros artistas cubistas, forte influência das esculturas africanas. 8 pablo picasso/foto: álbum/akg-images/latinstock vpem3_un1_cap01_006a031.indd  8 4/15/10  2:23:38 pm</Page><Page Number="11">1 capítulo a resenha crítica 9 antes de ler todos os dias são lançados diversos objetos culturais (livros, cds, shows, filmes, eventos culturais, etc.) para nossa reflexão e diversão. ao ler um jornal, uma revista, assistir à tv, entramos em contato com eles e formamos uma opinião. se bem fundamentadas e divulgadas, essas opiniões podem influenciar outras pessoas e levá-las a interessar-se ou não pelo objeto em questão. leia a seguir uma apreciação de objetos culturais e de entretenimento publicada na coluna “5 luxos e  1 lixo”, da revista superinteressante. em seguida, eleja um objeto cultural que esteja acostumado a con-sumir — podem ser filmes de determinado gênero, séries de tv, cds de algum estilo de música, histó-rias em quadrinhos, programas de rádio, livros, novelas, programas de humor, etc. o importante é que você seja um bom conhecedor do gênero escolhido e tenha uma opinião formada sobre as produções dessa categoria. depois, é só fazer sua lista de cinco luxos e um lixo e apresentar para seus colegas. prof.(a), escolha alguns alunos para a apresentação oral de sua lista. peça aos demais que colem seus trabalhos no painel da classe. prof.(a), o objetivo principal desta atividade é despertar o aluno para as razões que o levam a apreciar ou não determinado produto de arte ou de entretenimento. ao analisar os próprios argumentos, o aluno terá condições de verificar que, por trás de uma resenha crítica, há a situação de produção do texto, que são os conhecimentos do crítico do produto resenhado, sua profissão, suas experiências de vida, seu gosto pessoal. revista superinteressante/ arquivo da editora revista superinteressante, jul. 2007. hurtmold banda de vanguarda brasileira, alternativa, underground, instrumental, pós-rock  e infuenciada por tudo, desde miles davis até lee perry e tortoise. um verdadeiro caldeirão musical. vilania essa banda de sorocaba faz um pop rock que promete agradar muito. a demo deles orna ou desorna (produzida pelo eduardo) tem muita coisa boa. até um cover de jardim elétrico, dos mutantes. the strokes das “novas” bandas a surgirem no cenário rock dos anos 2000, essa foi a primeira e,  talvez, a mais interessante, por todo o conjunto. purismo com abrangência pop… sahara hotnights banda sueca que, apesar de ser apenas de garotas, não tem isso como diferencial. garage rock, power pop e punk rock de qualidade tipo a. iggy pop &amp; the stooges força bruta. esse é um luxo que não pode faltar. infuenciou e continua infuenciando todo o rock. fall out boy… … e toda corja teen emo que existe hoje em dia, que fca chorando e fazendo pose na internet em vez de ser um adolescente  normal e sair errando de verdade por aí. débora falabella	 texto rafael tonon a atriz é fã do bom e velho rock’n’ roll. casada com eduardo hipolitho (mais conhecido como chuck), o vocalista da banda forgotten boys, débora está sempre de ouvido atento às novidades. ela indica 5 bandas para adorar o rock – e uma que deve ser banida desse estilo. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  9 4/15/10  2:23:40 pm</Page><Page Number="12">10  unidade 1 texto 1 a seguir, apresentamos um exemplo do gênero de texto próprio para comentar um objeto cultu-ral. com base nele, o leitor pode se informar e decidir se deseja ou não conhecer o objeto, reforçar a opinião que tem sobre ele ou aproveitar os argumentos apresentados no texto para rever seus critérios de apreciação. crítica ao mundo dos trouxas exímia contadora de histórias, rowling enreda o leitor e nutre sua imaginação com situações e personagens extraídos do “real”, o nosso cotidiano. lia zatz e maria da  graça mendes de abreu é possível que, desde 1997, ano de lançamento do primeiro volume de harry potter, o estrondoso sucesso da série seja responsável pela produção de mais pala-vras contra ou a favor do que a dos cada vez mais volumosos livros da coleção publicados até agora. para quem não leu nenhum dos livros: trata-se da saga do menino harry potter, desde o momento em que descobre ser bruxo, ao completar 11 anos de idade, quando é convidado a ingressar na escola de magia e bruxaria hogwarts, até com-pletar seus estudos nessa escola. o sucesso é atribuído principalmente a uma bilionária campanha de marketing. no entanto, se nos limitamos a esse argumento, estamos subestimando a inteli-gência desta sociedade centrada no valor, pois que capitalista investiria tão pesado em algo em que não vê qualidade alguma? é necessário, portanto, analisar detidamente as características da própria obra se não quisermos reduzir o debate. cena do filme harry potter – o prisioneiro de azkaban, dirigido por alfonso cuarón, em 2004. trata-se de filmagem baseada em um dos volumes da série harry potter. warner bros/divulgação/arquivo da editora vpem3_un1_cap01_006a031.indd  10 4/15/10  2:23:41 pm</Page><Page Number="13">capítulo 1 – a resenha crítica  11 uma das críticas que se faz à autora é a de que, usando em seus livros uma fórmula similar à dos programas de tv, filmes e jogos de computador, que tanto agradam a crianças e jovens, ela estaria sendo oportunista. são, é verdade, livros de aventura, ágeis e rápidos, com muita ação. e a autora é oportunista sim. mas não no sentido pejorativo da palavra, de mera adequação às expectativas do consumidor e do mercado. ela tem um ótimo senso de oportunidade: conhece os múltiplos meios de comunicação e as linguagens da atualidade e consegue atender à necessidade de uma literatura antenada com seu tempo, que agrada ao leitor de hoje. outra crítica é a de que é fácil fazer sucesso quando se reúnem ingredientes como magia, suspense, mistério, aventura, orfandade etc. cabe então perguntar por que os muitos livros que os exploram não obtêm igual êxito. sem nos atermos ao argumento do investimento de marketing, que, sem dúvidas, também é respon-sável pelas cifras astronômicas obtidas com as vendas dos livros, acreditamos ser necessário destacar os elementos fundamentais que diferenciam os livros de harry potter. quem se der ao trabalho de ler, nem que seja apenas um volume da série, comparando-o com qualquer dos outros livros que abarrotam as livrarias tentando aproveitar a onda de sucesso poderá constatar enormes diferenças, que vão desde a inventabilidade da trama, que alia aventura e desafios incessantes à agilidade narrativa e ao uso criativo da linguagem, passando pela construção precisa e cui-dadosa das personagens, até a riqueza dos mundos criados — com uma descrição primorosa de cenários e de seres. mas é puro plágio, dizem indignados os fãs do autor, também inglês, neil gaiman, que publicou em quadrinhos os livros da magia, a partir do início da déca-da de 1990. nestes o herói é um menino de 13 anos, órfão de mãe, de cabelo escuro e óculos, que descobre ser bruxo. as semelhanças param por aí. o próprio gaiman diz que tanto ele como rowling beberam na mesma fonte e se inspiraram na rica literatura mágica inglesa e não considera plágio a obra de sua colega. pode não ser plágio, dizem outros, mas é literatura menor, se é que se pode chamar de literatura. há os que simplesmente consideram um lixo o que rowling escreve, dentre os quais se inclui o prestigiado crítico literário harold bloom. […] de qualquer forma, concordam todos que se trata de um produto efêmero, obra destinada a ser esquecida, a sumir na poeira dos tempos, leitura fácil, que não exige do leitor e da qual nada se retém. mas, afinal, qual a função da boa literatura? segundo o próprio bloom, ela fun-ciona como um espelho no qual o leitor se mira e acaba encontrando a si próprio. concordamos. essa identificação se faz a partir do distanciamento criado pelo fic-tício e pelo outro, permitindo descobrir e compreender melhor o sentido da própria existência. e isso a série faz: à semelhança do que ocorre na leitura dos chamados clássicos, possibilita que os leitores descubram na obra pessoas ou situações que, de alguma forma, iluminam sua vida. dos milhões de compradores de harry potter, certamente muitos não o leram e não o lerão. são apenas presas do consumismo e do modismo que nos atinge a todos, uns mais, outros menos. e entre os leitores, que também são muitos, há os que leram só por curiosidade e entretenimento e aqueles para quem, além disso, a vpem3_un1_cap01_006a031.indd  11 4/15/10  2:23:41 pm</Page><Page Number="14">12  unidade 1 obra foi significativa e os marcou. deixaram-se envolver pela aventura da leitura, carregar-se para mundos paralelos, contagiar-se e apaixonar-se de tal forma que esse envolvimento afetivo só pôde contribuir para lhes propiciar uma vivência enriquecedora e para criarem e articularem repertórios de leitura e ganharem maturidade intelectual, que os tornarão melhores leitores. a necessidade de alimentar o mundo imaginário é antiga, como prova o eterno sucesso dos contos de fadas, de tantos outros livros de magia e de mundos fantás-ticos […]. seguidora dessa tradição, rowling soube criar uma literatura que não só diverte e encanta, o que já seria suficiente. exímia contadora de histórias, ela enre-da o leitor e nutre sua imaginação não só com personagens e cenários do mundo da magia, mas também com situações e personagens do mundo dos trouxas (o nosso), mundos que, com humor e sagacidade, critica. por que tantas crianças, jovens e adultos se identificam tanto com harry potter? […] é um herói/menino em formação, que se vai construindo gradativamente na sequência dos livros e se defronta constantemente com situações novas e obstácu-los a desafiá-lo a buscar criativamente as soluções. e histórias de heróis atraem a humanidade desde sempre. ao contrário do que dizem alguns dos seus críticos, rowling não repete modelos, mas sim dialoga com a tradição, se apropria de textos e homenageia criativamente autores que consti-tuem seu universo de referência. […] quer se queira ou não, harry potter está cumprindo um papel nesta realidade árida que estamos vivendo. e se for só isso, para que querer saber se vai se pere-nizar, virando um clássico para gerações futuras? parabéns para o que está cum-prindo aqui e agora. […] a autora de harry potter está ganhando rios de dinheiro com o que faz, o que não implica negar-lhe valor literário, nem exigir dela a genialidade dos con-siderados grandes clássicos da literatura mundial. é preciso ter a coragem de aceitar e dizer que muitos autores gostariam de estar em seu lugar, sendo lidos e apreciados por milhões de leitores do mundo inteiro, este o verdadeiro sonho de qualquer escritor. revista cult, abr. 2005. interpretação do texto 1	antes de comentar a obra resenhada, é necessário que os autores da resenha apresentem, ainda que de maneira breve, a obra e o ponto de vista adotado. os dois primeiros parágrafos da resenha lida apresentam claramente esses dois elementos. identifique: a)	a apresentação da obra; b)	o ponto de vista adotado pelas autoras para comentar a obra. 2	a resenha “crítica ao mundo dos trouxas” deprecia ou valoriza as histórias da série de harry potter? justifique sua resposta com trechos do texto. prof.(a), depois do texto lido, comente com os alunos o título do artigo, “crítica ao mundo dos trouxas”, que antecipa a opinião das autoras sobre harry potter, lembrando que trouxas, na série, são os não bruxos, e que com essa palavra as autoras da matéria podem estar se referindo aos críticos a rowling também, trouxas por não participarem da magia da série, já que no texto zatz e abreu criticam os que não gostam de harry potter. prof.(a), as questões a seguir pretendem desenvolver, sobretudo, a habilidade de síntese dos alunos. 	 “trata-se da saga do menino harry potter, desde o momento em que descobre ser bruxo, ao completar 11 anos de idade, quando é convidado a ingressar na escola de magia e bruxaria hogwarts, até completar seus estudos nessa escola.” elas informam que pretendem ”analisar detidamente as características da própria obra”. 	 valoriza. possibilidades de exemplo: “rowling não repete modelos, mas sim dia-loga com a tradição…”; “quer se queira ou não, harry potter está cumprindo um papel nesta realidade árida que estamos vivendo”. atenção: não escreva no livro. faça as atividades no caderno. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  12 4/15/10  2:23:41 pm</Page><Page Number="15">capítulo 1 – a resenha crítica  13 3	para defender essa posição, as autoras do texto relacionam alguns dos argumentos mais correntes contrários à obra e apresentam contra-argumentos que comprovam a importância dos livros. copie o quadro no caderno e, para cada argumento, escreva o contra-argumento apresentado. argumentos — crítica à obra contra-argumentos — defesa da obra o sucesso ocorreu graças a uma bilionária campanha de marketing. “… se nos limitamos a esse argumento, estamos subestimando a inteligência desta sociedade centrada no valor, pois que capitalista investiria tão pesado em algo em que não vê qualidade alguma?” a autora usou uma fórmula similar à dos programas de tv, filmes e jogos de computador, além de ser oportunista. “ela tem um ótimo senso de oportunidade: conhece os múltiplos meios de comunicação e as linguagens da atualidade e consegue atender à necessi-dade de uma literatura antenada com seu tempo, que agrada ao leitor de hoje.” é fácil fazer sucesso quando se reúnem ingredientes como magia, suspense, mistério, aventura e orfandade. se é assim tão fácil, por que os muitos livros que exploram esses ingredien-tes não obtêm igual êxito? é puro plágio dos quadrinhos intitulados o livro da magia, do autor inglês neil gaiman. o próprio gaiman não considera plágio a obra de sua colega e afirma que ambos se inspiraram na rica literatura mágica inglesa. é literatura menor. trata-se de um produto efêmero, obra destinada a ser esquecida. 4	as autoras da resenha destacam o fato de vários críticos não gostarem da obra e, em lugar de refor-çar as críticas já comentadas, buscam razões para o sucesso da série. segundo elas, por que diversas crianças, jovens e adultos se identificam tanto com harry potter? 5	alguns trechos da resenha trazem informações implícitas — ideias que não estão claramente expres-sas, mas que podem ser deduzidas do conteúdo do texto. a partir de cada trecho da citação a seguir, quais das afirmações de 1 a 6 podem ser deduzidas? estabeleça a relação entre cada texto e a possível dedução a que ele leva e escreva a resposta no caderno. trechos da resenha possíveis deduções a. “a autora de harry potter está ganhando rios de dinheiro com o que faz, o que não implica negar-lhe valor literário, nem exigir dela a genialidade dos considerados grandes clássicos da literatura mundial.” 4, 5 b. “é preciso ter a coragem de aceitar e dizer que muitos autores gostariam de estar em seu lugar, sendo lidos e apreciados por milhões de leitores do mundo inteiro […].” 6 c. “harry potter está cumprindo um papel nesta realidade árida que estamos vivendo. e se for só isso, para que querer saber se vai se perenizar, virando um clássico para gerações futuras? parabéns para o que está cumprindo aqui e agora.” 3 d. “e entre os leitores, que também são muitos, há os que leram só por curiosidade e entretenimento e aqueles para quem, além disso, a obra foi significativa e os marcou.” 2 e. “dos milhões de compradores de harry potter, certamente muitos não o leram e não o lerão. são apenas presas do consumismo e do modismo que nos atinge a todos, uns mais, outros menos.” 1 1. certamente o marketing colaborou para o sucesso de vendas do livro. 2. nem todos os leitores de harry potter vão se tornar leitores melhores e mais maduros ou potenciais leitores de clássicos. 3. apesar de todos os argumentos apresentados, as autoras não se asseguram de que harry potter seja um clássico. 4. normalmente obras que vendem muito, que fazem muito sucesso, que são muito lidas não têm grande qualidade literária. 5. apenas grandes clássicos da literatura poderiam ter o direito de fazer tanto sucesso. apenas as grandes obras deveriam ganhar rios de dinheiro. 6. muitos escritores que criticam os livros da série harry potter talvez não admitam que gostariam de estar no lugar de rowling, a autora da obra. 6	na sua opinião, existe relação entre a profissão das autoras da resenha e a defesa que elas fazem da série harry potter? justifique sua resposta. segundo as autoras, harry potter, como as personagens de ficção universais e clássicas, não deixa de fazer interpretações de dilemas e crises que caracteri-zam o ser humano. é uma personagem que se defronta constantemente com situações novas e obstáculos que o desafiam a buscar soluções criativas para cada caso. além disso, há o fato de histórias de heróis atraírem a humanidade desde sempre. segundo as autoras, ao ler harry potter, à semelhança do que ocorre na leitura dos chamados clássicos, os leitores descobrem na obra pessoas ou situações que, de alguma forma, iluminam sua vida. além disso, mesmo que não se imortalize, tornando-se um clássico para as gerações futuras, a obra deve ser valorizada pelo que cumpre aqui e agora. prof.(a), destaque o fato de o texto ter como autoras uma escritora e uma educadora, especialistas em literatura infantil e juvenil. ao ser feita por quem também escreve, a crítica pode implicar uma situação especial, em que o produtor do texto é capaz de se colocar no lugar do outro e reconhecer as dificuldades de se fazer uma história envolvente, com diversas referências à cultura literária em questão. uma especialista em literatura infantil e juvenil, por exemplo, conhece diversas obras voltadas para o público interessado em literatura mágica e, talvez, seja capaz de identificar mais facilmente as qualidades de um livro que realmente agrada. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  13 4/15/10  2:23:42 pm</Page><Page Number="16">14  unidade 1 desenvolvendo habilidades leitoras por meio das questões propostas, você: identificou o ponto de vista usado na produção de uma resenha crítica sobre a série  harry potter; verificou os argumentos desfavoráveis à série e identificou os contra-argumentos construídos  pelas autoras da resenha; desenvolveu sua habilidade de síntese;  identificou algumas informações implícitas presentes no texto;  buscou relação entre o ponto de vista adotado e uma das situações de produção da resenha  (a profissão das autoras). texto 2 leia a seguir a resenha de um filme polêmico e que foi sucesso de bilheteria. preste atenção às infor-mações implícitas do texto. herói de uniforme no cinema brasileiro os policiais costumam ser vilões. em tropa de elite, o diretor josé padilha aborda o tema da violência urbana pelo ponto de vista de um policial honesto. 	 elisa tozzi na primeira sequência, a câmera corre vertiginosa de um ângulo para o outro. a imagem muda rapidamente da polícia para os traficantes. sensação de filme já visto, mais um sobre a violência das favelas no rio de janeiro. tropa de elite seria uma produção comum se seu foco não fosse inusitado no cinema nacional, que tende a retratar de forma desfavorável os policiais, de lúcio flávio, o passageiro da agonia (1977) a carandiru (2003). desta vez quem conta a história é a polícia, que aparece no filme como sendo violenta, mas honesta. cena do filme tropa de elite, de josé padilha, 2007. paramount pictures/divulgação/arquivo da editora vpem3_un1_cap01_006a031.indd  14 4/15/10  2:23:44 pm</Page><Page Number="17">capítulo 1 – a resenha crítica  15 o filme é baseado em depoimentos colhidos pelo diretor josé padilha com pms colaboradores do documentário ônibus 174, e do livro elite da tropa, do sociólogo luiz eduardo soares e do ex-capitão do bope, interpretado por wagner moura. tornou-se um sucesso antes da estreia. estima-se que 1,5 milhão de pessoas tenham assistido à versão pirata do filme. […] preceitos éticos a história do filme se passa meses antes da chegada do papa joão paulo 2º- ao brasil, em 1997, quando nascimento tem de deixar o bope. a dúvida sobre seu sucessor se divide entre o impulsivo neto (caio junqueira) e o ponderado matias (andré ramiro) que, recém-chegados à pm, defendem os preceitos éticos. nascimento reprova firmemente a corrupção policial e despreza profunda-mente os traficantes do morro. mas a grande vilã do filme é a classe média “bem- -intencionada” que administra ongs em favelas, retratada ambiguamente como a financiadora oficial do tráfico. até a torcida do flamengo se rendeu ao charme do capitão nascimento. em setembro, durante uma partida contra o sport recife, no maracanã, os torcedores gritavam para que o técnico joel santana deixasse o time usando uma das frases do personagem: “pede desligamento, 01”. o bordão é repetido várias vezes no filme para que o policial corrupto fábio (milhem cortaz) desista do treinamento do bope. […] o sucesso de tropa de elite mostra como policiais honestos podem, sim, ser heróis no cinema brasileiro — ainda que eles continuem violentos, esfregando o rosto de estudantes viciados no sangue de traficantes mortos. revista bravo!, out. 2007. interpretação do texto 1 segundo elisa tozzi, esse filme apresenta um policial visto de uma perspectiva favorável, ao contrário do que ocorre nas demais produções brasileiras. 	segundo a autora da resenha, por que tropa de elite não é uma produção comum no cinema nacional? 2	as resenhas em geral contam com uma apresentação breve da obra comentada. identifique na apre-sentação do texto “herói de uniforme” os dados que confirmam a opinião da autora: a de que tropa de elite não é uma produção comum no cinema nacional. 3	na resenha em estudo, a autora destaca informações que não fazem parte do conteúdo do filme, mas que podem incentivar o leitor a vê-lo. identifique essas informações. 4	releia os trechos a seguir. analise-os e depois responda, no caderno, ao que se pede. desta vez quem conta a história é a polícia, que aparece no filme como sendo  violenta, mas honesta. o sucesso de  tropa de elite mostra como policiais honestos podem, sim, ser heróis no cinema brasileiro — ainda que eles continuem violentos, esfregando o rosto de estudantes viciados no sangue de traficantes mortos. 	 o policial que pretende deixar o bope precisa esco-lher um sucessor e está em dúvida entre dois recém-chegados que defendem os preceitos éticos. esse mesmo policial reprova firmemente a corrupção policial e despreza os traficantes do morro. 	 “tornou-se um sucesso antes da estreia. estima- -se que 1,5 milhão de pessoas tenham assistido à versão pirata do filme.” “até a torcida do flamengo se rendeu ao charme do capitão nascimento.” vpem3_un1_cap01_006a031.indd  15 4/15/10  2:23:44 pm</Page><Page Number="18">16  unidade 1 honestidade e violência são dois elementos destacados pela autora da resenha. a organização sintática das frases permite concluir que apenas um desses aspectos é valorizado. a) qual? a honestidade. b) há, no entanto, no segundo trecho, uma informação implícita que pode nos levar a uma conclusão nada agradável. qual? escreva a resposta certa no caderno. policiais corruptos jamais serão heróis do cinema brasileiro.   policiais corruptos são menos violentos que os policiais honestos.  a violência retira todo o valor da honestidade.  a violência pode ser tolerada se ela vier acompanhada de uma ação motivada pela honestidade.   x na época de sua estreia, o filme tropa de elite suscitou diversas discussões. por exemplo, o articulista arnaldo bloch publicou um artigo de opinião no jornal o globo em que o próprio título traz uma pergunta: “tropa de elite é fascista?”. o ator wagner moura, que representou a personagem principal do filme, o capitão nascimento, respondeu a essa crítica. leia o texto de moura: escrevo instigado pelo bom texto do arnaldo bloch sobre a sessão de estreia de tropa de elite. e respondo categórico à sua pergunta: não, tropa de elite não é fascista. não é possível que alguém que tenha visto ônibus 174, um dos filmes mais humanistas dos últimos tempos, possa achar que o zé padilha (o diretor) tenha feito um filme fascista. mas também fico preocupado quando vejo o capitão nascimento ser tratado como herói. fico pensando como reagiria ao filme uma plateia sueca. não creio que pensariam naqueles policiais torturadores como heróis, assim como muita gente que vê o filme aqui também não pensa. talvez os suecos não precisem de heróis. talvez, aí sim uma tragédia, fascistas estejamos nos tornando nós, brasileiros, cidadãos carentes de uma política de segurança pública qualquer, que vemos naqueles policiais honestos, bem treinados, mas desrespeitadores dos direitos humanos mais elementares, a solução para o caos em que estamos metidos. compartilhei contigo, arnaldo, a vontade de vomitar o pastel de cordeiro no odeon. mas, na minha opinião, tropa de elite contribui com o mais importante em épocas de crise: o debate (inimigo do fascismo). o filme traz um ponto de vista fundamental para se entender e discutir segurança pública, o olhar do policial. eu, particularmente, discordo do capitão nascimento em quase tudo, mas não posso deixar de ver a importância de entender seu pen-samento como fundamental para o debate sobre violência no brasil, já que é ele, assim como os traficantes e os moradores de favela, quem vive diretamente essa guerra particular, como nos ensinou, não por acaso, o capitão rodrigo pimentel, roteirista do tropa de elite, no seminal notícias de uma guerra particular, de joão moreira salles. disponível em: http://oglobo.globo.com, de 25 set. 2007. acessado em 11 nov. 2007. 5 destaque do texto de wagner moura os trechos em que ele deixa clara a sua opinião sobre a forma como as pessoas interpretam a violência retratada no filme. “mas também fico preocupado quando vejo o capitão nascimento ser tratado como herói”; “talvez, aí sim uma tragédia, fascistas estejamos nos tornando nós, brasileiros, cidadãos carentes de uma política de segurança pública qualquer, que vemos naqueles policiais honestos, bem treinados, mas desrespeita-  dores dos direitos humanos mais elementares, a solução para o caos em que estamos metidos”. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  16 4/15/10  2:23:48 pm</Page><Page Number="19">capítulo 1 – a resenha crítica  17 conhecimentos linguísticos orações subordinadas adjetivas o pronome demonstrativo anafórico o para relembrar nos períodos compostos, as orações que desempenham a função de adjetivo são chamadas adje-tivas ou relativas. a ngb (nomenclatura gramatical brasileira) decidiu por chamá-las de orações adjetivas, mas é importante sabermos que o nome “orações relativas” tem sentido porque, em sua forma desenvol-vida, essas orações começam por um pronome relativo. as orações adjetivas classificam-se em: 1. restritivas — limitam o significado de um termo antecedente. por exemplo: mas a grande vilã do filme é a classe média “bem-intencionada” que administra ongs em favelas, retratada ambiguamente como a financiadora oficial do tráfico. 	 or. adjetiva restritiva 2. explicativas — ampliam o significado de um termo antecedente. geralmente, vêm separadas por vírgula ou por travessão. por exemplo: tropa de elite seria uma produção comum se seu foco não fosse inusitado no cinema nacional, que retrata de forma desfavorável os policiais. 	 or. adjetiva explicativa o pronome relativo que inicia a oração adjetiva se refere a um termo antecedente e faz parte da oração subordinada. os pronomes relativos são: que, quem, o qual, cujo (sempre com função adjetiva). pode-se empregar ainda como pronome relativo, quando se trata de espaço, o advérbio onde (em vez de em que, de que, no qual). as orações adjetivas podem se apresentar na forma reduzida: de gerúndio, infinitivo ou particípio. observe: encontramos policiais que carregavam armas pesadas. encontramos policiais carregando armas pesadas. 	 or. adj. reduzida de gerúndio encontramos policiais a carregar armas pesadas. 	 or. adj. reduzida de infinitivo prof.(a), chame a atenção do aluno para as orações adjetivas intercaladas. nos exemplos tirados do texto lido (atividade 1, página 18), é importante notar que a sequência da frase sem as orações intercaladas mostra de forma clara a crítica feita à obra de rowling, facilitando, assim, a compreensão da resenha. conforme você leu em “crítica ao mundo dos trouxas”, harold bloom é um dos críticos desfavoráveis à obra de rowling. mas não é o único. havendo tanta coisa já escrita (e por profissionais bem-conceituados), não é tarefa fácil escrever sobre a saga de harry potter. no caso da resenha que lemos, a solução das autoras foi apresentar as críticas e em seguida comentar cada uma delas. leia no boxe a seguir um comentário que o crítico harold bloom fez à obra de rowling e, depois, resolva as questões no caderno. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  17 4/15/10  2:23:48 pm</Page><Page Number="20">18  unidade 1 o norte-americano harold bloom, professor da universidade de yale, é um dos mais influentes críticos de literatura do mundo atual devido ao estudo completo que fez das obras de shakespeare, à defesa de valores literários clássicos, entre outras contribuições para os estudos literários. sobre harry potter ele publicou uma crítica, conforme observamos neste seu comentário: li apenas uma das obras dessa autora [j. k. rowling]. a linguagem é um horror. ninguém, por exemplo, “caminha” no livro. os personagens “vão esticar as pernas”, o que é obviamente um clichê. e o livro inteiro é assim, escrito com frases desgastadas, de segunda mão. escrevi uma resenha para o wall street journal falando mal de harry potter. a polêmica foi imediata. foram enviadas mais de 400 cartas me xingando de todos os nomes. a defesa de livros ruins como esses, que vem de todos os lados — dos pais, das crianças, da mídia —, é muito inquietante e nem um pouco saudável. revista veja, 31 jan. 2001. 1	às vezes, precisamos reorganizar um parágrafo para compreendermos com mais clareza as informa-ções contidas nele. nos dois parágrafos a seguir, retirados da resenha “crítica ao mundo dos trouxas”, destacamos as conjunções e os pronomes relativos e pintamos cada oração de uma cor para ajudá-lo a perceber com mais facilidade as orações que compõem os períodos: adjetivas, adverbiais, substantivas, reduzidas e principais. leia-os com atenção e faça o que se pede: uma das críticas que se faz à autora é a de que, usando em seus livros uma fórmula similar à dos programas de tv, filmes e jogos de computador, que tanto agradam a crianças e jovens, ela estaria sendo oportunista. outra crítica é a de que é fácil fazer sucesso quando se reúnem ingredientes como magia, suspense, mistério, aventura, orfandade etc. a)	identifique as orações adjetivas. b)	em cada um dos parágrafos, algumas orações podem ser deslocadas, ou retiradas, sem prejudicar a ideia principal. preste atenção à cor de cada oração e: identifique a(s) que pode(m) ser deslocada(s);  identifique a(s) que pode(m) ser retirada(s);  localize as adjetivas, que não podem ficar longe do termo a que elas se referem. depois, rees-  creva os parágrafos de acordo com o que você observou: deslocando as orações que podem ser deslocadas, retirando as que podem ser retiradas e transferindo para perto do antecedente as adjetivas que estão distantes dele. c)	reescreva o primeiro parágrafo do quadro acima. para isso, siga as instruções: inicie a oração principal com o termo ”uma das críticas”;  transforme a oração adjetiva “que se faz à autora” em oração reduzida de particípio e continue  a oração principal; escreva toda a oração substantiva, “de que ela estaria sendo oportunista”, fazendo as seguintes  alterações: conserve o sujeito, troque a locução verbal pelo verbo ser no presente do indicativo e mantenha o predicativo do sujeito; escreva a oração que indica causa, iniciando-a por uma conjunção;  finalmente, escreva a última oração adjetiva sem alterações.  d)	dê uma nova versão para o segundo parágrafo do quadro, transformando a oração adjetiva em um substantivo seguido de preposição. e)	escreva de forma resumida as críticas feitas a rowling. “que se faz à autora”; “que tanto agradam a crianças e jovens”; “de que é fácil”. uma das críticas que se faz à autora é a de que ela estaria sendo oportunista, usando em seus livros uma fórmula similar à dos programas de tv, filmes e jogos de computador. / outra crítica é a de que, quando se reúnem ingredientes como magia, suspense, mistério, aventura, orfandade etc., fazer sucesso é fácil. 	 uma das críticas feitas à autora é a de que ela é opor-tunista, porque usa em seus livros uma fórmula similar à dos programas de tv, filmes e jogos de computador, que tanto agradam a crianças e jovens. outra crítica é a facilidade de fazer sucesso quando se reúnem ingredientes como magia, suspense, mistério, aventura, orfandade etc. dizem que rowling é oportunista, porque usa em seus livros uma fórmula similar à dos programas de tv, aproveitando-se também de fórmulas antigas que reúnem mistério, magia, etc. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  18 4/15/10  2:23:48 pm</Page><Page Number="21">capítulo 1 – a resenha crítica  19 2	vamos ler agora as ponderações que as autoras da resenha fazem às críticas que já existem a rowling: argumento para a 1ª- crítica ela tem um ótimo senso de oportunidade: conhece os múltiplos meios de comunicação e as linguagens da atualidade e consegue atender à necessidade de uma literatura antenada com o seu tempo, que agrada ao leitor de hoje. argumento para a 2ª- crítica cabe então perguntar por que os muitos livros que os exploram não obtêm igual êxito. […] acreditamos ser necessário destacar os elementos fundamentais que dife-renciam os livros de harry potter. quem se der ao trabalho de ler, nem que seja apenas um volume da série, comparando-o com qualquer dos outros livros que abarrotam as livrarias tentando aproveitar a onda de sucesso poderá constatar enormes diferenças, que vão desde a inventabilidade da trama, que alia aventura e desafios incessantes à agilidade narrativa e ao uso criativo da linguagem […] a)	as orações destacadas são adjetivas introduzidas pelo pronome relativo que. 	 identifique a que termos cada pronome relativo se refere. b)	sabendo que esse pronome relativo pode ser substituído por o qual e suas flexões, reescreva os períodos no caderno fazendo a substituição e a concordância adequada. c)	nos períodos reescritos, a presença do pronome relativo o qual tornou o parágrafo enfadonho e repetitivo. a solução para esse problema é utilizar diferentes pronomes relativos, transformar algu-mas orações adjetivas em reduzidas de infinitivo, gerúndio ou particípio, ou substituir a oração por um adjetivo. elabore uma outra versão dos períodos levando em conta essas informações. muitas vezes as orações subordinadas adjetivas têm um pronome demonstrativo o (e suas flexões) que as antecede e retoma informações do texto. esse pronome pode ser substituído por aquele(s), aquela(s), aquilo. há pessoas que choram por tudo e há as que choram pouco. 	 oração subordinada	 oração subordinada 	 adjetiva restritiva	 adjetiva restritiva (restringe “pessoas”) 	 pronome demonstrativo observe que o pronome as retoma a palavra pessoas e é substituível por aquelas. assim teríamos: há pessoas que choram por tudo e há aquelas [pessoas] que choram pouco. prossiga nas atividades para saber mais sobre esse uso do pronome demonstrativo. 3	releia os trechos abaixo e responda às questões a seguir. há  os que simplesmente consideram um lixo o que rowling escreve, dentre os quais se inclui o prestigiado crítico literário harold bloom. […] e há os que acham que ela não faz nada de novo. e, entre os leitores, que também são muitos, há  os que leram só por curiosidade e entrete-nimento e aqueles para quem, além disso, a obra foi significativa e os marcou. 	 1º- argumento – que: refere-se a uma literatura antenada com o tempo. 2º- argumento – que: muitos livros; que: elementos fundamentais; que: qualquer dos outros livros; que: enormes diferenças; que: trama. uma possibilidade: “ela tem um ótimo senso de oportunidade: conhece os múltiplos meios de comunicação e as linguagens da atualidade e consegue atender à necessidade de uma literatura antenada com o seu tempo, agradando ao leitor de hoje”; “cabe então perguntar por que os muitos livros que os exploram não obtêm igual êxito”; “[…] acreditamos ser necessário destacar os elementos fundamentais diferenciadores dos livros de harry potter”; “quem se der ao trabalho de ler, nem que seja apenas um volume da série, comparando-o com qualquer dos outros livros que abarrotam as livrarias tentando aproveitar a onda de sucesso poderá constatar enormes diferenças, as quais vão desde a inventabilidade da trama, que alia aventura e desafios incessantes à agilidade narrativa e ao uso criativo da linguagem […]” “ela tem um ótimo senso de oportunidade: conhece os múltiplos meios de comunicação e as linguagens da atualidade e consegue atender à necessidade de uma literatura antenada com o seu tempo, a qual agrada ao leitor de hoje”; “cabe então perguntar por que os muitos livros os quais os exploram não obtêm igual êxito”; “[…] acreditamos ser necessário destacar os elementos fundamentais os quais diferenciam os livros de harry potter”; “quem se der ao trabalho de ler, nem que seja apenas um volume da série, comparando-o com qualquer dos outros livros os quais abarrotam as livrarias tentando aproveitar a onda de sucesso poderá constatar enormes diferenças, as quais vão desde a inventabilidade da trama, a qual alia aventura e desafios incessantes à agilidade narrativa e ao uso criativo da linguagem […]” vpem3_un1_cap01_006a031.indd  19 4/15/10  2:23:49 pm</Page><Page Number="22">20  unidade 1 a)	a quem os pronomes demonstrativos destacados no primeiro trecho se referem? se necessário volte ao texto da página 10. b)	diferentemente do primeiro trecho, o pronome demonstrativo os empregado no segundo trecho refere-se a um termo que está escrito no trecho, retomando-o. que termo é esse? leitores. c)	no segundo trecho há outro pronome demonstrativo que substitui esse mesmo termo. qual é ele? d)	identifique e escreva no caderno as orações adjetivas dos dois trechos. 4	identifique as orações subordinadas adjetivas nos períodos a seguir e escreva no caderno a classifi-cação delas. a)	dos milhões de compradores de harry potter, certamente muitos não o leram e não o lerão. são apenas presas do consumismo e do modismo que nos atinge a todos, uns mais, outros menos. b) de qualquer forma, concordam todos que se trata de um produto efêmero, obra destinada a ser esquecida, a sumir na poeira dos tempos, leitura fácil, que não exige do leitor e da qual nada se retém. c)	e isso a série faz: à semelhança do que ocorre na leitura dos chamados clássicos, possibilita que os leitores descubram na obra pessoas ou situações que, de alguma forma, iluminam sua vida. d)	deixaram-se envolver pela aventura da leitura, carregar-se paramundos paralelos, contagiar-se e apaixonar-se de tal forma que esse envolvimento afetivo só pôde contribuir para lhes propiciar uma vivência enriquecedora e para criarem e articularem repertórios de leitura e ganharem maturidade intelectual, que os tornarão melhores leitores. 5	você observou que na resenha “crítica ao mundo dos trouxas” há várias orações adjetivas? anote no caderno as alternativas que justificam o uso desse recurso gramatical. a)	as orações representam uma forma de incluir informações no texto. x b)	é por meio de acréscimo de adjetivos, locuções adjetivas e orações subordinadas adjetivas que se dá a expansão de uma ideia. x c)	a presença das orações adjetivas contribui para a ampliação dos antecedentes (especificando, par-ticularizando, precisando, caracterizando). x d)	as orações adjetivas tornam a linguagem do texto mais acessível. conclusão as orações adjetivas ampliam as informações sobre um termo da oração principal. elas podem especificá-lo ou simplesmente explicá-lo. as adjetivas restritivas, ao acrescentar informação ao termo antecedente, acabam também por limitar o significado dele. por exemplo: alguns autores sofrem nas mãos de críticos, um grupo de invejosos que não crê no poder da imaginação. (refere-se a um grupo específico de invejosos) as adjetivas explicativas acrescentam informações ao antecedente sem delimitá-lo, explicando o que ele significa ou generalizando a ideia. por exemplo: o filme tropa de elite, que é uma adaptação do livro elite da tropa, fez sucesso no brasil. (acres-centa uma informação ao explicar a origem do filme) os pronomes demonstrativos são ótimo recurso para recuperar informações inteiras presentes no texto e muitas vezes antecedem orações adjetivas. por exemplo: mas o estágio dos militares não foi nada parecido com o que um policial tem que fazer para entrar no batalhão. para ser um dos 400 homens que a tropa tem hoje é preciso algo mais: uma temporada no inferno. (o pronome demonstrativo o antecede a oração adjetiva ”que um policial tem…”) 	 prof.(a), sugerimos lembrar aos alunos que os demonstrativos podem recuperar informações anteriores (pronomes anafóricos) ou referir-se a informações posteriores (catafóricos). 	 o pronome os refere-se a todas as pessoas que criticaram o livro de rowling. o pronome o refere-se ao que rowling escreve, ou seja, a série de livros harry potter. “que nos atinge a todos, uns mais, outros menos” — adjetiva restritiva “que não exige do leitor / da qual nada se retém” — adjetivas explicativas “que, de alguma forma, iluminam sua vida” — adjetiva restritiva “que os tornarão melhores leitores” — adjetiva explicativa aqueles. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  20 4/15/10  2:23:49 pm</Page><Page Number="23">capítulo 1 – a resenha crítica  21 atividades de fixação 1	leia a resenha abaixo e responda às questões no caderno. cultura do skate direciona festa jovem 	 fabio rigobelo em sua terceira edição, o guaraná antarctica street festival, que acontece ama-nhã (dia 29), na chácara do jockey, vem ainda maior. uma grande pista de skate com formato de piscina vazia, trazida dos estados unidos (a pista soul bowl), performances de skatistas renomados, como bob burnquist e sandro dias, e shows de charlie brown jr., fresno, voltz, vivendo do ócio e da banda californiana de hardcore face to face são algumas das principais atividades. o evento, que preza pela interatividade e por atrações de forte identificação com o público jovem, terá também batalhas de grafite com comissão julgadora, tenda de games com consoles x-box, competições de skate e patins e exibição de fotos e trailer do documentário vida sobre rodas, que conta a história da cultura do skate no brasil e tem previsão de lançamento para 2010. chácara do jockey — r. pirajussara, s/n, butantã, região oeste, tel. 2846-6000, 15 mil pessoas. sáb. (dia 29): 12h às 24h. não recomendado para menores de 12 anos. ingr.: r 60 (estudantes: r 30). cc: ae, d, m e v. folha online, 29 ago. 2009. folhapress. a)	identifique as três orações subordinadas adjetivas desenvolvidas presentes na resenha. b)	identifique os termos a que se referem essas orações. c)	localize uma oração subordinada adjetiva reduzida de particípio. “trazida dos estados unidos.” 2	crie um período em que apareça uma oração adjetiva antecedida por um pronome demonstrativo, recuperando o assunto da oração dada. veja um exemplo: durante a festa, os jovens dançavam, conversavam, comiam e bebiam. depois de quatro horas, todos estavam bem entusiasmados, o que já se esperava. 3	uma oração adjetiva será sempre restritiva se o verbo dela estiver no modo subjuntivo. identifique as orações adjetivas restritivas com verbo no subjuntivo e copie-as no caderno. a)	ontem conversei com o professor que me prometeu uma revisão da matéria. b)	os formandos queriam uma banda que animasse todos os convidados durante a festa de formatura. c)	não existem pessoas que possam ajudá-lo neste momento. quando o verbo da oração subordinada adjetiva está no modo indicativo, há duas possibilidades de se interpretar a oração adjetiva: sem vírgula  indica apenas uma parte; portanto, oração restritiva. com vírgula  indica o todo; portanto, oração explicativa. 4	identifique as orações adjetivas e interprete o significado delas nos períodos a seguir. a)	os alunos do ensino médio que participaram da competição serão premiados. b)	os alunos do ensino médio, que participaram da competição, serão premiados. c)	os soldados que ingressam na tropa de elite passarão uma temporada no inferno. d)	os soldados, que ingressam na tropa de elite, passarão uma temporada no inferno. “que acontece amanhã”; “que preza pela interatividade e por atrações de forte identificação com o público jovem“; “que conta a história da cultura do skate no brasil”. 	 a primeira oração refere-se ao termo guaraná antarctica street festival; a segunda refere-se ao termo evento e a terceira ao termo o documentário vida sobre rodas. sugestões: a) as pessoas acham muito arriscado não ter diploma universitário. essa ideia básica é a que mais se discute nos círculos de orientação profissio-nal; b) sou nerd, o que significa hoje estar na moda…; c) depois de meses lutando pelo financiamento de um apartamento de dois dormitórios, castro abriu a porta do imóvel e pensou “agora a luta será conseguir pagá-lo”, o que era uma realidade. significa que nem todos os alunos do ensino médio serão premiados, mas apenas os que participaram da competição. significa que todos os alunos do ensino médio participaram da competição e que todos serão premiados. significa que, de todos os soldados que existem, apenas os que ingressam na tropa de elite passarão uma temporada no inferno. significa que todos os soldados do contexto ingressam na tropa de elite e que todos passarão uma temporada no inferno. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  21 4/15/10  2:23:49 pm</Page><Page Number="24">22  unidade 1 5	a oração adjetiva, em geral, é explicativa quando tem como antecedente um substantivo próprio. reescreva os trechos abaixo no caderno separando com vírgula as orações adjetivas explicativas. a)	o pai desesperado ajoelhou-se junto a carlos cujo corpo não mais se movia. b)	as últimas informações são de que carlos, pedro e josé que se encontravam presos, haviam fugido da penitenciária de taubaté. as últimas informações… josé, que se encontravam presos, haviam… (explicativa) c)	você conhece o rapaz que me procurou? você conhece o rapaz que me procurou. (restritiva) d)	a criança ouviu o barulho de um corpo que caía. a criança ouviu o barulho de um corpo que caía. (restritiva) e)	a casa em que os bandidos viviam foi invadida pelos policiais. 6	leia com atenção: congresso internacional do medo 	 carlos drummond de andrade provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. cantaremos o medo, que esteriliza os braços. não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. andrade, carlos drummond de. reunião. rio de janeiro: josé olympio, 1974.  graña drummond. www.carlosdrummond.com.br a)	escreva as orações adjetivas que caracterizam o amor e o medo. b)	as orações adjetivas destacadas são explicativas. como essa classificação influi na compreensão do poema? ortografia e outras questões os pronomes relativos 1	em cada item, reúna as duas orações em uma única frase utilizando os pronomes relativos. para substituir sujeito ou objeto direto, podemos usar que, o qual (e suas flexões), quem (para pessoas). lembre-se de que o pronome relativo deve vir logo após seu antecedente. exemplos: algumas pessoas são como um avestruz. o avestruz esconde a cabeça. 	 sujeito algumas pessoas são como um avestruz, que (o qual) esconde a cabeça. foi a menina. a menina disse isso. 	 sujeito foi a menina quem disse isso. o pai… carlos, cujo corpo não mais se movia. (explicativa) a casa em que os bandidos viviam foi invadida pelos policiais. (restritiva) “que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos” (o amor); “que esteriliza os braços” (o medo). as orações adjetivas explicativas referem-se ao todo. isso significa que o amor em geral bateu em retirada e que só existe então o medo. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap01_006a031.indd  22 4/15/10  2:23:50 pm</Page><Page Number="25">capítulo 1 – a resenha crítica  23 a)	pedimos para assistir ao filme. o filme havia sido lançado no fim de semana. 	 sujeito b)	as folhas das árvores caem no inverno. o vento leva as folhas das árvores. 	 objeto direto c)	o processo finalmente foi julgado. o processo estava engavetado. 	 sujeito d)	cumprimentaram as cantoras. as cantoras representaram a ópera aída. 	 sujeito 2	vamos continuar transformando duas orações em uma frase, mas aqui a atenção vai para o objeto indireto ou o complemento nominal. para substituí-los, podemos usar que, o qual (e suas flexões), quem (para pessoas) sempre com preposição. lembre-se de que o pronome relativo deve vir logo após seu antecedente. exemplo: muitas pessoas assistiram apenas a uma parte do filme. elas falavam mal do filme. 	 objeto indireto muitas pessoas assistiram apenas a uma parte do filme do qual falavam mal. a)	o passageiro embarcou em um voo para fortaleza. falei do passageiro. 	 	 objeto indireto b)	são amigas sinceras. quero muito bem a essas amigas. 	 	 objeto indireto c)	estes são os livros. eu tenho necessidade deles. 	 	 complemento nominal d)	a coordenadora recebeu alguns pais. ela conversou muito com alguns pais. 	 	 objeto indireto 3	continuando a reunir duas orações em uma única frase, vamos agora substituir adjuntos adverbiais. para isso, podemos usar que, o qual (e suas flexões), sempre antecedidos da preposição em, ou onde. lembre-se de que o pronome relativo deve vir logo após seu antecedente. se for preciso, altere o modo verbal da oração adjetiva para o subjuntivo. exemplo: o filme estreou na cidade. a maior parte do elenco residia naquela cidade. 	 adjunto adverbial o filme estreou na cidade na qual (em que/onde) a maior parte do elenco residia. a)	ela queria morar em uma cidade. na cidade haveria mais vida noturna. 	 	 adjunto adverbial b)	pensei em visitar uma biblioteca. poderia realizar umas pesquisas na biblioteca. 	 	 adjunto adverbial c)	meus pais venderam a casa. meus avós moravam nela. 	 	 adjunto adverbial d)	entrei no cinema. marcara um encontro com alguns amigos no cinema. 	 	 adjunto adverbial 4	ainda reunindo duas orações em uma única frase, substitua os adjuntos adnominais. para isso, utilize o pronome relativo cujo (e suas flexões). esse pronome sempre indica posse. se houver preposição acompanhando o termo ao qual o adjunto adnominal se refere, ela deve ser colocada antes do pro-nome. exemplo: fazem sucesso alguns filmes. o assunto dos filmes é o problema das grandes metrópoles. 	 adjunto adnominal fazem sucesso alguns filmes cujo assunto é o problema das grandes metrópoles. pedimos para assistir ao filme que (o qual) havia sido lançado no fim de semana. as folhas das árvores que (as quais) o vento leva caem no inverno. o processo que (o qual) estava engavetado foi finalmente julgado. cumprimentaram as cantoras que (as quais) representaram a ópera aída. o passageiro de quem (do qual) falei embarcou em um voo para fortaleza. são amigas sinceras a quem (às quais) quero muito bem. estes são os livros de que (dos quais) eu tenho necessidade. a coordenadora recebeu alguns pais com quem (com os quais) conversou muito. ela queria morar em uma cidade onde (na qual/em que) houvesse mais vida noturna. pensei em visitar uma biblioteca na qual (em que/onde) poderia realizar umas pesquisas. meus pais venderam a casa em que (na qual/onde) meus avós moravam. entrei no cinema onde (no qual/em que) marcara um encontro com alguns amigos. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  23 4/15/10  2:23:50 pm</Page><Page Number="26">24  unidade 1 a)	esse é o aluno. eu falei da redação dele na reunião. esse é o aluno de cuja redação eu falei na reunião. 	 adjunto adnominal b)	são perigosas as praias. nas águas das praias há correntezas. 	 adjunto adnominal c)	essa é a menina. a aprovação da menina na faculdade foi automática. 	 adjunto adnominal d)	existem problemas. a solução dos problemas é impossível. existem problemas cuja solução é impossível. 	 adjunto adnominal 5	com pronomes relativos adequados, complete as frases no caderno (não se esqueça da preposição se ela for necessária). a)	zezo foi ao zoológico  os animais ficavam soltos. onde/em que/no qual b)	essa é a mala  compartimentos se encontraram drogas. em cujos c)	marilda era a prima  quaresma vivia. com quem/com a qual d)	você é a amiga  dedicarei uma canção. a quem/à qual e)	o discurso  o papa leu logo que chegou ao brasil era muito interessante. que/o qual f)	a prima  contei um caso interessante faleceu. de quem/da qual atividades de aplicação 1	leia a resenha e responda às questões no caderno. rogério caetano o violão de sete cordas desenvolveu-se no brasil contraponteando as melodias dos nossos choros e teve como seu grande mestre dino 7 cordas (1918-2006). mas foi rafael rabello (1962-1995) quem trouxe o instrumento para a posição de prota-gonista, como solista. é esse o caminho seguido por novos talentos que despontam como o brasiliense radicado no rio rogério caetano. nesse álbum, as criativas sonoridades da escola violinística brasileira de joão pernambuco, garoto, villa-lobos e marco pereira, entre outros, são referendadas com amesma impressionantemusicalidade e virtuosismo que rogério vemdemonstrando nos trabalhos em que atua como coadjuvante. as participações especiais contribuem com variação timbrística ao cd, destacando-se o piano bem dosado de leandro braga em “intuitiva” e a expressividade da flauta de eduardo neves em “meu mundo”. nesse contexto, aquilo que já é tiro certo e fato consumado no âmbito da inter-pretação ainda é um esboço de paisagem na mira da composição. se por um lado o intérprete expande as fronteiras técnicas do sete cordas a territórios inimaginá-veis, por outro, ao assinar todas as faixas, deixa a porta da criação apenas entrea-berta. mas a última faixa, “pelé”, é coisa de craque. guia da folha, 28 ago. 2009. folhapress. adaptado. qual é o objeto resenhado? o álbum do artista rogério caetano. 2	o autor da resenha inicia seu texto apresentando a diversidade musical de nosso país. sabendo disso, identifique: a)	o instrumento objeto de análise da resenha; 	 b)	um ritmo citado. 3	sabendo que contrapontear é a arte de compor músicas em duas ou mais vozes, explique o que sugere a frase “o violão de sete cordas desenvolveu-se… contraponteando as melodias dos nossos choros”. são perigosas as praias em cujas águas há correntezas. essa é a menina cuja aprovação na faculdade foi automática. o violão de sete cordas. o chorinho, um ritmo bem brasileiro. os dois sons estavam surgindo, confrontando-se, o som dos instrumentos eram as duas vozes da época. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  24 4/15/10  2:23:51 pm</Page><Page Number="27">capítulo 1 – a resenha crítica  25 4	para apresentar o autor do objeto resenhado, a resenha traz um breve histórico sobre o assunto. sintetize-o com suas palavras. 5	releia o período: mas foi rafael rabello (1962-1995) quem trouxe o instrumento para a posição de protagonista, como solista. a)	há uma oração subordinada nesse trecho. identifique-a. b)	o pronome relativo quem é a palavra que relaciona as duas orações. ele exerce a função sintática de sujeito da oração subordinada. que palavra da primeira oração ele representa? rafael rabello. c)	leia o período acima sem o pronome relativo: mas rafael rabello trouxe o instrumento para a posição de protagonista, como solista. escrito dessa forma, esse período causa no leitor o mesmo impacto que o período original?  por quê? d)	na sua opinião, o uso de uma oração subordinada com o pronome quem pelo autor da resenha foi proposital? por quê? 6	releia outro período do texto: é esse o caminho seguido por novos talentos que despontam como o brasiliense radicado no rio rogério caetano. a)	o período é composto por 4 orações, três delas subordinadas adjetivas restritivas. identifique-as. b)	todas essas orações referem-se ao compositor rogério caetano. por meio delas, caracterize-o. c)	para ingedore koch as orações subordinadas adjetivas explicativas são informações suplementares, que podem ser retiradas sem que a frase perca o sentido. ao contrário, as subordinadas adjetivas restritivas são responsáveis por delimitar um indivíduo ou um grupo ou ainda uma ideia. são elas que apresentam informações necessárias para delimitar o sentido das palavras às quais se relacionam ou atribuir-lhes novas informações. para entender essa função das adjetivas restritivas, reescreva o período acima sem a oração  ­subordinada. é esse o caminho seguido por novos talentos. o que aconteceu com o período?  7	releia outro período do texto: nesse álbum, as criativas sonoridades da escola violinística brasileira de joão pernambuco, garoto, villa-lobos e marco pereira, entre outros, são referenda-das com a mesma impressionante musicalidade e virtuosismo que rogério vem demonstrando nos trabalhos… a)	o pronome relativo que substitui o alvo da expressão “vem demonstrando”. volte ao texto e iden-tifique o que o artista “vem demonstrando”. a mesma impressionante musicalidade e virtuosismo. b)	continuando o período, o autor do texto completa: … em que atua como coadjuvante. classifique a nova oração subordinada acrescida ao período.  8	sabendo que esse tipo de oração subordinada é essencial às apresentações de atributos, responda: qual a importância dessas orações para o desenvolvimento de resenhas? 9	depois de observada a subordinação das orações nesse texto, deduza: qual a opinião do autor da resenha? 	 	dino 7 cordas desenvolveu o trabalho com o violão de sete cordas, mas foi rafael rabello quem trans-formou o instrumento em protagonista, isto é, em instrumento principal. “quem trouxe o instrumento para a posição de protagonista, como solista.” sugestão: não, porque esse período não dá ao nome de rafael rabello a mesma força, o mesmo destaque que o original. 	 sim, porque o autor quis destacar o nome de rafael rabello, responsável por transformar o instrumento em protagonista. são adjetivas restritivas: “seguido por novos talentos”; “que despontam como o brasiliense rogério caetano” e “radicado no rio”. ele é de brasília, mora no rio e é um novo talento que desponta. deixou de apresentar a nova informação, isto é, o nome do artista e características a ele atribuídas. “em que atua como coadjuvante” — oração subordinada adjetiva restritiva. são essas orações que apresentam as características do objeto resenhado do ponto de vista do autor do texto. ele considera o artista um bom músico. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  25 4/15/10  2:23:51 pm</Page><Page Number="28">26  unidade 1 produção de texto resenha crítica a resenha crítica é um texto que apresenta informações fundamentais sobre determinado objeto cul-tural, além de comentários e avaliações sobre ele, com o objetivo de divulgá-lo. se o objeto resenhado for um filme ou um romance, a parte de apresentação da resenha será uma síntese do enredo. no caso de ser um quadro, um cenário, haverá uma descrição. muitas vezes o produtor do objeto cultural, seu autor, também é comentado: pode-se dar uma ideia de sua produção, indicar a opinião que ele já conquistou no meio de que faz parte e como essa obra pode ser vista no conjunto de seu trabalho. o resenhista — em geral uma pessoa que tem certo conhecimento na área, uma vez que se espera dele um posicionamento crítico — precisa amarrar todo o texto. vale lembrar que criticar não é exata-mente ressaltar os defeitos ou simplesmente dizer que não se gosta de alguma coisa. é preciso justificar sua opinião, ir além do “acho isso, gosto daquilo”. mais rica é a avaliação construída com argumentos e contra-argumentos, capaz de constatar defeitos e qualidades da obra, observar como ela se insere na produção do autor em questão e em relação às demais obras da área cultural da qual ela faz parte. há diversas maneiras de se estruturar um texto desse gênero, mas geralmente se parte de um plano: apresentação do objeto (texto mais descritivo), opinião do produtor do texto a respeito do objeto resenhado (parte mais argumentativa, em que são expostos os argumentos que justificam a opinião do resenhista) e conclusão (frase curta e significativa que reforça a ideia exposta). as diferenças de estilo muitas vezes estão relacionadas ao público-alvo e ao suporte em que vai ser publicado o texto. por exemplo, uma resenha sobre um salão internacional de histórias em quadrinhos a ser publicada numa revista direcionada a adolescentes terá um enfoque — texto objetivo, com informações básicas para quem pretende ir ao local, quais os autores mais conceituados do evento, os lançamentos mais interessantes e depoimentos de adolescentes que curtem ler esses textos. se alguém for escrever sobre esse mesmo evento só que para ser publicado no caderno mais, da folha de s.paulo, dirigido a leitores mais maduros e intelectuais, as exigências de enfoque e de aprofundamento serão diferentes — o resenhista precisará talvez fazer uma síntese de como as histórias em quadrinhos se desenvolveram ao longo dos anos, que papel elas têm na sociedade atual, sua simbologia, quais são os grandes autores e por quê, etc., levantando biografias, fazendo pesquisas mais profundas. atividade 1 — decalque: orações subordinadas adjetivas como você viu em conhecimentos linguísticos, as orações subordinadas adjetivas colaboram na carac-terização de uma ideia, na delimitação do antecedente e na inclusão de outras informações. na resenha a seguir, faltam orações desse tipo. levando em conta o encadeamento do texto, produza  no caderno orações que preencham convenientemente os espaços, caracterizando o substantivo que os antecede. cultura a arte  não pode vir da mão que escraviza vem aí a semana de arte moderna da periferia. iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da tropicália, mas afirma, além disso, um brasil . […] 	 eleilson leite tomei este título de empréstimo do manifesto da antropofagia periférica, mais uma pedra preciosa do poeta sergio vaz. escrito em prosa poética, este texto, , é uma ode à periferia e à cultura produzida nas quebradas e cafundós da ­metrópole vpem3_un1_cap01_006a031.indd  26 4/15/10  2:23:51 pm</Page><Page Number="29">capítulo 1 – a resenha crítica  27 paulistana. no ano em que se comemora o 85º- aniversário da semana de arte moderna e os 40 anos da tropicália, é da periferia que emerge o movimento . por isso, prepare-se, caro leitor: vem aí a semana de arte moderna da periferia. concebido pela cooperifa — cooperativa de artistas da periferia, o evento é organizado por mais de 40 grupos de várias partes da região metropolitana de são paulo e promoverá, entre os dias 4 e 10 de novembro, mais de cem atividades, em diversos pontos da zona sul da capital. […] durante toda a semana que segue, uma extensa programação dará uma mostra eloquente da riqueza da produção cultural periférica, cada dia privilegiando uma linguagem artística. na segunda-feira, artes plásticas; terça, dança; quarta, litera-tura; quinta, cinema; sexta, teatro e no sábado, música. serão shows, espetáculos, intervenções, exposições, mostras, além de debates, oficinas e palestras. tudo organizado pelos próprios artistas, coletivamente, num processo participativo tão característico dos movimentos sociais. […] “pensávamos que não sabíamos ler, agora estamos escrevendo livros” essa característica de movimento e a condição social dos artistas  é um fator que distingue este evento daqueles liderados por oswald de andrade e caetano veloso. a semana de 1922 e a tropicália defendiam posições estéticas dentro do campo dominante. eram posturas inovadoras, radicais, mas disputavam com a elite. agora, sergio vaz e os artistas da periferia vêm a público constranger as elites. como diz o escritor alessandro buzo, “pensávamos que não sabíamos ler, agora estamos escrevendo livros”. esses artistas vão defender um espaço . na periferia se faz cinema, teatro, música, dança, artes plásticas e literatura. o evento vai se constituir num espaço de afirmação dessa cultura. afirmar a arte da periferia é em si um ato político. os famintos farão seu próprio banquete. e a fome é grande: fome de arte, de amor, de paz, de justiça. “por uma periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor”, como diz o manifesto em seu verso final. disponível em: http://diplo.uol.com.br/ 2007-10,a1968. acessado em 11 nov. 2007. prof.(a), na correção, observe se as orações usadas para preencher os espaços estão de acordo com o modo como o autor desenvolve o texto. verifique se os alunos restringiram a ideia do substantivo ou se o explicaram, fazendo uso correto de vírgulas. não há respostas erradas desde que façam sentido. cooperativa de artistas da periferia — cooperifa/arquivo da editora cartaz da semana de arte moderna da periferia, realizada em novembro de 2007, em vários pontos da periferia de são paulo. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  27 4/15/10  2:23:52 pm</Page><Page Number="30">28  unidade 1 atividade 2 — decalque: os conectivos e a argumentação em um texto argumentativo, como uma resenha crítica, o autor precisa apresentar sua opinião e argumentos para conven-cer o leitor de seu ponto de vista. para amarrar as ideias, em geral ele estabelece relações entre os parágrafos do texto por meio de conectivos. estes ligam uma ideia à outra, além de indicarem se a intenção do autor é apenas somar ideias, contrariá-las, explicá- -las, confirmá-las, etc. observe o texto citado. texto de estudo recursos linguísticos: conectivos na argumentação noel – poeta da vila elenco garante cinebiografia de ícone do samba christian peterman o ator rafael raposo surpreende como noel rosa em noel – poeta da vila, estreia em longa do diretor van steen. malandro, mulherengo e tuberculoso, noel foi uma figura ímpar, em especial pelo andar largado, o rosto sem queixo e a boca saliente. um passo em falso do ator e o filme naufragaria por completo. o onipresente rafael defende esse ícone maior do samba com impressionante equilíbrio de nuanças. além de rafael e de um repertório musical de embevecer ouvidos, o filme tem outros atrativos. há a sempre bela camila pitanga como ceci, o grande amor da vida de noel, também cor-tejada por mário lago (supla, divertido). sem falar na presença de uma cativante aracy de almeida (boa presença de carol bezerra). a vila isabel dos anos 20 tam-bém desfila nas telas de forma convincente. é pena, portanto, que falte ainda estofo a van steen. ele é um cineasta em formação, que decidiu, talvez cedo demais, assumir um projeto ambicioso. não fosse o bom elenco, cenas-chave do filme desmoronariam por conta da insegurança do realizador. mas a estrela de noel (e de rafael) é maior e sai incólume por essa jornada nostálgica. guia da folha, 2 nov. 2007. folhapress. apresentação da opinião prin-cipal do resenhista (o ator principal do filme surpreende) e do tema da resenha: filme sobre noel rosa. conectivos: além de – caracteriza soma de ideias. usar em constru-ções como: além de um ele-mento, outro elemento. sem verbo (falar/contar) – caracteriza soma de ideias. usar em construções como: o filme tem tais atrativos. sem falar na presença de…, sem falar na voz de… portanto – ideia de conclusão. usar em períodos em que se apresentem argumentos e se chegue a certa conclusão, em construções como: os atores são bons. a escola de samba desfila de forma convincente. é pena, portanto, que o dire-tor ainda seja imaturo. não fosse – caracteriza enca-deamento de ideias unidas por uma condição. usar em construções como: não fosse o cabelo desarrumado, ela estaria bonita. mas – caracteriza oposição. usar em construções como: o diretor é fraco, mas a estre-la de noel e a do ator salvam o filme. em seu caderno, reescreva o texto, mudando a personagem principal do filme, noel rosa, por outra,  de preferência um músico atual, como tony garrido, marcelo falcão, paulinho da viola, etc. complete com informações referentes ao músico escolhido. adote a mesma estrutura, mas adapte o assunto de acordo com o novo protagonista. pandora filmes/divulgação/ arquivo da editora cena do filme noel – poeta da vila, dirigido por ricardo van steen, em 2007, inspirado na vida do músico noel rosa. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  28 4/15/10  2:23:55 pm</Page><Page Number="31">capítulo 1 – a resenha crítica  29 – músico da elenco garante cinebiografia de ícone do 	 [seu nome] o ator rafael raposo surpreende como  em , estreia em longa do diretor van steen. ,  e ,  foi uma figura ímpar, em especial pelo ,  e . um passo em falso do ator e o filme naufragaria por completo. o onipresente rafael defende esse ícone maior do  com impressionante equilíbrio de nuanças. além de , o filme tem outros atrativos. há a sempre bela camila pitanga como , o grande amor da vida de , também cortejada por . sem falar  (boa presença de carol bezerra). a  também desfila nas telas de forma convincente. é pena, portanto, . ele . não fosse , cenas-chave do filme desmoronariam por conta da insegurança do realizador. mas a estrela de  (e de rafael) é  e . prof.(a), na correção, verifique principalmente o uso dos conectivos. atividade 3 — produção de autoria prof.(a), na correção, verifique se consta da resenha a apresentação do objeto resenhado e se a opinião do autor do texto é clara. selecione um objeto cultural para resenhar. pense no suporte de publicação (que jornal, revista, etc.) e  no público leitor desse periódico. reflita sobre o que vai escrever. apresente o objeto por meio de uma síntese do enredo ou de uma descrição das partes que o formam. em seguida, apresente argumentos que convençam o leitor de que sua opinião é válida. termine com uma frase significativa, coerente com sua opinião, ou seja, capaz de aproximar (ou afastar) o leitor do objeto cultural comentado. preparando a segunda versão do texto relendo seu texto, observe: a estrutura do seu texto está clara?  os conectivos foram empregados de maneira coerente?  os argumentos usados são adequados ao público que leria esse texto se fosse publicado?  alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un1_cap01_006a031.indd  29 4/15/10  2:23:57 pm</Page><Page Number="32">30  unidade 1 e por falar em resenha crítica… revistas, jornais, televisão, rádio têm levado ao público em geral, por meio de textos publicitários ou jornalísticos, todo tipo de conteúdo, independentemente de serem considerados bons ou ruins. vendem uma forma de pensar, de participar do mundo, vendem um perfil: quem lê aquela revista ou assiste àquele canal será convencido a ver tal filme ou a ler certo livro ou ainda a ouvir determinado músico. várias dessas mídias avaliam o que está em destaque, em cartaz, em dia e transmitem a seus interlo-cutores o que é bom ou não. observe uma página da revista bravo! na qual são apresentados os melhores filmes em cartaz, segundo a revista. quadro a quadro, é possível saber os motivos pelos quais os leitores devem assistir aos filmes selecionados. reúna-se em grupo com os colegas e, de acordo com o gosto de vocês, selecionem três objetos (filmes,  livros, exposições, shows ou cds) que vocês gostariam de divulgar na classe. desenhem um quadro como o apresentado na revista bravo! e produzam os parágrafos para cada linha de acordo com o modo de pensar do grupo. prof.(a), oriente os alunos na organização do quadro. os itens comentados podem variar de acordo com o objeto escolhido. se for, por exemplo, um show musical, seria interessante que comentassem o programa (de que se compõe o show), o motivo por que as pessoas devem ir ao espetáculo, em que devem prestar atenção, onde e quando o show será realizado, qual ou quais músicas devem ouvir, etc. à deriva (brasil/eua, 2009). 1h37. drama. direção e roteiro: heitor dhalia. elenco: débora bloch, vicent cassel, laura neiva (foto), cauã reymond, camilla belle. enredo: casal maduro vive os últimos capítulos de uma crise matrimonial diante dos olhos da filha mais velha, uma adolescente que está a um passo de iniciar-se na vida adulta e amorosa. por que ver: este primeiro filme internacional de heitor dhalia (de nina e o cheiro do ralo) teve produção cuidada e locações em búzios, além de uma première mundial na seção un certain regard, no festival de cannes 2009. preste atenção: ao ator francês vicent cassel (de senhores do crime), defendendo o principal papel masculino, às vezes falando um português bastante razoável. e também à norte-americana camilla belle (10.000 a.c.), que é filha de uma brasileira. o que já se disse: “seguindo os passos de fernando meirelles, de cidade de deus, dhalia é o próximo diretor brasileiro a um passo de estourar. à deriva é seu cartão de visita” (alex billington, firstshowing.net). revista bravo!/editora abril revista bravo!, jul. 2009. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  30 4/15/10  2:24:00 pm</Page><Page Number="33">capítulo 1 – a resenha crítica  31 no mundo da oralidade após a produção dos parágrafos da resenha, preparem a apresentação oral do quadro. vocês podem  selecionar uma música de fundo adequada ao objeto escolhido e, se possível, levar o objeto à classe. como a intenção de vocês é convencer a classe a aceitar a ideia proposta pelo grupo, produzam um texto oral adequado ao público e ao objeto resenhado. por exemplo, se o objeto for um cd de rap, vocês devem produzir o texto oral pensando em quem gosta desse ritmo e, se possível, usar algumas palavras típicas desse universo. na exposição oral do objeto resenhado: deem todas as informações necessárias sobre o objeto (a descrição da aparência, do que faz, de  como é, etc.); após a exposição das características, usem os argumentos necessários para convencer a classe a  conhecer ou não o objeto apresentado; mantenham o tom de voz alto, a dicção perfeita.  lembrem-se de que não se trata da leitura da resenha, mas da apresentação oral. por isso, não levem papel para a frente da classe; falem o que o grupo discutiu antes da apresentação. aproveite para… … ler jornalismo cultural  , de daniel piza, editora contexto nesse livro sobre jornalismo cultural é possível encontrar orientações para elaborar resenhas críticas. 1001 livros para ler antes de morrer  , de peter boxall, editora lisma uma equipe de apaixonados por livros reúne os títulos das obras que mais impactaram a literatura e a cultura mundial. 1001 discos para ouvir antes de morrer  , editora gmt jornalistas e críticos de música reconhecidos selecionaram álbuns inesquecíveis dos anos 50 até o lançamento do livro. 300 filmes para ver antes de morrer  , editora globo trezentos filmes escolhidos e com explicação de por que vale a pena assistir a eles. … assistir tropa de elite  , de josé padilha (brasil, 2007) capitão do bope (grupo especial da polícia) quer deixar seu posto e busca substituto para o seu lugar. harry potter e a pedra filosofal  , de chris columbus (eua/inglaterra, 2001) filme baseado no primeiro livro da série harry potter, em que ele é convidado a entrar para uma escola de bruxos. … ver na internet www.dicionariompb.com.br  site de nomes fundamentais da mpb, com bibliografia crítica e artigos de importantes críticos musicais. www.adorocinema.com  site com resenhas e informações de filmes cujas críticas quem faz são os leitores. www.omelete.com.br e www.homemnerd.com.br  dois sites que apresentam resenhas, críticas e novidades de seriados de tv, filmes, livros, games e gibis. vpem3_un1_cap01_006a031.indd  31 4/15/10  2:24:00 pm</Page><Page Number="34">2 capítulo vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal 32  unidade 1 antes de ler faça uma leitura silenciosa dos poemas a seguir identificando o tom de cada um deles (triste, alegre, melancólico, otimista, pessimista, conformado, indignado). poema 1 dorme, que a vida é nada! dorme, que tudo é vão! se alguém achou a estrada, achou-a em confusão, com a alma enganada. não há lugar nem dia para quem quer achar, nem paz nem alegria para quem, por amar, em quem ama confia. melhor entre onde os ramos tecem dosséis sem ser ficar como ficamos, sem pensar nem querer, dando o que nunca damos. 10/10/1933 poema 2 se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o. sou místico, mas só com o corpo. a minha alma é simples e não pensa. o meu misticismo é não querer saber. é viver e não pensar nisso. não sei o que é a natureza: canto-a. vivo no cimo dum outeiro numa casa caiada e sozinha, e essa é a minha definição. dossel: armação de madeira ornamentada, usada sobre altares, tronos, leitos. cimo: alto, topo. outeiro: colina. ilustrações: marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  32 4/15/10  2:25:32 pm</Page><Page Number="35">capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal  33 poema 3 as rosas amo dos jardins de adônis, essas volucres amo, lídia, rosas, 	 que em o dia em que nascem, 	 em esse dia morrem. a luz para elas é eterna, porque nascem nascido já o sol, e acabam 	 antes que apolo deixe 	 o seu curso visível assim façamos nossa vida um dia, inscientes, lídia, voluntariamente 	 que há noite antes e após 	 o pouco que duramos. insciente: ignorante. volucre: que tem vida curta. poema 4 (fragmento) lisbon revisited (1926) nada me prende a nada. quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. anseio com uma angústia de fome de carne o que não sei que seja — definidamente pelo indefinido… durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto de quem dorme irrequieto, metade a sonhar. fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias. correram cortinas por dentro de todas as hipóteses que eu poderia ver na rua. não há na travessa achada o número da porta que me deram. acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. até os meus exércitos sonhados sofreram derrota. até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. até a vida só desejada me farta — até essa vida… 24/4/1926 lisbon revisited: lisboa revisitada. ilustrações: marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  33 4/15/10  2:25:34 pm</Page><Page Number="36">34  unidade 1 no mundo da oralidade após a identificação do tom dos poemas, prepare-se para a leitura expressiva de cada um deles. para  isso faça a associação entre o tom do poema e o ritmo e o volume de voz que você deve imprimir durante a leitura. por exemplo, se o tom for alegre, o ritmo deverá ser mais veloz e a voz mais alta; se for triste, o ritmo deverá ser mais lento e a voz mais baixa; quando o tom do poema estiver entre indig-nado e pessimista, dê à leitura uma certa agressividade de modo que possa traduzir mais claramente seus significados. após a leitura expressiva dos poemas, resolva as atividades. 1	relacione as ideias a seguir aos poemas lidos e escreva a resposta no caderno. a)	valoriza o momento presente. 3 b)	deseja a integração com a natureza. 2 c)	traduz grande angústia. 1, 4 d)	revela grande desconcerto diante das opções do mundo. 4 e)	é pessimista. 4 f)	revela grande liberdade poética na adoção de versos livres. 2, 4 g)	apresenta grande musicalidade devido à métrica fixa de seis sílabas e do esquema de rimas ababa. 1 2	pode-se afirmar que cada eu lírico em questão experimenta a vida de modo distinto? justifique sua resposta. 3	com qual dos poemas você mais se identifica. por quê? os poemas apresentados foram escritos pelo lisboeta fernando pessoa (nossa fonte é o livro dele o guardador de rebanhos e outros poemas, da editora cultrix, 1991), a partir de um projeto poético singular na literatura portuguesa: a heteronímia. cada poema pertence a uma diferente identidade poética criada por pessoa, com personalidade e história próprias. segue uma caracterização dos três mais importantes heterônimos e do próprio fernando pessoa (ortônimo). os trechos entre aspas, transcritos de carta (de 1935) do próprio pessoa a adolfo casais monteiro, encontram-se na introdução do professor massaud moisés ao livro o guardador de rebanhos e outros poemas. alberto caeiro nasceu em 8 de maio de 1889. é considerado o mestre dos demais. alberto caeiro é um guardador de rebanhos, o poeta das sensações, que pretende ver e sentir sem pensar. considera-se apenas poeta, por isso foge para os campos com o intuito de viver como vivem as flores, as fontes, os prados. sua poesia é desprovida de métrica e de rima. sua simplicidade não permitiria a produção de uma poesia mediada por elementos muito voltados para a racionalização, como o rebuscamento da forma poética. ricardo reis em carta ao poeta e crítico adolfo casais monteiro, o próprio fernando pessoa apresenta ricardo reis: “[…] nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no porto, é médico e está presentemente no brasil. […] educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico. […] é um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria”. essa carta revela a formação cultural de reis e seu gosto pela poesia clássica. seu mundo é o do passado. seus modelos poéticos encontram-se na grécia e na roma antigas. 	 cada eu lírico experimenta a vida de um modo diferente. percebe-se maior angústia, maior desconcerto com o mundo nos textos 1 e 4. nos textos 2 e 3, o eu lírico é mais convicto, parece ter resposta para certos dilemas da existência. vpem3_un1_cap02_032a052.indd  34 4/15/10  2:25:34 pm</Page><Page Number="37">capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal  35 álvaro de campos ao apresentar álvaro de campos para monteiro, pessoa escreve: “[…] nasceu em tavira, no dia 15 de outubro de 1890 […] é engenheiro naval, mas agora está aqui em lisboa em inatividade […]; teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval”. álvaro de campos, o mais moderno dos heterônimos de pessoa, é um poeta futurista, das máquinas e da fúria demolidora. para ele, a existência não faz sentido em muitos aspectos, e isso o leva a explosões de inconformismo e desespero. fernando pessoa (ortônimo) fernando pessoa promove a ligação entre o passado lírico português e a modernidade europeia; reunindo a tradição às inovações artísticas do início do século xx. é um poeta melancólico, sentimental, nostálgico, que, embora por vezes não encontre grandes razões para a existência, não traduz essa ideia de modo inconformado e agressivo como álvaro de campos. 4	levando em conta as informações desses quadros, na sua opinião quem são os autores de cada um dos poemas apresentados? 1: fernando pessoa (ortônimo); 2: alberto caeiro; 3: ricardo reis; 4: álvaro de campos. 5	junte-se a dois colegas que tenham se identificado com o mesmo poema que você, pesquisem outro texto do mesmo heterônimo e preparem uma leitura expressiva, seguindo as orientações apresentadas na seção no mundo da oralidade. texto 1 o poema que você lerá agora foi escrito pelo heterônimo alberto caeiro. acompanhe a visão de mundo de um eu lírico que se coloca no mesmo plano de outros elementos da natureza, que abre mão do exercício do pensamento para se integrar às coisas, ser com elas para ser parte delas. o meu olhar 	 alberto caeiro o meu olhar é nítido como um girassol. tenho o costume de andar pelas estradas olhando para a direita e para a esquerda, e de vez em quando olhando para trás… e o que vejo a cada momento é aquilo que nunca antes eu tinha visto, e eu sei dar por isso muito bem… sei ter o pasmo essencial que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras… sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo… marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  35 4/15/10  2:25:35 pm</Page><Page Number="38">36  unidade 1 creio no mundo como num malmequer, porque o vejo. mas não penso nele porque pensar é não compreender… o mundo não se fez para pensarmos nele (pensar é estar doente dos olhos) mas para olharmos para ele e estarmos de acordo… eu não tenho filosofia; tenho sentidos… se falo na natureza não é porque saiba o que ela é, mas porque a amo, e amo-a por isso porque quem ama nunca sabe o que ama nem sabe por que ama, nem o que é amar… amar é a eterna inocência, e a única inocência não pensar… pessoa, fernando, op. cit. interpretação do texto  1	esse poema traduz uma intenção de ser e estar no mundo. pode ser considerado a expressão de uma filosofia de vida, de uma ideia que explique o que, para certa pessoa, deve ser sua existência. verifique nos itens que seguem como o poeta constrói essa ideia. observe as comparações destes versos: “o meu olhar é nítido como um girassol”; “creio no mundo como num malmequer”. a)	pesquise o significado da palavra nítido e, em seguida, explique o que se espera de um olhar nítido. b)	o girassol é uma planta cujas flores se voltam para o sol. aponte que semelhança com o girassol, num primeiro momento, tem o olhar do eu lírico. o olhar do eu lírico volta-se para todos os lados. c)	um girassol volta-se para o sol porque essa ação faz parte de sua natureza. como o eu lírico pre-tende, portanto, olhar para as coisas ao seu redor? d) malmequer é uma flor, um elemento concreto da natureza. para o eu lírico, crer no mundo corres-ponde a crer num malmequer. que tipo de crença no mundo, portanto, tem o eu lírico? o eu lírico crê apenas nas flores e na natureza, não acredita nas pessoas, que considera cegas  para a realidade. o eu lírico crê naquilo que é concreto e palpável. o mundo para ele corresponde àquilo que pode  ser observado, experimentado pelos sentidos. x o eu lírico crê nas flores, mas se aborrece com o fato de não compreendê-las. ele gostaria de ser  capaz de pensá-las. e)	destaque o(s) verso(s) da quarta estrofe que justifica(m) a resposta ao item d. 2	releia os seguintes versos: “porque pensar é não compreender… / (pensar é estar doente dos olhos) / […] / e a única inocência não pensar…”. a)	se olharmos para os elementos que estão a nossa volta e pensarmos neles, que tipo de informações certamente virão à tona? b)	nesse sentido, o que significa “pensar é estar doente dos olhos” ou “pensar é não compreender”? c)	que relação com os elementos que o cercam, portanto, caeiro deseja alcançar? prof.(a), antes de apresentar as respostas propostas aqui, deixe os alunos bastante à vontade para expor suas impressões sobre o poema. seria interessante que as questões fossem feitas oralmente e que os alunos expressassem sua visão sobre o que pode significar “não pensar”. a palavra nítido, um adjetivo, indica aquilo em que há clareza, transparência, que é inteligível, compreensível. um olhar nítido, portanto, é aquele que, ao se voltar para as coisas, as enxerga com clareza e, sobretudo, as compreende. o eu lírico quer olhar para as coisas sem pensar nelas, como se isso fizesse parte da sua natureza mais primiti-va; como faz um girassol, que, simplesmente seguindo sua natureza, todos os dias se volta para as diversas direções orientadas pelo sol. “eu não tenho filosofia; tenho sentidos…” 	 as informações prévias que temos sobre as coisas, nossos conceitos e “pré-conceitos”, nossa visão de mun-do parcial e fragmentada, que mediará nosso julgamento. qualquer olhar que lancemos sobre as coisas nos afasta delas por ser uma visão parcial, carregada de preconceitos, de julgamentos prévios. esse olhar nunca pode captar a essência do elemento, é sempre a visão viciada, incompleta, do nosso ser projetada sobre a coisa observada. ele quer entrar em contato apenas com a existência dos elementos, olhar e supreender-se cada vez que os vê. se os classifica, recorta, ou procura compreendê-los, perde o pasmo essencial, a experiência possível só no momento em que o objeto é visto. pasmo: espanto, surpresa. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  36 4/15/10  2:25:36 pm</Page><Page Number="39">capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal  37 texto 2  o poema a seguir foi escrito pelo heterônimo ricardo reis. durante a leitura, observe aspectos signi-ficativos relacionados à forma; verifique o tom de aconselhamento. segue o teu destino rega as tuas plantas ama as tuas rosas o resto é a sombra de árvores alheias a realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos só nós somos sempre iguais a nós próprios. suave é viver só grande e nobre é sempre viver simplesmente deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses vê de longe a vida nunca a interrogues a resposta está além dos deuses. mas serenamente imita o olimpo no teu coração os deuses são deuses porque não se pensam pessoa, fernando. poesias. porto alegre: l&amp;pm, 1996. ara: para os antigos pagãos, mesa em que se faziam os sacrifícios; para os católicos, mesa em que se colocam a hóstia e o cálice durante as cerimônias religiosas. ex-voto: objeto com inscrição que se coloca em igreja ou capela para pagamento de promessa ou para agradecer uma graça alcançada. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  37 4/15/10  2:25:37 pm</Page><Page Number="40">38  unidade 1 interpretação do texto 1	observe que o poema de ricardo reis se situa em outro plano de composição poética e de abordagem de conteúdo. trata-se também da visão de mundo do eu lírico. segundo esse eu lírico, como deve ser vivida a vida? a vida deve ser vivida de modo simples e nobre, sem buscar explicação para ela, sem se importar com as dores. 2	o que os deuses ensinam ao eu lírico? a viver simplesmente, sem refletir sobre a existência. 3	observe a composição do poema. a)	quantas são as sílabas poéticas de cada verso? b)	apenas um verso contém maior número de sílabas. identifique-o. considere seu conteúdo e explique por que ele é maior que os demais. 4	note que, quanto à forma, a construção poética de ricardo reis se diferencia da adotada por alberto caeiro. a biografia de ambos explica a diferença. volte à seção antes de ler e justifique a maior for-malidade poética de ricardo reis. 5	como você viu na seção antes de ler, alberto caeiro é considerado mestre dos demais heterônimos de fernando pessoa. a)	copie no caderno os versos do poema de ricardo reis que revelam a influência de alberto caeiro. b)	esses versos revelam que a influência exercida está no campo da forma (composição dos versos, métrica, rimas, etc.) ou no campo do conteúdo (visão de mundo do poeta)? desenvolvendo habilidades leitoras para interpretar o texto, você: identificou e analisou comparações presentes nos versos do poema;  identificou e comparou a visão de mundo de cada eu lírico, constatando semelhanças  (influên­cias) e diferenças; comparou a forma e o conteúdo dos dois poemas.  texto 3 o poema a seguir é do próprio fernando pessoa. observe os pontos comuns com os poemas estudados e procure identificar uma característica que o singularize. chove? nenhuma chuva cai… então onde é que eu sinto um dia em que o ruído da chuva atrai a minha inútil agonia, onde é que chove, que eu ouço? onde é que é triste, ó claro céu? eu quero sorrir-te, e não posso, ó céu azul, chamar-te meu… são cinco sílabas poéticas: trata-se de uma composição poética chamada redondilha menor ou versos pentassílabos. 	 o terceiro verso da quarta estrofe: “a resposta está além dos deuses”. esse verso é a síntese do projeto de vida exposto pelo eu lírico: se a resposta para todas as questões, inclusive as da própria existência, está além dos deuses, não há por que pensar nisso. o ideal é viver o que a vida oferece simplesmente. 	 além de ter formação cultural bastante sólida, ricardo reis conhece a literatura greco-latina clássi-ca, que influencia sua composição poética. “mas serenamente / imita o olimpo / no teu coração / os deuses são deuses / porque não se pensam” essa influência está no campo do conteúdo. é como se ricardo reis também quisesse encontrar uma explicação para a existência por meio de uma entrega à vida menos defensiva, por meio de uma anulação do pensar e de uma exaltação do viver simplesmente. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  38 4/15/10  2:25:38 pm</Page><Page Number="41">capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal  39 e o escuro ruído da chuva é constante em meu pensamento. meu ser é a invisível curva traçada pelo som do vento… e eis que ante o sol e o azul do dia, como se a hora me estorvasse, eu sofro… e a lua e a sua alegria cai aos meus pés como um disfarce. ah, na minha alma sempre chove. há sempre escuro dentro em mim. se escuto, alguém dentro em mim ouve a chuva, como a voz de um fim… quando é que eu serei da tua cor, do teu plácido e azul encanto, ó claro dia exterior, ó céu mais útil que o meu pranto? pessoa, fernando. poesias, cit. interpretação do texto  prof.(a), se considerar conveniente, resolva as questões a seguir oralmente. 1	o estado de espírito do eu lírico do poema em estudo é bem diferente do estado de espírito do eu lírico de cada um dos poemas vistos antes. que diferença é essa? 2	está clara no poema a oposição entre o mundo interior do eu lírico e a paisagem que o envolve. em que consiste essa oposição? 3	levante hipóteses: por que o eu lírico considera sua agonia inútil?  4	por mais que o eu lírico não deseje que esse sentimento de tristeza o invada, ele persiste na imagem de inútil agonia, procurando descrevê-la com detalhes. observa-se, portanto, um eu lírico já voltado para a análise das sensações (diferente de caeiro, que pretende apenas sentir sem pensar). no contexto de pessoa, o pensar (renegado por caeiro) ganha importância, não só ao se observar um estado interior, mas também na organização formal do poema. observe que a exposição dessa tristeza não se dá de forma espontânea, há uma preocupação formal de construção. analise o poema quanto à forma: a)	indique o número de estrofes, de versos em cada estrofe, número de sílabas poéticas e esquemas de rimas. b)	há outras duas características na construção desse poema que lhe dão grande beleza musical: 1. os acentos (sílabas tônicas) caem sobre a quarta sílaba, dando ênfase na quarta e na última sílabas tônicas de cada verso; 2. em várias estrofes há enjambement ou cavalgamento: transferência da pausa métrica de um verso para a primeira sílaba do verso seguinte (a unidade sintática excede o limite de um verso e “monta” o próximo), tornando a leitura mais fluida e reforçando um dado do poema. levando isso em conta, em casa releia o poema em voz alta, observando seus acentos, respeitando a pontuação contida no interior das estrofes, dando ênfase aos enjambements, para observar a fluidez e a sonoridade dos versos. observa-se nesse eu lírico um estado de intensa melancolia, a tristeza toma conta dele. o eu lírico dos poemas anteriores vive a convicção de seus pensa-mentos, o primeiro sabe exatamente o que quer; o segundo confia em algo maior que ele, e isso lhe dá segurança suficiente para pregar uma vida simples e acreditar que é possível manter-se além da dor. 	 fora o céu está azul e plácido; no interior do eu lírico, no entanto, chove; na escuridão, o ruído da chuva atrai sua agonia. prof.(a), o fundamental nesta questão é o aluno compreender que o eu lírico não só não vê solução para sua agonia, como também não vê nela uma utilidade, ou seja, para ele nada se tira do sofrimento. são seis estrofes, compostas de quatro versos cada uma. cada verso conta com oito sílabas poéticas. cada estrofe conta com o esquema de rimas abab. prof.(a), é fundamental que o aluno, sempre que possível, analise a forma do poema, para não se esquecer de que, mesmo que não desejem dar muita ênfase aos aspectos formais do poema, os poetas dominam os recursos de construção e lançam mão deles quando acham isso conveniente. prof.(a), se preferir, faça você mesmo uma leitura em voz alta do poema ou peça que alguns dos alunos a façam. estorvar: importunar, incomodar. plácido: sereno, suave. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  39 4/15/10  2:25:38 pm</Page><Page Number="42">40  unidade 1 texto 4 o tom deste poema, do heterônimo álvaro de campos, é bastante diferente do que observa-mos nos poemas dos demais heterônimos. observe os recursos usados por ele para deixar clara sua grande insatisfação. lisbon revisited (1923) 	 álvaro de campos não: não quero nada. já disse que não quero nada. não me venham com conclusões! a única conclusão é morrer! não me tragam estéticas! não me falem em moral! tirem-me daqui a metafísica! não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas das ciências (das ciências, deus meu, das ciências!) — das ciências, das artes, da civilização moderna! que mal fiz eu aos deuses todos? se têm a verdade, guardem-na! sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. com todo o direito a sê-lo, ouviram? não me macem, por amor de deus! queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. assim, como sou, tenham paciência! vão para o diabo sem mim, ou deixem-me ir sozinho para o diabo! para que havemos de ir juntos? marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  40 4/15/10  2:25:40 pm</Page><Page Number="43">capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal  41 não me peguem no braço! não gosto que me peguem no braço. quero ser sozinho. já disse que sou sozinho! ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! ó céu azul — o mesmo da minha infância — eterna verdade vazia e perfeita! ó macio tejo ancestral e mudo, pequena verdade onde o céu se reflete! ó mágoa revisitada, lisboa de outrora de hoje! nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. deixem-me em paz! não tardo, que eu nunca tardo… e enquanto tarda o abismo e o silêncio quero estar sozinho! pessoa, fernando, o guardador..., cit. interpretação do texto 1	contra o que o eu lírico do poema “lisbon revisited (1923)” esbraveja? 2	observe a pontuação do texto, o número de sílabas poéticas em cada verso e outros elementos expres-sivos do poema. indique quais são os recursos poéticos usados para traduzir a insatisfação. 3	para quem o eu lírico fala? para a sociedade da qual faz parte, que cobra comportamentos previsíveis para melhor avaliar as pessoas. 4	a sensação de estar no mundo de álvaro de campos assemelha-se à de fernando pessoa (ortônimo). a)	justifique essa afirmação. notam-se, nos dois, uma sensação de inadequação e a constatação da falta de sentido da vida. b)	há, no entanto, uma diferença no modo de experimentar e de expor essa sensação. nos poemas isso aparece tanto no plano do conteúdo como no plano de forma. aponte essa diferença. para entender o modernismo português vanguardas europeias e o cenário do modernismo a arte moderna rompe com os valores artísticos dos séculos anteriores. esse novo modelo artístico é impulsionado pelas vanguardas europeias do início do século xx, inquietas e revolucionárias, que represen-tam diversas tendências. daí os inúmeros manifestos artísticos que se lançam nesse período, procurando, em geral, defender uma arte mais livre do controle da razão e mais próxima da possibilidade de representar a vida em movimento. entre os inúmeros movimentos inovadores dessa época, destacam-se os seguintes: o eu lírico esbraveja contra um padrão de vida, contra certos valores fixos da sociedade da qual faz parte: casamento, trabalho, pagamento de impos-tos; contra a necessidade de encontrar um sentido maior para sua vida. a pontuação vigorosa, cheia de pontos de exclamação; a opção por versos livres; os inúmeros versos iniciados pelo adverbio “não”; a comunicação direta e agressiva com o interlocutor; o uso de vocabulário que expressa impaciência e intolerância. fernando pessoa é mais triste, melancólico, sua poesia traz quase que um inconformismo resignado. isso se traduz na forma racional como or-ganiza sua mensagem: os versos são musicais, a métrica e os esquemas de rima são fixos. no poema de álvaro de campos, o inconformismo é 	 expresso de forma excessiva, espontâ-nea; os versos livres, a pontuação, a enu-meração de aborrecimentos colaboram para o reforço dessa ideia. maçar: aborrecer com repetição ou conversa enfadonha. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  41 4/15/10  2:25:41 pm</Page><Page Number="44">42  unidade 1 expressionismo queremos expressar nosso mundo interior. nossas sensações!!! visionários, queremos liberar as energias humanas acumuladas! abaixo as preocupações banais do mundo industrial! cubismo pela destruição das imagens convencionais e estáticas! queremos retratar a fragmentação do mundo de hoje! buscamos a ironia e a perturba-ção na obra. colamos nela recortes de jornais, bilhetes, pedaços de tecidos, letras impressas! futurismo acreditamos na coragem! na revolta! no perigo! amamos a velocidade! o mundo moderno feito por máquinas! edvard munch/nasjonalgalleriet, oslo o grito, de edvard munch, 1893. essa tela seria a principal influência para os artistas do expressionismo. formado na alemanha por volta de 1904, esse movimento tem como intenção principal retratar, na obra de arte, as sensações do artista. observe como, em contraste com as linhas finas, as pinceladas grossas, sinuosas e em cores fortes de munch parecem ecoar o assunto do quadro: o grito, produzido pela personagem meio fora do centro do quadro. pablo picasso/the museum of modern art, nova iorque les demoiselles d’ avignon, de pablo picasso, 1907. esse quadro simboliza bem as ideias cubistas: rompe com a perspectiva renascentista e procura uma solução para o problema do artista plástico de então: como, num único quadro, dar a ideia de vários olhares sobre uma mesma figura? para atingir esse objetivo, picasso propõe decompor e recompor a figura em seus vários ângulos, simultaneamente. observe, por exemplo, a mulher à direita, na parte mais baixa da obra: seu rosto está de frente, o nariz de perfil, cada olho parece ser visto de um ângulo diferente. velocidade abstrata, de giacomo balla, 1913-1914. observe como balla dá ideia de velocidade: com poucas cores, misturando planos e dimensões (repare no caracol que permeia todo o quadro com as cores azul e branco e como a pintura ultrapassa as bordas da tela), constrói a impressão de movimento. assim, esse artista procura responder à questão futurista: como representar, num meio fixo, como uma tela, a velocidade? trata-se de uma preocupação do futurismo, cujo primeiro manifesto foi publicado em paris, 1909, pelo italiano marinetti, líder do movimento. esse movimento se aproximaria do fascínio na década de 1920. giacomo balla/guggenheim museum, nova iorque vpem3_un1_cap02_032a052.indd  42 4/15/10  2:25:49 pm</Page><Page Number="45">capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal  43 surrealismo abaixo a razão! queremos ser livres nos guiar pelo inconsciente! viva a loucura! pela escrita automática escrevemos sem pensar! o modernismo, que começa a se formar a partir dessas primeiras tendências, misturando-as, expressa uma nova forma de o homem ocidental observar, sentir e interpretar a vida experimentada nas cidades do início do século xx. o espírito moderno é produto das ambíguas experiências que o ser humano passa a vivenciar — as metrópoles oferecem ao indivíduo diversas possibilidades de realização pessoal, intelectual, amorosa, econômica, etc., ao mesmo tempo que desencadeiam sensações de desconforto, insatisfação, solidão e desespero existencial. o panorama europeu que constitui o centro das preo-cupações expressas nas artes é formado pelos vertiginosos acontecimentos da primeira guerra mundial e da revolução russa, que aceleram a ruptura com as ideias do passado, e pela radicalização, tanto ideológica quanto estética, de uma série de inovações. a revolução russa os desastres dos exércitos russos na primeira guerra mundial levam o czarismo ao colapso. em 1917 um governo republicano de coalizão assume o comando do país. a continuação dos conflitos, entretanto, gera descontentamento popular. revoltas de soldados irrompem, e o pequeno partido bolchevique — composto de intelectuais e lideranças proletárias — aproveita-se da crise para, em outubro desse ano, desferir com sucesso um golpe contra a democracia russa. sob o comando de lenin, bandeiras vermelhas tremulam nas ruas, divulgando o desejo de “pão, terra e liberdade”. o levante bolchevista encontra apoio entre os soldados de baixas patentes, nas camadas médias e pobres da população. os sovietes — conselhos de trabalhadores que tomam fábricas, fazendas, quartéis e repartições — promovem por toda a rússia a chamada revolução russa. trotski negocia um acordo em separado com a alemanha, retirando seu país da guerra. se essa revolução representava a possibilidade de concretizar o sonho de quem acreditava nos ideais socialistas e na classe trabalhadora no poder, ela também amedrontava a burguesia. isso colaborou para destruir a confiança nos valores e na estabilidade do mundo ocidental como ele então era conhecido. salvador dalí/metropolitan museum of art, nova iorque a persistência da memória, de salvador dalí, 1931. na obra desse famoso representante do surrealismo, observe o clima de fantasia e sonho nessa representação da memória, na figura de relógios que derretem sob um céu azul, em meio à areia de um deserto. esse movimento teve início na década de 1920, sob a liderança de andré breton, e envolveu poetas e artistas plásticos que, em parte influenciados pelas descobertas de freud, se interessavam em desenvolver as possibilidades do inconsciente. entre 1914 e 1918, as grandes potên-cias europeias envolvem-se num con-fronto, a primeira guerra mundial, desencadeado pela ambição imperialista. divulgada como uma aventura sem pre-cedentes, a guerra leva pais a alistarem seus filhos, reservistas a afluírem aos postos de recrutamento voluntário. com o morticínio que ocorre de fato, a eufo-ria e a autoconfiança cedem lugar ao desespero e à crise generalizada. a ideia da europa como modelo de civilização e de progresso, acalentada pelo espírito da belle époque, começa a ruir. vpem3_un1_cap02_032a052.indd  43 4/15/10  2:25:51 pm</Page><Page Number="46">44  unidade 1 portugal portugal vivia o período inicial da república, proclamada em 1910, em que atuam dois grupos: os que aceitam a república (partido democrático) e os inconformados, que fundam o integralismo português, responsável pelo desencadeamento das reações políticas que levariam o país à ditadura em 1928. essa situação provoca discussões e em muitos fortalece o espírito nacionalista. no poder, os integralistas convidam, para desenvolver uma política de medidas austeras, o professor de finanças da universidade de coimbra, antônio de oliveira salazar. ao assumir o poder em 1928, salazar dá início a uma ditadura que só terminaria com a revolução dos cravos, em 1974. o movimento modernista português costuma ser dividido em duas fases: o orfismo, iniciado em 1915, com a publicação da revista orpheu, e o presencismo, iniciado em 1927, com o lançamento da revista presença. meio de comunicação mais significativo desse período, as revistas literárias foram as responsáveis por informar, divulgar, valorar e consagrar o que se produziu em literatura nessa época. primeiro modernismo em portugal (1915-1927) lançada em 1915, a revista orpheu decreta o fim dos valores artísticos do século xix. é por meio dela que o século xx e suas experimentações literárias ganham espaço em portugal. nos textos de dois de seus participantes, como fernando pessoa e mário de sá-carneiro, já se identificavam aspectos que marcariam a literatura modernista. movimento típico de lisboa, o orfismo se organiza com o objetivo de escandalizar o burguês. os artistas afirmavam-se contra o provincianismo e a literatura estereotipada dos períodos anteriores. embora tenha chocado a sociedade, o orfismo não conquistou grande público. segundo modernismo em portugal (1927-1940) a revista presença, por sua vez, inaugura um período de ceticismo em relação aos ideais republicanos. o objetivo de seus integrantes é dar continuidade ao projeto de modernidade iniciado com a orpheu, mas sem os radicalismos que marcaram essa publicação e chocaram a burguesia. josé régio, grande escritor português da época, é um dos fundadores da revista e sua obra repre-senta as tendências do grupo: inclinação ao psicologismo, reflexão filosófica, seguindo a tendência europeia geral. características do modernismo português crise de valores e necessidade de provocação a obra do primeiro momento modernista apresentava-se estranha e alienada, evidenciando uma crise de valores. a poesia repudiava toda ideia pronta, só aceitava a anarquia. essa poesia se queria chocante, irreverente. para ser moderno, o poeta precisava romper com o passado. a contradição entre o cosmopo-litismo modernista e o nacionalismo, de caráter simbolista, ainda era grande. página de rosto do primeiro número da revista orpheu, na qual começa a ganhar corpo a característica fundamental do primeiro modernismo português: o espírito contraditório. banco de imagens/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  44 4/15/10  2:25:52 pm</Page><Page Number="47">capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal  45 reconciliação de opostos a ideia de unir os opostos não era nova. a novidade estava em tentar conciliá-los. a intenção fundamental dos modernistas portugueses era estabelecer a mais íntima relação entre os contrários da vida. o poeta pretende-se os dois opostos, como observamos neste trecho de poema de mário de sá-carneiro: eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio: 	 pilar da ponte de tédio 	 que vai de mim para o outro. sá-carneiro, mário de. in: moisés, massaud. presença da literatura portuguesa.  2. ed. são paulo: difusão europeia de livros, 1971. principais autores fernando pessoa fernando pessoa (1888-1935) nasceu em lisboa. vai para a áfrica do sul com a mãe e o padrasto aos cinco anos e vive em durban até concluir o colégio inglês. de volta a lisboa, começa a frequentar a faculdade, mas não conclui os estudos. um dos produtores de orpheu, pessoa dirige o segundo número da revista, que define as características do movimento. o artista publica em vida apenas um livro, mensagem, ganhando com ele o segundo lugar no concurso instituído pelo secretariado de propaganda nacional de lisboa. fernando pessoa, um dos maiores nomes da literatura portuguesa, reúne em sua produção caracterís-ticas de marcantes nomes das letras de seu país, como camões, bocage, camilo pessanha. em camões, por exemplo, que cantou as glórias de portugal, pessoa vê a inspiração maior para seu projeto de valorizar a cultura do país. homem de seu tempo, pessoa cria um modelo próprio para transmitir a conturbação do século xx. soube como ninguém casar tradição com modernidade, tradição com angústia pré-guerra. deu voz às grandes inquietações, aos medos e aos sentimentos mais obscuros do homem do início do século e sua nova organização social. almada negreiros/museu da cidade de lisboa retrato de fernando pessoa, de almada negreiros, 1954. experimentando nas artes plásticas e na poesia muitas das possibilidades abertas pelas vanguardas do início do século xx, almada negreiros foi o modernista mais radical do grupo da orpheu. vpem3_un1_cap02_032a052.indd  45 4/15/10  2:25:54 pm</Page><Page Number="48">46  unidade 1 heteronímia em um processo muito singular na literatura portuguesa, fernando pessoa multiplica-se, divide-se e cria os heterônimos. estes caracterizam-se por serem outras pessoas: têm identidade própria. por meio deles, pessoa consegue ver e sentir o que outros sentem. formas arquetípicas representam padrões ou modelos de diversos tipos de indivíduos. de alguma maneira, em geral é possível se identificar com um de seus heterônimos mais conhecidos: álvaro de campos (revoltado, representa o homem em desespero), ricardo reis (humanista, representa a valorização dos ideais greco-latinos) e alberto caeiro (apegado à natureza e à simplicidade, representa o homem que se recusa a racionalizar). sobre esse fenômeno, leia um trecho de carta (de 1935) de pessoa a adolfo casais monteiro: aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio - me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo álvaro de campos, mas num estilo de meia regularidade) e abandonei o caso. […] ano e meio, ou dois anos depois, lembrei - me um dia de fazer uma partida ao sá - carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar - lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de março de 1914 —, acerquei - me de uma cómoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. e escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. abri com o título guardador de rebanhos. e o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome alberto caeiro. desculpe - me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. foi essa a sensação imediata que tive. e tanto assim que, escrito que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a chuva oblíqua, de fernando pessoa. imediatamente e totalmente. […] aparecido alberto caeiro, tratei logo de lhe descobrir […] uns discípulos. arranquei do seu falso paganismo o ricardo reis latente, descobri - lhe o nome e ajustei - me a si mesmo, porque nessa altura já o via. e, de repente, e em derivação oposta à de ricardo reis, surgiu - me impetuosamente um novo indivíduo. num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a ode triunfal de álvaro de campos — a ode com esse nome e o homem com o nome que tem. disponível em: www.cfh.ufsc.br/magno/frames.html. acessado em 6 mar. 2008. mantivemos a acentuação e a grafia original. mário de sá-carneiro o lisboeta mário de sá-carneiro (1890-1916), filho de um engenheiro bem-sucedido, em 1912 publica seu primeiro livro de contos: princípio. em 1914 entra em contato com fernando pessoa e outros artistas portugueses, fundando a revista orpheu. aos 25 anos suicida-se. o escritor tem uma produção significativa — contos, narrativas, poesia, teatro — em apenas quatro anos de criação. é quase impossível separar o que produziu do que viveu. sá-carneiro era excessivamente sensível para trabalhar os sentimentos com certo distanciamento. sentia- -se alheio à vida, sem aptidão para o mundo diante dele. assim, o poeta volta-se para si mesmo e vive em quase total solidão. sua obra revela um eu lírico depressivo, derrotado, sem existência material — alma perdida num labirinto à procura de um eu mais profundo. vpem3_un1_cap02_032a052.indd  46 4/15/10  2:25:56 pm</Page><Page Number="49">capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal  47 epígrafe 	 mário de sá-carneiro a sala do castelo é deserta e espelhada. tenho medo de mim. quem sou? de onde cheguei?… aqui, tudo já foi… em sombra estilizada, a cor morreu — e até o ar é uma ruína… vem de outro tempo a luz que me ilumina — um som opaco me dilui em rei… sá-carneiro, mário de. poesia.  são paulo: iluminuras, 1995. florbela espanca figura feminina relevante da literatura portuguesa do período, florbela espanca (1894-1930) não rece-beu o devido reconhecimento em vida. acusada de imoral, foi discriminada pela sociedade burguesa. marcados por fortes impulsos eróticos, sentimentos de paixão incontrolável, confidências amorosas, seus sonetos apresentam o drama de um eu lírico em busca de emoção. amar! 	 florbela espanca eu quero amar, amar perdidamente! amar só por amar: aqui… além… mais este e aquele, o outro e toda a gente amar! amar! e não amar ninguém! recordar? esquecer? indiferente!… prender ou desprender? é mal? é bem? quem disser que se pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente! há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se deus nos deu voz, foi pra cantar! e se um dia hei-de ser pó, cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder… pra me encontrar… espanca, florbela. poemas de florbela espanca.  são paulo: martins fontes, 1996. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  47 4/15/10  2:25:57 pm</Page><Page Number="50">48  unidade 1 sintetizando as vanguardas europeias e  o modernismo português copie o esquema a seguir no caderno e complete-o com base no que foi estudado no capítulo:  historicamente, o mundo vivia no início do século xx a revolução russa e o início da primeira guerra mundial. são características do modernismo português: a) crise de valores e necessidade de provocação: a poesia repudiava toda ideia pronta, só aceitava a anarquia. era chocante, irreverente. para ser moderno, o poeta precisava romper com o passado. b) reconciliação de opostos: a ideia era tentar conciliá-los. as vanguardas europeias representavam 	 tendências artísticas inquietas e revolucionárias que defendiam uma arte mais livre do controle da razão e mais próxima da possibilidade de representar a vida em movimento. os escritores mais importantes do período são: fernando pessoa e mário de sá-carneiro. desafo responda às questões no caderno. 1	(uel-pr, 2006) em 1924, os surrealistas lançaram um manifesto no qual anunciaram a força do incons-ciente na criação de novas percepções. valorizavam a ausência de lógica das experiências psíquicas e oníricas, propondo novas experiências estéticas. sobre o surrealismo, é correto afirmar: a)	acredita que a liberação do psiquismo humano se dá por meio da sacralização da natureza. b)	baseia-se na razão, negando as oscilações do temperamento humano. c)	destaca que o fundamental, na arte, é o objeto visível em detrimento do emocionalismo subjetivo do artista. d)	concede mais valor ao livre jogo da imaginação individual do que à codificação dos ideais da socie-dade ou da história. x 2	(uel-pr, 2007) a questão refere-se a uma estrofe, transcrita abaixo, do poema de fernando pessoa. mar português 	 fernando pessoa ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de portugal! por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram! quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar! valeu a pena? tudo vale a pena se a alma não é pequena. quem quer passar além do bojador tem que passar além da dor. deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu. fonte: pessoa, f. mensagem. in: mensagem e outros poemas afins seguidos de  fernando pessoa e ideia de portugal. mem martins: europa-américa [19-]. prof.(a), aceite outras possibilidades de resposta, desde que coerentes com o que foi estudado. prof.(a), as questões de vestibular usadas nesta seção, em geral, foram transcritas literalmente, pois buscamos preservar sua configuração original. vpem3_un1_cap02_032a052.indd  48 4/15/10  2:25:57 pm</Page><Page Number="51">capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal  49 com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema, a frase tudo vale a pena se a alma não é pequena remete a: a)	se o objetivo é a grandeza da pátria, não importam os sacrifícios impostos a todos. x b)	quando o resultado leva à paz, os meios justificam a finalidade almejada. c)	todas as pessoas têm valores próprios, por isso a guerra é defendida pelos governantes. d)	o sacrifício é compensador mesmo que fiquemos insensíveis diante do bem comum. comparando textos no poema “poética”, o modernista brasileiro manuel bandeira desenvolveu provocações. é possível traçar um paralelo entre esse texto e o poema “lisbon revisited (1923)”, de álvaro de campos, na página 40. leia “poética” com atenção: poética 	 manuel bandeira estou farto do lirismo comedido do lirismo bem-comportado do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e  	 manifestações de apreço ao sr. diretor estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo  	 de um vocábulo abaixo os puristas todas as palavras sobretudo os barbarismos universais todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção todos os ritmos sobretudo os inumeráveis estou farto do lirismo namorador político raquítico sifilítico de todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. […] quero antes o lirismo dos loucos o lirismo dos bêbados o lirismo difícil e pungente dos bêbados o lirismo dos clowns de shakespeare — não quero mais saber do lirismo que não é libertação. bandeira, manuel. estrela da vida inteira. rio de janeiro: josé olympio, 1983. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un1_cap02_032a052.indd  49 4/15/10  2:25:58 pm</Page><Page Number="52">50  unidade 1 1	relacione os versos de manuel bandeira com os de álvaro de campos. escreva a resposta no caderno. poética lisbon revisited 1. ”estou farto do lirismo comedido” “não me tragam estéticas!” 2 2. ”abaixo os puristas” “não me macem, por amor de deus!”; “ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!” 1 2	observe os verbos destacados em alguns versos e responda às questões no caderno. poética lisbon revisited “estou farto do lirismo comedido” “não me venham com conclusões!” “estou farto do lirismo namorador” “não me falem em moral!” “quero antes o lirismo dos loucos” “tirem-me daqui a metafísica!” “não quero mais saber do lirismo que não é libertação” “não me macem, por amor de deus!” a)	qual o modo verbal predominante em cada poema? b)	o sentimento de imposição e exigência do poema “lisbon revisited” (expresso pelo modo verbal imperativo) encontra correspondência, no poema “poética”, em algumas expressões. quais seriam essas expressões? “estou farto”; “quero” c)	o modo verbal empregado em “lisbon revisited” e as expressões correspondentes em “poética” revelam um mesmo estado de espírito. qual? cansaço do eu lírico e desejo de mudança.  x alegria do eu lírico e desejo de mudança.  tristeza do eu lírico e desejo de mudança.  3	o poema de álvaro de campos está mais próximo do lirismo rejeitado ou do lirismo desejado por manuel bandeira? justifique sua resposta. e por falar em vanguardas europeias… certamente, você conhece alguns movimentos artísticos ou de jovens que querem chamar a atenção das pessoas para o que fazem. ora esses movimentos agradam, ora desagradam, ora chegam mesmo a provocar reações inesperadas das pessoas. foi uma situação assim que ocorreu no início do século xx, na europa, quando surgiram os movimentos de vanguarda. os artistas eram considerados por muitos como inadequados, atrevidos, e a obra deles era pouco compreendida. não se pode negar, no entanto, que a arte produzida por eles também era valorizada por muita gente. você vai conhecer agora uma ideia chamada craftivism. ela foi idealizada pela norte-americana betsy greer e defende o artesanato como forma de protesto. segundo a criadora, esse movimento nasce de um contexto específico, ou seja, é a situação vivida na atualidade que a motivou a pensar em uma atitude desse tipo. leia uma entrevista que betsy greer concedeu à revista vida simples para saber o que é esse movimento: em “poética”, os verbos têm marcas do modo indicativo; em “lisbon revisited”, predomina o modo imperativo. está mais próximo do lirismo desejado por bandeira. influenciados pelas vanguardas europeias, campos e bandeira recusam a forma ortodoxa de produção poética; o esbravejar de campos está mais próximo do lirismo dos loucos e dos bêbados, ao gosto de bandeira. vpem3_un1_cap02_032a052.indd  50 4/15/10  2:25:58 pm</Page><Page Number="53">capítulo 2 – vanguardas europeias e o 1º- momento do modernismo em portugal  51 craftivism 	 priscilla santos o que é craftivism? é um conceito que vem da união das palavras craft (arte-sanato) e ativism (ativismo). lancei essa ideia porque acredito que o trabalho manual pode ser usado como uma forma não tradicional de protesto. ao segurar um cartaz de “não à guerra” em uma esquina, há grandes chances de você não conseguir engajar ninguém em uma conversa produtiva em torno do tema. mas, quando você tricota amesmamensagememum sweater, as pessoas pensam: “espera aí. por que essa pessoa fez isso em sua roupa? por estilo? por revolta?”. isso possibilita outro modo de ativismo, menos de confronto e mais de engajamento. existe uma reação ao hiperconsumismo? o materialismo e o consumismo desenfreados têm tudo a ver com o aumento do interesse por produtos artesanais. as pessoas estão começando a se questio-nar sobre como e por quem os produtos são realmente feitos e de onde vêm as matérias-primas. quando você começa a fazer cachecóis e chapéus, subitamente percebe que é necessário muito mais dinheiro para fazer essas peças do que para comprá-las. por quê? como isso se torna viável economicamente? nos damos conta de que em algum lugar alguém não está sendo justamente pago por seu trabalho ou os materiais são de baixa qualidade. manufaturar é um ato político na medida em que desaponta o atual sistema de consumo. em vez de ir ao shopping comprar os cachecóis “do momento”, estamos fazendo os nossos próprios. revista vida simples, fev. 2010. em grupo, conversem sobre o contexto social em que vocês vivem. o que a sociedade está enfrentan-  do? o que vocês poderiam fazer? de que movimento a sociedade precisaria? pensem e discutam sobre essas questões. em seguida, criem um movimento, um conceito, uma ideia. deem um nome a ele e pensem no que esse movimento poderia propor. depois das discussões e das decisões tomadas, comecem a produção de um texto como o que vocês leram sobre craftivism: primeiro, respondam à questão: o que é…? em seguida, elaborem uma pergunta que represente a situação para a qual o movimento de vocês seria a resposta. por exemplo: seria uma resposta à violência? no mundo da oralidade depois de elaborado o texto, apresentem à classe o conceito, a ideia, o movimento criado por vocês.  para a apresentação oral, produzam: trechos expositivos, em que fique clara a ideia do movimento, o que é essa ideia e em que vocês  acreditam; trechos argumentativos, em que defendem a opinião de vocês. lembrem-se de usar argumentos,  ideias convincentes e reais para a classe aceitar o movimento que vocês criaram. usem como exem-plos notícias, dados numéricos, falas de autoridades, trechos de músicas, etc. o ideal é que vocês usem uma variedade linguística mais formal, não brinquem e tenham objetividade. autora do livro knitting for good (tricô pelo bem, em livre tradução), a norte-americana betsy greer acredita que os trabalhos artesanais podem mudar o mundo. betsy greer/www.etsy.com vpem3_un1_cap02_032a052.indd  51 4/15/10  2:25:59 pm</Page><Page Number="54">52  unidade 1 aproveite para… … ler as vanguardas artísticas  , de mário de micheli, editora martins fontes o livro comenta as correntes artísticas que, no início do século xx, marcam a ruptura com a arte do passado. poemas de florbela espanca — estudo introdutório  , de florbela espanca, editora martins fontes obra com diversos poemas da escritora portuguesa. a confissão de lúcio  , de mário de sá-carneiro, editora núcleo acusado de matar um homem, lúcio passa dez anos na prisão. poesias  , de fernando pessoa, editora l&amp;pm poemas de fernando pessoa e seus principais heterônimos. o ano da morte de ricardo reis  , de josé saramago, editora companhia das letras o heterônimo ricardo reis se confronta com os acontecimentos históricos de 1936. fernando pessoa, o menino da sua mãe  , de amélia pinto pais, editora cia. das letras livro composto de duas partes. na primeira, a autora dá voz à personagem fernando pessoa, que conta sua história numa espécie de autobiografia. na segunda, são apresentados poemas que tratam da infância e dos heterônimos de fernando pessoa. … assistir reds  , de warren beatty (eua, 1981) baseado na história do jornalista norte-americano john reed, que vai à rússia para escrever sobre a revolução de 1917. metrópolis  , de fritz lang (alemanha, 1927) em metrópolis, no ano 2026, os indivíduos dividem- -se em duas castas: a dos intelectuais e a dos operários. nesse cenário, o filho do prefeito se apaixona por uma operária. m, o vampiro de düsseldorf  , de fritz lang (alemanha, 1931) um misterioso infanticida leva o terror à cidade de düsseldorf, na alemanha. a polícia local não consegue capturar o serial killer; então um grupo de marginais se une para encontrar o assassino. … ver na internet www.vestibulandoweb.com.br/vestibular-obras-completas.asp  textos de fernando pessoa, florbela espanca e mário de sá-carneiro. www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/seculoxx/modulo1/mapeamentos/index.html  mapeamento das vanguardas europeias do início do século xx, com links para mais informações sobre cada escola. everett collection/keystone vpem3_un1_cap02_032a052.indd  52 4/15/10  2:26:00 pm</Page><Page Number="55">unidade 2 tecendo conversas nesta unidade, você vai conhecer o gênero entrevista e a produção poética e em prosa das duas primeiras gerações do modernismo brasileiro. o capítulo 1 mostra como as entrevistas se estruturam e se constroem. assim, você poderá perceber, por exemplo, esse mesmo objetivo de interlocução entre os poetas modernistas: “e agora, josé?”. robert daly/stone/getty images 53 são muitos os elementos que podem nos remeter ao gênero entrevista: um microfone, uma câmera de tv (as ferramentas), um grupo de fãs (o público), uma figura pública (o entrevistado), uma repórter (a entrevistadora). mas um elemento é fundamental: o diálogo. assim, é por meio de uma conversa direcionada – um interlocutor tem muito para falar e o outro, pronto para ouvi-lo, traz uma lista de perguntas a fazer – que se estrutura a entrevista. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  53 4/15/10  2:28:32 pm</Page><Page Number="56">1 capítulo a entrevista 54  unidade 2 antes de ler você vai ler duas entrevistas cujas partes foram separadas e misturadas. sua tarefa é relacionar entre-  vistados, perguntas e respostas. observe também se há uma ordem mais adequada para se organizar as questões de cada texto. prof.(a), o objetivo desta seção é desenvolver a habilidade de fazer inferências, relacionar informações, fornecer ao aluno uma oportunidade de observar a situação de produção de determinado gênero textual. as características da entrevista serão trabalhadas ao longo do capítulo e não nesta seção. francisco weffort, cientista político e ex-ministro da cultura do governo de fernando henrique cardoso, entrevistado pela revista vida simples, em novembro de 2006. gilles lipovetsky, professor de filosofia e sociólogo francês, um dos mais importantes teóricos da modernidade e da pós-modernidade, entrevistado pela revista vida simples, em novembro de 2005. as perguntas feitas 1. o que é hipermodernidade? 2. o que é a política em sua essência? 3. além das eleições, quando o cidadão pode participar? 4. quais as consequências disso? 5. por isso procuramos cada vez mais respostas na filosofia? 6. e na comunidade? 7. como assim? 8. a história política brasileira estimula a participação das pessoas? os entrevistados e os suportes das entrevistas niels andreas/folha imagem/folhapress revista simples/editora abril martin bureau/agence france-presse revista simples/editora abril vpem3_un2_cap1_053a079.indd  54 4/15/10  2:28:33 pm</Page><Page Number="57">capítulo 1 – a entrevista  55 texto 1 a seguir, transcrevemos uma entrevista concedida pelo apresentador e humorista jô soares à revista veja. leia o texto com atenção e, além de observar o conteúdo das respostas, note também a formulação  das questões do entrevistador e como, indiretamente, ele deixa emergir sua própria opinião sobre os assuntos tratados. as respostas dos entrevistados a. é um tipo de ação que se compromete com a direção dos destinos da comunida-de. quando essa comunidade é um estado democrático ela se faz através de partidos. b. condomínios e associações de bairro são pequenas instituições políticas. se você mora em prédios caros, com poucos moradores, corre o risco de não poder pagar o condomínio, que é alto. então, ou você vai à reunião de condôminos ou vai ter que pagar a taxa sem chiar. o sujeito que decide os gastos é o que fala na reunião. isso é política. querendo ou não, você tem que exercê-la, ou pagará o preço da omissão. c. é um conceito que criei para falar da sociedade em que vivemos hoje, carac-terizada pelo crescimento do individualismo e da sociedade de mercado exacerba-da, onde todas as relações ficaram pautadas pelo consumo capitalista. 1 gilles d. as pessoas acabam ficando desorientadas, porque poucas décadas atrás éra-mos guiados verticalmente pela família e pela religião — essas instituições davam o norte. na globalização, o laço social se horizontalizou, os ideais se pulverizaram. se antes o problema existencial era “como vou chegar lá?”, hoje passou a ser “aonde devo ir, quem dá o caminho entre tantos possíveis?”. 4 gilles e. existem várias possibilidades de ação além do sistema institucional, dos partidos. sindicatos, revistas e jornais são meios de expressão política. se você não tem acesso a eles, pode lançar mão da literatura, da arte. com a internet, você escreve uma carta e distribui para o mundo. 3 francisco f. com o enfraquecimento da religião e das tradições, a filosofia virou um dos caminhos mais procurados para nos ajudar a encontrar a tal da felicidade. os antigos gregos já falavam que ela era a melhor maneira de a gente compreender o mundo, porque nos ensina a distinguir o essencial do que não é essencial. 5 gilles g. para mim, ela é útil para organizar as informações do mundo. mas ela não é solução para os problemas, como anunciam os livros de autoajuda. você tam-bém pode transformar seu mundo ao ler um romance, assistir a um bom filme ou mesmo conversar com alguém interessante. 7 gilles h. de 1985 para cá, sim. mas o que ocorre nos últimos anos é um desânimo nas pessoas. elas têm que começar a ler e ouvir sobre propostas de mudanças. vamos continuar com voto obrigatório? os governos devem gastar mais do que recebem? enfim, pensar sobre essas questões, pois um dia nós teremos que resolvê-las. revista vida simples, nov. 2005/2006. adaptado. 2 francisco 6 francisco prof.(a), as entrevistas, tal qual aparecem nas revistas, estão na ordem que segue: a de gilles lipovetsky: questões 1, 4, 5 e 7. a de francisco weffort: questões 2, 3, 6 e 8. se houver tempo, peça aos alunos que apresentem as marcas do texto que possibilitaram fazer a relação entre pergunta e resposta, apenas para enfatizar o caráter essencialmente dialógico da entrevista. 8 francisco vpem3_un2_cap1_053a079.indd  55 4/15/10  2:28:34 pm</Page><Page Number="58">56  unidade 2 rir é uma obrigação no ano que vem, jô soares comemora duas efemérides: meio século de carreira humorística, durante a qual criou cerca de 300 personagens, e duas décadas de seu talk-show, com 10 000 entrevistas realizadas — contadas aí suas fases no sbt e, atual-mente, na globo. [...] jô recebeu veja em seu apartamento para argumentar que rir do próprio país não é só uma vocação dos brasileiros — é quase obrigação. veja — uma das peculiaridades do humor brasileiro é a capacidade de fazer piada até com as maiores desgraças, e no momento em que elas estão acontecendo. isso é saudável? jô — é. é uma forma de exorcizar a tragédia. a denise fraga conta uma histó-ria que ilustra bem esse espírito nacional. certo dia, ela encontrou na secretária eletrônica uma mensagem da mãe: “filha, sua avó não está passando nada bem. ela está na capela 3 do cemitério são joão batista”. ela adorava a avó, mas caiu na gargalhada, claro. veja — será que às vezes o brasileiro não ri um pouco cedo demais e, assim, tolera acontecimentos políticos que não deveria tolerar? jô — acho que o riso, nesses casos, é uma manifestação de indignação, de falta de respeito. a primeira arma para desmoralizar um político é não respeitá-lo. veja — mas ainda dá para rir desse clima de corrupção e imoralidade? jô — você está falando de agora ou desde a descoberta do brasil? veja — vamos por partes. o brasil de hoje ainda tem graça? jô — o poder em si já é uma coisa ridícula. assim que o sujeito assume a presidência, colocam nele uma faixa que parece um suspensório torto. quando, ainda mais, acontecem canalhices como as que têm vindo à tona, é preciso exa-cerbar esse ridículo. [...] veja — o caso renan calheiros daria uma boa comédia? jô — o caso me choca ainda mais por ele ser senador, um cargo que desde a antiguidade clássica vem investido de um ideal superior. aí o cara tem uma aman-te, e tem gente que vem dizer que a vida particular não deve ser misturada à vida pública. ora, ele tem uma filha com essa moça, o que mostra a irresponsabilidade dos dois em transar sem camisinha. [...] por que uma pessoa que é incapaz de pra-ticar sexo seguro não levará essa irresponsabilidade para a vida pública? [...] veja — qual é o espaço da baixaria no humor? jô — o importante é não excluí-la. existem baixarias que são de rolar de rir, mas são também críticas contundentes. no borat, por exemplo, aquela cena em que ele e o produtor obeso rolam nus na cama é horripilante — e hilariante. não existe mau gosto em comédia. mau gosto é uma convenção. hoje significa uma coisa, amanhã outra. repare que, no começo, o cazaquistão ficou furioso por borat ser um cazaque. depois caiu a ficha: eles se tocaram que o personagem era uma crítica não a eles, mas aos estados unidos. aí eles relaxaram. só não vou dizer que gozaram porque isso é exclusividade da ministra. veja — o que mais o impressionou em borat? jô — no filme e nos outros personagens que sacha baron cohen faz, [...] o que me impressiona é a vontade que as pessoas têm de aparecer. [...] 1ª- pergunta 2ª-3ª-4ª-5ª-6ª-7ª-vpem3_un2_cap1_053a079.indd  56 4/15/10  2:28:34 pm</Page><Page Number="59">capítulo 1 – a entrevista  57 veja — então é para aparecer também que as pessoas vão a um programa de entrevistas como o seu? jô — claro. e a primeira que quer apa-recer sou eu. você se coloca numa vitrine, em que milhões de pessoas vão te ver, e não tem vaidade nenhuma? é óbvio que tem. e quem vai ao programa também está exercendo um pouco da sua vaidade. veja — é desejável que a plateia possa observar as reações íntimas do entrevistador ao seu convidado? jô — hoje em dia eu me policio, porque tenho a tendência de começar a arengar com o convidado quando o assunto pega fogo. isso não é bom. outra coisa que acontece é gente que mente na pré-entrevista para parecer interessante e na hora h se desvia do assunto, me deixando com cara de bobo. e teve o sujeito que bocejou enquanto contava uma história. aí não aguentei. virei para ele e disse: “se você está bocejando, imagine o coitado que está em casa assistindo”. [...] veja — humor tem prazo de validade? jô — tem, quando ele começa a se preocupar em não ofender esse ou aquele segmento. jerry lewis, por exemplo, era genial, até que deu para vetar palavreado chulo, referências a sexo e por aí vai. o humor tem de ser anárquico — não no sentido político-praticante, é claro. aliás, muito ao contrário. humorista não pode se engajar. tem de ser oposição até da oposição. [...] veja — quando você se vê numa cena de um programa que fez na juventude, você se acha engraçado? jô — não consigo me assistir. acabo de gravar o programa — que também tem muito humor — e assisto profissionalmente, mas só. fico com pudor de mim. primeiro porque, quando está lá, você se acha um deus. daí você se vê no vídeo e, claro, percebe que está muito longe disso. eu me acho até gordo quando me vejo na televisão. veja — incomodar-se com a própria aparência não é uma reação de principiante? jô — não. acho que a gente nunca se acostuma com a própria aparência, ou com a voz, os cacoetes. imagine há quantos anos você usa a secretária eletrônica — e eu aposto que você ainda estranha a sua voz na gravação. [...] veja — o exilado usava a expressão “chose de loque”, que virou bordão popular. entrar na cultura é a melhor medida do acerto? jô — quando isso acontece, fico como aquelas mães de filho único, que morrem de orgulho do filho — como a minha mãe. toda vez que vejo uma expressão dessas sendo usada, tenho vontade de dizer ao mundo que fui eu quem inventou, porque a origem se perde, e as pessoas falam sem saber de onde veio. [...] reginaldo teixeira/editora abril jô soares no lançamento de seu livro assassinato na academia brasileira de letras, na academia brasileira  de letras, rio de janeiro, junho de 2005. 8ª-9ª-10ª-11ª-12ª-13ª-vpem3_un2_cap1_053a079.indd  57 4/15/10  2:28:34 pm</Page><Page Number="60">58  unidade 2 veja — ao contrário dos entrevistadores americanos, você recebe em seu programa pessoas que não são famosas. por que tomou essa decisão? jô — esses convidados são um aspecto essencial do programa, e ninguém des-carta pauta por ser exótica ou absurda demais antes de ela passar por mim. [...] veja — você chama todos os seus convidados, sem exceção, de “você”. por quê? jô — no brasil, “senhor” não é um tratamento que indica respeito ou falta de intimidade, mas sim uma forma de diferenciação de classe social. [...] escolhi o tratamento informal porque ele é mais coloquial e, às vezes, faz o entrevistado se soltar mais. como luís carlos prestes, que tomou um susto quando eu o tratei por “você”, mas a alturas tantas declarou que olga benário é que havia sido a grande paixão da sua vida — algo que ele nunca dissera com todas as letras antes, ao menos em público. veja — rir de si mesmo é um dos mandamentos da comédia? jô — eu diria que é um mandamento da vida, não só da comédia. veja — o que, para você, melhor define o que é ser humorista? jô — diz a lenda que, quando um grande comediante estava para morrer, seus amigos lhe perguntaram se estava sendo difícil enfrentar o fim. “não”, ele disse. “morrer é fácil. difícil é a comédia.” revista veja, 7 nov. 2007. interpretação do texto além das informações expressas claramente, todo texto tem também informações implícitas, que podem ser observadas ao se prestar atenção aos mecanismos linguísticos que encaminham o leitor à identificação de pressupostos. a releitura da entrevista de jô soares pode ajudar no estudo deste importante mecanismo de construção do sentido do texto: a identificação de informações implícitas. 1	releia a primeira pergunta feita ao entrevistado e responda os itens a seguir no caderno. a) 	na pergunta do entrevistador há uma sequência de palavras que antecipa sua avaliação do assunto inicialmente tratado. são elas: humor, brasileiro, desgraças.  peculiaridades, humor, brasileiro.  peculiaridades, capacidade, até.  x b) 	explicite a avaliação do entrevistador sobre essa característica do humor brasileiro. que termos tornam clara a visão dele sobre o assunto? 2	para ilustrar sua resposta à primeira questão, jô soares conta uma situação vivida pela atriz denise fraga. releia o trecho e responda às questões no caderno. a) 	o que, possivelmente, levou a atriz à gargalhada? b)	qual a relação dessa história com a resposta de jô soares (“é uma forma de exorcizar a tragédia”)? b) ao escrever “até com as maiores desgraças”, o entrevistador sugere que, em certas situa­ ções, talvez não caiba humor. essa avaliação é reforçada, ainda, pelas palavras peculiarida-des (torna o humor feito por brasileiro algo especial) e capacidade (indica que o brasileiro tem habilidade para realizar uma ação para a qual pessoas em geral não têm). há duas possibilidades de resposta: 1ª-: a atriz pensou que, se a avó estava na capela do cemitério, só poderia estar morta, a mãe caprichara exageradamente no eufemismo; 2ª-: passando mal na capela do cemitério, a avó estaria mais próxima do lugar onde, então, ficaria quando morta. o fato de a avó da atriz estar passando mal não era uma situação agradável. ao rir do inesperado do texto e da situação, a atriz conseguiu escapar da tensão provocada pelo momento. rede globo/divulgação/arquivo da editora a atriz denise fraga na minissérie  queridos amigos, exibida na tv globo, 2008. 14ª-15ª-16ª-17ª-vpem3_un2_cap1_053a079.indd  58 4/15/10  2:28:36 pm</Page><Page Number="61">capítulo 1 – a entrevista  59 3	a entrevista de jô soares apresenta alto nível de informação. isso significa que, para compreender certas afirmações e relatos ao longo do texto, o leitor precisa compartilhar com entrevistado e entre-vistador uma série de informações. identifique no texto duas referências a personalidades ou situa-ções que, para serem compreendidas, exigem que o leitor também as conheça. anote a resposta no caderno. 4	analise, nos casos indicados, o sentido que as palavras destacadas dão às questões: a)	considere o conteúdo de: “será que às vezes o brasileiro não ri um pouco cedo demais e, assim, tolera acontecimentos políticos que não deveria tolerar?”. copie no caderno as duas alternativas que revelam a visão do entrevistador sobre o humor do brasileiro. o brasileiro faz piada antes de se indignar a ponto de tomar uma atitude concreta contra certos  acontecimentos. x 	ao rir de certos acontecimentos, o brasileiro deixa claro que não os tolera.  	para o entrevistador, rir do problema é também uma forma de aceitá-lo.  x 	rir cedo demais dos problemas é uma forma de lutar eficazmente contra eles.  b)	ao escrever “mas ainda dá para rir desse clima de corrupção e imoralidade?”, o entrevistador pode levar o leitor a concluir duas informações. anote a única alternativa correta. 	as pessoas sempre riram, não deveriam rir mais.  x 	as pessoas nunca riram, deveriam rir mais.  	as pessoas sempre riram, e deveriam continuar rindo.  as pessoas nunca riram dessas situações, e devem continuar intolerantes a elas.  c)	em “vamos por partes. o brasil de hoje ainda tem graça?”, a palavra brasil faz referência a aspectos políticos. nesse mesmo trecho, a palavra ainda revela satisfação ou insatisfação do entrevistador com o país? justifique sua resposta. 5	releia a resposta de jô soares à pergunta “o brasil de hoje ainda tem graça?”. a)	a resposta foi afirmativa ou negativa à pergunta do entrevistador? b)	reflita sobre as perguntas da entrevista trabalhadas na questão 4 e sobre as respostas do entrevistado a elas. a resposta do entrevistado atende à expectativa do entrevistador? justifique sua opinião. 6	termos como até, ainda, também, assim como certos verbos, adjetivos e orações adjetivas, ajudam o leitor a identificar pressupostos, ou seja, informações implícitas nas frases. ciente disso, releia: “uma das peculiaridades do humor brasileiro é a capacidade de fazer piada até com as maiores desgraças...”. nesse caso, o uso do termo até faz pressupor que, com “maiores desgraças”, não se deve fazer piada. leia os trechos a seguir e responda, no caderno, às questões propostas. a)	incomodar-se com a própria aparência não é uma reação de principiante? por meio dessa pergunta, o entrevistador revela indiretamente uma opinião sobre o entrevistado. qual? b)	você chama todos os seus convidados, sem exceção, de “você”. por quê? essa pergunta revela um pressuposto sobre que aspecto da cultura brasileira? 7	como jô soares justifica o uso de “você” com todos os seus entrevistados? 8	jô soares tambémsugere que essa formamais íntima de tratamento consegue fazer comque o entrevista-do se soltemais. ele ilustra essa ideia como fato de luís carlos prestes ter lhe feito uma declaração inédita. na sua opinião, foi realmente a forma de tratamento que levou prestes a “se soltar”? 9	a história final contada por jô soares encaminha o leitor a uma conclusão. qual? algumas possibilidades: referência à ministra do turismo da época, marta suplicy; ao ator e comediante norte-americano jerry lewis; às personagens criadas pelo entrevistado; ao casal comunista luís carlos prestes e olga benário. prof.(a), você pode incentivar os alunos a pesquisar qual foi a declaração da ministra que cha-mou atenção na época (auge do problema de caos aéreo), em que escândalo se envolveu calheiros, quem foi jerry lewis e o histórico de prestes e olga benário. revela insatisfação. a palavra ainda, nessa frase, indica que o tempo de duração daquele evento já se excedeu. a resposta foi afirmativa. apontar o ridículo dos acontecimentos é uma forma de encontrar graça neles. não. as perguntas já revelam, por parte do entrevistador, certa intolerância à mania do brasileiro de fazer piada de situações que merecem maior indignação. em suas respostas, jô soares dá outra direção para as perguntas, dizendo ser necessário exacerbar o ridículo. a de que ele, que não é um principiante, não deveria incomodar-se com a própria aparência. o de que nem todas as pessoas devem ser tratadas por “você”. em certas situações, pode ou deve haver uma diferença de tratamento. ele diz que “senhor”, no brasil, é uma forma de diferenciação social e não um tratamento de respeito. prof.(a), observe com os alunos, depois de eles terem expressado a opinião deles, que talvez a causa de o entrevistado ter se soltado não tenha sido a forma de tratamento “você”, pois, se fosse isso, jô soares sempre conseguiria grandes revelações de seus entrevistados. prof.(a), o objetivo da questão é levar o aluno a perceber, na piada final da entrevista, que o humorista reconhece o trabalho sério e difícil que se esconde por trás do trabalho de quem pretende fazer as pessoas rirem. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  59 4/15/10  2:28:36 pm</Page><Page Number="62">60  unidade 2 desenvolvendo habilidades leitoras para resolver as questões propostas nesta parte, você: diferenciou informações explícitas de implícitas;  identificou termos e expressões que atribuem algo além das informações explícitas nas linhas  do texto; identificou, com base na análise dessas expressões, as informações implícitas, chegando às  ideias pressupostas na formulação de algumas perguntas e respostas; verificou o nível de informação do texto.  texto 2 agora leia uma entrevista que o ator, palhaço e diretor de teatro hugo possolo concedeu à revista vida simples. verifique se as perguntas formuladas são semelhantes às feitas pela revista veja a jô soares. faz-me rir para o diretor, ator e palhaço hugo possolo, o humor pode mudar nosso modo de ver a vida priscilla santos este homem é um palhaço? é, sim, senhor. palhaço, dramaturgo, cenógrafo, figurinista, diretor e produtor cultural há 26 anos. formado no picadeiro circo escola em são paulo, um de seus mais memoráveis números foi a criação do grupo de comédia parlapatões, patifes &amp; paspalhões em 1991. a trupe, composta por mais três integrantes, abriu as cortinas de sua história com apresentações de circo. as técnicas do picadeiro foram amarradas às do teatro de rua e lá se foram 26 espe-táculos que fizeram muita gente se dobrar de rir e também refletir. pois o humor — por que não? — pode ser transformador. não é à toa que os parlapatões mantêm um centro de referência do riso em sua sede no centro de são paulo. neste papo sério, hugo mostra que humor não é assunto para brincadei-ra, mas pode tornar a vida muito mais divertida. respeitável público, com vocês, hugo possolo. o humor desmonta tabus? quem trabalha com humor está lidando com uma capacidade de demolir aspectos ideológicos, morais e comportamentais da sociedade. está sempre usando uma metralhadora giratória. claro que são tiros que resultam num prazer enorme no interlocutor, porque a pessoa dá risada, se diverte. mas, de certa forma, o humor tem um plano de reflexão e questionamento. o que significa que quem emite essas questões deve ter muita responsabilidade, precisa saber para onde está apontando sua metralhadora. do contrário, pode haver a leitura de que se está reforçando parlapatões, patifes &amp; paspalhões/ divulgação/arquivo da editora hugo possolo, à esquerda, e outros atores do grupo parlapatões, patifes &amp; paspalhões, na peça infantil parlapatões clássicos do circo, dirigida por possolo e encenada em são paulo, 2007. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  60 4/15/10  2:28:37 pm</Page><Page Number="63">capítulo 1 – a entrevista  61 um preconceito, ao invés de criticá-lo. a piada é preconceituosa quando ela quer humilhar o interlocutor. por exemplo, ficar dando tapa na cabeça de um anão. quando alguém faz isso, está usando da força, se colocando numa posição superior ao outro e reforçando um preconceito. qual é o papel do palhaço? o palhaço é um arquétipo que representa o ridículo da humanidade como um todo. aquilo que temos de mais humano, mas ignoramos diariamente: o fato de ser-mos animais. o palhaço tem uma busca constante por satisfazer seu instinto de sobrevivência: poder comer, beber, livrar-se de suas esca-tologias. ao mesmo tempo, ele é de uma pulsão sexual constante, está sempre atrás da beleza das mulheres. ele se acha um especialista em todos os assuntos, pensa que vai resolver tudo facilmente e se complica. no fundo, o palhaço é um retrato exagerado, hiperbólico do que é o ser humano. o palhaço nasce do circo e todas as modalidades circenses — o trapézio, o malabarismo, a doma dos animais — têm um quê de sobrenatural, de desafiar a gravidade, de mos-trar a superioridade do homem sobre a natureza. o palhaço subverte essa condição ou, pelo menos, joga de maneira oposta. ele revela que as pernas tremem exageradamente, ele anda torto, tropeça, cai do trapézio. cede à lei da gravi-dade, à natureza. ele é o tempo todo aquilo que nós somos. não conseguimos vencer a natureza, ela é infinitamente superior ao homem. o riso tem que gerar reflexão? na verdade, não vejo problema nenhum na diversão superficial, porque a vida não é profunda o tempo todo. então, se você fica se obrigando a ver reflexão em tudo, você vira um chato, um neurótico. você pode rir de uma bobagem, de uma super-ficialidade, mas você também pode rir de uma coisa que faça você refletir. quando eu atuo, meu objetivo é fazer as pessoas rirem, em primeiro lugar. se eu conseguir que elas reflitam a partir disso, é um segundo passo. senão, no mínimo, exerci um papel muito melhor do que boa parte da humanidade. minha função social é fazer as pessoas felizes por alguns instantes, e acho que isso não é pouca coisa. o lirismo do palhaço está no fato de que ele faz as pessoas rirem, o que não é fácil. requer preparo, conhecimento, sensibilidade, atenção e respeito. ao mesmo tempo, é preciso achar o momento em que você vai dar uma pequena desrespeitada no público, vai cutucá-lo para ele poder questionar, refletir e ir além desse riso que só dura um instante. é um constante exercício de consciência, de avaliar suas próprias contradições. demolir conceitos para quê? para serem reconstruídos de que maneira? que espaço de espe-rança você vai deixar? luiz doro/divulgação/arquivo da editora hugo possolo no monólogo prego na testa, de eric bogosian, adaptado e dirigido por aimar labaki, em são paulo, 2005. parlapatões, patifes &amp; paspalhões/ divulgação/arquivo da editora detalhe da foto da página ao lado. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  61 4/15/10  2:28:38 pm</Page><Page Number="64">62  unidade 2 o riso pode ser transformador? o humor tem uma capacidade de transformação, sim. às vezes, temos um modo único de ver as coisas, e uma piada nos faz olhá-las de maneira mais relaxa-da, tranquila, nos faz olhar diferente. o riso acaba propiciando que as pessoas mudem sua conduta na vida. o humor do carnaval, por exemplo, é um momento em que você rompe uma série de barreiras sociais. vestir uma fantasia dá espaço ao imaginário para você não ser aquilo que é ou acha que é no cotidiano, por-que você pode ser de outra maneira. pode ir de mendigo a príncipe, de homem a mulher, de gente a bicho, você se transforma. essa experiência do carnaval não é sem significado, pode fazer com que a pessoa encare o mundo de outras formas. o humor é politicamente incorreto? se ele pretende ser universal, não pode estar preso ao politicamente correto, pois equivaleria a tomar o ponto de vista de uma classe social, que é a que determina as regras da sociedade. eu dividiria a arte, em geral, em três patamares: moral, imoral e amoral. o que é universal é amoral. você tira todas essas regras sociais implícitas, vê os seres humanos de igual para igual e trata das questões humanas mais profun-das. o humor moral é aquele que reafirma regras sociais. fazer piada sobre alguém que fala errado é quase uma exigência de que aquela pessoa fale “certo”. já o humor imoral é aquele que vai contra a moralidade e que procura até agredir. mas ele tem reação. se você fala um monte de palavrões para uma pessoa que não está acostumada, ela se choca e não resolve nada. a busca constante do artista é poder tirar essa capa moral para poder se manifestar. o humor é universal quando ele trata dos seres humanos, sem considerar suas condi-ções hierárquicas. pode ser o general, o padre, o mendigo, todo mundo é humano. levamos a vida muito a sério? não. aliás, menos a sério do que deveríamos. levamos a vida no plano intelectu-al. o cérebro está o tempo inteiro funcionando e reproduzindo o mesmo modelo e a mesma ideia. parece que a gente pensa e não pensa. a gente se comunica por celular e e-mail o tempo todo. falamos muito, mas ficamos no plano do consu-mismo, do prazer imediato, não aprofundamos as relações. não estou dizendo que o tempo anterior era melhor, a tecnologia nos ajuda muito. mas acho que as pessoas não sabem saborear isso, a vida tem mais a oferecer. as pessoas estão perdendo o humor, isso sim, o que não quer dizer que elas tenham ficado mais sérias, porque se você levar a vida a sério, para valer, vai descobrir que ser engra-çado é muito bom. revista vida simples, maio 2007. parlapatões, patifes &amp; paspalhões/divulgação/arquivo da editora detalhe da foto da página 60. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  62 4/15/10  2:28:38 pm</Page><Page Number="65">capítulo 1 – a entrevista  63 interpretação do texto 1	releia atentamente o texto de apresentação da entrevista. observe que a redatora priscilla santos emprega diversas expressões do universo do circo, além de brincar com termos que, no interior do texto, se opõem. identifique esses jogos de palavras que aproximam a forma textual do próprio tema da entrevista. “este homem é um palhaço? é, sim, senhor”; “um de seus mais memoráveis números”; “abriu as cortinas”; “neste papo sério [...], não é assunto para brincadeira”; “respeitável público, com vocês...” 2	no olho da entrevista lê-se: “para o diretor, ator e palhaço hugo possolo, o humor pode mudar nosso modo de ver a vida”. há a seguir diversas frases tiradas da fala do ator. copie no caderno aquelas que confirmam essa ideia. ... o humor tem um plano de reflexão e questionamento...  x ... porque a pessoa dá risada, se diverte...  ... o palhaço tem uma busca constante por satisfazer seu instinto de sobrevivência...  ... mas você também pode rir de uma coisa que faça você refletir...  x  às vezes, temos um modo único de ver as coisas, e uma piada nos faz olhá-las de maneira mais relaxada, tranquila, nos faz olhar diferente... x 3	de acordo com hugo possolo, quem está mais próximo do ser humano, o palhaço ou as outras moda-lidades circenses? justifique sua resposta com informações do texto. 4	ao longo da entrevista, o ator e palhaço revela explicitamente sua visão sobre diversas questões rela-cionadas ao ato de fazer humor. para ele: a)	qual a função social do palhaço? fazer as pessoas felizes por alguns instantes, em primeiro lugar. b)	o que é estar preso ao politicamente correto? c)	o que é necessário para levar as pessoas ao riso? d)	o humor deve ser moral, imoral ou amoral? o humor dever ser amoral, universal, sem as regras sociais implícitas. 5	compare a estrutura e o desenvolvimento do tema das entrevistas de jô soares e de hugo possolo e indique: a)	a diferença no modo de formular as questões; b)	a forma de cada entrevistado responder às questões. conhecimentos linguísticos orações subordinadas adverbiais 	 prof.(a), verifique se os alunos se lembram do significado de “olho” num texto jornalístico: olho, também chamado de intertítulo ou subtítulo, é um pequeno trecho destacado da matéria que, na maioria das vezes, tem a função de chamar a atenção do leitor, fornecendo mais alguma informação, além das mencionadas nas manchetes, nos títulos. 	 segundo o ator, o palhaço está mais próximo do ser humano. as outras modalidades circenses têm um quê de sobrenatural, de desafio à natureza. o palhaço, exacerbação do ser humano normal, lembra que a natureza é infinitamente superior ao indivíduo. fazer humor sob o ponto de vista da classe social que determina as regras da sociedade. para ele isso requer preparo, conhecimento, sensibilidade, atenção e respeito. as perguntas da entrevista de hugo possolo são mais diretas, objetivas. as perguntas formuladas pelo entrevistador de veja são mais desenvolvidas, cobram opiniões sobre assuntos culturais, sociais e políticos e revelam mais fortemente o ponto de vista do entrevistador. jô soares apresenta diversos exemplos, faz referências a muitas situações, a personalidades. devolve a pergunta ao entrevistador, brinca durante a entrevista. hugo possolo responde às perguntas de maneira mais séria e direta, sua fala revela que possolo vê uma profunda ligação entre sua profissão e uma filosofia de vida. para relembrar a oração subordinada adverbial funciona como adjunto adverbial da oração principal, acres-centando-lhe circunstâncias como: tempo, modo, condição, etc. introduzidas por conjunções subordinativas, essas orações podem ser classificadas em: vpem3_un2_cap1_053a079.indd  63 4/15/10  2:28:38 pm</Page><Page Number="66">64  unidade 2 temporais: indicam o tempo em que ocorreu o fato apresentado pela oração principal. conjunções: quando, enquanto, logo que, assim que, depois que, enquanto, sempre que, antes que, etc. por exemplo: logo que começou a apresentação dos palhaços, a criançada começou a rir. condicionais: indicam uma condição para que o fato da oração principal se realize. conjunções: se, caso, no caso de, se porventura, salvo se, etc. por exemplo: irá ao teatro se tiver dinheiro para comprar os ingressos. finais: indicam propósito, a razão do fato apontado na oração principal. conjunções: para que, a fim de que. por exemplo: a moça vai comprar ingressos para que ela e o namorado assistam à peça tão comentada. comparativas: essas orações correspondem ao segundo elemento de uma comparação. conjunções: como, que ou do que (precedidos de tão, tanto, mais, menos, melhor, pior, maior, menor, na oração principal), etc. por exemplo: esse espetáculo circense é divertido como as comédias apresentadas no teatro. concessivas: indicam oposição à ação expressa na oração principal, mas não impedem a realização dela. conjunções: embora, mesmo que, ainda que, se bem que, etc. por exemplo: embora as crianças gostem de circo, têm pouca oportunidade de frequentá-lo. conformativas: indicam acordo, concordância, conformidade com a ideia expressa na oração principal. conjunções: como, conforme, consoante, segundo, etc. por exemplo: comprou os ingressos para o show, conforme prometeu ao filho. consecutivas: indicam a consequência do fato expresso pela oração principal. conjunção: que (antecedido de: tão, tal, tanto, tamanho na oração principal). por exemplo: riu tanto com a comédia de costumes que chorou. causais: indicam a causa do que se afirma na oração principal. conjunções: porque, como, visto que, uma vez que, já que. por exemplo: como saiu atrasado de casa, não pôde assistir ao início do primeiro ato da peça. proporcionais: indicam um fato simultâneo ao fato expresso na oração principal. conjunções: à medida que, à proporção que, etc. por exemplo: à medida que a peça se desenvolvia, mais silenciosas as crianças ficavam. as orações adverbiais podem se apresentar na forma desenvolvida (conjunção verbo no modo indicativo ou subjuntivo) ou na forma reduzida (sem conjunção com verbo em uma das formas nomi-nais — infinitivo, gerúndio, particípio). por exemplo: logo que começou a apresentação dos palhaços, a criançada começou a rir. conjunção verbo no indicativo (subord. adv. temporal) ao começar a apresentação dos palhaços, a criançada começou a rir. sem conjunção com verbo no infinitivo (subord. adv. temporal reduzida de infinitivo) começando a apresentação dos palhaços, a criançada começou a rir. sem conjunção com verbo no gerúndio (subord. adv. temporal reduzida de gerúndio) começada a apresentação dos palhaços, a criançada começou a rir. sem conjunção com verbo no particípio (subord. adv. temporal reduzida de particípio) vpem3_un2_cap1_053a079.indd  64 4/15/10  2:28:39 pm</Page><Page Number="67">capítulo 1 – a entrevista  65 1	responda às perguntas no caderno usando orações subordinadas adverbais causais que estão nas res-postas indicadas entre parênteses. a) 	por que “tiros” dão prazer ao interlocutor? (na resposta de possolo à 1ª- pergunta) b)	por que vestir uma fantasia abre espaço para o imaginário? (na resposta de possolo à 4ª- pergunta) c) 	por que jô soares sente vergonha de si mesmo ao assistir a seus programas? (na resposta de jô soares à 11ª- pergunta) porque ele se acha um deus. d)	por que jô soares sente vontade de contar que é ele o autor de uma expressão usada por muitos? (na resposta de jô soares à 13ª- pergunta) porque a origem se perde. 2	produza períodos compostos. crie a oração principal a partir das perguntas formuladas na questão 1 e use as respostas dadas por você como oração subordinada adverbial. 3	leia os períodos com atenção e faça, no caderno, o que se pede a seguir. escolhi o tratamento informal porque ele  é mais coloquial.  na verdade, não vejo problema nenhum na diversão superficial, porque a vida não é pro-funda o tempo todo.  o caso me choca ainda mais por ele ser senador, um cargo que desde a antiguidade clássica vem investido de um ideal. a) 	reescreva esses períodos iniciando-os pela oração subordinada adverbial causal. utilize a conjunção como e não se esqueça da vírgula obrigatória no caso da inversão da ordem do período. observe que o emprego da conjunção como exige que a ordem do período seja inversa, ou seja, a oração adverbial causal antecede a oração principal e, nesse caso, ela deverá ser separada da principal por vírgula. b) 	qual o modo dos verbos sublinhados nas orações adverbiais? que oração adverbial causal não apresenta conjunção? c) 	reescreva o período em que a oração adverbial causal tem verbo no infinitivo, transformando a oração reduzida em desenvolvida (na dúvida, consulte o quadro anterior à atividade 1). use a conjunção porque com o verbo no modo indicativo. faça adaptações e, se for preciso, releia o quadrinho desta questão. 4	encontre, nas respostas indicadas entre parênteses, as orações adverbiais temporais que respondem às perguntas a seguir: a) 	quando uma piada é preconceituosa? (na resposta de possolo à 1ª- pergunta) b) 	quando o humor é universal? (na resposta de possolo à 5ª- pergunta) c) 	o brasil de hoje ainda tem graça? (na resposta de jô soares à 4ª- pergunta) d) 	quando o humor perde o seu valor? (na resposta de jô soares à 10ª- pergunta) 5	as conjunções temporais podem exprimir: a) 	a ocasião ou o tempo em que um fato ocorre; b) 	a duração ou a simultaneidade de um fato; c) 	o imediatismo de um fato em relação a outro; d) 	a repetição periódica de um fato; e) 	um fato anterior ou posterior ao da oração principal; f) 	o término de um fato duradouro. identifique, a seguir, o que exprime cada uma das orações adverbiais temporais abaixo e escreva a resposta no caderno. porque a pessoa dá risada. porque você pode ser de outra maneira. a) os “tiros” dão prazer ao interlocutor porque a pessoa dá risada. b) vestir uma fantasia abre espaço para o imaginário porque você pode ser de outra maneira. c) jô soares sente vergonha de si mesmo, ao assistir a seus programas, porque ele se acha um deus. d) jô soares sente vontade de contar que é ele o autor de uma expressão usada por muitos porque a origem se perde. como ele é mais coloquial, escolhi o tratamento informal; como a vida não é profunda o tempo todo, na verdade, não vejo problema nenhum na  diversão superficial; como ele é senador, um cargo que desde a antiguidade clássica vem investido de um ideal, o caso me choca mais. em geral, estão no modo indicativo. apenas em “por ele ser senador” o modo é o infinitivo; essa oração não apresenta conjunção. o caso me choca ainda mais porque ele é senador, um cargo que desde a antiguidade clássica vem investido de um ideal. quando ela quer humilhar o interlocutor. quando ele trata dos seres humanos, sem considerar suas condições hierárquicas. quando, ainda mais, acontecem canalhices. quando ele começa a se preocupar em não ofender esse ou aquele segmento. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  65 4/15/10  2:28:39 pm</Page><Page Number="68">66  unidade 2  uma das peculiaridades do humor brasileiro é a capacidade de fazer piada até com as maio-res desgraças, e no momento em que elas estão acontecendo. b assim que  o sujeito assume a presidência, colocam nele uma faixa que parece um suspen-sório torto. c e teve o sujeito que bocejou  enquanto contava uma história. b lewis, por exemplo, era genial,  até que deu para vetar palavreado chulo... f eu me acho até gordo  quando me vejo na televisão. a  toda vez que vejo uma expressão dessas sendo usada, tenho vontade de dizer ao mundo que fui eu quem inventou... d ... e ninguém descarta a pauta por ser exótica ou absurda demais  antes de ela passar por mim... 6	a oração subordinada adverbial condicional pode indicar a condição para que o fato expresso na oração principal se realize. a) 	identifique nos períodos a seguir as orações com essas características e escreva-as no caderno. ...  se você fica se obrigando a ver reflexão em tudo, você vira um chato, um neurótico... se eu conseguir  que elas reflitam a partir disso, é um segundo passo... se ele pretende ser universal  , não pode estar preso ao politicamente correto... b)	escreva no caderno a opção que melhor completa a frase a seguir: as orações destacadas na questão anterior são descrições feitas por hugo possolo durante a entrevista.  	traduzem as opiniões de hugo possolo.  x 	contam fatos vividos por hugo possolo.  7	copie no caderno a frase de jô soares que indica a opinião dele sobre um fato: a denise fraga conta uma história que ilustra bem esse espírito nacional.   há tempos criei um lorde inglês que foi mordido à meia-noite, em quixeramobim, por um cearense que por sua vez fora mordido por um lobo. se você está bocejando, imagine o coitado que está em casa assistindo.  x 8	leia no quadro abaixo algumas construções com orações adverbiais condicionais: no caso de fatos reais, seguidos de um esclarecimento, temos oração principal e oração condicio­ nal com verbos no mesmo tempo. por exemplo: “se você fica se obrigando a ver reflexão em tudo, você vira um chato, um neurótico.” (verbos no presente) no caso de fatos improváveis, a oração condicional tem verbo no pretérito imperfeito do subjun­ tivo e a oração principal tem verbo no futuro do pretérito. por exemplo: se eu ganhasse na loteria, não estudaria mais. no caso de um fato que pode acontecer, a oração condicional tem verbo no futuro do subjuntivo e a oração principal tem verbo no futuro do presente. por exemplo: se eles estudarem um pouco de álgebra, conseguirão um bom resultado no exame. no caso de um fato eventual, a oração condicional tem verbo no futuro do subjuntivo e a oração principal tem verbo no presente. por exemplo: se eu conseguir que elas reflitam a partir disso, é um segundo passo. e vpem3_un2_cap1_053a079.indd  66 4/15/10  2:28:39 pm</Page><Page Number="69">capítulo 1 – a entrevista  67 agora verifique os tempos verbais usados nas orações condicionais a seguir e complete o período com a oração principal de forma a expressar o que se pede nos parênteses. a) 	se o humor desmonta tabus,  (fato real com um esclarecimento) b)	se o palhaço for realmente um arquétipo da humanidade,  (fato eventual) c)	se o público não aplaudir o palhaço,  (fato que pode acontecer futuramente) d)	se as pessoas levassem a vida muito a sério,  (fato improvável) 9	as orações adverbiais finais servem para indicar o objetivo, o intento ou o propósito do fato expresso pela oração principal. a)	identifique a oração subordinada final que indica o objetivo da oração principal sublinhada e copie-a no caderno.  ... é preciso achar o momento em que você vai dar uma pequena desrespeitada no público, vai cutucá-lo para ele poder questionar... para ele poder questionar. então é para aparecer também que  as pessoas vão a um programa de entrevistas como o seu? outra coisa que acontece é gente que  mente na pré-entrevista para parecer interessante... vestir uma fantasia  dá espaço ao imaginário para você não ser aquilo que é ou acha que é no cotidiano... para você não ser aquilo. jô recebeu veja em seu apartamento  para argumentar que rir do próprio país não é só uma vocação dos brasileiros — é quase obrigação. para argumentar. b)	qual o modo dos verbos das orações que você copiou? os verbos estão no infinitivo. c)	escreva no caderno a opção que completa adequadamente a frase a seguir: pela classificação do verbo na questão anterior e pela ausência de uma conjunção, é possível dizer que estamos diante de uma oração subordinada adverbial final reduzida de infinitivo.  x estamos diante de uma oração subordinada adverbial final reduzida de gerúndio.  estamos diante de uma oração subordinada adverbial final reduzida de particípio.  d)	reescreva, na forma desenvolvida, as orações subordinadas destacadas no item a da questão 9. use a locução conjuntiva para que ou a fim de que e coloque os verbos no modo subjuntivo. 10	as orações adverbiais comparativas funcionam como segundo membro de uma comparação, por isso não costumam aparecer antes da principal nem repetir ideias expostas anteriormente. observe: “o palhaço de hoje é ingênuo como o bobo da corte na idade média”. crie no caderno comparações para as seguintes orações: a)	nosso cérebro funciona o tempo inteiro como  sugestão: o mecanismo de um relógio digital. b)	no brasil de hoje há tanto assunto para humor quanto  sugestão: há enredos para tragédia. 11	a conjunção como pode expressar acordo ou conformidade em relação ao fato anterior. nesse caso, poderá ser substituída por conforme, consoante, segundo. identifique, entre as frases destacadas, as que apresentam orações subordinadas adverbiais conformativas e escreva-as no caderno: a)	como tenho hábito de implicar com alguns convidados, agora me policio. b)	a iluminação natalina é tão bela como a de carnaval. c)	como dizem alguns humoristas, este é o país da piada pronta. x d)	as crianças podem ser cruéis, como qualquer um sabe. x 12	as orações adverbiais concessivas se opõem à ação da principal sem impedir sua realização. elas podem se apresentar na forma simples, por meio de conjunções próprias, ou na forma intensiva, quando a conjunção é antecedida de expressões como por mais, por maior, por pior. nas duas situa-ções, o verbo estará no modo subjuntivo. sugestão: quem trabalha com humor muda ideologias. prof.(a), observe se a oração inventada cumpre o papel de esclarecer a principal. 	 sugestão: ele tem as qualificações do palhaço, do psicólogo, do artista, do professor. prof.(a), observe se a oração inventada apresenta um fato que tem pouca possibilidade de ocorrer. sugestão: o circo fechará. prof.(a), observe se a oração inventada se refere a um fato futuro. sugestão: morreriam jovens. prof.(a), observe se a oração inventada se refere a um fato com pouca possibilidade de ocorrer. para aparecer também. para parecer interessante. para que ele possa questionar; para que apareçam também; para que pareça interessante; para que você não seja aquilo; para que argumentasse. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  67 4/15/10  2:28:40 pm</Page><Page Number="70">68  unidade 2 veja os exemplos: ainda que o palhaço seja um excelente ator, não é muito reconhecido pelo público adulto. (forma simples) por mais que o palhaço se esforce para ser um bom ator, não é reconhecido pelo público adulto. (forma intensiva) identifique com 1 as orações concessivas simples e com 2 as orações concessivas intensivas. escreva as respostas no caderno. a)	ainda que todos se divirtam em um espetáculo, alguém não ficará satisfeito. 1 b)	embora estivesse à beira da morte, conseguiu forças para a última piada. 1 c)	por pior que seja a piada, alguém sempre a achará engraçada. 2 d)	por mais chato que seja o ser humano, sempre lhe restará algum humor. 2 13	são proporcionais as orações que apresentam fatos simultâneos ao da oração principal. copie no caderno os períodos com orações proporcionais. a)	ninguém sabe mais o que ela pensa. b)	quanto mais leio sobre humor, mais o diferencio de comicidade. x c)	quanto mais corrupção há, mais assunto existe para o humorista. x d)	à medida que a entrevista se aproximava do fim, mais os entrevistados sorriam. x e)	à proporção que falavam sobre política, mais exaltados ficavam os senadores. x 14	assim como as orações comparativas, algumas consecutivas estão associadas a um adjetivo, por isso não aparecem antes da principal. classifique no caderno os períodos de acordo com o tipo de oração adverbial. (1) a oração comparativa é o segundo membro de uma comparação (2) a oração consecutiva indica a consequência do fato expresso pela principal a)	jô é tão irônico que fez o repórter reformular uma pergunta. 2 b)	o humor é tão antigo quanto as lendas sobre a criação do mundo. 1 c)	a posição é tão ridícula que o suicida começará a rir. 2 d)	hugo possolo tanto é palhaço quanto cenógrafo, dramaturgo, figurinista e diretor. 1 e)	ela riu tanto do estranho recado da mãe que o choque da perda da avó diminuiu. 2 prof.(a), vale a pena aprofundar os conhecimentos sobre orações adverbiais consultando a gramática secundária e gramática histórica da língua portuguesa, de m. said ali. conclusão 1. as orações adverbais causais introduzidas por conjunções costumam apresentar verbos no modo indicativo. por exemplo: a energia elétrica foi cortada porque houve um problema na rede de transmissão. 2. as conjunções temporais que iniciam as subordinadas adverbiais temporais exprimem: a) a ocasião ou o tempo em que um fato ocorre (conjunção: quando). por exemplo: quando alberto entrou no clube, os jogadores se preparavam para entrar em campo. b) a duração ou a simultaneidade de um fato (conjunções: enquanto, no momento em que). por exemplo: no momento em que alberto entrava no clube, os jogadores dirigiam-se ao campo. c) o imediatismo de um fato em relação a outro (conjunções: logo que, assim que, mal, apenas). por exemplo: assim que me viu, correu em minha direção. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  68 4/15/10  2:28:40 pm</Page><Page Number="71">capítulo 1 – a entrevista  69 atividades de fixação ferreira gullar concedeu à revista entrelivros uma entrevista em que fala sobre sua vida, seus poemas e sobre o ato de escrever. leia alguns trechos dela. entrelivros — como você concebe sua poesia? ferreira gullar — é a maneira que tenho de pensar na vida com mais profun-didade. quando a vida me agarra, me força a refletir sobre ela, é então que nasce o poema. [...] d) um fato que ocorreu repentinamente (conjunção: eis que). por exemplo:  num dia ensolarado e quente, eis que um trovão estrondou no céu e a chuva desabou sobre a cidade. e) a repetição periódica de um fato (conjunções: sempre que, todas as vezes que, cada vez que). por exemplo: sempre que me dirijo ao colégio, passo primeiro pela casa de um colega para irmos juntos. f) um fato anterior ou posterior ao da oração subordinada (conjunções: antes que, depois que). por exemplo: depois que a tempestade virou o navio, o oceano viveu horas de calmaria e silêncio. g) um fato duradouro (conjunção: desde que). por exemplo: gosto de você desde que tinha treze anos, hoje estou com sessenta e continuo amando­o. h) o término de um fato duradouro (conjunção: até que). por exemplo: vivi feliz naquela casa até que uma ordem de despejo tirou­me de lá. 3. as orações subordinadas adverbais condicionais exprimem uma hipótese, um acontecimento eventual. por exemplo: se as pessoas rirem de si mesmas, poderão ser mais felizes. 4. as orações subordinadas adverbiais finais costumam ser escritas na forma reduzida, mas também aparecem na forma desenvolvida (conjunções: para que, a fim de que). por exemplo: busquei forças para consolar meus amigos naquele momento difícil. (para verbo no infinitivo) comprei mais ingressos para que todos assistissem ao espetáculo. (para que verbo no pretérito imperfeito do subjuntivo) 5. as orações subordinadas adverbiais concessivas podem se apresentar na forma simples (con-junções: embora, ainda que, mesmo que, se bem que, etc.) ou na forma intensiva por meio de expressões como: por mais, por maior, por pior). por exemplo: embora o filme tenha sido interessante, muitas pessoas dormiram durante a seção. por mais bem­intencionado que seja o professor, ele não é capaz de aprender por seu aluno. 6. as orações subordinadas adverbiais comparativas não costumam aparecer antes da principal e também é comum que as ideias já expostas anteriormente não se repitam. por exemplo: a água do mar refletia a beleza da lua como o espelho de cristal mostrava a beleza da rainha. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  69 4/15/10  2:28:41 pm</Page><Page Number="72">70  unidade 2 el — sua poesia, formalmente, é bastante rigorosa. gullar — se não der forma ao discurso, ninguém entende o que está dito. sem ordenação sintática, a linguagem não existe. não como a pintura, que não está preocupada com a lógica, que não tem sintaxe. uma frase tem que ter sujeito, verbo e predicado. a lógica da pintura é outra. tanto a poesia como a pintura procuram cons-truir o imaginário e expressar emoções, ideias, uma série de coisas que não são lógicas. [...] el — seu livro já está pronto? gullar — tenho um número considerável de poemas prontos, mas não considero o livro concluí-do. depois que publico um livro, não fico especu-lando sobre como vai ser o próximo. como nada é planejado, tudo nasce da vida, dos momentos, das coisas que me tocam. [...] meus livros nunca são iguais. [...] el — como organiza os poemas em livros? gullar — em todos os meus livros, sempre os dis-ponho em ordem cronológica, na sequência dada pela vida. na preparação, a única coisa que faço é selecionar o que vai ser publicado, embora eu seja muito exigente já no momento mesmo em que estou escrevendo o poema: se julgo o que está apenas mais ou menos, não deixo nascer. revista entrelivros, ano 1, n. 1. weberson santiago/arquivo da editora 1 classifique, no caderno, as orações subordinadas adverbiais destacadas: a) se não der forma ao discurso, ninguém entende o que está dito. adverbial condicional. b) depois que publico um livro, não fico especulando sobre como vai ser o próximo. c) como nada é planejado, tudo nasce da vida, dos momentos, das coisas... adverbial causal. d) na preparação, a única coisa que faço é selecionar o que vai ser publicado, embora eu seja muito exigente já no momento mesmo em que estou escrevendo o poema: se julgo o que está apenas mais ou menos, não deixo nascer. adverbial concessiva e adverbial condicional. 2 reescreva os períodos a seguir fazendo o que se pede. […] depois que publico um livro, não fico especulando sobre como vai ser o próximo. como nada é planejado, tudo nasce da vida, dos momentos, das coisas que me tocam. a) escreva a oração adverbial temporal na forma reduzida; ao publicar um livro. b) escreva o segundo período organizando as orações para que fiquem na ordem direta. use a con-junção porque e fique atento à pontuação; tudo nasce da vida, dos momentos, das coisas porque nada é planejado. c) identifique a oração adjetiva e classifique-a em explicativa ou restritiva. que me tocam; adjetiva restritiva. adverbial temporal. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  70 4/15/10  2:28:46 pm</Page><Page Number="73">capítulo 1 – a entrevista  71 3	leia os textos em letras maiores dos anúncios publicitários a seguir e compare os assuntos tratados com a forma como foram construídos. revista época negócios, dez. 2007. entrar por 3 vezes segui-das no índice dow jones de sustentabilidade é uma con-quista de estufar o peito. e, quando a gente soltar o ar, as nossas árvores cuidam do co 2 . quando o assun-to é meio ambiente, a gente mergulha fun-do. até porque isso faz parte do nosso negócio. aracruz/divulgação/arquivo da editora petrobras/divulgação/arquivo da editora vpem3_un2_cap1_053a079.indd  71 4/15/10  2:28:49 pm</Page><Page Number="74">72  unidade 2 a) escreva no caderno a opção que completa adequadamente a frase a seguir: os anúncios procuram apresentar os produtos das empresas.  os projetos econômicos desenvolvidos pelas empresas.  os projetos de empresas preocupadas com o meio ambiente.   x b) leia os trechos abaixo prestando atenção às frases destacadas: e,   quando a gente soltar o ar, as nossas árvores cuidam do co 2 . quando o assunto é meio ambiente  , a gente mergulha fundo. as orações destacadas são subordinadas adverbiais temporais, indicam a ocasião em que o fato ocorre. reescreva-as, trocando a conjunção de forma que as orações indiquem fatos simultâneos. c) parte das frases iniciais dos anúncios foram reescritas a seguir a fim de expressar objetivo, finalidade. conclua os períodos, com ideias expressas pelas imagens que compõem a propaganda. para entrar por 3 vezes seguidas no índice dow jones de sustentabilidade,   para o assunto ser meio ambiente,   atividades de aplicação leia a entrevista de um professor de economia comportamental à revista superinteressante e responda, no caderno, às questões 1 a 8. duvide do seu cérebro eduardo szklarz dan ariely desconfia do dele. e de idiota ele não tem nada. é profes-sor de economia comportamental da universidade duke e do instituto de tecnologia de massachusetts, o mit. autor de previsivelmente irracional, ariely diz que as decisões que tomamos —mesmo as mais milimetrica-mente calculadas — são contaminadas por sentimentos ou influências que nem mesmo percebemos. e que estragam o trabalho da razão. por que seu interesse nas nossas decisões? aos 18 anos, tive 70% do corpo queimado por uma explosão. passei 3 anos no hospital. todos os dias, as enfermeiras trocavam as bandagens que cobriam meu corpo puxando-as de uma vez. meu sofrimento era terrível. quando eu pergun-tava se não seria melhor tirar as bandagens devagarinho — o que aumentaria a duração da dor, mas reduziria sua intensidade —, as enfermeiras garantiam que não. depois de sair de lá, fiz testes com dor e concluí que aquele só era o método certo para as próprias enfermeiras, que também sofriam com a minha situação. foi então que comecei a me interessar pelas decisões que tomamos. a que conclusão você chegou com os estudos? descobri que, sem perceber, deixamos de usar a razão frequentemente. isso acontece porque nossas decisões são guiadas por fatores que passam despercebi-dos pelo cérebro quando calculamos nosso próximo passo. é possível estimular as pessoas a ver a realidade de um jeito distorcido — e elas acharão que estão vendo tudo da forma mais lógica possível. e, enquanto/no momento em que a gente solta o ar, as nossas árvores cuidam do co 2 ; enquanto o assunto é meio ambiente, a gente mergulha fundo. sugestões: para entrar por 3 vezes seguidas no índice dow jones de sustentabilidade, a aracruz preserva os mais belos exemplares de árvores nativas; para o assunto ser meio ambiente, a petrobras faz qualquer esforço. andrew harrer/bloomberg/getty images vpem3_un2_cap1_053a079.indd  72 4/15/10  2:28:53 pm</Page><Page Number="75">capítulo 1 – a entrevista  73 como assim? veja a influência do hábito. sentimos que estamos sempre tomando decisões — mas, na verdade, repetimos a mesma decisão várias vezes. você nem sempre pesa os prós e contras na hora de escolher. só conclui que, se já agiu assim antes, sua decisão anterior deve ter sido razoável. se comprou um carro grande, é provável que continue comprando. como a nossa razão pode ser manipulada? se estimulamos uma pessoa a adotar uma certa ótica, ela pode acabar vendo o mundo de forma diferente — o que se reflete em suas decisões. um exemplo: reu-nimos alunos do mit para fazer uma prova de matemática. eles tinham 5 minutos para resolver vários problemas. ao fim do tempo, deveriam rasgar a prova, dizer quantas questões haviam feito e ganhar dinheiro por elas. o resultado: vários alu-nos mentiram, porque sabiam que não seriam pegos. mas, num dos testes seguin-tes, fizemos os alunos jurar sobre a bíblia que não iam nos enganar. e eles não mentiram — nem mesmo os ateus. ou seja, não tiraram uma conclusão em função dos benefícios do dinheiro e do risco de serem pegos. o raciocínio deles foi orienta-do pela moral, e isso inclui aqueles que supostamente nem acreditam na bíblia. dá para se prevenir contra essas fraquezas? sim, com mecanismos que as eliminem. é duro economizar todo mês, não é? em vez de confiar em nós mesmos, podemos criar um sistema que retire uma parte do nosso salário e a deposite na conta de aposentadoria. afinal, se o cérebro prega peças, temos de abandonar a confiança cega nele. revista superinteressante, set. 2009. 1 identifique: a) o assunto da entrevista; as decisões tomadas por nossos cérebros. b) quem é o entrevistado; o professor dan ariely. c) a opinião dele a respeito do assunto. 2 na primeira resposta da entrevista, dan ariely conta a razão que o levou a pesquisar esse tema. para isso, usou orações adverbiais. essas orações são muito importantes, pois apresentam as circunstâncias em que os fatos ocorrem. identifique: a) o fato; ele teve 70% do corpo queimado. b) as circunstâncias de tempo em que os fatos aconteceram. 3 a segunda pergunta feita ao entrevistado tem o objetivo de fazê-lo apresentar seu ponto de vista sobre o assunto da entrevista. na construção sintática dessa resposta, aparece a oração “descobri” seguida de uma oração subor-dinada substantiva que completa o sentido do verbo descobrir: “que deixamos de usar a razão fre-quentemente”. indique qual dessas orações apresenta a informação mais importante, isto é, explora o ponto de vista do entrevistado. qual é a classificação dessa oração? ele acredita que nossas decisões, por mais racionais que pareçam, são tomadas segundo o que criamos, o que vivemos. aos 18 anos; 3 anos; todos os dias; quando eu pergun­ tava; depois de sair de lá; foi então. prof.(a), mostre aos alunos que essas circunstâncias podem ser apresentadas por meio de locuções adverbiais ou orações adverbiais. a informação mais importante aparece na oração subordinada substantiva objetiva direta e a informação secundária está na oração principal (descobri). vpem3_un2_cap1_053a079.indd  73 4/15/10  2:28:56 pm</Page><Page Number="76">74  unidade 2 4 os mecanismos linguísticos ajudam a processar melhor as informações de um texto. depois de apre-sentar sua opinião por meio da oração substantiva objetiva direta, o entrevistado explica por que ele acredita que as pessoas deixam de usar a razão frequentemente. para introduzir a explicação, usa uma oração subordinada adverbial causal. a)	identifique essa oração.porque nossas decisões são guiadas por fatores. b)	para precisar a explicação dada pela causal, o entrevistado usou mais duas orações: uma adjetiva restritiva e uma adverbial temporal. identifique-as. c)	releia o período dado e responda: para que serve a oração subordinada adverbial causal? 5 releia os períodos: só conclui que, se já agiu assim antes, sua decisão anterior deve ter sido razoável. se comprou um carro grande, é provável que continue comprando. a)	observe que, para continuar defendendo sua posição, o entrevistado recorre a exemplos. o exemplo acima, entretanto, é construído por hipóteses, ou seja, ideias, sugestões. que orações introduzem essas hipóteses? se já agiu assim antes; se comprou um carro grande. b)	classifique essas orações. são orações subordinadas adverbiais condicionais. 6 no período a seguir, o entrevistado apresenta uma condição que resume a opinião que ele defende. observe: se estimulamos uma pessoa a adotar uma certa ótica, ela pode acabar vendo o mundo de forma diferente — o que se reflete em suas decisões. a)	identifique a oração subordinada adverbial que transmite essa informação e classifique-a. b)	explique de que forma essa oração sintetiza a opinião defendida por ele. 7 reescreva o período a seguir transformando a oração coordenada sindética adversativa em subordina-da adverbial concessiva. use a forma intensiva. sentimos que estamos sempre tomando decisões — mas, na verdade, repetimos a mesma decisão várias vezes. 8 o tempo e o modo dos verbos usados nas orações adverbiais condicionais podem indicar fatos reais, improváveis, que podem acontecer, eventuais. na frase “se estimulamos uma pessoa a adotar uma certa ótica, ela pode acabar vendo o mundo de forma diferente...”, a oração adverbial condicional indica qual das ideias acima? explique sua resposta observando a construção verbal da frase e o gênero do texto. ortografia e outras questões meio quando a palavra meio for um advérbio, ela fica invariável. quando for um adjetivo concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere. por exemplo: a notícia deixou-a meio chateada. 	 advérbio (invariável) ela demorou meia hora para resolver a questão. 	 adjetivo (concorda em gênero e número com a palavra hora) adjetiva restritiva: que passam despercebidas pelo cérebro; adverbial temporal: quando calculamos nosso próximo passo. ela apresenta a posição do autor diante do fato, do exemplo dado. se estimulamos uma pessoa a adotar uma certa ótica: oração subordinada adverbial condicional. a oração mostra uma condição para o cérebro agir. por mais que repitamos a mesma decisão várias vezes, na verdade, sentimos que estamos sempre tomando decisões. por se tratar de uma entrevista que apresenta a descoberta de dan ariely, a oração condicional precisa indicar um fato real, então os verbos estão no mesmo tempo (presente). vpem3_un2_cap1_053a079.indd  74 4/15/10  2:28:56 pm</Page><Page Number="77">capítulo 1 – a entrevista  75 copie as frases a seguir no caderno, completando-as com  meio, meios, meia ou meias. atenção à concordância! a)	a decisão de escolher uma profissão deixou júlio  atordoado. meio b)	recebeu-me com palavras  ríspidas. meio c)	eliana ficou  nervosa com o teor daquela notícia. meio d)	cheguei muito tarde da festa, vi que minha mãe me aguardava com a porta  aberta. meio e)	naquele dia de tempestade, quando cheguei ao colégio, era meio-dia e . meia f)	a atriz aparecia  nua naquele filme. meio g)	algumas alunas de nossa escola estavam  apreensivas com a gripe h1n1. meio h)	não sou uma pessoa de  palavras. meias i)	nossa casa ficou  destruída em consequência do último tornado. meio j)	a plantação de arroz ficou  arruinada por causa do transbordamento do rio. meio k) minhas amigas não quiseram sair porque estavam  cansadas. meio l)	bebeu dois  copos de leite e foi dormir. meios produção de texto entrevista — o texto escrito a entrevista é um texto dialógico, ou seja, nele se estabelece um diálogo: há um entrevistado, que responde às perguntas feitas por um entrevistador, que geralmente representa um grupo, jornal, revista, canal de tv, etc. o entrevistado expõe e defende sua opinião a respeito do que é pergun-tado. para isso, recorre a construções da língua que ajudam a evidenciar o que ele pensa. o entrevistador, por sua vez, muitas vezes também expressa suas opiniões ao fazer perguntas, ainda que de maneira mais sutil. esse gênero de texto não termina no ato da entrevista em si (por escrito ou oralmente) nem na simples transcrição, passa por um processo até ser publicado. o entrevistador edita o texto para adequá-lo à estrutura do gênero — deve ter título, olho, introdução, corpo do texto — e ao público-alvo do suporte respon-sável pela publicação. por exemplo, se a entrevista for produzida para uma revista dirigida a adolescentes, usa-se uma variedade linguística que corresponda à idade e aos interesses desse leitor, com uma estrutura simples e despojada. todavia, se for publicada em uma revista ou jornal voltado para um público mais adulto e intelectual, por exemplo, a variedade linguística usada é mais formal. os temas de uma entrevista são determinados em parte pelo entrevistado (de acordo com o motivo de ele ser uma personalidade de destaque a ponto de ter sido escolhido para a entrevista) e em parte pelo suporte que publicará o texto: no caso de se tratar de uma revista ou jornal de negócios, por exemplo, os assuntos a serem comentados, já na pauta, serão definidos levando em conta os interesses desse público. atividade 1 — reprodução: retextualização — da linguagem oral para a escrita leia a seguir a transcrição de uma entrevista do músico lobão à rádio eldorado fm, de são paulo, da  qual retiramos a pontuação. seu trabalho é retextualizar a entrevista para publicá-la em uma revista impressa voltada ao público adolescente. observe no quadro, à direita, as dicas de como fazer esse trabalho. na seguência do quadro, há um primeiro parágrafo pronto como modelo. mtv/divulgação/arquivo da editora o cantor lobão no show acústico mtv, em 2007. pauta: roteiro dos fatos a serem tratados numa  reportagem e síntese de como tratar esses temas. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  75 4/15/10  2:28:57 pm</Page><Page Number="78">76  unidade 2 texto transcrito retextualização:  adaptações e cortes vivemos hoje uma espécie de revolução musical e... e... a com-pra a venda o consumo da música vêm mudando a cada dia sem-pre com ... novidades diante da era digital ... em outubro desse ano o grupo inglês lady red inovou completamente lançou o seu disco rainbows esse que você ouve aí de fundo no seu site... deixando todo o álbum disponível para download pelo preço que o cliente qui-sesse pagar teve gente pagou uma libra teve gente que não pagou nada teve gente que pagou dez libras quarenta libras enfim foi um sucesso imenso em apenas quatro dias o grupo recebeu mais de um milhão e duzentos mil acessos e faturou nada menos que nove milhões de dólares em quatro dias de venda na internet a ousadia coloca em discussão o papel das gravadoras e aqui no brasil um músico bem conhecido de todos nós pela sua rebeldia pela sua ousadia já chutou uma vez as grandes gravadoras e vendeu seu disco por conta própria de volta ao sistema lançou recentemente um acústico pela mtv por uma grande gravadora e vem fazendo bastante sucesso mas também é um crítico e que fala sobre esse assunto e é por isso que convidamos ele aqui para falar com a gente aqui ao vivo sobre essa história estou falando de lobão é com ele que vamos conversar sobre essa mudança essa revolução musical que acontece em nosso país não só em nosso país mas também em todo o mundo diante da era digital porque hoje ficou muito mais fácil você baixar uma música na internet você compra uma músi-ca na internet é uma mudança radical no consumo da música em todo o mundo e ele está na ponta da linha olá lobão tudo bom olá fabiola tudo bem tudo ótimo lobão me diga diante do mundo digi-tal qual será o futuro das grandes gravadoras das lojas de discos e do do mundo é uma coisa meio esquista né mas eu insisto no vinil eu acho que o vinil vai ser a salvação [...] eliminação de marcas  do tempo real da entrevista; eliminação de marcas  interacionais; eliminação de  repetições; introdução de  pontuação; introdução de  parágrafos; reconstrução de  períodos confusos,  de concordância; agrupamento de ideias  (condensação). lobão como a questão da pirataria e o mundo digital que a gente vive hoje em dia é muito fácil baixar a música que você quer e pegar a música que você quer e os músicos eles conseguem viver sem fazer shows ou os show viraram realmente a grande lucratividade de de um grupo musical olha fabiola vou te dizer uma coisa desde que eu me conheço por gente eu não me lembro de ter ganho dinheiro com venda de disco nunca na minha vida porque há um sistema de advanced né que as gravadoras fazem que você ganha um dinheiro adiantado né mas recebe você nunca ressarce esse dinheiro seja lá o que você pedir aquilo vai ficar pendurado pelo resto da sua vida entendeu aquele é o único dinheiro que você acaba ganhando [...] programa grandes encontros 2007. rádio eldorado fm, 26 ago. 2007. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  76 4/15/10  2:28:57 pm</Page><Page Number="79">capítulo 1 – a entrevista  77 modelo de edição: vivemos uma espécie de revolução musical. a compra, a venda e o consumo da música vêm mudando a cada dia, sempre com novidades diante da era digital. atividade 2 — produção de autoria escolha um assunto de seu interesse e uma pessoa que você conhece. elabore as perguntas e entreviste-a pessoalmente ou por e­mail. em seguida, edite seu texto e reescreva-o para ser divulgado nos murais da escola. os leitores serão as pessoas que compõem a comunidade escolar: alunos, professores, inspetores, diretores, secretários, pais, funcionários em geral. preparando a segunda versão do texto observe se o texto está estruturado adequadamente: com título, olho, introdução e corpo de   texto. verifique se a construção dos períodos segue as normas gramaticais adequadas ao gênero.   note se o texto está retextualizado e se as marcas de oralidade estão apagadas ou se há marcas   permitidas pelo público do veículo em que se publicará o texto final. e por falar em entrevista... à medida que vai chegando o final do ano, percebe-se, em jornais ou revistas, um aumento na publi-cação de entrevistas com profissionais de diversas áreas. entre os leitores a quem essas entrevistas se destinam, está o vestibulando, que, com elas, pode obter elementos que o ajudem a escolher com mais segurança uma profissão. leia a seguir a entrevista com uma engenheira e saiba o que ela fala sobre sua escolha profissional.  não basta gostar de exatas para ser engenheiro juliana monteiro, 29, é gerente de incorporação da odebrecht empreen-dimentos imobiliários. formada há oito anos, a engenheira civil está há quatro na empresa. ela dá a dica para quem quer seguir a carreira: não bastam os conheci-mentos técnicos, boa relação interpessoal também é fundamental. folha — como está o mercado de trabalho para engenheiros? juliana monteiro — ele está se multiplicando pelo país inteiro e acredito que deva continuar crescendo nos próximos dez anos, com destaque para a construção civil. folha — que dicas você dá para os jovens que querem ingressar no mercado de engenharia? juliana — os estudantes devem fazer estágio como complemento da formação. tudo o que puderem agregar em conhecimento ajudará a conquistar espaço no mercado, que está muito competitivo. prof.(a), na correção, considere as adaptações realizadas para a retextualização. se possível, peça aos alunos que apresentem a resposta na lousa ou em transparência. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  77 4/15/10  2:28:59 pm</Page><Page Number="80">78  unidade 2 pergunta da vestibulanda adriana veras — qual o perfil exigido pelo mercado para o engenheiro civil? juliana — além de conhecimento técnico, o profissional deve ter flexibilidade e comprometimento. é preciso saber se comunicar bem e travar diálogos com pessoas de classes sociais e status distintos — desde o peão de obras até o chefe. disponível em: www1.folha.uol.com.br/fsp/empregos/ce2109200835.htm. folhapress. acessado em 12 jan. 2010. a) forme um grupo e, juntos, decidam quais as profissões vocês vão escolher para montar um painel que mostre as áreas de trabalho para o futuro. b) no painel, que pode ser um para a classe toda ou um por grupo, vocês vão expor as entrevistas com profissionais de diferentes áreas e fotos das áreas e dos profissionais entrevistados. c) marquem uma entrevista com alguém da área selecionada ou enviem por e­mail ou carta as per-guntas do grupo para que ele possa respondê-las. d) façam as adaptações necessárias para adequar o texto à variedade escrita. organizem o texto de vocês. não se esqueçam de dar a ele um título e de produzir uma introdução. e) organizem as entrevistas e as fotos no painel e preparem-se para as apresentações orais do que foi descoberto sobre as profissões dos entrevistados. no mundo da oralidade 1 escolham um colega para ser o apresentador. em seu texto oral, ele deverá: a) apresentar as áreas profissionais escolhidas pelos grupos; b) apresentar os alunos que entrevistaram os profissionais; c) passar a palavra aos alunos entrevistadores depois das apresentações. 2 os alunos entrevistadores, em ordem previamente combinada, iniciam a exposição sobre as profissões e os profissionais citando: a) as curiosidades da profissão; b) as vantagens e desvantagens daquela profissão; c) o envolvimento profissional / profissão; d) as perspectivas da profissão para o futuro; e) o campo de trabalho; f) a remuneração, etc. depois da última apresentação, o apresentador volta para uma conclusão que englobe sinteticamente tudo o que foi falado. 3 durante a apresentação, os apresentadores devem: a) falar de frente para o público, devagar e em tom audível; b) utilizar materiais que, por ventura, tenham sido elaborados, como cartazes, fotos, gráficos, grava-ções, etc. c) no final da apresentação, deixar um tempo disponível para quem desejar fazer perguntas ou acres-centar informações novas. prof.(a), se achar necessário, acesse o blog da folha de s.paulo e passe algumas entrevistas apresentadas no próprio blog. prof.(a), o objetivo da apresentação oral é passar para os alunos as informações, conhecimentos básicos ou específicos sobre algumas profissões. se prefe-rir, peça aos alunos que gravem as entrevistas com os celulares, por exemplo, e apresentem-nas à classe em dia combinado. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  78 4/15/10  2:29:00 pm</Page><Page Number="81">capítulo 1 – a entrevista  79 aproveite para... ... ler a arte da entrevista  , organização de fábio altman, editora boitempo o livro reúne 48 entrevistas interessantes, feitas de 1823 a 2000 (por exemplo, karl marx sendo entre-vistado pouco depois da comuna de paris; freud discutindo o pessimismo em 1930). entrevistas  , de clarice lispector, editora rocco o livro traz entrevistas feitas por clarice lispector e publicadas na revista manchete entre 1968 e 1969, revelando informações sobre famosos como nelson rodrigues e oscar niemeyer, assim como sobre a entrevistadora. sobre entrevistas — teoria, prática e experiências  , de stela guedes caputo, editora vozes esse livro procura resolver possíveis dúvidas sobre a produção de entrevistas. ... assistir renato russo, entrevistas mtv  , de marcelo fróes (brasil, 2006) o dvd reúne entrevistas de renato russo, que fala de suas origens, de seu tempo com a legião urbana e da carreira solo. entrevista  , de federico fellini (itália, 1987) fellini comenta personagens criadas por ele ao longo de sua carreira de cineasta. ao mesmo tempo, o filme marca sua desolação pelo futuro do cinema. ... ver na internet www.tvcultura.com.br/rodaviva/  com o programa roda viva, desde 1986 a tv cultura oferece aos telespectadores algumas das mais intrigantes entrevistas da tv brasileira. http://programadojo.globo.com/  site com arquivo em vídeo das entrevistas realizadas no programa de jô soares. http://gnt.globo.com/marilia-gabriela-entrevista/  site com arquivo em vídeo das entrevistas realizadas no programa de marília gabriela. castle hill/cortesia de everett collection/ keystone o ator marcello mastroianni. vpem3_un2_cap1_053a079.indd  79 4/15/10  2:29:04 pm</Page><Page Number="82">2 capítulo modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração 80  unidade 2 antes de ler em 1922, ocorreu no teatro municipal de são paulo um evento para divulgar as propostas dos moder-nistas brasileiros: a semana de arte moderna. neste início de capítulo, você vai conhecer algumas imagens e textos referentes a esse evento. observe as imagens e leia as legendas: fac-símile/arquivo da editora programa da primeira noite da semana de arte moderna, de 1922, ocorrida no teatro municipal de são paulo. emiliano di cavalcanti/instituto de estudos brasileiros da universidade de são paulo catálogo da exposição da semana de arte moderna, criado por di cavalcanti, em 1922. reminiscências/acervo iconographia alguns membros da comissão organizadora do evento modernista: 1. o jornalista italiano francesco pettinati, 2. um anônimo, 3. rené thiollier,  4. manuel bandeira, 5. manuel vilaboim,  6. paulo prado, 7. graça aranha, 8. afonso schmidt, 9. gofredo da silva teles, 10. couto de barros,  11. mário de andrade, 12. cândido mota filho,  13. rubens borba de morais, 14. luiz aranha,  15. tácito de almeida, 16. oswald de andrade.         vpem3_un2_cap02_080a103.indd  80 4/15/10  2:30:54 pm</Page><Page Number="83">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  81 leia um trecho da conferência de graça aranha, membro da academia brasileira de letras e, portanto, personalidade capaz de emprestar aos modernistas um ar de respeitabilidade conveniente àqueles que desejam ser ouvidos. foi proferida no primeiro dia do evento. a emoção estética na arte moderna graça aranha cada homem é um pensamento independente, cada artista exprimirá livre-mente, sem compromissos, a sua interpretação da vida, a emoção estética que lhe vem dos seus contatos com a natureza. e toda a magia interior do espírito se traduz na poesia, na música e nas artes plásticas. cada um se julga livre de revelar a natureza segundo o próprio sentimento libertado. cada um é livre de criar e manifestar o seu sonho, a sua fantasia íntima desencadeada de toda a regra, de toda a sanção. o cânon e a lei são substituídos pela liberdade absoluta que os revela, por entre mil extrava-gâncias, maravilhas que só a liberdade sabe gerar. ninguém pode dizer com segurança onde está o erro ou a loucura na arte, que é a expressão do estranho mundo subjetivo do homem. o nosso jul-gamento está subordinado aos nossos variáveis preconceitos. o gênio se manifestará livremen-te, e esta independência é uma magnífica fatalidade e contra ela não prevalecerão as academias, as escolas, as arbitrárias regras do nefando bom gosto, e do infecun-do bom senso. temos que aceitar como uma força inexorável a arte libertada. a nossa ativida-de espiritual se limitará a sentir na arte moderna a essência da arte, aquelas emoções vagas transmitidas pelos sentidos e que levam o nosso espírito a se fundir no todo infinito. aranha, graça. o espírito moderno.  apud www.casadobruxo.com.br. acessado em 7 jan. 2008. leia um trecho do discurso do escritor menotti del picchia, orador da segunda noite da semana de arte moderna e que se distinguiria como divulgador de novas tendências estéticas. demais, ao nosso individualismo estético repugna a jaula de uma escola. procuramos, cada um, atuar de acordo com nosso temperamento, dentro da mais arrojada sinceridade. del picchia, menotti et alii. o curupira e o carão. apud coutinho, afrânio.  a literatura no brasil. rio de janeiro: josé olympio, 1986. cânon: norma, princípio geral. inexorável: inflexível; inabalável. nefando: abominável; perverso. alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  81 4/15/10  2:30:57 pm</Page><Page Number="84">82  unidade 2 imagine como foi a recepção do poema “os sapos”, do poeta manuel bandeira, lido pelo escritor ronald de carvalho na segunda noite do evento. saiba que ele enfrentou assobios, vaias e uma gritaria de “foi, não foi” de grande parte da plateia. os sapos manuel bandeira enfunando os papos, saem da penumbra, aos pulos, os sapos. a luz os deslumbra. em ronco que aterra, berra o sapo-boi: — “meu pai foi à guerra!” — “não foi!” — “foi!” — “não foi!”. o sapo-tanoeiro, parnasiano aguado, diz: — “meu cancioneiro é bem martelado. vede como primo em comer os hiatos! que arte! e nunca rimo os termos cognatos. o meu verso é bom frumento sem joio. faço rimas com consoantes de apoio. vai por cinquenta anos que lhes dei a norma: reduzi sem danos a fôrmas a forma. clame a saparia em críticas céticas: não há mais poesia, mas há artes poéticas…” urra o sapo-boi: — “meu pai foi rei!” — “foi!” — “não foi!” — “foi!” — “não foi!”. brada em um assomo o sapo-tanoeiro: — “a grande arte é como lavor de joalheiro. enfunar: encher-se de orgulho. frumento: espécie de trigo selecionado. perau: declive que dá para um rio. primar: destacar-se. ou bem de estatuário. tudo quanto é belo, tudo quanto é vário, canta no martelo.” outros, sapos-pipas (um mal em si cabe), falam pelas tripas: — “sei!” — “não sabe!” — “sabe!”. longe dessa grita, lá onde mais densa a noite infinita verte a sombra imensa; lá, fugido ao mundo, sem glória, sem fé, no perau profundo e solitário, é que soluças tu, transido de frio, sapo-cururu da beira do rio... 	 	 1918 bandeira, manuel, op. cit., p. 46-7. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  82 4/15/10  2:30:58 pm</Page><Page Number="85">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  83 chocando, com sua irreverência, a plateia do teatro municipal, afinada com a arte parnasiana, os primeiros modernistas mostraram a que vinham. na segunda década do século xx, influenciados pelas vanguardas europeias, artistas brasileiros defendiam uma estética marcada pela oposição às técnicas de arte vigentes até então (em literatura, são contra o modo de produzir de parnasianos e simbolistas, por exemplo). havia sobretudo duas novas tendências, que chamavam a atenção dos poetas e prosadores em formação: produzir sem se prender aos rigores das regras de construção do registro mais culto da língua e imprimir características mais autenticamente brasileiras em sua arte. em torno dessas afinidades, formou-se um grupo de amigos, poetas e artistas plásticos, que, em feve-reiro de 1922, organizaram a semana de arte moderna no teatro municipal de são paulo para apresentar ao público sua produção. esse evento se tornou o grande marco da transformação artística do país. com versos que desabafavam— “estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário/o cunho ver-náculo de um vocábulo”, de “poética”, de manuel bandeira —, os modernistas escandalizaram as pessoas. sabendo agora como se deu essa primeira amostra pública das intenções dos modernistas brasileiros,  reúna-se com mais dois colegas e escrevam uma notícia para ser publicada no principal jornal de sua cidade, na data de comemoração de aniversário da semana de arte moderna do próximo ano. relatem os acontecimentos do evento e destaquem a reação do público da época às conferências ou à leitura do poema de manuel bandeira. terminem a notícia comentando o que significariam, para o futuro das artes, as apresentações daqueles dias (por exemplo, hoje você ouve falar nesses artistas? os poetas que conhece parecem ter sofrido influência dos modernistas?). texto 1 o texto a seguir foi lançado no livro de poemas o ritmo dissoluto, de manuel bandeira, volume posterior à carnaval, livro em que foi publicado o poema “os sapos”. em ritmo dissoluto é possível notar o uso do verso livre, certa liberdade no tratamento de temas tradicionalmente poéticos, que fazem parte da estética de bandeira, como você observará agora pelo estudo do poema “madrigal melancólico”. madrigal melancólico manuel bandeira 1	o que eu adoro em ti não é a tua beleza. a beleza, é em nós que ela existe. a beleza é um conceito. 5	 e a beleza é triste. não é triste em si, mas pelo que há nela de 	 [fragilidade e de incerteza. o que eu adoro em ti, 10	não é a tua inteligência. não é o teu espírito sutil, tão ágil, tão luminoso, — ave solta no céu matinal da montanha. nem é a tua ciência 15	do coração dos homens e das coisas. 	 prof.(a), escolha alguns grupos para a leitura das notícias e verifique se os alunos compreenderam a ruptura que significou esse evento para as artes no brasil. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  83 4/15/10  2:30:59 pm</Page><Page Number="86">84  unidade 2 o que eu adoro em ti, não é a tua graça musical, sucessiva e renovada a cada momento, graça aérea como o teu próprio pensamento, 20	graça que perturba e que satisfaz. o que eu adoro em ti, não é a mãe que já perdi. não é a irmã que já perdi. e meu pai. 25	o que eu adoro em tua natureza, não é o profundo instinto maternal em teu flanco aberto como uma ferida. nem a tua pureza. nem a tua impureza. o que eu adoro em ti — lastima-me e consola-me! 30	o que eu adoro em ti, é a vida. 	 	 	 	 11 de julho de 1920. bandeira, manuel, op. cit., p. 83. interpretação do texto 1	no poema “madrigal melancólico” há elementos: formais que o inserem numa tradição poética.  a, b, c, f que rompem claramente com certos aspectos da tradição poética.  d, e escreva no caderno as alternativas que correspondem a cada opção acima. a)	a repetição da estrutura dos dois primeiros versos de cada estrofe. b)	a opção pelo madrigal para a composição poética. c)	o tema lírico-amoroso. d)	os versos livres — sem métrica fixa. e)	o número irregular de versos nas estrofes. f)	o tom melancólico que permeia alguns versos. 2	no poema, o eu lírico criou um esquema argumentativo para exaltar a pessoa a quem se refere. descreva esse esquema. 3	releia atentamente o poema e verifique o que o eu lírico destaca em cada estrofe. 4	interprete os versos: a)	das linhas 5 a 8. 	 b) da linha 13. 5	releia os versos das linhas 29 e 30 e responda no caderno. a)	o que lastima e consola o eu lírico?a vida.	 b) por quê? 6	volte ao significado da palavra madrigal e reveja sua resposta à primeira atividade. explique então o título do poema, “madrigal melancólico”. o que há no texto de madrigal e de melancólico? por cinco estrofes, o eu lírico descarta uma série de características positivas presentes na interlocutora para ressaltar o que nela é ainda mais importante para ele: a vida. ao descartar tais características, no entanto, ele as enumera e expõe, permitindo que esses aspectos positivos sejam observados. de certa forma a vida, aquilo que o eu lírico adora na interlocutora, é a síntese de tudo o que foi descartado (e destacado) por ele. 1ª- estrofe: a beleza; 2ª- estrofe: a inteligência; 3ª- estrofe: a graciosidade; 4ª- estrofe: o que ela o faz recordar; 5ª- estrofe: o instinto maternal. 	 eles exprimem a ideia de transitoriedade das coisas. por boas que sejam (como a beleza), são frágeis, terminam; além disso, são incertas, porque dependem da forma como se olha, de um padrão estabelecido em certo momento e local. 	 trata-se de uma metáfora do espírito ágil e lu-minoso da pessoa a quem ele se refere. ave solta destaca a agilidade e a liberdade de pensamento; o céu matinal destaca a luminosidade. 	 sugestão: lastima talvez por aquilo que a vida tem de frágil. consola por ser expressão de tudo aquilo que ele admira e em que acredita. o texto é um madrigal, não apenas pela forma poética (terna ou galante), mas também por consistir num verdadeiro elogio à pessoa à qual se dirige. é melancólico porque aquilo que o eu lírico mais adora na pessoa — a vida — ao mesmo tempo que o consola, ele lamenta, pois é ambíguo, forte e 	 frágil, por exemplo. madrigal: composição poética que exprime um pensamento fino, galante, e que, em geral, se destina a ser musicada; surgiu na itália do século xiv e teve sua época de maior difusão no século xvi; fala marcada pela galanteria afetada, cumprimento lisonjeiro, galanteio. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  84 4/15/10  2:31:00 pm</Page><Page Number="87">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  85 texto 2 as características marcadamente modernistas na estética literária de manuel bandeira iriam aparecer em 1930 com a publicação do livro libertinagem. leia o poema a seguir e compare-o, quanto ao conteúdo e à forma, ao “madrigal melancólico”. madrigal tão engraçadinho manuel bandeira teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos. bandeira, manuel, op. cit., p. 112. interpretação do texto 1	que elementos presentes na forma e no conteúdo do poema acima revelam a prática de uma estética literária bem diferente da estética do poema “madrigal melancólico”? 2	o poema é surpreendente na composição; no entanto, o que, em princípio, parece ironia, torna-se uma expressão de grande lirismo. a)	o que pode ter representado, para o eu lírico, ganhar um porquinho-da-índia aos seis anos? b)	nesse contexto, por que a comparação de teresa com o porquinho-da-índia se torna uma linda declaração? desenvolvendo habilidades leitoras a partir do estudo desses textos, você: identificou elementos formais e de conteúdo que aproximaram ou afastaram os poemas de  uma tradição estética mais acadêmica. interpretou versos dos poemas, observando sua força lírica e elementos inusitados para a  tradição poética brasileira vigente até o final dos anos 1910. 	 logo se nota que o poema nem sequer está organizado em versos, trata-se de um poema em prosa. o galanteio próprio de um madrigal está preservado em “você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje...”, mas a comparação da moça com um porquinho-da-índia é algo completamente inusitado. algo muito bom. crianças geralmente gostam muito de animais. naquele momento o porquinho-da-índia certamente deslumbrou o eu lírico. 	 porque eleva teresa ao patamar daquilo que realmente surpreende, encanta e comove o eu lírico no que ele tem de mais ingênuo e talvez verdadeiro. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  85 4/15/10  2:31:01 pm</Page><Page Number="88">86  unidade 2 texto 3 publicado em 1925, o livro pau-brasil, de oswald de andrade, expressa claramente a estética modernista tal qual era defendida: valoriza elementos da própria terra — o brasil —; usa o verso livre, curto; opta por um jeito conciso, bem-humorado de relatar os fatos; revela grande liberdade no uso da língua portuguesa, aproximando-a da língua falada. no poema que você vai ler a seguir, oswald usou letras minúsculas no título e aboliu os sinais de pontuação. relicário oswald de andrade no baile da corte foi o conde d’eu quem disse pra dona benvinda que farinha de suruí pinga de parati fumo de baependi é comê bebê pitá e caí andrade, oswald de.  pau-brasil. 5. ed. são paulo: globo, 1991. interpretação do texto 1	que elementos autenticamente brasileiros você identifica no poema “relicário”, de oswald de andrade? 2	nesse curto e sintético poema há informações que revelam, em alguma medida, o contraste entre os elementos da corte e os elementos considerados autenticamente brasileiros. a)	que relação o conde d’eu, na visão do eu lírico, trava com os elementos autenticamente brasileiros? b)	em que medida essa relação subverte o comportamento que se espera de um nobre? c)	que ideias os últimos versos sintetizam? 3	consulte no vocabulário acima o significado da palavra relicário. no poema, o que é o relicário? como isso se relaciona à visão que o eu lírico parece ter do brasil? 	 a história do brasil, o ambiente da corte e dos escravos, o conde d’eu. o vocabulário, formado por elementos regionais e de origem indígena: suruí, parati, baependi, além da grafia mais próxima da língua falada do brasileiro nos casos de comê, bebê, pitá e caí, em lugar de comer, beber, pitar e cair. num primeiro momento, esses elementos provocam nele o desejo de experimentar coisas novas. o conde, porém, não parece ter se acostumado a eles, já que no último verso a ideia é comer, beber, pitar e cair, ou seja, pode-se dizer que ele experimenta esses elementos (a farinha, a pinga, o fumo), mas de certa forma é dominado por eles, uma vez que, depois de experimentá-los, cai. espera-se que um nobre rejeite certas excentricidades e costumes mais populares, que tenha hábitos que o diferenciem das pessoas do povo. nesse poema, o conde d’eu demonstra certa experiência com hábitos brasileiros bastante particulares. 	 o poema sugere que as coisas tipicamente brasileiras são atraentes mesmo para o estrangeiro de uma camada social mais aristocrática, porém indica que elas podem causar certo estranhamento ou demandar um período de adaptação. o relicário são os elementos autenticamente brasileiros. o poema destaca o valor desses elementos para o eu lírico. baependi: cidade de minas gerais que ligava, no tempo do ouro, parati ao rio de janeiro. conde d’eu: o imperador d. pedro ii, preocupado em casar suas duas filhas, leopoldina e isabel, com homens de importantes dinastias reais, foi aconselhado a procurar pretendentes entre os príncipes da  casa real francesa. chegaram então ao brasil, em 1864, os primos luís filipe gastão de orléans  (o conde d’eu) e augusto de saxe. isabel casou com o primeiro, que teve importante participação na guerra do paraguai, e leopoldina com o segundo. farinha de suruí: farinha de mandioca fina muito usada na culinária do país. parati: cidade do rio de janeiro de participação ativa na economia do século xvii, quando se exploravam ouro e pedras preciosas no brasil; fabrica pingas famosas. relicário: lugar próprio para guardar relíquias; algo de grande valor. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  86 4/15/10  2:31:01 pm</Page><Page Number="89">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  87 texto 4 o poema a seguir, escrito por mário de andrade, integra o livro pauliceia desvairada, publicado em 1922, ano da semana de arte moderna. acompanhe o olhar do eu lírico e verifique a que elementos são paulo é comparada. paisagem nº- 1 mário de andrade minha londres das neblinas finas! pleno verão. os dez mil milhões de rosas paulistanas. há neve de perfumes no ar. faz frio, muito frio… e a ironia das pernas das costureirinhas parecidas com bailarinas… o vento é como uma navalha nas mãos dum espanhol. arlequinal!… há duas horas queimou sol. daqui a duas horas queima sol. passa um são bobo, cantando, sob os plátanos, um tralálá… a guarda-cívica! prisão! necessidade a prisão para que haja civilização? meu coração sente-se muito triste… enquanto o cinzento das ruas arrepiadas dialoga um lamento com o vento… meu coração sente-se muito alegre! este friozinho arrebitado dá uma vontade de sorrir! e sigo. e vou sentindo, à inquieta alacridade da invernia, como um gosto de lágrimas na boca… andrade, mário de. poesias completas. belo horizonte: villa rica, 1993. interpretação do texto 1	observe que, muitas vezes, a instabilidade do clima se aproxima da instabilidade dos sentimentos do eu lírico. destaque os versos que comprovam essa afirmação. 2	uma das preocupações dos modernistas era valorizar a liberdade de expressão, muitas vezes marcada pelo verso livre, pela sintaxe mais solta e, na mesma proporção, valorizar o que era local, brasileiro. de que maneira mário de andrade se revela moderno nesse poema? 	 “faz frio, muito frio...” / ”há duas horas queimou sol. da-qui a duas horas queima sol.” / “meu coração sente-se muito triste...” / ”meu coração sente-se muito alegre!” / “à inquieta alacridade da invernia,” / “como um gosto de lágrimas na boca...” 	 revela-se moderno ao adotar o verso livre; não se preocupando com a estrutura canônica da sintaxe da frase em “... e vou sentindo [...] como um gosto de lágrimas na boca...”, em que o verbo sentir se torna intransitivo; ao escolher o tema, uma paisagem local, familiar ao poeta: são paulo. alacridade: grande alegria, animação intensa. arlequinal: adjetivo formado a partir de arlequim (personagem da commedia dell’arte, cuja função, quando surgiu, era divertir o público; sua roupa típica era feita de trapos coloridos, muitas vezes em formato de losangos). invernia: tempo frio e chuvoso, inverno. plátano: um tipo de árvore. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  87 4/15/10  2:31:02 pm</Page><Page Number="90">88  unidade 2 3	consulte no vocabulário da página anterior o significado de arlequim. seu traje, de tecidos coloridos em forma de losangos, é um elemento que o destaca. o termo arlequinal, neologismo criado por mário de andrade, mistura-se a sua visão da cidade de são paulo. considere essas informações e a ideia geral do poema. que elementos do arlequim podem ser observados na paisagem da cidade e nas emoções do eu lírico? escreva as alternativas corretas no caderno. a)	a diversidade de cenas pode ser comparada à diversidade de losangos da roupa do arlequim. x b)	a variedade dos trajes de um arlequim se reflete na variedade de climas e sentimentos conforme as cenas observadas. x c)	o olhar frio e direto sobre a paisagem, que não é única, fragmenta-se como a roupa do arlequim. x d)	reflete-se nesse traje o repúdio do eu lírico a uma cidade tão cheia de contrastes. para entender o modernismo em seu primeiro momento os textos deste capítulo mostram que no início do século xx se formava na literatura brasileira um outro código, outra maneira de produzir arte. muitos dos artistas brasileiros desse período costumavam viajar para a europa e trouxeram de lá os princípios do modernismo português e ideias dos movimentos vanguar-distas: cubismo, expressionismo e, principalmente, futurismo: oswald de andrade, em paris, conheceu o futurismo e a ousadia dos versos livres; manuel bandeira ficara marcado pelos poemas de paul eluard na suíça; ronald de carvalho contribuiu na formação da revista modernista portuguesa orpheu. todos esses artistas não só inovaram como também marcaram definitivamente a maneira de produzir arte no brasil. é verdade que, embora a maioria deles fosse de origem abastada, havia os que não eram, como o próprio mário de andrade, que contribuiu imensamente com sua sensibilidade, sua vasta cultura e suas viagens pelo brasil. o ponto de encontro de todas essas ideias foi a semana de arte moderna, de 1922. todavia, antes do famoso evento, outros acontecimentos contribuíram para que a arte brasileira abandonasse os modelos portugueses e buscasse temas tratados de maneira mais moderna e formas inovadoras. contexto histórico e social na europa os movimentos de vanguarda ocorriam em pleno início da primeira guerra mundial e em meio às transformações desencadeadas pela revolução russa. com o cansaço e o descrédito que esses acontecimentos imprimiam aos valores europeus, as pessoas começaram a buscar na áfrica e na ásia, continentes ainda não tão contaminados pela cultura ocidental dominante, outros olhares sobre o mundo. valoriza-se então a arte primitiva. o brasil, em razão de seu passado colonial, de sua economia ainda baseada no café e de seu desenvolvi-mento desigual, vivia uma situação de desequilíbrios diversos de norte a sul do território nacional e a conse-quente tensão gerada por essa realidade. assim, durante a república velha (1889-1930) surgiram movimentos sociais como o tenentismo, que buscavam mais igual-dade e diminuição do poder da oligarquia cafeeira. arearea (o cão vermelho), de paul gauguin, 1892. escolha uma das cores e acompanhe como na pintura ela ocupa áreas bem delimitadas. a obra retrata um lugar tranquilo, embalado por uma música suave, com seres integrados à natureza. ansiando por simplicidade, o francês gauguin desenvolveu sua arte no taiti, longe dos centros urbanos, influenciando os artistas modernos a buscarem o primitivismo. paul gauguin/musée d’orsay, paris vpem3_un2_cap02_080a103.indd  88 4/15/10  2:31:03 pm</Page><Page Number="91">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  89 um dos movimentos sociais da república velha, o tenentismo, objetivava acabar com o poder excessivo dos fazendeiros. oficiais de baixa patente, os tenentes estavam revoltados com os vícios do governo e com os benefícios dados à oligarquia cafeeira. com objetivos bem definidos — o voto secreto, por exemplo — e o apoio de outras vertentes da sociedade, a campanha tenentista começa a ganhar corpo. mas só em 1924 o movimento amadurece a ponto de promover em são paulo sua mais violenta revolta: a cidade é tomada pelos tenentes — lojas e casas são invadidas, saqueadas e depredadas. o povo adere à revolta em busca de igualdade. entretanto, a força federal, em maior número, invade a cidade e ataca os revoltosos. mesmo com o insucesso de são paulo, o movimento gera vários motins em outros estados: mato grosso, sergipe, rio grande do sul. derrotados em são paulo, os tenentes rumam até o paraná, onde se encontram com o grupo liderado por luís carlos prestes, vindo do rio grande do sul. formam a coluna prestes, que percorre mais de 25 mil quilômetros e passa por onze estados brasileiros incitando a luta contra as oligarquias. sem resultados positivos, o tenentismo marcha em 1925 para o exílio, na bolívia. ainda assim teriam importante papel no fim da primeira república, em outubro de 1930. na foto, imigrantes italianos na colheita de café em fazenda da cidade de araraquara, são paulo, c. 1902. sobretudo no ambiente rural, os imigrantes europeus que se instalavam no início do século xx em são paulo traziam ideias que reforçavam o desejo de mudança. guilherme gaensly/biblioteca nacional, rio de janeiro theodor priesing/arquivo da editora a rua quinze de novembro no centro de são paulo, c. 1929. nas cidades, abriam-se bancos e indústrias, o que tornava a vida urbana mais sofisticada. geravam-se empregos e outras formas de lazer. alinari/topfoto/keystone operárias trabalhando em fábrica na cidade de são paulo,  c. 1930. sem leis trabalhistas que regulassem essa “nova atividade”, trabalhava-se nas fábricas até catorze horas por dia em troca de salários miseráveis e sob ameaça de castigos físicos. vpem3_un2_cap02_080a103.indd  89 4/15/10  2:31:06 pm</Page><Page Number="92">90  unidade 2 a semana de arte moderna em dezembro de 1917, a pintora anita malfatti inaugurou uma exposição de pinturas com fortes tra-ços expressionistas e cubistas que transformavam e rompiam definitivamente com a ideia de retrato e de descrição da natureza. malfatti recebeu severas críticas de monteiro lobato, que escreveu um artigo sobre a exposição no jornal o estado de s. paulo, em 20 de dezembro de 1917. lobato dizia que, por meio da denominação “arte moderna”, esses artistas permitiam-se chamar o que faziam de arte. ainda que contrário às inovações, lobato acabou chamando a atenção do público ao movimento em ascensão. em 1921, já formado, o grupo modernista brasileiro apre-sentava múltiplas tendências, mas com o mesmo objetivo de renovar a arte brasileira: mário de andrade publica pauliceia desvairada; oswald de andrade e menotti del picchia divulgam e defendem a nova arte. em fevereiro de 1922, no teatro municipal de são paulo ocorrem então os eventos da semana de arte moderna: leem-se poemas e trechos de romances na escadaria do teatro; oswald de andrade critica castro alves; guilherme de almeida declama poemas líricos bem ao gosto do público; ronald de carvalho lê “os sapos”. além das apresentações literárias, havia expo-sições de artes plásticas. villa-lobos rege um concerto com instrumentos tradicionais e outros inesperados, como tambor, folha de zinco, etc. características do modernismo — primeiro momento valorização do brasil os artistas buscavam acima de tudo valorizar o local, o que era brasileiro. a partir desse objetivo, esta-beleceram um interessante diálogo com os escritores românticos, também preocupados em valorizar o passado e a cultura nacional. entretanto, os modernistas faziam isso à sua maneira, ou seja, inovando não só a forma, mas a maneira de valorizar a cultura do brasil: valorizando a natureza tropical, tipos humanos como o negro e o caboclo, a tranquilidade das pequenas cidades, a linguagem falada pelos brasileiros, a mistura de povos e de costumes. a linguagem, o estilo, a leveza, os tipos brasileiros, tudo era tema para as produções da época. anita malfatti/coleção particular a mulher de cabelos verdes, de anita malfatti, 1915. após estudar pintura em berlim e voltar ao brasil, malfatti faria, antes da semana de 22, a exposição que, embora criticada por lobato, revelou novos caminhos para a arte brasileira, sobretudo no uso da cor. o mamoeiro, de tarsila do amaral, 1925. nesta tela, a artista retrata a natureza tropical, as pessoas simples das pequenas cidades com intenso colorido e com forte influência cubista, representada nas formas geométricas estilizadas. tarsila do amaral/coleção mario de andrade, ieb-usp, são paulo/ tarsila educação www.tarsiladoamaral.com.br vpem3_un2_cap02_080a103.indd  90 4/15/10  2:31:09 pm</Page><Page Number="93">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  91 inovação estética — experimentos poetas e prosadores buscavam liberdade de expressão, muitas vezes marcada pela opção pelo verso livre, pela sintaxe mais solta, menos ortodoxa. figuras como elisão, parataxe (você verá em comparando textos) são comuns na produção desse período, que retrata uma sociedade caracterizada pela multiplicidade, em que indivíduos tentam realizar várias atividades ao mesmo tempo. muito mais do que inovar os temas da literatura brasileira, o que vemos nessa fase modernista é o desejo de romper com a estética reinante. além das inovações sintáticas, há inovações fônicas e léxicas, entre outras, como exemplifica esta estrofe de mário de andrade, do poema “lundu do escritor difícil”, publicado no livro a costela do grão cão: lundu do escritor difícil mário de andrade […] eu sou um escritor difícil, porém culpa de quem é!… todo difícil é fácil, abasta a gente saber. bajé, pixé, chué, ôh “xavié” de tão fácil virou fóssil, o difícil é aprender! […] andrade, mário de, op. cit. principais autores mário de andrade nascido no centro da cidade de são paulo, mário de andrade (1893-1945) desde cedo demonstrou ter uma forte relação com a vida urbana e com tudo o que ela oferece. autor de poemas, contos, romances e artigos, o escritor também ficou conhecido pelas inúmeras car-tas trocadas com os mais diversos artistas da época, nas quais discorre sobre suas ideias estéticas, sobre a língua portuguesa, sobre suas posições políticas, sobre o brasil, etc. […] e agora um pedido. tenho uma fome pelo norte, não imagina. mande-me umas fotografias de sua terra. há por aí obras de arte coloniais? imagens de madei-ra, igrejas interessantes? conhecem-se os seus autores? há fotografias? acredite: tudo isso me interessa mais que a vida. não tenha medo de me mandar um retrato de tapera que seja. ou de rio, ou de árvore comum. são as delícias de minha vida essas fotografias de pedaços mesmo corriqueiros do brasil. não por sentimentalis-mo. mas sei surpreender o segredo das coisas comesinhas da minha terra. e minha terra é ainda o brasil. não sou bairrista. […] fragmento de carta a luís da câmara cascudo.  disponível em: www.historiaecultura.pro.br/modernosdescobrimentos/ desc/mario/mariofragmentos.htm. acessado em 2 fev. 2010. abastar: guarnecer do que é necessário. bajé: feiticeiro, curandeiro da tribo (de acordo com silveira bueno, vocabulário tupi-guarani português, editora brasilivros). chué: de pouco valor; sem graça. lundu: canção ou dança popular inspirada em ritmo africano. pixé: mau cheiro; diz-se de comida queimada. vpem3_un2_cap02_080a103.indd  91 4/15/10  2:31:09 pm</Page><Page Number="94">92  unidade 2 em seus poemas, logo percebemos sua relação próxima com a música. mário de andrade, que estudou e lecionou no conservatório dramático e musical, procurava transpor para suas produções características próprias da composição musical, incluindo até mesmo os conceitos de melodia e de harmonia. leia uma estrofe do poema “domingo”, publicado em pauliceia desvairada. nesse poema, os versos se organizam em palavras soltas, sem ligação aparente, sobrepondo-se umas às outras e formando harmonias: domingo mário de andrade missas de chegar tarde, em rendas, e dos olhares acrobáticos… tantos telégrafos sem fio! santa cecília regurgita de corpos lavados e de sacrilégios picturais… mas jesus cristo nos desertos, mas o sacerdote no confiteor… contrastar! — futilidade, civilização… andrade, mário de, op. cit. mário vivia a cidade. de sua janela avistava os bondes, o movimento dos carros e das pessoas. assim, diante da visão de uma cidade que se urbanizava, sua obra não poderia retratar nada diferente. dizia ter produzido pauliceia desvairada de uma só vez, olhando pela janela de seu quarto. nesse livro, a palavra ganha liberdade em poemas curtos, de complexa significação. por exemplo: o bonde abre a viagem, no banco ninguém, estou só, stou sem. depois sobe um homem, no banco sentou, companheiro vou. o bonde está cheio, de novo porém não sou mais ninguém. andrade, mário de. in: massaud, moisés.  a literatura brasileira através dos textos. são paulo: cultrix, 1984. um dos responsáveis pela semana de arte moderna, mário de andrade também participou da produção de revistas modernistas: klaxon, estética, terra roxa e outras terras. de modo geral, seus textos descrevem vivências, percepções e sensações desencadeadas pela modernização de são paulo. essa modernização se dá na sintaxe — não se preocupava em produzir orações; seu desejo era demons-trar sentimentos por meio de frases mais marcadas por adjetivos, por sons — e no léxico. com os neolo-gismos, criava palavras procurando acompanhar o desenvolvimento das cidades, como em os progredires, sonambulando, retratificado ou até mesmo arlequinal. lasar segall/instituto de estudos brasileiros da universidade de são paulo retrato de mário de andrade por lasar segall, 1927. confiteor: oração recitada pelos católicos antes de confessarem seus pecados ao padre. pictural: relativo ou próprio da pintura. regurgitar: transbordar. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  92 4/15/10  2:31:10 pm</Page><Page Number="95">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  93 v “escola! sen… tido!” mário de andrade e a manhã    noiva    invernal    umidecida,       névoas       ventos       gotas d’água, se desenrola que nem novelo de fofa lã.                    que frio!… quatro carreiras de menhires humanos. imobilidade absoluta. porém as almas tremem retransidas. — “cabeças levantadas! ninguém se mexa!” e a neblina envereda ver garças batendo asas brancas pelos alinhameitos de carnac. andrade, mário de, op. cit. interessado pelos costumes brasileiros, o poeta e prosador excursiona pelo brasil a fim de conhecer sua produção e sua gente. excelente folclorista, pesquisa nossa arte mais primitiva, nossa característica mais brasileira, o que resulta em uma de suas mais importantes obras: macunaíma, que retrata o herói brasileiro “sem nenhum caráter”, que nasce na selva amazônica e chega a são paulo, em busca de um talismã furtado por um gigante estrangeiro. leia o parágrafo inicial: no fundo do mato-virgem nasceu macunaíma, herói de nossa gente. era preto retinto e filho do medo da noite. houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. essa criança é que chamaram de macunaíma. andrade, mário de. macunaíma. são paulo: agir, 2008. carnac: pequena cidade francesa, na bretanha, conhecida pelas longas fileiras de menhires (os alinhamentos de carnac) erguidos por volta de 2000 a.c. menhir (ou menir): monumento pré-histórico que consiste num bloco de pedra levantado verticalmente. retransido: que penetra até o íntimo, transpassado. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  93 4/15/10  2:31:13 pm</Page><Page Number="96">94  unidade 2 oswald de andrade nascido em família rica, oswald de andrade (1890-1954) é uma das figuras mais importantes do modernismo brasileiro. trata-se do grande articulador da semana de arte moderna. sempre em contato com o que ocorre nas artes europeias, interessa-se pelas vanguardas surrealistas. a partir daí amadurece sua produção moderna no romance, na poesia e nos manifestos pau-brasil e antropófago. fac-símile/revista de antropofagia, ano i, n. 1, são paulo, maio de 1928/arquivo da editora página do manifesto antropófago (ou manifesto antropofágico), escrito por oswald de andrade, inspirado na tela abaporu (cujo desenho aparece no centro da página do manifesto), de tarsila do amaral, 1928. essas novas ideias sobre arte foram publicadas no primeiro número da revista de antropofagia, são paulo, maio de 1928, editada pelos modernistas. vpem3_un2_cap02_080a103.indd  94 4/15/10  2:31:13 pm</Page><Page Number="97">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  95 oswald foi um dos autores que melhor representaram o conflito vivido pela burguesia da época: evidenciou questões sociais e psicológicas, criticou a elite cafeeira das grandes capitais, produziu textos divertidos a partir da contradição do homem da cidade. constituem marcas de sua produção: o humor, a crítica na ponta da língua e grande admiração pelo brasil, país tão contraditório e rico. como mário de andrade elabora os poemas-telegrama, oswald fica conhecido pelos poemas-piada — textos curtos em que um trocadilho exprime humor diante da situação apresentada. de sua melhor produção em prosa, temos memórias sentimentais de joão miramar e serafim ponte- -grande, romances que inovam na forma, com capítulos curtos ou em versos, como se fossem poesias ou colagens. erro de português oswald de andrade quando o português chegou debaixo duma bruta chuva vestiu o índio que pena! fosse uma manhã de sol o índio tinha despido o português andrade, oswald de. utopia antropofágica. são paulo: globo, 2001. brasil oswald de andrade o zé pereira chegou de caravela e preguntou pro guarani da mata virgem — sois cristão? — não. sou bravo, sou forte, sou filho da morte teterê tetê quizá quizá quecê! lá longe a onça resmungava uu! ua! uu! o negro zonzo saído da fornalha tomou a palavra e respondeu — sim pela graça de deus canhém babá canhém babá cum cum! e fizeram o carnaval andrade, oswald de. primeiro caderno do aluno de poesia oswald de andrade. são paulo: globo, 1991. marcos guilherme/arquivo da editora marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  95 4/15/10  2:31:15 pm</Page><Page Number="98">96  unidade 2 manuel bandeira manuel bandeira (1886-1968) nasceu em recife, pernambuco. viaja várias vezes para o rio de janeiro antes de se instalar em são paulo, onde inicia a faculdade de arquitetura. em 1904, aos 18 anos, descobre que sofria de tuberculose e parte para o rio de janeiro em busca de condições climáticas melhores. a doença o leva à europa, onde entra em contato com o simbolismo e as vanguardas artísticas. mais tarde, fixando-se no rio de janeiro, torna-se amigo de poetas que, como ele, passaram do simbolismo ao modernismo. seus poemas apresentam características bem definidas do movi-mento modernista, como o humor e o olhar aguçado sobre tudo que o cerca. bandeira, um dos maiores poetas brasileiros de versos livres, em tudo encontra temas para sua poesia. irônico, escreve com ritmo leve e livre: teresa manuel bandeira a primeira vez que vi teresa achei que ela tinha pernas estúpidas achei também que a cara parecia uma perna quando vi teresa de novo achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo (os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse) da terceira vez não vi mais nada os céus se misturaram com a terra e o espírito de deus voltou a se mover sobre a face das águas. bandeira, manuel, op. cit., p. 107-8. cândido portinari/coleção particular, rio de janeiro retrato de manuel bandeira pintado por cândido portinari, 1931. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  96 4/15/10  2:31:17 pm</Page><Page Number="99">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  97 a tuberculose, que o fez supor a vida toda que poderia morrer a qualquer instante, foi tema de alguns de seus poemas (como em “pneumotórax”), assim como a liberdade, as personagens familiares e imagens tipicamente brasileiras, de rodas, cirandas, santos, festas. observe: pneumotórax manuel bandeira febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. a vida inteira que podia ter sido e que não foi. tosse, tosse, tosse. mandou chamar o médico: — diga trinta e três. — trinta e três… trinta e três… trinta e três… registre. […] — o senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão 	 	 	 	 [direito infiltrado. — então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? — não. a única coisa a fazer é tocar um tango argentino. bandeira, manuel, op. cit., p. 97. o anel de vidro manuel bandeira aquele pequenino anel que tu me deste, — ai de mim — era vidro e logo se quebrou… assim também o eterno amor que prometeste, — eterno! era bem pouco e cedo se acabou. frágil penhor que foi do amor que me tiveste, símbolo da afeição que o tempo aniquilou — aquele pequenino anel que tu me deste, — ai de mim — era vidro e logo se quebrou… não me turbou, porém, o despeito que investe gritando maldições contra aquilo que amou. de ti conservo no peito a saudade celeste… como também guardei o pó que me ficou daquele pequenino anel que tu me deste… bandeira, manuel, op. cit., p. 42. penhor: empenho ou entrega de coisa móvel ou imóvel como garantia de obrigação assumida. turbar: causar ou sofrer perturbação. marcos guilherme/arquivo da editora marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  97 4/15/10  2:31:19 pm</Page><Page Number="100">98  unidade 2 alcântara machado alcântara machado (1901-1935), filho de uma tradicional família paulista, também pôde conhecer as tendências artísticas europeias na época. sua produção literária foi toda em prosa, principalmente contos. foi um dos responsáveis pela transformação da prosa da época. de sensibilidade ágil, soube captar e transmitir o que a figura do imigrante trouxe para a paisagem da cidade de são paulo. os costumes e a fala passaram a ser registrados nos contos de brás, bexiga e barra funda de forma divertida e pitoresca. suas características são a agilidade dos contos, o olhar sobre os novos bairros operários e até mesmo a percepção de sua limitação para retratar esses bairros, uma vez que ele pertencia à elite paulistana, e não à gente que vivia ali. conheça um trecho do conto “a sociedade”, de alcântara machado: a sociedade alcântara machado — filha minha não casa com filho de carcamano! a esposa do conselheiro josé bonifácio de matos e arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas. teresa rita misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta. o conselheiro josé bonifácio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque. o esperado grito do cláxon fechou o livro de henri ardel e trouxe teresa rita do escritório para o terraço. o lancia passou como quem não quer. quase parando. a mão enluvada cumprimentou com o chapéu borsalino. uiiiiia-uiiiiia! adriano melli cal-cou o acelerador. na primeira esquina fez a curva. passou de novo. continuou. mais duzentos metros. […] machado, antônio alcântara. brás, bexiga e barra funda. são paulo: nova alexandria, 1995. prof.(a), se possível, consulte o site: www.livrofalante.com.br/brasbexigabarrafunda.html. nele, é possível ouvir um trecho de um conto com todo o cuidado de apresentar a fala do imigrante. borsalino: fábrica italiana de acessórios masculinos, especialmente de chapéus. carcamano: indivíduo nascido na itália (usado no sentido pejorativo). cláxon: ortografia aportuguesada de klaxon (buzina de automóvel). henri ardel: romancista francês, teve seus romances publicados no brasil como literatura para moças por volta da metade do século xx. lancia: marca italiana de automóveis. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap02_080a103.indd  98 4/15/10  2:31:20 pm</Page><Page Number="101">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  99 sintetizando modernismo no brasil:  poesia e prosa da primeira geração copie o esquema a seguir no caderno e complete-o com base no que foi estudado no capítulo.  no início do século xx, formava-se na literatura brasileira  um outro código, outra maneira de produzir arte. muitos dos artistas brasileiros desse período sofreram influências europeias, pois costumavam viajar para a europa e traziam de lá os princípios do modernismo português e ideias dos movimentos vanguardistas. o ponto de encontro de todas essas ideias foi  a semana de arte moderna, realizada em são paulo, em 1922. o brasil vivia 	 uma situação de desequilíbrios diversos de norte a sul do território nacional e a consequente tensão gerada por essa realidade. assim, durante a república velha (1889-1930) surgiram movimentos sociais como o tenentismo. são características do modernismo brasileiro:  valorização do que é brasileiro, nacional e inovação estética. são os principais escritores desse período e suas características mais importantes são: mário de andrade, oswald de andrade, manuel bandeira e alcântara machado / mário é o poeta da cidade, do urbano, do movimento e também do co-nhecimento das características culturais brasileiras; oswald é o poeta da língua brasileira, do humor, da crítica e da grande admiração pelo brasil; bandeira é o poeta do texto leve e dos temas ligados à morte e alcântara machado é o escritor que dirige seu olhar para os bairros paulistanos e sua gente. desafo responda às questões no caderno. 1	(ufu-mg, 2001) leia as afirmativas seguintes sobre a obra macunaíma, de mário de andrade, e assi-nale a alternativa incorreta: 	 (a)	sendo uma rapsódia, a obra caracteriza-se pelo acolhimento e assimilação de elementos variados de nossa cultura. por esse caráter multifacetado, macunaíma é inviável enquanto representação de nossa identidade. x 	 (b)	o herói macunaíma é um tipo criado a partir de contos populares e está ligado a personagens do folclore brasileiro, como pedro malazarte. mais recentemente, pode-se aproximá-lo a joão grilo, da peça auto da compadecida. 	 (c)	são elementos da obra a mitologia indígena, o folclore nacional, a nossa língua falada, os costu-mes brasileiros. os costumes brasileiros, mário de andrade retira-os da cidade de são paulo, onde macunaíma passa um bom tempo. 	 (d)	há um acentuado procedimento parodístico sustentando a obra. a paródia recai, inclusive, sobre obras da literatura brasileira, como iracema, de josé de alencar, e também sobre a carta do acha-mento do brasil, de pero vaz de caminha. prof.(a), aceite outras possibilidades de resposta, desde que coerentes com o que foi estudado. prof.(a), as questões de vestibular usadas nesta seção, em geral, foram transcritas literalmente, pois buscamos preservar sua configuração original. vpem3_un2_cap02_080a103.indd  99 4/15/10  2:31:20 pm</Page><Page Number="102">100  unidade 2 2	(ufrgs, 2001) leia o trecho de memórias sentimentais de joão miramar, de oswald de andrade. mas na limpidez da manhã mendiga cornamusas vieram sob janelas de gran-des sobrados. milão estendia os alpes imóveis no orvalho. no trecho acima, destacam-se alguns procedimentos formais. assinale com v (verdadeiro) ou com f (falso) as afirmações abaixo. ( ) o trecho constitui uma amostra da tentativa do autor de eliminar as diferenças entre prosa e poesia. ( ) a passagem revela facetas do experimentalismo típico do modernismo brasileiro. ( ) a citação denota um forte teor nacionalista, avesso às influências das vanguardas europeias. ( ) o texto apresenta neologismos que passaram a fazer parte da linguagem poética do modernismo. ( ) o fragmento concretiza uma linguagem telegráfica vista como expressão adequada da vida moderna. a sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é a)	v — f — v — v — f. b)	f — v — f — v — f. c)	v — f — f — f — v. d)	f — v — v — f — v. e)	v — v — f — f — v. x comparando textos compare o poema “paisagem nº- 1”, de mário de andrade, com um trecho da letra de música “são paulo, são paulo”, da banda paulistana premeditando o breque. são paulo, são paulo premeditando o breque é sempre lindo andar na cidade de são paulo o clima engana, a vida é grana em são paulo a japonesa loira, a nordestina moura de são paulo gatinhas punks, com jeito ianque de são paulo na grande cidade me realizar, morando num bnh na periferia a fábrica escurece o dia não vá se incomodar com a fauna humana de são paulo (de são paulo…) pardais, baratas, ratos na rota de são paulo (de são paulo..) e pra você, criança, muita diversão — e poluição tomar um banho no tietê ou ver tv na grande cidade me realizar, morando num bnh na periferia a fábrica escurece o dia […] premeditando o breque. premê vivo. são paulo: velas, 1994. show do premeditando o breque,  em são paulo, 1986. cesar diniz/agência estado vpem3_un2_cap02_080a103.indd  100 4/15/10  2:31:20 pm</Page><Page Number="103">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  101 1	escreva a alternativa que completa a frase abaixo no caderno: mário de andrade dedica o poema “paisagem nº- 1” a)	aos poetas modernistas. b)	aos brasileiros. c)	à cidade de são paulo. x 2	a letra de música “são paulo, são paulo” vê muita beleza na cidade de são paulo. a)	copie no caderno o verso em que isso é evidente. é sempre lindo andar na cidade de são paulo  x na grande cidade me realizar, morando num bnh  na periferia a fábrica escurece o dia  b)	podemos deduzir a partir desse verso que a banda conhece outras obras artísticas que fazem home-nagem à cidade? justifique sua opinião. 3	conforme você observou ao interpretar o poema de mário de andrade, o eu lírico faz referências ao clima da cidade, aproximando muitas vezes a instabilidade do clima à instabilidade de suas emoções. escreva no caderno o verso da música da banda premeditando o breque em que podemos pensar que os compositores também conhecem especificamente o poema de mário de andrade. é sempre lindo andar na cidade de são paulo  x na grande cidade me realizar, morando num bnh  na periferia a fábrica escurece o dia  4	releia o poema e a letra de música observando a sequência de versos. a)	escreva no caderno a opção que completa a frase: a organização dos versos mostra uma sequência temporal de ideias, criando poemas narrativos.   mostra a junção de uma sequência de ideias, sem que se verifique inicialmente um sentido entre elas. mostra uma sequência espacial de ideias, criando poemas narrativos.  b)	a parataxe, que consiste na organização de sequência de frases justapostas (sem conjunção coor-denativa), é um recurso muito usado nos poemas modernistas, uma vez que o poeta procura lutar contra o senso comum. por exemplo, considere estes versos da letra de música estudada: “é sempre lindo andar na cidade de são paulo / o clima engana, a vida é grana em são paulo / a japonesa loira, a nordestina moura de são paulo”. temos nesse trecho apenas uma junção sequencial de fatos, sem que entre os versos haja uma dependência estrutural, como se teria em, por exemplo: andar pela cidade é lindo, por causa do clima, do jeito de viver do paulistano, por causa dos diversos tipos étnicos que compõem o seu povo, etc. encontre um caso de parataxe no poema “paisagem nº- 1”. e por falar em modernismo… mário de andrade levou a sério seu trabalho de pesquisador da cultura brasileira. viajou o país inteiro para pesquisar quais eram os ritmos, as danças, as lendas, as canções, as festas, enfim, tudo o que poderia caracterizar os nossos costumes. na verdade, mário de andrade buscava nossa identidade, e é isso que você e seu grupo vão fazer: procurar a identidade de sua classe em relação às danças, às músicas/ritmos, às brincadeiras que faziam quando eram crianças e às atividades físicas que realizam. é possível pensar que provavelmente a banda conhece outras obras, já que o advérbio sempre pode indicar que eles gostam de passear frequentemente pela cidade e/ou pode-se supor que eles nesse trecho se refiram a obras que já comentaram sobre são paulo, como o poema de mário de andrade. prof.(a), aceite outras respostas, o importante é observar com o aluno que artistas em geral fazem referências a obras anteriores, estabelecendo um diálogo com outros artistas. x minha londres das neblinas finas! / pleno verão. / os dez mil milhões de rosas paulistanas. / há neve de perfumes no ar. vpem3_un2_cap02_080a103.indd  101 4/15/10  2:31:21 pm</Page><Page Number="104">102  unidade 2 em classe, dividam-se em quatro grupos. cada grupo escolhe um tema e organiza-se para levantar a  identidade da classe em relação a cada um deles. 1º- momento — levantamento de respostas cada grupo faz a pergunta correspondente ao tema escolhido a todos os colegas da classe: a)	de que tipo de dança você mais gosta? b)	de que tipo de música/ritmo você mais gosta? c)	quais as brincadeiras de que você gostava quando era criança? d)	de que atividade física você mais gosta? 2º- momento — conhecendo a identidade da classe feitas as perguntas, é hora de organizar as respostas. por exemplo: os ritmos de que mais gostam na classe são: samba e funk. contem quantos alunos escolheram cada um dos ritmos e tabulem o resultado. por exemplo: samba funk outros ritmos 30 12 3 3º- momento — apresentando a identidade da classe como cada grupo fez o levantamento sobre um tema diferente, deverá escolher um representante para apresentar oralmente a resposta para a classe. no mundo da oralidade para apresentação dos resultados, o representante deve produzir um texto oral — exposição. considere que os alunos da classe e o professor são seus interlocutores. seu objetivo é mostrar para a classe qual é a identidade do grupo em relação a cada um dos temas. aproveite para… … ler melhores poemas de mário de andrade  , organizado por gilda de mello e souza, editora global esse livro reúne os melhores poemas de um dos principais autores da primeira geração modernista brasileira. macunaíma  , de mário de andrade, editora agir mário de andrade lançou macunaíma, o herói sem nenhum caráter, em 1938. por falta de editora, a tiragem do romance foi pequena, mas a crítica modernista festejou o livro por sua inovação narrativa e de linguagem. 	 prof.(a), se preferir, sugira uma apresentação mais improvisada, que não requeira muito tempo para organização. proponha, por exemplo, que os alunos dancem ou dramatizem o que pesquisaram. vpem3_un2_cap02_080a103.indd  102 4/15/10  2:31:21 pm</Page><Page Number="105">capítulo 2 – modernismo no brasil — poesia e prosa da primeira geração  103 pau-brasil  , de oswald de andrade, editora globo nesse livro, oswald de andrade funde poema e prosa e aborda temas inusitados, estabelecendo assim os pontos principais de sua transgressora linguagem poética. melhores poemas de manuel bandeira  , organizado por francisco de assis barbosa, editora global o livro apresenta um panorama da obra desse grande modernista. contos reunidos: brás, bexiga e barra funda, laranja da china e outros  , de alcântara machado, editora ática essa coletânea reúne a totalidade dos contos escritos por alcântara machado. com muita ironia e humor, o autor nos fala de são paulo no início de sua industrialização. modernismo no brasil — panorama das artes visuais  , de beá meira, editora ática essa obra comenta mais de cinquenta anos de transformações artísticas, apontando os principais movi-mentos e apresentando a biografia concisa de seus protagonistas. … assistir tempos modernos  , de charles chaplin (eua, 1936) um operário enlouquece com o ritmo intenso do trabalho braçal com o qual tenta garantir sua sobre-vivência. macunaíma , de joaquim pedro de andrade (brasil, 1969) baseado na obra de mário de andrade, o filme conta a história de macunaíma, que na cidade conhece guerrilheiras e prostitutas, enfrenta vilões milionários, policiais. lição de amor  , de eduardo escorel (brasil, 1975) adaptação do romance amar, verbo intransitivo, de mário de andrade. na década de 1920, uma governanta alemã é contratada por uma família rica para dar aulas aos filhos do casal, o que também inclui iniciar sexual-mente o filho mais velho. … ver na internet www.mac.usp.br/mac/menuexpinterno.asp?op1  história da arte do século xx a partir das obras do museu de arte contemporânea da universidade de são paulo. www.pitoresco.com/brasil/tarsila/tarsila.htm  pitoresco é um site dedicado à exposição das obras de grandes mestres da arte. www.tarsiladoamaral.com.br/  site oficial da artista tarsila do amaral. www.dicavalcanti.com.br/  página oficial de di cavalcanti, pintor da primeira geração modernista. www.mam.org.br/  o museu de arte moderna de são paulo oferece amplo acervo da pintura nacional, que atravessou o século xx e chegou ao xxi influenciada pelos primeiros modernistas. embrafilme/divulgação/arquivo da editora os atores lílian lemmertz e marcos taquechel. vpem3_un2_cap02_080a103.indd  103 4/15/10  2:31:21 pm</Page><Page Number="106">3 capítulo modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945) 104  unidade 2 antes de ler a semana de 22 deixou como legado para os próximos escritores a possibilidade de maiores experi-mentações estéticas, além de um olhar mais voltado para as coisas autenticamente brasileiras. a geração seguinte, no entanto, não se restringiu aos limites desse legado. foi além: soube usar e transformar as conquistas literárias e estéticas de até então, tornando-se capaz de representar o local, mas de maneira a revelar também o humano, o universal. observe as imagens: prof.(a), alguns dias antes desta aula, peça aos alunos que escolham uma imagem, notícia, reportagem ou ar-tigo de opinião que trate de um assunto que, segundo eles, deveria provocar a reação da maioria das pessoas. leve para a aula algumas folhas de papel pardo e as distribua entre os grupos para montarem um painel com essas informações. album/akg-images/latinstock o cientista albert einstein ministrando aula na universidade de princeton, nos estados unidos, 1930-1931. corbis/latinstock soldados bolcheviques marchando pelas ruas de moscou. c. 1917. fpg/hulton archive/getty images primeira página do jornal brooklyn daily eagle, em que se lê a manchete “wall street em pânico devido à quebra da bolsa”, edição de 24/10/1929, dia da quebra da bolsa em nova york. joe rosenthal/ap photo soldados norte-americanos colocando a bandeira de seu país na ilha de iwo jima, em fevereiro de 1945, símbolo da vitória dos aliados na maior batalha da segunda guerra mundial contra as forças japonesas. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  104 4/15/10  2:34:13 pm</Page><Page Number="107">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  105 reúna-se com dois ou três colegas e respondam às questões a seguir. 1	na opinião do grupo, a arte deve ter um papel social, ou seja, deve ser um veículo de denúncia dos problemas locais e da humanidade? por quê? 2	a arte pode mobilizar as pessoas, levar a sociedade a algum tipo de transformação? por quê? 3	na folha de papel entregue por seu professor, colem as figuras e os textos, previamente selecionados, referentes a alguma situação que, segundo vocês, deveria levar as pessoas a se mobilizarem. a classe toda deve expor essas escolhas organizando um painel. deixem um espaço em branco embaixo ou ao lado de cada imagem ou texto para posterior escrita. 4	observando o painel, vocês se lembram de alguma obra de arte que tenha retratado uma dessas cenas? ao longo do mês, à medida que se lembrem de expressões artísticas relacionadas a um dos temas selecionados, preencham com os dados dela (título, autor e data de lançamento) o espaço em branco próximo à cena retratada. bettmann/corbis/latinstock um dos primeiros aparelhos de tv sendo testado numa residência na filadélfia, estados unidos, em 1935. pablo picasso/museo nacional centro de arte reina sofía, madrid guernica, do pintor catalão pablo picasso, 1937. united artists/divulgação/arquivo da editora cena de o grande ditador, filme dirigido e interpretado por charles chaplin, 1940. cpdoc/fundação getúlio vargas o presidente getúlio vargas fala à nação por ocasião da instauração do estado novo, na presença de outras autoridades, no palácio do catete, em novembro de 1937. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  105 4/15/10  2:34:15 pm</Page><Page Number="108">106  unidade 2 texto 1 o poema que você vai ler foi publicado no primeiro livro de poemas de carlos drummond de andrade, alguma poesia, de 1930. observe como o legado deixado pelos primeiros modernistas já se faz presente na liberdade estética e na abordagem temática. note também que acima dessas infuências emerge um poeta sensível às questões que envolvem o homem de seu tempo. o sobrevivente carlos drummond de andrade a cyro dos anjos impossível compor um poema a essa altura da evolução da 	 [humanidade. impossível escrever um poema — uma linha que seja — de 	 [verdadeira poesia. o último trovador morreu em 1914. tinha um nome de que ninguém se lembra mais. há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades 	 [mais simples. se quer fumar um charuto aperte um botão. paletós abotoam-se por eletricidade. amor se faz pelo sem-fio. não precisa estômago para digestão. um sábio declarou a o jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. mas até lá,  felizmente, estarei morto. os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. os percevejos heroicos renascem. inabitável, o mundo é cada vez mais habitado. e se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo 	 [dilúvio. (desconfio que escrevi um poema.) andrade, carlos drummond de. alguma poesia.  rio de janeiro: record, s.d. graña drummond. www.carlosdrummond.com.br cyro dos anjos: escritor mineiro, contemporâneo de drummond, que foi reconhecido por seus romances de crítica social. 1ª-2ª-3ª-4ª-5ª-6ª-vpem3_un2_cap03_104a129.indd  106 4/15/10  2:34:15 pm</Page><Page Number="109">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  107 interpretação do texto 1 o poema “o sobrevivente” pode ser dividido em três partes. embora entre as estrofes não haja nenhum conectivo estabelecendo de forma explícita a relação entre elas, todas estão cuidadosamente relaciona-das. de que natureza seria essa relação? observe o quadro a seguir e resolva as questões propostas. 1ª- parte 2ª- parte 3ª- parte 1ª- estrofe 2ª-3ª-4ª-5ª-6ª- estrofe conteúdo impossibilidade de se fazer poesia no momento histórico em que se encontra o eu lírico. apresentação das causas da impossibilidade de fazer poesia. desfecho irônico. contradiz o que o eu lírico desenvolvera até então. a)	concentre-se nas causas da impossibilidade de fazer poesia. identificamos abaixo os problemas apon-tados pelo eu lírico em cada uma das quatro estrofes da segunda parte, porém os colocamos fora da ordem em que aparecem no poema. escreva no caderno a qual estrofe se refere cada um deles. 	apesar de todos esses problemas, a humanidade cresce sem a menor capacidade de se sensibilizar  com todas essas dificuldades. 5ª- estrofe 	a tecnologia torna complexas as coisas mais simples.  2ª- estrofe 	mesmo com todo o legado tecnológico existente, a humanidade está distante de um nível razoável  de cultura. 3ª- estrofe 	a tecnologia e a cultura também não garantiram que os homens melhorassem e deixassem de  se matar. 4ª- estrofe b)	se o estágio em que se encontra a humanidade impede a composição de um poema, qual, então, seria a condição mais adequada para a produção de poesia? 2 outros dados não tão explícitos estão na organização geral do poema, parcialmente interpretado até aqui. releia: o último trovador morreu em 1914. tinha um nome de que ninguém se lembra mais. observe que a única informação realmente clara nesses dois versos é o ano de 1914. o nome do último trovador não é lembrado. a)	qual foi o acontecimento mais marcante para o mundo em 1914? a primeira guerra mundial. b)	diante disso, que importância teria o nome de um poeta? c)	que importância o eu lírico dá à poesia diante dos grandes acontecimentos da humanidade? 3 na segunda estrofe, o poeta aponta o lugar que a tecnologia passa a ocupar na vida das pessoas. escreva no caderno os versos que correspondem às afirmações a seguir. a)	as verdadeiras relações humanas estão fragilizadas. 8º- verso b)	existe cada vez mais a contenção dos movimentos físicos humanos. 6º-, 7º- e 9º- versos 4 releia a terceira estrofe. nela o eu lírico afirma “mas até lá, felizmente, estarei morto.”. em que con-siste a ironia contida nesse “felizmente”, ou seja, por que para ele é melhor estar morto quando a humanidade atingir um nível razoável de cultura? 5	releia os versos: os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. percevejo é o nome dado a diversas famílias de insetos. interprete essa comparação, considerando a ideia geral do poema. sugestão: talvez qualquer situação que não exigisse do homem sensibilidade ou envolvimento, ou que ao menos pudesse levá-lo à possibilidade de transformação de sua realidade. uma importância menor do que eventos tão desalentadores quanto os de uma guerra. também uma importância menor, num primeiro momento. antes de ler a última estrofe, temos a sensação de que não existem mais conteúdos para a poesia, há temas mais importantes a serem tratados. e a poesia não é a melhor forma de apresentar esses temas. 	 se a humanidade nessa altura da evolução não consegue aprender coisas básicas como o convívio, imagine como estará quando tiver atingido um nível razoável de cultura. 	 percevejos, como todo inseto, incomodam; isso reforça a ideia de que para o homem muitas vezes é impossível a conciliação, aquilo que incomoda precisa ser eliminado. quando se trata de inseto, talvez faça algum sentido, mas, em se tratando de seres humanos, configura-se o absurdo. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  107 4/15/10  2:34:15 pm</Page><Page Number="110">108  unidade 2 6 releia o último verso. observe que ele, ironicamente, contradiz o afirmado inicialmente na primeira estrofe, mas recupera todas as informações apresentadas ao longo do poema. nesse novo contexto, qual é, então, a nova temática para a poesia? 7 o título do poema é “o sobrevivente”. ao dar esse título ao texto, o eu lírico, mais uma vez, con-tradiz o que escrevera nos três primeiros versos. explique essa contradição, esclarecendo quem é “o sobrevivente”. texto 2 o poema a seguir também foi escrito por carlos drummond de andrade e encontra-se no livro sentimento do mundo, de 1940. nos poemas desse livro, o senso de humor e a ironia, que são uma cons-tante em textos anteriores, dão lugar a um olhar pessimista por conta da impossibilidade de reagir diante da realidade que o angustia. os ombros suportam o mundo carlos drummond de andrade chega um tempo em que não se diz mais: meu deus. tempo de absoluta depuração. tempo em que não se diz mais: meu amor. porque o amor resultou inútil. e os olhos não choram. e as mãos tecem apenas o rude trabalho. e o coração está seco. em vão mulheres batem à porta, não abrirás. ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. és todo certeza, já não sabes sofrer. e nada esperas de teus amigos. pouco importa venha a velhice, que é a velhice? teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. as guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. chegou um tempo em que não adianta morrer. chegou um tempo em que a vida é uma ordem. a vida apenas, sem mistificação. andrade, carlos drummond de, op. cit.  graña drummond. www.carlosdrummond.com.br 	 torna-se matéria poética a observação do mundo, com o registro do que inco-moda e exaspera, até mesmo com o reconhecimento da incapacidade de transformá-lo. 	 o eu lírico coloca-se na posição de sobrevivente por ter encontrado, nos problemas do mundo, material para a composição poética. sendo assim, o último trovador pode ter morrido em 1914, mas a observação da realidade e da perplexidade do homem diante dela pode fundar um novo modo de fazer poesia. depuração: limpeza; purificação moral; aperfeiçoamento. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap03_104a129.indd  108 4/15/10  2:34:16 pm</Page><Page Number="111">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  109 interpretação do texto 1 o verso a seguir dispara uma ideia que se repete de diferentes maneiras ao longo do poema: “chega um tempo em que não se diz mais: meu deus.”. responda no caderno: a)	dentro da ideia geral do poema, dizer “meu deus” equivale a: 	pedir ajuda à divindade.  	não abandonar a relação entre o homem e a religião.  	indignar-se com os problemas que nos cercam.  x 	fugir dos verdadeiros problemas, recorrendo à religião.  b)	o verso seguinte, “tempo de absoluta depuração.”, reforça a ideia apontada no item anterior com um agravante. consulte na página ao lado os significados da palavra depuração e reflita sobre a questão a seguir. com esse verso, é sugerido que: 	o homem se sente culpado por não fazer nada contra os problemas do mundo, por isso busca a  purificação moral. 	o homem perdeu sua capacidade de se indignar com os grandes problemas que o cercam e não  sente culpa por isso. x 2 a visão pessimista do comportamento do homem diante dos problemas do mundo continua a ser marcada pelos próximos versos: “tempo em que não se diz mais: meu amor. / porque o amor resultou inútil.”. a)	que esperanças em geral são colocadas no amor? b)	o que significa, portanto, o amor resultar inútil? 3 releia os versos a seguir. observe sua força poética (pense em “força poética” como o uso da palavra em seu potencial máximo de significação). teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. a)	escreva no caderno as duas expressões que se opõem. 	ombros e pesam.  	suportam e mundo.  	mundo e pesa.  	ombros e mão de uma criança.  	suportam e mão de uma criança.  x b)	nesse contexto, o que significa “teus ombros suportarem o mundo”? c)	o que significa, então, suportar o que não pesa mais que a mão de uma criança? 4 a capacidade de indignação é vislumbrada em dois versos da terceira estrofe. a)	identifique-os. “alguns, achando bárbaro o espetáculo, / prefeririam (os delicados) morrer.” b)	o que, segundo o eu lírico, há de errado na atitude dos que se comovem com os problemas? 5 interprete os dois últimos versos do poema. 	 o amor, em geral, funciona como uma força transformadora, que implica abnegação, paciência, envolvimento, compaixão. os esforços envolvidos nesse sentimento, no envolvimento com o outro, não servem para o que realmente importa: viver sem mistificação. prof.(a), aceite as diversas respostas apresentadas pelos alunos. se considerar necessário, apresente a sugestão proposta pelo livro como uma leitura possível apenas. sugestão: todos os problemas, as guer-ras, as fomes, enfim, tudo o que exige mudança, transformação está sobre os ombros de todos os homens. suportar é um vocábulo que pertence ao mesmo campo semântico da palavra peso. 	 significa que o peso está lá, mas não é assumido com a capacidade de indignação, de envolvimento, de exasperação que as questões ali levantadas exigem. prof.(a), aceite as diversas respostas apresentadas pelos alunos. se considerar necessário, apresente a sugestão proposta pelo livro como uma leitura possível apenas. eles desejam fugir do problema em lugar de tentar agir e transformá-lo. isso os torna, apesar da capacidade de indignação, idênticos aos demais. 	 sugestão: são os dois versos mais pessimistas do poema. a ideia é a de que não há um lugar má-gico para o qual se possa fugir, nem dentro da própria vida, tampouco fora dela. vivê-la apenas com tudo o que ela contém de dor, de absurdo e de sem sentido é o que resta. prof.(a), aceite possíveis interpretações do aluno, lembrando que o importante é que ele levante hipóteses de interpretação baseadas na leitura das linhas do poema e levando em conta o tom geral do texto. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  109 4/15/10  2:34:17 pm</Page><Page Number="112">110  unidade 2 desenvolvendo habilidades leitoras ao estudar o poema, você: identificou relação entre as partes do poema e reiterações, retomadas de ideias iniciais refor-  çadas em outros versos do texto; identificou as ideias gerais dos poemas e interpretou seus versos à luz dessas ideias;  fez inferências, relacionando informações do texto ao seu conhecimento de mundo;  identificou, em certos versos, elementos que, participando da construção do poema, o tor-  naram muito mais expressivo. texto 3 o soneto a seguir foi tirado do primeiro canto da obra poética de jorge de lima, invenção de orfeu. publicado em 1952, um ano antes da morte do poeta, até hoje o livro é um enigma para os que procuram interpretá-lo. apesar do hermetismo, da difculdade de encontrar unidade no todo, há, nessa obra, poemas que, lidos isoladamente, são de grande beleza, como o soneto a seguir. invenção de orfeu jorge de lima qualquer que seja a chuva desses campos devemos esperar pelos estios; e ao chegar os serões e os fiéis enganos amar os sonhos que restarem frios. porém se não surgir o que sonhamos e os ninhos imortais forem vazios, há de haver pelo menos por ali os pássaros que nós idealizamos. feliz de quem com cânticos se esconde e julga tê-los em seus próprios bicos, e ao bico alheio em cânticos responde. e vendo em torno as mais terríveis cenas, possa mirar-se as asas depenadas e contentar-se com as secretas penas. lima, jorge de. in: moisés, massaud.  a literatura brasileira através dos textos.  são paulo: cultrix, 1990. jorge de lima/arquivo da editora fotomontagem de jorge de lima, da década de 1930, em que se pode notar a influência do surrealismo em seu trabalho. veja essa e outras fotomontagens no livro o poeta insólito: fotomontagens de jorge de lima, edição organizada por ana maria paulino (publicação do instituto de estudos brasileiros, usp). estio: verão; idade madura. orfeu: na mitologia grega, orfeu, poeta e músico, casa-se com a bela eurídice, que morre. inconformado com a perda, o poeta desce aos infernos e implora para que sua amada reviva. serão: trabalho ou tarefa extraordinária; tempo que decorre entre a refeição noturna e a hora de dormir. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  110 4/15/10  2:34:18 pm</Page><Page Number="113">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  111 interpretação do texto 1 o poema de jorge de lima é repleto de metáforas, que, combinadas, tratam de certos eventos da vida e da maneira de lidar com eles. indique, no caderno, o que podem significar, dentro da ideia geral do poema, as palavras ou expressões a seguir. observe o exemplo: a)	chuva 5	 1.	os sonhos e as esperanças b)	campos  3	 2.	canto, arte c)	estios  11	 3.	a própria vida d)	serões e fiéis enganos  4	 4.	frustrações dos esforços e)	sonhos que restarem frios  10	 5.	dificuldades, problemas f)	ninhos imortais  6	 6.	espaço de concretização dos sonhos g)	pássaros  1	 7.	sonhos e ilusões secretas h)	cânticos  9	 8.	sonhos e ilusões desfeitas i)	bico  2	 9.	alegrias ou arte j)	asas depenadas  8	 10.	esperanças não realizadas k)	secretas penas  7	 11.	momentos bons, soluções dos problemas 2 elabore uma paráfrase do poema. para entender a poesia da segunda geração do modernismo a segunda geração modernista é reconhecida pelo amadurecimento e pelo aprofundamento literário das novidades estéticas desenvolvidas a partir da semana de arte moderna. na poesia, os autores tratam da guerra, da vida, da morte, da sensação de estar no mundo. a literatura desse período é marcada por fatos históricos que abalaram as estruturas de quem viveu nessa época. segundo o professor de literatura joão luiz lafetá, se os autores da semana de arte moderna foram responsáveis pela revolução na literatura, a geração de 1930 é representada pelos autores que vivem na revolução. menos preocupados em romper a tradição literária e mais seguros da liberdade proporciona-da pelo novo estilo, os autores desse período deram o tom da participação, ou seja, mostraram-se interes-sados na vida contemporânea e escreveram sobre o sentimento de participar da sociedade. o experimentalismo da primeira geração ocorreu num grupo restrito de pessoas que frequentavam os círculos literários de são paulo e paris. a esses artistas, importava a ideia de ruptura. na década de 1930, a literatura passa a incorporar, dire-ta ou indiretamente, eventos sociais do brasil e do mundo. drummond, cecília meireles, jorge de lima continuaram a luta pelo ideal de liberdade estética do primeiro momento. contudo, não se percebe mais na produção deles a brincadeira pura e simples de oswald de andrade, por exemplo. se com os primeiros modernistas a forma e a expressão ganharam destaque, com a segunda geração, temas políticos, existenciais ou religiosos vêm à tona, no desejo de expressar e discutir as angústias do ser humano. prof.(a), essa é uma interpretação possível, aceite outras alternativas que os alunos possam levantar. mesmo diante de situações difíceis, devemos esperar a solução dos problemas e jamais perder a capacidade de sonhar, de ter esperança. ainda que os objetivos não sejam alcançados, que se tenha ao menos o contentamento de poder sonhar. agence france-presse/ arquivo da editora jean-paul sartre (1905-1980), filósofo e escritor francês, em foto de 1948. ele influenciou gerações com suas ideias, sobretudo a partir do romance a náusea (editora nova fronteira), publicado em 1937, em que as questões do cotidiano, do viver simplesmente, ganham importância nas reflexões filosóficas. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  111 4/15/10  2:34:19 pm</Page><Page Number="114">112  unidade 2 contexto histórico a década de 1930 foi, sem dúvida, um período de intensas afições sociais. pouco antes, a queda da bolsa de nova york, em 1929, atinge grandes fortunas internacionais e nacio-nais. a alegria do início do século dá lugar a muita tristeza e a perda de valores. o mundo assiste, logo após a primeira guerra mundial, ao desenrolar da guerra seguinte, que se fecha com o lançamento da bomba atômica e a divi-são do mundo em dois blocos: socialista e capitalista. no brasil, a oligarquia cafeeira e a indústria so-frem os refexos da quebra da bolsa de nova york em 1929. a política do café com leite (dominada por são paulo e minas gerais) entra em crise, sobretudo, quando o governador mineiro apoia o candidato do partido da aliança liberal, o gaúcho getúlio vargas, para a presidência da república. as revoltas expressam a insatisfação social. a coluna prestes avançava pelo território nacional, de-fendendo o trabalho e opondo-se ao governo. getúlio vargas chega ao poder com a revolução de 1930, derrubando a oligarquia cafeeira e a república velha. defende a produção nacional geral e não só a do café, além de reformas das leis trabalhistas: regu-lamentação do trabalho do menor de idade, exigência de férias regulamentadas. ao mesmo tempo, persegue e prende os manifestantes contrários ao seu governo, entre eles luís carlos prestes. em 1937, vargas decreta o estado novo, governo autoritário, nos moldes do fascismo italiano, instituin-do no brasil um poder centralizador e ditatorial, que diminui a liberdade de expressão de maneira geral, espalhando desconforto e medo. getúlio vargas comanda o país de 1930 a 1954, quando se suicida. as mudanças políticas geradas a partir de seu governo levam a movimentos revolucionários e a reações contrar-revolucionárias. bettmann/corbis/latinstock em foto de outubro de 1929, motivado pela quebra da bolsa, o investidor walter thornton tenta vender seu luxuoso automóvel por apenas cem dólares nas ruas de nova york. arquivo nosso século/editora abril manifestação estudantil contra getúlio vargas e a favor da candidatura de eduardo gomes para presidente do país, em 1944. gardel bertrand/hemis.fr/afp memorial da paz em hiroshima, construído nessa cidade em homenagem às vítimas da bomba atômica que atingiu a região durante a segunda guerra mundial, em agosto de 1945. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  112 4/15/10  2:34:21 pm</Page><Page Number="115">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  113 características da poesia da segunda geração do modernismo aprofundamento das conquistas da geração de 1922 a geração de 22 rompeu com a estrutura acadêmica e incorporou outros modelos de produção. mais maduros e com o caminho aberto, os poetas da geração de 1930 não precisavam romper com o modelo vigente. com isso, ganharam liberdade para se concentrar em outras preocupações além da forma. conquista de novas temáticas na poesia da segunda geração modernista, há liberdade para tratar do mundo que se descortina, da sociedade cheia de horrores, do medo e da negatividade que isso traz. os poetas dessa fase voltam-se para temas existenciais, políticos ou religiosos: a guerra, o medo, a infância, o envelhecimento, as bombas, o horror, devido ao contexto histórico vivido. sentimento de estar no mundo o mais forte sentimento da segunda geração é o de viver, de estar no mundo. com a liberdade de expressão controlada, num cenário de guerras e ditadura, no brasil os poetas usam sua produção textual para se manifestar e refetir. principais autores carlos drummond de andrade carlos drummond de andrade (1902-1987) nasceu e pas-sou a infância em itabira, minas gerais. formou-se em farmácia, mas preferiu lecionar português e geografa. exerceu as funções de jornalista e de funcionário público ao longo de sua vida. drummond é o poeta que mais se destaca na segunda geração modernista. ficou conhecido pela riqueza de seu estilo pessoal, por suas temáticas e pela expressão dos seus sentimentos diante do mundo que o cercava. para ele, era um desafo captar a poesia de um mundo como o que se descortinava, segundo ele, “caduco”. sua força era a palavra. acreditava que, com ela, seria capaz de dialogar com o mundo, transformá-lo. por meio dela tam-bém declarava seu amor, refetia a sociedade, cantava os mons-tros da infância, da saudade, da injustiça. marca sua obra a sensação de ser um pouco estranho na sociedade e de ser responsável pelo contexto social em que vive. em relação à forma, drummond também primou pela liberdade: tanto podia produzir um verso livre como elaborar um soneto. autor maduro desde suas primeiras produções, o poeta recria nela o seu viver. história pessoal em seus versos, drummond canta sua história pessoal. muitas vezes, drummond mostra-se tímido, irônico, complicado, cansado da vida interiorana, mas temeroso do progresso e da metrópole. essa sensação não é percebida em uma fase nem em um poema, mas no conjunto da obra. drummond era um poeta em processo de conhecimento. chico nelson/editora abril o escritor carlos drummond de andrade em seu apartamento na cidade do rio de janeiro, em 1978. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  113 4/15/10  2:34:22 pm</Page><Page Number="116">114  unidade 2 marcos guilherme/arquivo da editora sua infância, sua origem social e seu gosto pela leitura muitas vezes tornam-se tema de poemas. em algumas produções, chega a comentar a tensão do início de sua vida sexual: iniciação amorosa carlos drummond de andrade a rede entre duas mangueiras balançava no mundo profundo. o dia era quente, sem vento. o sol lá em cima, as folhas no meio, o dia era quente. e como eu não tinha nada que fazer vivia namorando as pernas 	 	 	 [morenas da lavadeira. um dia ela veio para a rede, se enroscou nos meus braços, me deu um abraço, me deu as maminhas que eram só minhas. a rede virou, o mundo afundou. depois fui para a cama febre 40 graus febre. uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava no espaço verde. andrade, carlos drummond de. poesia completa. rio de janeiro: nova aguilar, 2003.  graña drummond. www.carlosdrummond.com.br infância carlos drummond de andrade a abgar renault meu pai montava a cavalo, ia para o campo. minha mãe ficava sentada cosendo. meu irmão pequeno dormia. eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de robinson crusoé, comprida história que não acaba mais. no meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala — e nunca se esqueceu chamava para o café. café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  114 4/15/10  2:34:23 pm</Page><Page Number="117">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  115 gauche: adjetivo francês, no caso, “sem jeito”. marcos guilherme/arquivo da editora minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: — psiu... não acorde o menino. para o berço onde pousou um mosquito. e dava um suspiro... que fundo! lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. e eu não sabia que minha história era mais bonita que a de robinson crusoé. andrade, carlos drummond de, poesia…, cit.  graña drummond. www.carlosdrummond.com.br na estrofe a seguir, de um poema de seu primeiro livro, alguma poesia, de 1930, o poeta se apresenta e coloca inclusive seu nome: poema das sete faces carlos drummond de andrade quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: vai, carlos! ser gauche na vida. [...] andrade, carlos drummond de, poesia…, cit.  graña drummond. www.carlosdrummond.com.br sua minas gerais o poeta apresenta-nos sua visão do estado de minas gerais e do país. retrata as igrejas, as cidadezinhas, as festas, as personagens típicas de minas, tudo o que o ajudou a construir seu modo de ver as coisas. era a poesia que o aproximava de temas tão distantes geografcamente, e era minas que lhe dava um jeito especial de ver a vida. ao apresentar sua cidade, o tom é discretamente irônico. o poeta e cronista não idealiza seu estado, revela tanto os pontos positivos como os negativos. seu mundo seus poemas mostram-nos também a falta de sentido da vida. para ele, o mundo se mostrava como um nada, um conjunto de erros. percebe-se puro pessimismo. são textos que mostram os questionamentos e as negações da vida. percebe-se certa recorrência dessa temática negativa de morte e de não esperança em seus poemas, como se pode ler em um trecho do poema “a máquina do mundo”, do livro claro enigma, de 1951. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  115 4/15/10  2:34:23 pm</Page><Page Number="118">116  unidade 2 carpir: lamentar-se. esquivar: escapar, subtrair-se. palmilhar: percorrer a pé. a máquina do mundo carlos drummond de andrade e como eu palmilhasse vagamente uma estrada de minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. [...] andrade, carlos drummond de, poesia…, cit.  graña drummond. www.carlosdrummond.com.br de difícil compreensão, o mundo apresenta-se confuso e o poeta retrata sua insatisfação e angústia. leia um trecho do poema “a for e a náusea”, do livro a rosa do povo, de 1945, bastante voltado para questões políticas e sociais daquele momento: a flor e a náusea carlos drummond de andrade preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. melancolias, mercadorias, espreitam-me. devo seguir até o enjoo? posso, sem armas, revoltar-me? olhos sujos no relógio da torre: não, o tempo não chegou de completa justiça. o tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. o tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse. marcos guilherme/arquivo da editora marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap03_104a129.indd  116 4/15/10  2:34:25 pm</Page><Page Number="119">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  117 marcos guilherme/arquivo da editora marcos guilherme/arquivo da editora em vão me tento explicar, os muros são surdos. sob a pele das palavras há cifras e códigos. o sol consola os doentes e não os renova. as coisas. que triste são as coisas, consideradas em ênfase. vomitar este tédio sobre a cidade. quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. nenhuma carta escrita nem recebida. todos os homens voltam pra casa. estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem. [...] andrade, carlos drummond de, poesia…, cit.  graña drummond. www.carlosdrummond.com.br implacável, o tempo mostra ao poeta que ninguém é poupado. o futuro parece indiferente e neutro, como o presente. a vida feita de palavras diante do pessimismo que lhe provoca a vida real, resta a vida recriada pela palavra, como no poema ”quero”, do livro as impurezas do branco, lançado em 1973: quero carlos drummond de andrade quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: eu te amo. [...] quero que me repitas até a exaustão que me amas que me amas que me amas. do contrário evapora-se a amação pois ao não dizer: eu te amo, desmentes apagas teu amor por mim. [...] andrade, carlos drummond de, poesia…, cit.  graña drummond. www.carlosdrummond.com.br vpem3_un2_cap03_104a129.indd  117 4/15/10  2:34:26 pm</Page><Page Number="120">118  unidade 2 marcos guilherme/arquivo da editora de mãos dadas com a humanidade drummond adverte-nos sobre o medo e o poder que nos oprime. para vencê-los, sugere a solidarieda-de construída pela palavra, como no poema ”mãos dadas”, do livro sentimento do mundo: mãos dadas carlos drummond de andrade não serei o poeta de um mundo caduco. também não cantarei o mundo futuro. estou preso à vida e olho meus companheiros. estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. entre eles, considero a enorme realidade. o presente é tão grande, não nos afastemos. não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não serei os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. andrade, carlos drummond de, poesia…, cit.  graña drummond. www.carlosdrummond.com.br cecília meireles a carioca cecília meireles (1901-1964) foi professora do en-sino fundamental (lecionou para as séries que correspondem ao que hoje temos do 2º- ao 5º- ano). publicou seu primeiro livro de poemas aos dezoito anos, com características adolescentes, mas carregado de sugestão e musicalidade. no início do modernismo, cecília publica dois livros, mas é em 1939 que o livro viagem registra o amadurecimento da ar-tista. o que se destaca logo na primeira leitura é a fuidez dos versos, ritmicamente bem construídos. o que, porém, marca defnitivamente sua produção é a cons-ciência da transitoriedade da vida. a própria cecília meireles, em entrevista à extinta revista manchete, diz que a vida é passageira e que o importante são os momentos e as impressões que temos desses instantes. assim, seus poemas captam determinado mo-mento por meio dos sentidos que se misturam ao recriar o real. fazendo um exercício de contemplação, produz poemas descriti-vos que mais parecem retratos. prof.(a), antes de iniciar o estudo da poeta cecília mei-reles, veja no manual do professor sugestão de ativi-dade complementar. serafim: anjo. taciturno: calado, triste, melancólico. arquivo do jornal o estado de s. paulo/agência estado a escritora cecília meireles, que também foi educadora, em foto sem data. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  118 4/15/10  2:34:28 pm</Page><Page Number="121">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  119 marcos guilherme/arquivo da editora é comum perceber em seus poemas certa fusão entre a natureza contemplada e o eu lírico, que, sentindo-se elemento da natureza, se integra a ela. a história também se transforma em temática para cecília meireles. ela escreve, entre outros fatos, sobre a inconfdência mineira, em romanceiro da inconfdência. esse poema, uma narrativa em versos ritmados, representa um desejo de homenagear os inconfdentes, ressaltando o heroísmo e a ânsia por liberdade. no poema, alternam-se os romances — compõem o fo narrativo da reconstituição histórica; os cenários — localizam os ambientes onde se desenrolam os acontecimentos; as falas — representam a in-tervenção do poeta-narrador, fazendo comentários e convidando o leitor a refetir sobre os fatos históricos relembrados. leia um “romance” em que, no fnal, se percebe uma velada alusão ao delator dos inconfdentes joaquim silvério dos reis. romance xli ou dos delatores cecília meireles o que andou preso me disse que dissera o carcereiro, que dissera o capitão... (mas pareceu-lhe parvoíce, e não delatou primeiro porque não teve ocasião...) e mais: porque o carcereiro depois passara a meirinho... e o capitão, do ouvidor fora sempre companheiro... e que, por esse caminho, ia-se o governador... mas agora, que o meirinho, o capitão mais o preso são da mesma condição... já que não tem mais padrinho, posso fazer com desprezo a minha declaração. diga o que me disse o preso, que de outro já o tinha ouvido, que ouvira de outro... não são máximas de grande peso: mas tudo, bem entendido, pode envolver sedição. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  119 4/15/10  2:34:29 pm</Page><Page Number="122">120  unidade 2 eu digo — por ter ouvido — que os flhos do reino, em breve, cativos aqui serão. tenha ou não tenha sentido, quem a dizê-lo se atreve merece averiguação. a minha denúncia é breve, pois nem sei se houve delito, nem se era conspiração. mas, se ninguém os escreve, aqui deixo por escrito, os nomes que adiante vão. haja ou não haja delito, esses nomes assinalo, e escrevo esta relação. o que outros dizem, repito. e apenas meu nome calo, por ser o mais fel vassalo, acima de suspeição. meireles, cecília. in: literatura comentada. sel. de textos de goldstein,  norma seltzer; barbosa, rita de cássia. são paulo: abril educação, 1982. jorge de lima médico de alagoas, jorge de lima (1895-1953) tem seus poemas divididos sobretudo por duas preo-cupações: a social e a religiosa. nos poemas de temática social, muitas vezes se vale da técnica de alinhar nomes para sugerir a evocação. o poeta busca retratar os costumes do nordeste, assim como fazem os prosadores modernistas da segunda geração. banguê jorge de lima cadê você meu país do nordeste que eu não vi nessa usina central leão de minha terra? ah! usina, você engoliu os banguezinhos do país das alagoas! você é grande, usina leão! você é forte, usina leão! as suas turbinas têm o diabo no corpo! você uiva! você geme! você grita! [...] lima, jorge de. in: candido, a.; castello, j. a.  presença da literatura brasileira — modernismo. rio de janeiro; são paulo: difel, s.d. seu objetivo maior, entretanto, é restaurar a poesia em cristo. de forte cunho religioso, seus poemas lembram preces carregadas de afetividade. meirinho: antigo funcionário da justiça, correspondente ao oficial de justiça atual. ouvidor: magistrado dos tempos coloniais  com as funções semelhantes às do atual juiz  de direito. parvoíce: idiotice, tolice. sedição: revolta, rebelião, conspiração. suspeição: suspeita, dúvida, desconfiança. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  120 4/15/10  2:34:30 pm</Page><Page Number="123">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  121 murilo mendes mineiro assim como drummond, murilo mendes (1901-1975) nasceu em juiz de fora, minas gerais. irrequieto, participou do movimento modernista, converteu-se ao catolicismo, tornou-se professor de literatura. por causa de sua religiosidade — pretende expressar o desejo do ser humano de se unir à totalidade —, sua obra caracteriza-se fundamentalmente pelo misticismo. marcantes, as imagens criadas em seus textos acabam às vezes se sobrepondo ao conteúdo. o poeta envereda pelo onírico, pelo sonho, muitas vezes tentando fugir do mundo que o rodeia. o homem, a luta e a eternidade murilo mendes adivinho nos planos da consciência dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos mundo de planetas em fogo vertigem desequilíbrio de forças, matéria em convulsão ardendo pra se definir. ó alma que não conhece todas as suas possibilidades, o mundo ainda é pequeno pra te encher. abala as colunas da realidade, desperta os ritmos que estão dormindo. à guerra! olha os arcanjos se esfacelando! um dia a morte devolverá meu corpo, minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins meus olhos verão a luz da perfeição e não haverá mais tempo. disponível em: www.releituras.com/mmendes_homem.asp.  acessado em fev. 2010. vinícius de moraes vinícius de moraes (1913-1980), carioca proveniente da típica família católica brasileira, imprime em seus primeiros textos forte caráter religioso, na linha de murilo mendes. mas essa não se frmou como ca-racterística fundamental de sua obra, já que vinícius preferiu trabalhar a fgura da mulher amada em seus poemas e composições musicais. todavia, por causa de sua formação religiosa, em certos poemas notamos que o poeta oscila entre o desejo e as angústias do pecado. expõe livremente sua sexualidade, mas de forma sofrida, marcada pela inquietação e pela busca da mulher predestinada. em seus poemas, trabalham-se ainda outros temas: a infância, os amigos — muito importantes para ele —, a pátria. ismael nery/museu de arte contemporânea da usp figura, do pintor ismael nery, 1927. amigo de murilo mendes, nery (1900-1934) dividia com o poeta a profunda crença no cristianismo e o gosto por questões místicas. observe nessa obra, que segue a influência surrealista da época, o jogo de sombra e luz na figura feminina, que contribui para a construção de um lado mais escuro, misterioso dessa imagem. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  121 4/15/10  2:34:30 pm</Page><Page Number="124">122  unidade 2 poema enjoadinho vinícius de moraes filhos... filhos? melhor não tê-los! mas se não os temos como sabê-lo? se não os temos que de consulta quanto silêncio como os queremos! banho de mar diz que é um porrete... cônjuge voa transpõe o espaço engole água fica salgada se iodifica depois, que boa que morenaço que a esposa fica! resultado: filho. e então começa a aporrinhação: cocô está branco cocô está preto bebe amoníaco comeu botão. filhos? filhos melhor não tê-los noites de insônia cãs prematuras prantos convulsos meu deus, salvai-o! filhos são o demo melhor não tê-los... mas se não os temos como sabê-lo? como saber que macieza nos seus cabelos que cheiro morno na sua carne que gosto doce na sua boca! chupam gilete bebem shampoo ateiam fogo no quarteirão porém, que coisa que coisa louca que coisa linda que os filhos são! disponível em: www.releituras.com/viniciusm_enjoado.asp. acessado em 22 nov. 2009. sintetizando o modernismo no brasil —  poesia da segunda geração copie o esquema a seguir no caderno e complete-o com base no que foi estudado no capítulo:  historicamente, o mundo vivia . no brasil, a influência da queda da bolsa de nova york e a segunda guerra mundial. / vivíamos revoluções sociais e um governo autoritário. são características da segunda geração da poesia no modernismo brasileiro: o amadurecimento e o aprofundamento das conquistas da geração de 1922; os poetas da geração de 1930 têm outras preocupações além da forma; conquista de novas temáticas em decorrência dos horrores vividos pela sociedade: temas existenciais, políticos, religiosos: a guerra, o medo, a infância, o envelhecimento, as bombas, sentimento de estar no mundo — o mais forte sentimento da segunda geração é o de viver, de estar no mundo. os escritores mais importantes do período são: carlos drummond de andrade, cecília meireles, jorge de lima, vinícius de moraes. prof.(a), aceite outras possibilidades de resposta, desde que coerentes com o que foi estudado. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un2_cap03_104a129.indd  122 4/15/10  2:34:31 pm</Page><Page Number="125">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  123 desafo responda às questões no caderno. 1 (fuvest) i o sobrevivente [...] há máquinas terrivelmente complicadas para 	 [as necessidades mais simples. se quer fumar um charuto aperte um botão. paletós abotoam-se por eletricidade. amor se faz pelo sem-fio. não precisa estômago para digestão. [...] ii cota zero stop. a vida parou. ou foi o automóvel? sobre esses versos, extraídos de alguma poesia, pode-se dizer que: a.	os dois textos podem ser aproximados quanto ao tema (mecanização do cotidiano); entretanto, enquanto o primeiro apresenta uma visão crítica sobre o tema, o segundo faz uma apologia bem- -humorada do progresso urbano. b.	os textos assemelham-se não apenas quanto ao tema (automatização da vida humana), mas também quanto à linguagem: ambos apresentam a brevidade e a descontinuidade sintática características de alguma poesia. c.	a crítica à mecanização excessiva que caracteriza a vida moderna evidencia-se, no texto i, especial-mente no emprego da antítese no primeiro verso, e, no texto ii, no emprego do estrangeirismo ou barbarismo (stop). d.	o texto ii apresenta, através de uma linguagem marcada pela concisão telegráfica, a crítica presente no texto i, uma vez que os termos zero, stop e parou indicam a total dependência da vida moderna em relação às máquinas. x e.	a máquina como assunto poético pode ser verificada nos dois textos, o que torna evidente a influência exercida, sobre o autor, da vanguarda artística conhecida como futurismo. 2 (fuvest) como o próprio título indica, no romanceiro da inconfidência, de cecília meireles, os roman-ces têm como referência nuclear a já frustrada rebelião na vila rica do século xviii. no entanto, deve-se reconhecer que: a)	a base histórica utilizada no poema converte-se no lirismo transcendente e amargo que caracteriza as outras obras da autora. b)	as intenções ideológicas da autora e a estrutura narrativa do poema emprestam ao texto as virtudes de uma elaborada prosa poética. c)	a imaginação poética dá à autora a possibilidade de interferir no curso dos episódios essenciais da rebelião, alterando-lhes o rumo. d)	a matéria histórica tanto alimenta a expressão poética no desenvolvimento dos fatos centrais quanto motiva o lirismo reflexivo. x e)	a preocupação com a fidedignidade histórica e com o tom épico atenua o sentimento dramático da vida, habitual na poesia da autora. prof.(a), as questões de vestibular usadas nesta seção, em geral, foram transcritas literalmente, pois buscamos preservar sua configuração original. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  123 4/15/10  2:34:31 pm</Page><Page Number="126">124  unidade 2 3 (ufsm-rs) a respeito da poesia de vinícius de moraes, assinale verdadeira (v) ou falsa (f) em cada afirmação a seguir. ( ) sob a forma de soneto, privilegia temáticas líricas, sobretudo o amor e suas múltiplas mani-festações. ( ) celebra a sensualidade com versos que apresentam imagens a respeito do sexo e do corpo. ( ) o cunho erótico dos poemas exclui a experiência mística do amor. 	 a sequência correta é: a)	v – f – f	 c)	v – v – f x	 e)	f – f – v b)	f – v – f	 d)	v – f – v 4 (enem) sentimental 1	 ponho-me a escrever teu nome com letra de macarrão. no prato, a sopa esfria, cheia de escamas 4	 e debruçados na mesa todos contemplam esse romântico trabalho. desgraçadamente falta uma letra, 7	 uma letra somente para acabar teu nome! — está sonhando? olhe que a sopa esfria! 10	eu estava sonhando... e há em todas as consciências este cartaz amarelo: “neste país é proibido sonhar”. andrade, carlos drummond de. seleta em prosa e verso. rio de janeiro: record, 1995. com base na leitura do poema, a respeito do uso e da predominância das funções da linguagem no texto de drummond, pode-se afrmar que (a)	por meio dos versos “ponho-me a escrever teu nome” (v. 1) e “esse romântico trabalho” (v. 5), o poeta faz referências ao seu próprio ofício: o gesto de escrever poemas líricos. x (b)	a linguagem essencialmente poética que constitui os versos “no prato, a sopa esfria, cheia de escamas e debruçados na mesa todos contemplam” (v. 3 e 4) confere ao poema uma atmosfera irreal e impede o leitor de reconhecer no texto dados constitutivos de uma cena realista. (c)	na primeira estrofe, o poeta constrói uma linguagem centrada na amada, receptora da mensagem, mas, na segunda, ele deixa de se dirigir a ela e passa a exprimir o que sente. (d)	em “eu estava sonhando...” (v. 10), o poeta demonstra que está mais preocupado em responder à pergunta feita anteriormente e, assim, dar continuidade ao diálogo com seus interlocutores do que em expressar algo sobre si mesmo. (e)	no verso “‘neste país é proibido sonhar’” (v. 12), o poeta abandona a linguagem poética para fazer uso da função referencial, informando sobre o conteúdo do “cartaz amarelo” (v. 11) presente no local. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  124 4/15/10  2:34:31 pm</Page><Page Number="127">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  125 comparando textos a letra da música a seguir, da banda legião urbana, escrita aproximadamente quarenta anos de-pois do poema “os ombros suportam o mundo”, também retrata o homem e o seu lugar no mundo moderno. leia a letra da música com atenção e, se quiser, ouça-a pelo site http://letras.terra.com.br/legiao-urbana/92/. índios renato russo quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto 35	como o mais importante mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente. quem me dera ao menos uma vez 40	entender como um só deus ao mesmo tempo é três esse mesmo deus foi morto por vocês é só maldade então 45	deixar um deus tão triste. eu quis o perigo e até sangrei sozinho entenda! assim pude trazer 50	você de volta pra mim quando descobri que é sempre só você que me entende do início ao fim. 55	e é só você que tem a cura do meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi. 1	 quem me dera ao menos uma vez ter de volta todo o ouro que entreguei a quem 5	 conseguiu me convencer que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha quem me dera 10	ao menos uma vez esquecer que acreditei que era por brincadeira que se cortava sempre um pano de chão 15	de linho nobre e pura seda quem me dera ao menos uma vez explicar o que ninguém consegue entender: 20	que o que aconteceu ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente. quem me dera 25	ao menos uma vez provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante 30	fala demais por não ter nada a dizer. cesar itiberê/folha imagem a banda legião urbana durante apresentação na programação da mtv,  em 1992. cesar itiberê/folha imagem vpem3_un2_cap03_104a129.indd  125 4/15/10  2:34:32 pm</Page><Page Number="128">126  unidade 2 60	quem me dera ao menos uma vez acreditar por um instante em tudo que existe e acreditar 65	que o mundo é perfeito que todas as pessoas são felizes... quem me dera ao menos uma vez 70	fazer com que o mundo saiba que seu nome está em tudo e mesmo assim ninguém lhe diz ao menos obrigado. 75	quem me dera ao menos uma vez como a mais bela tribo dos mais belos índios não ser atacado 80	por ser inocente como a realidade é apresentada pela banda legião urbana? em que pontos é possível comparar a visão da banda nessa canção com a visão de drummond em “os ombros suportam o mundo”? as atividades a seguir podem ajudar a refetir sobre isso. 1 o primeiro verso do poema de drummond marca temporalmente um evento. há nele quase um tom profético: “chega um tempo em que não se diz mais: meu deus.”. na letra de música da banda, há dois versos que evocam diversos acontecimentos que, ao longo do tempo, apesar da expectativa, não ocorrem. que versos são esses? “quem me dera / ao menos uma vez” 2 o eu lírico do poema em estudo afirma: “e nada esperas de teus amigos.”. que versos da letra da música “índios” correspondem aos problemas que o ser humano pode ter com os amigos? escreva a opção certa no caderno. a)	os versos das linhas 1 a 8. x	 c)	os versos das linhas 51 a 54. b)	os versos das linhas 26 a 31. 3 na primeira metade do século xx, o poeta diz “e os olhos não choram.”. por sua vez, na música “índios” o compositor diz: “tentei chorar e não consegui.”. na sua opinião, a que corresponde o verso da letra de música e o do poema? justifique sua resposta. 4 “chega um tempo em que não se diz mais: meu deus.”. indique os versos da canção que exemplificam o questionamento da fé feito pelo homem atual. os versos das linhas 40 a 45. 5 no poema “os ombros suportam o mundo”, o eu lírico se vê sozinho no escuro por ser incapaz de criar laços de amor, de amizade. que versos de “índios” também tratam da solidão, que parece afligir sempre o homem moderno? os versos das linhas 81 a 85. 	 sugestão: “e os olhos não choram.” representam a insensibi-lidade diante de grandes problemas. o eu lírico da canção, por sua vez, mostra-se capaz de enumerar diversos problemas, mas percebe, ao mesmo tempo, não ter mais a capacidade de se emocionar, como deveria, diante de um mundo doente. cesar itiberê/folha imagem eu quis o perigo e até sangrei sozinho entenda! assim pude trazer 85	você de volta pra mim quando descobri que é sempre só você que me entende do início ao fim. 90	e é só você que tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi. 95	nos deram espelhos e vimos um mundo doente tentei chorar e não consegui. legião urbana. dois. emi, 1986. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  126 4/15/10  2:34:32 pm</Page><Page Number="129">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  127 6 na última estrofe do poema de drummond há uma enorme carga pessimista. qual é o tom da última estrofe de “índios”? 7 ao usar o recurso da anáfora ao longo das estrofes com os versos “quem me dera / ao menos uma vez”, o eu lírico da canção contesta ou confirma o pessimismo? justifique sua resposta. e por falar em segunda geração modernista… os poetas dessa geração viviam um período histórico conturbado: no plano internacional, a grande depressão econômica, o avanço do nazifascismo, a segunda guerra mundial, a bomba de hiroshima. no plano nacional, o estouro da revolução de 1930 e a instalação do estado novo. a produção artística é densa, profunda e fala com um dos mais íntimos sentimentos humanos: o medo. o medo é o sentimento que resulta da guerra, das revoluções e das incertezas. o poeta modernista da segunda geração vive esse momento. e vocês, o que vivem e de que têm medo? é pensando no temor do jovem que muitas emissoras de televisão elaboram seus programas. o progra-ma malhação, por exemplo, editado pela globo, é uma série voltada para o público jovem. vocês vão ler uma resenha que trata de dois programas destinados a esse público: um da década de 1970 (ciranda cirandinha) e outro de 2009 (malhação). nos dois, o assunto é o mesmo: os medos comuns à juventude. todavia, para a autora do texto, o segundo programa não consegue tratar com profundidade os temas juvenis. leiam a resenha e descubram por quê. a última estrofe da letra da música também é bastante pessimista, porque dá a ideia de que vemos apenas os proble-mas do mundo e ao eu lírico só resta chorar, mas nem isso ele consegue. o eu lírico confirma o pessimismo. trata-se da enumeração de esperanças que, ao longo da vida do eu lírico, foram frustradas, não se realizaram. juventude em dois tempos bia abramo “malhação id” coloca jovens “típicos” às voltas com questões de uma identidade impossível em 1978, estreava ciranda cirandinha. era uma série sobre quatro jovens, ensaian-do entrar na idade adulta, que acabam indo todos morar no mesmo apartamento. ali, na virada dos anos 70 para os 80, a questão era: como entrar na vida adulta sem renegar a transgressão hippie? ou, em outras palavras, como não encaretar e tomar os pais conservadores como modelo? o autor principal era paulo mendes campos, e entre os colaboradores estava, por exemplo, domingos de oliveira. os jovens eram interpretados por lucélia santos, fábio jr., denise bandeira e jorge fernando. era ótima a série. o dilema principal dos quatro personagens não era, de maneira nenhuma, conduzido de forma a simplificar a questão. em outras palavras, os personagens eram cindidos entre uma identidade histó-rica e uma identidade possível. apesar da qualidade da série (que foi lançada em dvd no ano passado), ela não teve a audiência esperada e foi encerrada depois do sétimo episódio. talvez fosse um tanto amarga para os jovens aos quais se dirigia, talvez fosse careta demais para os ainda hippies e avançada demais para os que eram caretas. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  127 4/15/10  2:34:35 pm</Page><Page Number="130">128  unidade 2 na última semana, estreou uma nova encarnação da novelinha adolescente que está há 14 anos no ar, malhação id (de segunda a sexta, às 17h25; classificação não informada). desde as primeiras cenas, há uma espécie de efeito túnel do tempo: o protagonista é fiuk, vivido pelo filho de fábio jr., muitíssimo parecido com o pai e, como ele, também ligado à música. mas, de resto, quanta diferença! como as versões anteriores, malhação id reúne aquilo que a emissora acha que são jovens, de alguma forma, típicos. e o são mesmo, mas não de grupos sociais e juvenis concretos, com alguma referência no real, e sim como representantes de uma agenda de questões juvenis formulada pelo mundo adulto e publicitário. esses jovens vão estar, dizem, também às voltas com questões de identidade — mas como falar em identidade se tudo o que há é uma descrição rasa de tipos? há diferenças gigantescas entre a série dos anos 70 e a novelinha, é claro. os tempos são mesmo outros — o inconformismo saiu de moda, o modelo dos pais é mais adotado e aperfeiçoado do que contestado, o mundo do consumo tem um tamanho e uma importância inimagináveis em relação a 30 anos atrás, só para citar alguns pontos. mas o fato de malhação persistir no ar por década e meia e ciranda cirandinha ter durado tão pouco fala muito sobre a televisão e sua aversão àquilo que é menos simples. folha de s.paulo, 15 nov. 2009. folhapress. adaptado. agora que vocês já conhecem a opinião da autora da resenha, preparem-se para debater o assunto e   produzir uma atividade em grupo.  no mundo da oralidade organizem-se para o debate. leiam as perguntas a seguir, pensem nas respostas, façam anotações e   preparem-se para a produção do texto oral. a) segundo a autora do texto, quais eram os medos dos jovens no passado e quais são os medos dos jovens da atualidade? b) você concorda com a opinião dela sobre o medo dos jovens atuais? alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un2_cap03_104a129.indd  128 4/15/10  2:34:43 pm</Page><Page Number="131">capítulo 3 – modernismo no brasil — poesia da segunda geração (1930-1945)  129 c)	ainda segundo a autora, a tv escolhe aquilo que é mais simples, mais agradável de ver. no caso do medo dos jovens, você acredita que a tv disfarça os perigos? d)	do que o jovem tem medo? terminado o debate, preparem-se para a atividade em grupo: vocês vão produzir um texto para o twitter. o texto deverá ter no máximo 140 caracteres e apresentar o que vocês pensam sobre os medos que atingem os jovens de sua comunidade. em seguida, digitem o texto na rede ou, se não tiverem acesso a esse recurso, registrem por escrito em folhas de papel craft e espalhem-nas pelos pátios do colégios. aproveite para... ... ler sentimento do mundo  , de carlos drummond de andrade, editora record publicado em 1940, esse livro consagrou defnitivamente drummond como um dos maiores poetas brasileiros. melhores poemas de cecília meireles  , organizado por maria fernanda, global editora o livro traz os melhores poemas de cecília meireles, apresentados pelas mãos de sua flha maria fernanda. poemas  , de jorge de lima, editora record jorge de lima compôs uma obra de crítica social, sentido religioso e clara pulsão metafísica, com um apelo ao surrealismo. vinícius de moraes — nova antologia poética  , organizada por antonio cícero e eucanaã ferraz, editora companhia das letras a seleção dos poemas foi feita a partir de um olhar contemporâneo sobre a obra de vinícius de moraes. ... assistir poeta das sete faces  , de paulo thiago (brasil, 2002) documentário do diretor paulo thiago, que investiga e interpreta os diversos momentos da vida e da obra de carlos drummond de andrade. ... ver na internet www.viniciusdemoraes.com.br  site ofcial de vinícius de moraes, com dados importantes sobre o poeta e vários textos dele. www.vivaitabira.com.br/viva-drummond  sitede itabira, cidadeondenasceudrummond, com espaço dedicado ao escritor. www.rhaiza.com.br  poemas de drummond e vinícius de moraes declamados pelos próprios poetas. prof.(a), as respostas são discutíveis. promova um debate em que reine o respeito às diferentes opiniões. conduza a classe e oriente os alunos para que não tenham preconceitos ou visões distorcidas da realidade. divulgação/arquivo da editora o poeta vinícius de moraes e o compositor e maestro tom jobim. vpem3_un2_cap03_104a129.indd  129 4/15/10  2:34:45 pm</Page><Page Number="132">cícero dias/coleção particular, rio de janeiro unidade 3 outra voz: a voz do outro nesta unidade, você vai conhecer as cartas argumentativas e a prosa modernista da gera-ção de 1930 no brasil. os dois capítulos mostram manifestações de linguagem mais críticas, que têm a intenção de denunciar o que incomoda, o que não permite que o homem viva com dignidade. 130 os senhores das terras, aquarela sobre papel de cícero dias, década de 1920. segundo o escritor josé lins do rego, em crônica intitulada cícero dias em 1929, o pintor era “um menino de engenho com a loucura da arte”. neto de senhor de engenho, o artista pernambucano trouxe para muitas de suas telas as cores e os temas regionais que marcaram sua infância. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  130 4/15/10  2:55:37 pm</Page><Page Number="133">1 capítulo a carta argumentativa 131 antes de ler 1 	você sabe o que é um abaixo-assinado? 2 	você já assinou algum abaixo-assinado ou participou da criação de algum? se a resposta for positiva, responda: a)	quais eram os temas? b)	como você soube do abaixo-assinado? c)	por que resolveu participar? d)	você soube do resultado da solicitação? interessou-se em saber? 3 	em sua opinião, por que as pessoas fazem abaixo-assinado. 4 	se hoje você tivesse de elaborar um abaixo-assinado, a)	que tipo de solicitação faria? b)	que argumentos usaria para convencer as pessoas da importância de sua solicitação para a comu-nidade? c)	que meios usaria para divulgar o seu texto para o maior número de pessoas? d)	a quais autoridades encaminharia o pedido e as assinaturas? o texto que você vai ler a seguir é uma carta aberta de alguns artistas brasileiros sobre a devasta­ ção da amazônia. assustados com a alarmante situação da floresta amazônica brasileira, criaram o pro­je­to ama­zônia para sempre. o envolvimento em uma causa tão nobre surgiu enquanto gravavam a minissérie amazônia — de galvez a chico mendes, de glória perez. durante esse trabalho, ao entrar em contato com a realidade da floresta brasileira, perceberam que era preciso não só informar as pessoas sobre a importância da preservação, mas também mostrar a todos a real situação da floresta e interromper a devastação do ecossistema. cristiane torloni e victor fasano, alguns dos atores envolvidos no projeto, perceberam que só atingiriam as pessoas por meio da sensibilização e do convite à participação. para isso, resolveram produzir uma carta aberta, na qual, além de fazer a denúncia, também convidariam a população para uma tomada de posição. assim, acreditaram no apoio do povo brasileiro, que assinaria a carta aberta a ser enviada ao governo. o ator juca de oliveira foi incumbido de escrever o texto. usando como argumento dados numéricos assustadores sobre o desmatamento da floresta, o ator tentou provocar nas pessoas um sentimento de indignação e, assim, envolvê-las para tomar partido na militância por uma amazônia preservada. os artis-tas participantes do projeto esperavam conseguir, com essa carta, 1 milhão de assinaturas de brasileiros dispostos a ajudar. prof.(a), resolva a atividade a seguir oralmente. 	 prof.(a), após ouvir as respostas dos alunos, esclareça que se trata de um documento, assinado por várias pessoas. ele contém uma manifestação coletiva de apoio, de repúdio, de solicitação, de solidariedade, etc. e é encaminhado a autoridades que possam solucionar o problema descrito. 	 prof(a), esclareça que se trata de uma manifestação normal­ mente iniciada por pequenos grupos sensíveis a determinado tipo de problema e que acreditam que outras pessoas, ao conhecerem a questão, também poderão se sensibilizar. deixe claro, ainda, que o número de pessoas num abaixo-assinado revela a consciência de um grande grupo de eleitores, o que, num primeiro momento, pode pressionar as autoridades a atender à solicitação ou a entrar com um pedido de criação de uma lei. prof.(a), reforce que o uso cidadão de um abaixo-assinado deve considerar os interesses de um grupo, de uma comunidade. prof.(a), destaque a importância, hoje, da internet na divulgação de abaixo-assinados. há sites com modelos e orientações sobre a forma de construir e distribuir esse gênero de texto. 	 prof.(a), deixe claro que a carta com a solicitação e as assinaturas pode ser encaminhada a um deputado ou vereador que represente aquela comunidade. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  131 4/15/10  2:55:37 pm</Page><Page Number="134">132  unidade 3 os autores do projeto acreditavam que, atingido o número de assinaturas, conseguiriam exigir o cum-primento do parágrafo 4 o , do artigo 225 da constituição federal, que determina a preservação da floresta amazônica. você lerá a carta aberta publicada pelo grupo para conhecer o gênero e para, ao longo do capítulo, exercer sua cidadania por meio de textos como esses. fernando donasci/folha imagem/folhapress texto 1 alguns artistas brasileiros publicaram uma carta aberta, destacando o principal problema sofrido pela amazônia, que é o desmatamento. por meio dela, é feito um pedido de participação de todas as pessoas interessadas em leis que garantam a proteção da floresta. leia essa carta: carta aberta de artistas brasileiros sobre a  devastação da amazônia acabamos de comemorar o menor desmatamento da floresta amazônica dos últimos três anos: 17 mil quilômetros quadrados. é quase a metade da holanda. da área total já desmatamos 16%, o equivalente a duas vezes a alemanha e três estados de são paulo. não há motivo para comemorações. a amazônia não é o pulmão do mundo, mas presta serviços ambientais importantíssimos ao brasil e ao planeta. essa vastidão verde que se estende por mais de cinco milhões de quilômetros quadrados é um lençol térmico engendrado pela natureza para que os raios solares não atinjam o solo, propiciando a vida da mais exuberante flo-resta da terra e auxiliando na regulação da temperatura do planeta. vista aérea de área queimada, ainda com fumaça, em nova ubiratã, região médio-norte de mato grosso, município que mais sofreu desflorestamento na amazônia em 2005. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  132 4/15/10  2:55:42 pm</Page><Page Number="135">capítulo 1 – a carta argumentativa  133 depois de tombada na sua pujança, estuprada por madeireiros sem escrúpulos, ateiam fogo às suas vestes de esmeralda abrindo passagem aos forasteiros que a humilham ao semear capim e soja nas cinzas de castanheiras centenárias. apesar do extraordinário esforço de implantarmos unidades de conservação como alter-nativas de desenvolvimento sustentável, a devastação continua. mesmo depois do sangue de chico mendes ter selado o pacto de harmonia homem/natureza, entre seringueiros e indígenas, mesmo depois da aliança dos povos da floresta “pelo direito de manter nossas florestas em pé, porque delas dependemos para viver”, mesmo depois de inúmeras sagas cheias de heroísmo, morte e paixão pela amazônia, a devastação continua. como no passado, enxergamos a floresta como um obstáculo ao progresso, como área a ser vencida e conquistada. um imenso estoque de terras a se tornarem pastos pouco produtivos, campos de soja e espécies vegetais para combustíveis alternativos ou então uma fonte inesgotável de madeira, peixe, ouro, minerais e energia elétrica. continuamos um povo irresponsável. o desmatamento e o incên-dio são o símbolo da nossa incapacidade de compreender a delicadeza e a instabi-lidade do ecossistema amazônico e como tratá-lo. um país que tem 165000 km 2 de área desflorestada, abandonada ou semiaban-donada, pode dobrar a sua produção de grãos sem a necessidade de derrubar uma única árvore. é urgente que nos tornemos responsáveis pelo gerenciamento do que resta dos nossos valiosos recursos naturais. portanto, a nosso ver, como único procedimento cabível para desacelerar os efeitos quase irreversíveis da devastação, segundo o que determina o 4 o , do artigo 225 da constituição federal, onde se lê: “a floresta amazônica é patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais”. assim, deve-se implementar em níveis federal, estadual e municipal a interrupção imediata do desmatamento da floresta amazônica. já! é hora de enxergarmos nossas árvores como monu-mentos de nossa cultura e história. somos um povo da floresta! disponível em: www.amazoniaparasempre.com.br. acessado em 8 fev. 2010. engendrado: criado, concebido, gerado. pujança: grande força, vigor, robustez. alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un3_cap01_130a157.indd  133 4/15/10  2:55:44 pm</Page><Page Number="136">134  unidade 3 interpretação do texto 1 	releia o trecho inicial da carta dos artistas brasileiros: acabamos de comemorar o menor desmatamento da floresta amazônica dos últimos três anos: 17 mil quilômetros quadrados. é quase a metade da holanda. da área total já desmatamos 16%, o equivalente a duas vezes a alemanha e três estados de são paulo. não há motivo para comemorações. a)	segundo o trecho, por que não há motivos para comemorações? b)	qual foi o recurso usado para destacar o absurdo do desmatamento e, consequentemente, a razão de não haver motivos para comemorações? c)	que objetivo, além do destaque ao absurdo do desmatamento, é alcançado com o uso desse recurso? 2 	os autores da carta são claramente contra o desmatamento. entretanto, empregou-se a primeira pes-soa do plural em frases como “da área total já desmatamos 16%”. a)	a quem se refere a primeira pessoa do plural nesse contexto. b)	o que eles sugerem ao escrever “já desmatamos” em lugar de “já desmataram”? 3 	a partir da frase “a amazônia não é o pulmão do mundo” até o final do primeiro parágrafo, há mudança de recurso argumentativo. que característica da floresta é destacada? pulmão do mundo durante algum tempo, a floresta amazônica foi chamada de pulmão do mundo. isso acontecia porque acreditavam que a emissão de oxigênio pela floresta, advindo do processo de fotossíntese, era maior do que a emissão de gás carbônico. após diversas pesquisas, verificou-se que o oxigênio libera-do pela fotossíntese alimentava apenas o próprio ecossistema, ou seja, todos os organismos vivos da floresta. assim, ela não poderia ter esse papel de fornecedor de oxigênio para o planeta. 4 	releia o início do segundo parágrafo: depois de tombada na sua pujança, estuprada por madeireiros sem escrúpulos, ateiam fogo às suas vestes de esmeralda abrindo passagem aos forasteiros que a humilham ao semear capim e soja nas cinzas de castanheiras centenárias. a)	empregou-se uma figura de linguagem para destacar as diversas agressões sofridas pela floresta. escreva no caderno a opção correta e justifique sua resposta. ironia	  	antítese	 	personificação 	 	eufemismo b)	explique as metáforas presentes nesse trecho, indicando quais são as agressões sofridas pela floresta. 5 	as informações presentes no início do segundo parágrafo são recuperadas no terceiro. dessa vez, entretanto, os autores destacam que essas ações são consequência de uma visão que ainda se tem da amazônia. que visão é essa? 6 	no texto, é apontada uma razão bastante convincente para que nenhuma árvore da floresta amazônica seja derrubada. a)	que razão é essa?	 b)	por que ela é bastante convincente? 7 	a carta aberta pede “a interrupção imediata do desmatamento da floresta amazônica”. em sua opinião, os argumentos empregados foram convincentes? explique sua resposta. você assinaria esse abaixo-assinado? porque ainda que tenha sido o menor desmatamento, ele foi de 17 mil quilômetros quadrados, ou seja, quase a metade da holanda. 	 o autor usou a comparação entre a área desmatada e a área de um país como a alemanha (já desmatamos o equivalente a duas vezes a alemanha) e três estados de são paulo. ele torna mais claras para o leitor as dimensões do desmatamento. refere-se a todos os brasileiros, povo do qual os autores fazem parte. que a responsabilidade pelo desmatamento é de todos os brasileiros, inclusive deles. o papel da floresta na regulação da temperatura do planeta. trata-se da personificação. a floresta é apresentada como uma mulher que perde sua grandiosidade, é violentada e tem suas vestes queimadas. ela sofre com o corte de madeira (“estuprada por madeireiros sem escrúpulos”) e com as queimadas (“ateiam fogo às suas vestes de esmeralda”) que podem transformar áreas de floresta em pasto e áreas de cultivo de soja. 	 a de que é uma área a ser vencida e conquistada, um imenso estoque de terras para pastos e plantações e uma fonte inesgotável de madeira, peixe, minérios e energia. o fato de haver no território brasileiro 165 000 km de área desflorestada, abandonada ou semiabandonada que podem servir de pasto e área de plantio. porque torna claro que existem espaços no país mais que suficientes para o desenvolvimento das atividades agrícolas ou de pasto e que não é preciso destruir a floresta para isso. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  134 4/15/10  2:55:44 pm</Page><Page Number="137">capítulo 1 – a carta argumentativa  135 8 	em sua opinião, o fato de a carta aberta ter artistas brasileiros como autores favorece a adesão à causa aí expressa? veja o resultado do movimento iniciado pela redação da carta aberta em estudo: parabéns “amazônia para sempre” na última quinta feira, dia 4 de junho, conseguimos finalmente cumprir nosso objetivo. fomos recebidos em audiência pelo presidente luiz inácio lula da silva a quem tivemos a honra de entregar as 1 117 993 assinaturas colhidas até o momento pelo nosso movimento. […] queremos agradecer a todos os brasileiros que contribuíram para que esta entrega se realizasse. a cada um que assinou nosso manifesto, a cada um que nos ajudou a colher as assinaturas, àqueles que divulgaram nossa causa, enfim, a todos que de uma maneira ou de outra estiveram ao nosso lado nesta luta. disponível em: www.amazoniaparasempre.com.br. acessado em 27 fev. 2010. desenvolvendo habilidades leitoras na compreensão da carta aberta dos artistas brasileiros sobre a devastação da amazônia, você: identificou as diferentes formas de apresentação do problema abordado;  identificou alguns recursos argumentativos (comparações, figuras de linguagem, dados numé-  ricos, etc.) usados na tentativa de chamar a atenção do leitor para a gravidade do problema; refletiu sobre a situação de produção da carta, sobre a importância de seus autores para a  eficácia da ação. texto 2 além das cartas abertas, que podem ser escritas por qualquer cidadão que pretenda se dirigir publica-mente a alguém através dos órgãos de imprensa, existem outros tipos de carta. uma delas é a carta ao leitor. por meio dela algumas revistas ou jornais fazem uma apresentação sucinta das principais matérias veiculadas ou expõem a opinião da equipe editorial sobre um tema importante da atualidade e que será explorado pela revista ou pelo jornal. leia a carta ao leitor publicada pela revista veja, no início de 2010, período em que diversas regiões do brasil sofriam com as consequências de chuvas torrenciais e devastadoras. um país que dança na chuva ao ironizar a curta memória política e cultural no país, o escritor ivan lessa certa vez escreveu que, “a cada quinze anos, o brasil esquece os últimos quinze anos”. no plano meteorológico, isso é mais do que uma ironia — e a frequência é anual: a cada dezembro e janeiro, o país estranhamente esquece o que aconte-ceu no dezembro e janeiro anteriores. habitantes de um território tropical, com chuvas abundantes durante o verão, milhões de brasileiros, no mesmo período 	 prof.(a), destaque que, por serem pessoas públicas e desfrutarem da admiração das pessoas, a opinião dos artistas tem muito peso sobre elas, que, muitas vezes, desejam ter os mesmos hábitos e preocupações ou, pelo menos, dar certa importância a coisas às quais eles também dão importância. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  135 4/15/10  2:55:44 pm</Page><Page Number="138">136  unidade 3 de todos os anos, são atingidos por enchentes, desabamentos de casas, desliza-mentos de morros e desmoronamentos de estradas e pontes. desta vez, a maior calamidade resultou em 52 mortes em angra dos reis, no litoral do rio de janeiro. vítimas houve não porque choveu, mas porque não poderiam estar onde esta-vam — instaladas ao sopé de morros geologicamente instáveis. elas não sabiam do risco que corriam, visto que impera no município fluminense o mais absoluto descontrole sobre a ocupação do território. um problema visível em qualquer região do brasil. para além do descaso das autoridades com o ordenamento das construções (descaso que tanto pode ser sinônimo de propina como de populismo), a questão é de infraestrutura. ou melhor, da falta dela. promotores de obras que acabam custando não raro o triplo do previsto, governo e empreiteiras empregam enge-nheiros bons o suficiente para executar projetos que deem conta das caracterís-ticas climáticas e topográficas do brasil — e, assim, estender estradas à prova de deslizamentos e desmoronamentos, erguer pontes que não sejam arrastadas pela correnteza encorpada dos rios e proteger cidades de enchentes. se não o fazem, é porque também contam com o esquecimento dos cidadãos. que a cada dezembro e janeiro apagam da memória o que ocorreu no dezembro e janeiro anteriores. a conta é paga na forma de vidas sacrificadas, patrimônio perdido e bilhões de reais de prejuízo para um país que dança — só no mau sentido — na chuva. revista veja, 13 jan. 2010. interpretação do texto 1 	que acontecimentos motivaram a redação dessa carta ao leitor? 2 	esses eventos foram pretextos para algumas críticas. identifique-as. 3	de acordo com a carta, quais são as consequências dessas ações das autoridades? 4	essa carta ao leitor é iniciada com um comentário, que é retomado no final do texto. por meio desse comentário, que comportamento do povo brasileiro a equipe editorial da revista decidiu destacar? 5	quais podem ser as consequências desse comportamento? 6	o título dessa carta ao leitor pressupõe certo repertório cultural e conhecimento linguístico de seus interlocutores. responda: a)	embora a palavra dança apresente diferentes significados, o desenvolvimento do texto deixa claro que no título da carta só pode ser um. qual? o de que o país "se dá mal" com as chuvas. b)	o filme cantando na chuva (eua, 1952) está na lista dos melhores musicais de todos os tempos, mas traz um enredo simples. dois atores do cinema mudo, reconhecidos do grande público, deverão passar pelo desafio de participar de um filme de cinema falado para garantir a continuidade do sucesso já conquistado. mais do que pelo enredo, o filme é famoso pela cena em que o ator gene kelly canta e dança de modo bastante leve e feliz debaixo da chuva, mal protegido por um guarda-chuva. 	 considere o conteúdo desse texto e explique por que o título é bastante irônico. c)	diante do exposto no item b, você diria que o autor da carta teve a intenção de relacionar a expres-são “dança na chuva” do título da carta com o famoso musical? explique. 	 as enchentes e suas consequências diversas: desmo-ronamentos de morros, desabamentos de casas, pontes, deslizamentos de terra, além do fato de ter havido 52 mortes em angra dos reis por causa de deslizamentos provocados pelas chuvas. 	 o descontrole das autoridades sobre a ocupação do território ou descaso com o ordenamento das construções; a falta de compromisso de governo ou empreiteiras na contratação de engenheiros que garantam a qualidade e a segurança de obras públicas; o fato de as autoridades contarem com o esquecimento da população. vidas sacrificadas, patrimônio perdido e bilhões de reais de prejuízo. o problema de memória do povo brasileiro. o comentário diz que, segundo ivan lessa, no plano político e  cultural, “a cada quinze anos, o brasil esquece os últimos quinze anos”. os autores da carta destacam que,  no plano meteorológico, a memória é mais curta ainda, a cada dezembro e janeiro esquece-se do último dezembro e janeiro. 	 a maior consequência é viver a todo dezembro e janeiro os mesmos desastres vividos no dezembro e janeiro anteriores. isso significa não haver mobilização nem da população, nem das autoridades para mudar o cenário que favorece esses desastres. 	 porque a ideia de felicidade na chuva está bastante distante da realidade brasileira por causa do descaso de população e autoridades com a forma de ocupação do território. sugestão: é possível que a equipe editorial tenha ironizado a situação das chuvas em nosso país ao sugerir, por meio do título, oposição entre a felicidade de gene kelly na cena mais memorável do filme e a infelicidade das pessoas que sofrem todos os anos as consequências da falta de planejamento para a ocupação territorial do país. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  136 4/15/10  2:55:44 pm</Page><Page Number="139">capítulo 1 – a carta argumentativa  137 conhecimentos linguísticos conjunções, locuções conjuntivas e relações de sentido para relembrar as conjunções têm por função ligar elementos de um texto e estabelecer relações de sentido entre eles. elas podem ligar orações em um período ou termos semelhantes, isto é, que exercem a mesma função sintática dentro de uma oração. leia o exemplo: mariana e josé não são inimigos nem querem ser. 	 conjunção e liga termos semelhantes: os núcleos do sujeito composto 	 conjunção nem liga as orações do período composto as conjunções classificam-se em: 1. coordenativas: ligam termos ou orações independentes sintaticamente. podem ser: aditivas: indicam que os termos ou orações estão ligados por uma relação de soma, sequência (e, nem, etc.). por exemplo: as pessoas esqueceram o que aconteceu no dezembro e janeiro anteriores. adversativas: indicam que os termos ou as orações se ligam por uma relação de oposição (mas, porém, todavia, contudo, entretanto, etc.). por exemplo: “vítimas houve não porque choveu, mas porque não poderiam estar onde estavam.” alternativas: indicam alternância, equivalência entre dois termos ou duas orações ( ou, ou… ou, ora… ora, quer… quer, etc.). por exemplo: ora chove, ora faz sol. conclusivas: indicam conclusão em relação ao que já foi exposto (logo, portanto, pois (posposto ao verbo), assim, etc.). por exemplo: as fortes chuvas provocaram deslizamentos de morros; logo a estrada ficou interrompida. explicativas: indicam explicação em relação ao que já foi exposto (porque, pois (anteposto ao verbo), porquanto, etc.). por exemplo: não saia de casa agora porque a chuva está muito forte. 2. subordinativas: ligam orações dependentes sintaticamente, isto é, uma oração determina ou completa o sentido da outra. podem ser: causais: indicam a causa da oração principal (porque, que, como, etc.). por exemplo: “elas não sabiam do risco que corriam, visto que impera no município fluminense o mais absoluto descontrole sobre a ocupação do território.” concessivas: indicam que um obstáculo apresentado pela oração subordinada não impedirá a realização do fato da principal (ainda que, embora, etc.). por exemplo: embora soubessem do risco que corriam, construíram a casa junto da encosta do morro. condicionais: indicam uma condição ou hipótese para que o fato da oração principal se realize ou não (se, caso, etc.). por exemplo: se eles conhecessem o lugar, não se arriscariam tanto. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  137 4/15/10  2:55:45 pm</Page><Page Number="140">138  unidade 3 os conectores (conjunções/locuções conjuntivas) exercem importante função na organização dos textos, pois estabelecem relações de sentido entre palavras, entre orações, entre parágrafos e até entre ideias. ao estabelecer relações de sentido entre partes do texto, os conectores não só explicitam o tipo de relação que se quer estabelecer, como também contribuem para que essas partes se liguem umas as outras, tornando o texto coeso. 1	leia com atenção os trechos retirados do texto 1, “carta aberta de artistas…“. a)	a amazônia não é o pulmão do mundo, mas presta serviços ambientais importantíssimos ao brasil e ao planeta. 	 vítimas houve não porque choveu, mas porque não poderiam estar onde estavam — ins-taladas ao sopé de morros geologicamente instáveis. as conjunções em destaque indicam ressalva de um pensamento que pode revelar oposição, retificação, restrição, compensação, advertência, contraste. o que os conectivos em destaque revelam respectivamente? compensação e retificação. b)	essa vastidão verde que se estende por mais de cinco milhões de quilômetros quadrados é um lençol térmico engendrado pela natureza para que os raios solares não atinjam o solo, propiciando a vida da mais exuberante floresta da terra e auxiliando na regulação da temperatura do planeta. qual oração apresenta a importância da vastidão verde? qual conector é responsável pela apresen-tação dessa opinião? “para que os raios solares não atinjam o solo”. conformativas: indicam que um fato está em conformidade com outro já expresso na oração principal (como, conforme, segundo, etc.). por exemplo: como foi noticiado, fortes chuvas atingiram a cidade. consecutivas: indicam uma consequência do fato expresso na oração principal (que — antecedido de tal, tão, tanto, tamanho). por exemplo: choveu tanto que o rio transbordou. temporais: indicam o tempo da realização de um fato expresso na oração principal (quando, assim que, logo que, etc.). por exemplo: sempre que chove nessa região, a população é extremamente sacrificada. proporcionais: indicam que um fato é realizado ao mesmo tempo que outro (à medida que, à proporção que, etc.). por exemplo: à medida que o céu escurecia, as pessoas saíam à procura de abrigo. finais: indicam a finalidade de um fato expresso na oração principal (a fim de que, para que, etc.). por exemplo: é preciso tomar providências para que as cidades sejam protegidas de enchentes. integrantes: iniciam a oração que funciona como um nome (sujeito, complemento, predicativo, aposto) de um termo da oração principal (que, se). por exemplo: é provável que chova o verão todo. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  138 4/15/10  2:55:45 pm</Page><Page Number="141">capítulo 1 – a carta argumentativa  139 c)	como no passado, enxergamos a floresta como um obstáculo ao progresso, como área a ser vencida e conquistada. 	 o texto fala do presente, mas toma como referencial o passado. copie no caderno a opção que completa adequadamente a frase: 	 o trecho destacado e suas respectivas conjunções apresentam concordância das ideias atuais com as do passado.  x oposição das ideias atuais com as do passado.  contrariedade das ideias atuais com as do passado.  d) um imenso estoque de terras a se tornarem pastos pouco produtivos, campos de soja e espécies vegetais para combustíveis alternativos ou então uma fonte inesgotável de madeira, peixe, ouro, minerais e energia elétrica. continuamos um povo irresponsável. 	 a conjunção em destaque liga ideias disjuntas, ou seja, pensamentos que parecem se excluir. qual exclusão se pretende ressaltar? e)	portanto, a nosso ver, como único procedimento cabível para desacelerar os efeitos quase irreversíveis da devastação, segundo o que determina o 4 o , do artigo 225 da constituição federal […] 	 escreva no caderno a opção que completa adequadamente a frase: 	 a conjunção portanto que praticamente finaliza o texto indica uma explicação para os problemas expostos na carta.  indica a causa de todos os problemas expostos na carta.  indica uma conclusão lógica para resolver todos os problemas expostos na carta.  x 2	as expressões destacadas no trecho abaixo são bons organizadores temporais. releia-o. apesar do extraordinário esforço de implantarmos unidades de conservação como alternativas de desenvolvimento sustentável, a devastação continua. mesmo depois do sangue de chico mendes ter selado o pacto de harmonia homem/nature-za, entre seringueiros e indígenas, mesmo depois da aliança dos povos da floresta “pelo direito de manter nossas florestas em pé, porque delas dependemos para viver”, mesmo depois de inúmeras sagas cheias de heroísmo, morte e paixão pela amazônia, a devastação continua. além da ideia de temporalidade, o que a repetição dessas expressões parece enfatizar? 3	a expressão em destaque no trecho a seguir é um importante organizador textual. qual é a sua impor-tância neste contexto? para além do descaso das autoridades com o ordenamento das construções (descaso que tanto pode ser sinônimo de propina como de populismo), a questão é de infraestrutura. ou melhor, da falta dela. 4	as conjunções e locuções em destaque são causais. releia o trecho e observe-as com atenção. vítimas houve não porque choveu, mas porque não poderiam estar onde esta-vam — instaladas ao sopé de morros geologicamente instáveis. elas não sabiam do risco que corriam, visto que impera no município fluminense o mais absoluto descontrole sobre a ocupação do território. a)	qual fato as duas primeiras conjunções procuram justificar? b)	em qual das orações o conector apresenta maior força argumentativa? justifique sua resposta. 	 fala-se de toda sorte de exploração da floresta como se nada fosse terminar, no entanto a floresta desaparece gradativa e perigosamente. parece enfatizar a indignação do autor, pois, após tantos esforços, ainda não se tem consciência da importância da amazônia. indica correção, retificação da informação dada anteriormente. 	 no primeiro caso ela justifica que, na verdade, a chuva não causou mortes; no segundo a conjunção ressalta que as mortes foram causadas pela inadequação do local em que estavam suas moradias. na última, porque inicialmente o autor discorreu sobre as causas da tragédia (chuva / moradias em lugares instáveis), no entanto na última oração (“visto que impera…”), ele mostra que as pessoas que ali moravam pareciam não ter consciência do perigo, mas o poder público sim. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  139 4/15/10  2:55:45 pm</Page><Page Number="142">140  unidade 3 5	as conjunções em destaque no texto 2, ”um país que dança na chuva”, são coordenativas. que tipo de relação de sentido elas estabelecem? escolha a(s) alternativa(s) correta(s) e anote-a(s) no caderno. soma, adição.  x sequência de ideias.  x conclusão de informações.  explicações.  6	leia os trechos da carta ao leitor com atenção e faça o que se pede a seguir: ao ironizar a curta memória política e cultural no país, o escritor ivan lessa certa  vez escreveu que, “a cada quinze anos, o brasil esquece os últimos quinze anos”. no plano meteorológico, isso é mais do que uma ironia — e a frequência é anual: a cada dezembro e janeiro, o país estranhamente esquece o que aconteceu no dezembro e janeiro anteriores. […] desta vez, a maior calamidade resultou em 52 mortes em angra dos reis, no litoral do rio de janeiro. para além do descaso das autoridades com o ordenamento das construções (descaso  que tanto pode ser sinônimo de propina como de populismo), a questão é de infra-estrutura. ou melhor, da falta dela. a)	copie no caderno a que fato indicado a seguir a expressão desta vez se refere: às calamidades que costumam acontecer entre dezembro e janeiro.  x ao plano meteorológico que não consegue prever as catástrofes brasileiras.  à ironia utilizada por ivan lessa.  b)	ou melhor é uma expressão que retifica uma informação já apresentada. o que ela corrige? atividade de fixação retiramos dos trechos das cartas dos leitores as conjunções coordenativas que davam coesão ao texto.  reescreva-os em seu caderno utilizando as conjunções coordenativas adequadas para que o texto se torne coerente. a)	não sou muito tolerante com bagunça,  ela é inevitável. também não sou pessoa siste-mática,  consigo relaxar mesmo quando as coisas estão fora de ordem. para não virar desleixo, não deixo perdurar por mais de cinco dias. é o meu limite. mas; portanto carta de s. r. d., pelo fórum na internet. revista vida simples, abr. 2009. b)	sou assinante de vida simples , na última edição, me inspirei com a ideia da reporta-gem “apenas 6 palavras”. acabei criando um blog  gostaria de compartilhar com vocês: www.6palavras.blogspot.com. e; e carta de t. g., por e-mail. revista vida simples, abr. 2009. c)	fiquei entusiasmada ao ver a proposta da capa de novembro,  trabalho com formação continuada de professoras de crianças de 2 a 5 anos. , ao ler a reportagem, senti falta de trabalhos com matemática […] pois; contudo carta de a. d. g., por e-mail. revista nova escola, dez. 2008. corrige a ideia do descaso das autoridades com a infraestrutura, porque não há nenhuma infraestrutura. prof.(a), as respostas estão de acordo com os textos originais. aceite outras opções desde que mantenham a coerência do texto. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  140 4/15/10  2:55:45 pm</Page><Page Number="143">capítulo 1 – a carta argumentativa  141 atividade de aplicação leia o texto do anúncio publicitário para  responder às questões a seguir. seu chefe pega no seu pé, sua mãe pega no seu pé, seu vizinho pega no seu pé. mas massagem, que é bom, nada, né? a)	a expressão pegar no pé é habitualmente empregada com valor conotativo. o que a expressão significa? pegar do pé assemelha-se a fazer exigências, importunar. b)	a surpresa do anúncio está no final, quando se percebe que a expressão “pegar no pé” foi usada no sentido denotativo. qual significado ela passou a ter? significa segurar no pé para massageá-lo. c)	qual conjunção marca a mudança de significado da expressão? que tipo de relação essa conjunção estabelece entre as ideias expostas antes e depois dela? é a conjunção mas; estabelece uma relação de oposição. d)	qual produto o anúncio pretende vender ao consumidor?  ortografia e outras questões leia o texto do anúncio publicitário para responder às questões.  parte de anúncio publicitário veiculado na revista veja, 3 mar. 2010. a)	no primeiro quadro do anúncio, por que está escrito em duas palavras. explique esse uso. b)	no segundo quadro, porque está escrito em uma única palavra. explique esse uso. um gel para massagear os pés (dr. scholl’s massaging gel). por que funciona como pronome interrogativo, pois introduz uma pergunta. trata-se de uma resposta; nesse caso porque é uma conjunção causal. por que um sabonete natura ekos de murumuru? porque tem alta concentração de manteiga de murumuru, que permitiu criar um sabonete em lascas, de espuma abundante que protege sua pele. revista veja, 3 mar. 2010. suplemento especial carnaval. fac-símile/taterka/arquivo da editora fac-símile/euro rscg/arquivo da editora vpem3_un3_cap01_130a157.indd  141 4/15/10  2:55:51 pm</Page><Page Number="144">142  unidade 3 produção de texto carta argumentativa endereçar cartas a alguém é uma tradição. todavia as cartas que estudamos neste capítulo não são fechadas em envelopes, não são endereçadas e muito menos recebem selos. essas cartas, aqui chama-das de argumentativas por causa da tipologia predominante, são publicadas em jornais, revistas ou na internet. existem, como estudamos, diversos modelos de cartas e todos se organizam conforme as características que apresentam e o espaço em que circulam. todavia, mesmo com características peculiares a cada tipo, a estrutura desses textos é construída pelo título, pelo corpo do texto, com a apresentação do problema logo no início, e pela assinatura. em relação ao estilo, percebem-se algumas características básicas: a linguagem, em geral, deve obedecer à variedade-padrão. no entanto, o ideal é que se adapte  à variedade de quem lê. por exemplo, se sua carta é endereçada a uma revista que se destina ao público jovem, pode ser usada uma linguagem mais informal, que se aproxime do modo de falar desse público. o produtor da carta expõe sua opinião sobre determinado assunto e a defende por meio de argu-  mentos de autoridade, de exemplos, de números, etc. as referências ao leitor — como em um diálogo — devem ser feitas por meio de pronomes (os  chamados “pessoais de tratamento”), escolhidos de acordo com o grau de formalidade que existe entre os interlocutores. os verbos devem ser usados no imperativo sempre que o produtor da carta se dirigir ao leitor, como  se estivesse diante dele. as cartas argumentativas são de caráter social, isto é, apresentam temas comuns a um grupo. serão esses temas que determinarão diferentes tipos de cartas argumentativas. observem: carta do leitor esse tipo de carta é enviado pelo leitor para manifestar seu ponto de vista sobre matérias publicadas e lidas nos mais diversos meios de comunicação escrita. a carta do leitor costuma ser curta e objetiva; apre-senta o texto a que faz referência pelo título ou pelo assunto; mostra a opinião defendida por um ou dois argumentos; apresenta sugestões, perguntas, reflexões, elogios, etc. sobre o assunto tratado na matéria. carta aberta a carta aberta, como o próprio nome diz, pode ser lida por qualquer pessoa. conforme estudamos ao longo do capítulo, ela pode se dirigir a qualquer grupo — uma autoridade, uma comunidade ou uma pessoa — por meio dos órgãos da imprensa escrita ou falada: jornal, revista, internet, rádio ou televisão. é usada para denunciar a situação de um grupo, as ideias de uma comunidade e pode ser assinada por um grupo ou uma pessoa. em sua estrutura, devem constar, além da apresentação de um problema, a solução para esse problema por meio de argumentos que defendam a opinião do(s) autor(es). os verbos são empregados no presente do indicativo, na 1 a ou na 3 a pessoa. carta ao leitor também chamada de editorial, essa carta apresenta ao leitor o ponto de vista do jornal, da revista, do site, etc. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  142 4/15/10  2:55:52 pm</Page><Page Number="145">capítulo 1 – a carta argumentativa  143 proposta de redação tema geral: “o homem e os animais”. proposta: leia a coletânea e elabore sua carta a partir do seguinte recorte temático: as contro-vérsias sobre o uso de animais em experimentação científica não se encerraram com a recente aprovação, pelo senado, da lei arouca, que cria o concea. instruções: 1. escolha um ponto de vista em relação ao uso de animais em experimentação cien-tífica. 2. argumente no sentido de solicitar que seu ponto de vista prevaleça na atuação do concea. 3. dirija sua carta a um membro do concea que possa apoiar sua solicitação. coletânea: leia toda a coletânea e selecione o que julgar pertinente para a realização da proposta. articule os elementos selecionados com sua experiência de leitura e reflexão. o uso da coletânea é obrigatório. apresentação da coletânea de acordo com a época e a cultura, o homem se relaciona de diferentes formas com os animais. essa relação tem sido motivo de intenso debate, principalmente no que diz respeito à responsabilidade do homem sobre a vida e o bem-estar das demais espécies do planeta. 1. o fundamento jurídico para a proteção dos animais, no brasil, está no artigo 225 da constituição federal, que incumbe o poder público de “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção das espécies ou submetam os animais à crueldade”. apoiada na constituição, a lei 9605, de 1998, conhecida como lei de crimes ambientais, criminaliza a conduta de quem “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”. contudo, perguntas inevitáveis surgem: como o brasil ainda compactua, em meio à vigência de leis ambientais avançadas, com tantas atividade 1 — reprodução: carta argumentativa as cartas argumentativas, comuns nos vestibulares e em outras situações de produção, exigem do aluno capacidade eficiente de argumentar. ao contrário da dissertação, as cartas precisam dialogar com o leitor, interagindo e localizando-o ao longo do texto. as cartas precisam tocar quem lê, solicitando, requerendo o fazer do outro. 1 leia a seguir a proposta de redação da unicamp 2009. originalmente essa proposta apresentou três opções de produção de texto aos candidatos — uma dissertação, uma narrativa ou uma carta —, cada uma com instruções específicas, além de uma coletânea válida para todas as opções. como nosso estudo neste capítulo se concentra nas cartas argumentativas, trataremos apenas da opção carta. é importante que o aluno saiba como produzir esse gênero de acordo com o que se espera dele: mostrar sua capacidade de argumentação por meio do diálogo. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  143 4/15/10  2:55:53 pm</Page><Page Number="146">144  unidade 3 situações de crueldade com os animais, por vezes aceitas e legitimadas pelo próprio estado? rinhas, farra do boi, carrocinha, rodeios, vaquejadas, circos, veículos de tração, gaiolas, vivissecção (operações feitas em animais vivos para fins de ensino e pesquisa), abate, etc. — por que se mostra tão difícil coibir a ação de pessoas que agridem, exploram e matam os animais? (adaptado de fernando laerte levai, promotoria de defesa animal. www.sentiens.net, 04/2008.) 2. a câmara municipal do rio de janeiro aprovou, no início de 2008, uma lei que, se levada à prática, obstruiria uma parte significativa da pesquisa científica realizada na cidade por instituições como a fundação oswaldo cruz (fiocruz), as universidades federal e estadual do rio de janeiro e o instituto nacional do câncer (inca). de autoria do vereador e ator cláudio cavalcanti, um destacado militante na defesa dos direitos dos animais, a lei tor-nou ilegal o uso de animais em experiências científicas na cidade. a comunidade acadê-mica reagiu e mobilizou a bancada de deputados federais do estado para ajudar a aprovar o projeto de lei conhecido como lei arouca. a lei municipal perderia efeito se o projeto federal saísse do papel. paralelamente, os pesquisadores também decidiram partir para a desobediência e ignorar a lei municipal. “continuaremos trabalhando com animais em pesquisas cujos protocolos foram aprovados pelos comitês de ética”, diz marcelo morales, presidente da sociedade brasileira de biofísica (sbbf) e professor da universidade federal do rio de janeiro (ufrj), um dos líderes da reação dos cientistas. a interrupção do uso de animais geraria prejuízos imediatos com repercussão nacional, como a falta de vacinas (hepatite b, raiva, meningite, bcg e febre amarela), fabricadas, no rio, pela fiocruz, pois a inoculação em camundongos atesta a qualidade dos antígenos antes que eles sejam aplicados nas pessoas. “também é fundamental esclarecer à população que, se essas experiências forem proibidas, todos os nossos esforços recentes para descobrir vacinas contra dengue, aids, malária e leishmaniose seriam jogados literalmente no lixo”, diz renato cordeiro, pesquisador do departamento de fisiologia e farmacodinâmica da fiocruz. marcelo morales enumera outros prejuízos: “pesquisas sobre células-tronco no campo da cardiologia, da neurologia e de moléstias pulmonares e renais, lideradas por pesquisadores da ufrj, e de terapias contra o câncer, realizadas pelo inca, teriam de ser interrompidas”. (adaptado de fabrício marques, sem eles não há avanço. revista pesquisa fapesp, nº- 144, 02/2008, pp. 2-6.) 3. o senado aprovou, em 9 de setembro de 2008, o projeto da lei arouca, que estabelece procedimentos para o uso científico de animais. a matéria vai agora à sanção presidencial. a lei cria o conselho nacional de controle de experimentação animal (concea), que será responsável por credenciar instituições para criação e utilização de animais destinados a fins científicos e estabelecer normas para o uso e cuidado dos animais. além de credenciar as instituições, o concea terá a atribuição de monitorar e avaliar a introdução de técnicas alternativas que substituam o uso de animais tanto no ensino quanto nas pesquisas cientí-ficas. o concea será presidido pelo ministro da ciência e tecnologia e terá representantes dos ministérios da educação, do meio ambiente, da saúde e da agricultura. dentre outros vpem3_un3_cap01_130a157.indd  144 4/15/10  2:55:56 pm</Page><Page Number="147">capítulo 1 – a carta argumentativa  145 membros, integram o concea a sociedade brasileira para o progresso da ciência (sbpc), a academia brasileira de ciências, a federação de sociedades de biologia experimental (fesbe), a federação nacional da indústria farmacêutica e dois representantes de socieda-des protetoras dos animais legalmente estabelecidas no país. (adaptado de daniela oliveira e carla ferenshitz, após 13 anos de tramitação lei arouca é aprovada. jornal da ciência (sbpc), www.jornaldaciencia.org.br, 09/2008.) 4. grande parte de nossa sociedade acredita na necessidade incondicional das experiên-cias com animais. essa crença baseia-se em mitos, não em fatos, e esses mitos precisam ser divulgados a fimde evitar a consolidação de um sistema pseudocientífico. as experiências com animais pertencem — assim como a tecnologia genética ou o uso da energia atômica — a um sistema de pesquisas e exploração que despreza a vida. um desses mitos é o de que tais experiências possibilitaram o combate às doenças e assim permitiram aumentar a média de vida. esse aumento, entretanto, deve-se, principalmente, ao declínio das doen-ças infecciosas e à consequente diminuição da mortalidade infantil, cujas causas foram as melhorias das condições de saneamento, a tomada de consciência em questões de higiene e uma alimentação mais saudável, e não a introdução constante de novos medicamen-tos e vacinas. da mesma maneira, os elevados coeficientes de mortalidade infantil no terceiro mundo podem ser atribuídos aos problemas sociais, como a pobreza, a desnutri-ção, e não à falta de medicamentos ou vacinas. outro mito é o de que as experiências com animais não prejudicam a humanidade. na realidade, elas é que tornam as atuais doenças da civilização ainda mais estáveis. a esperança da descoberta de um medicamento por meio de pesquisas com animais destrói a motivação das pessoas para tomarem uma ini-ciativa própria e mudarem significativamente seu estilo de vida. enquanto nos agarramos à esperança de um novo remédio contra o câncer ou contra as doenças cardiovasculares, nós mesmos — e todo o sistema de saúde — não estamos suficientemente motivados para abolir as causas dessas enfermidades, ou seja, o fumo, as bebidas alcoólicas, a alimenta-ção inadequada, o stress, etc. um último mito a ser destacado é o de que leigos, por falta de conhecimento especializado, não podem opinar sobre experiências com animais. esse mito proporcionou, durante dezenas de anos, um campo livre para os vivisseccionistas. deixar que os próprios pesquisadores julguem a necessidade e a importância das expe-riências com animais é semelhante a deixar que uma associação de açougueiros emita parecer sobre alimentação vegetariana. não serão justamente aqueles que estão engaja-dos no sistema de experiências com animais que irão questionar a vivissecção! (adaptado de bernhard rambeck, mito das experiências em animais. união internacional protetora dos animais, www.uipa.com.br, 04/2007.) 5. a violência exercida contra os animais suscita uma reprovação crescente por parte das opiniões públicas ocidentais, que, frequentemente, se torna ainda mais vivaz à medida que diminui a familiaridade com as vítimas. nascida da indignação com os maus-tratos infligidos aos animais domésticos e de estimação, em uma época na qual burros e cavalos de fiacre faziam parte do ambiente cotidiano, atualmente a compaixão nutre-se da crueldade a que estariam expostos seres com os quais os amigos dos ani-vpem3_un3_cap01_130a157.indd  145 4/15/10  2:55:58 pm</Page><Page Number="148">146  unidade 3 mais, urbanos em sua maioria, não têm nenhuma proximidade física: o gado de corte, pequenos e grandes animais de caça, os touros das touradas, as cobaias de laboratório, os animais fornecedores de pele, as baleias e as focas, as espécies selvagens ameaçadas pela caça predatória ou pela deterioração de seu habitat, etc. as atitudes de simpatia para com os animais também variam, é claro, segundo as tradições culturais nacio-nais. todavia, na prática, as manifestações de simpatia pelos animais são ordenadas em uma escala de valor cujo ápice é ocupado pelas espécies percebidas como as mais próximas do homem em função de seu comportamento, fisiologia, faculdades cogni-tivas, ou da capacidade que lhes é atribuída de sentir emoções, como os mamíferos. ninguém, assim, parece se preocupar com a sorte dos arenques ou dos bacalhaus, mas os golfinhos, que com eles são por vezes arrastados pelas redes de pesca, são estri-tamente protegidos pelas convenções internacionais. com relação às medusas ou às tênias, nem mesmo os membros mais militantes dos movimentos de liberação animal parecem conceder-lhes uma dignidade tão elevada quanto à outorgada aos mamífe-ros e aos pássaros. o antropocentrismo, ou seja, a capacidade de se identificar com não humanos em função de seu suposto grau de proximidade com a espécie humana, parece assim constituir a tendência espontânea das diversas sensibilidades ecológicas contemporâneas. (adaptado de philippe descola, estrutura ou sentimento: a relação com o animal na amazônia. mana, vol. 4, n. 1, rio de janeiro, 04/1998.) 6. revista guia do estudante — redação vestibular enem, 2010. adaptado. manifestação de militantes da ong vegan staff na 60ª- reunião anual da sociedade brasileira para o progresso da ciência (sbpc), www.veganstaff.org, 07/2008. unicamp/arquivo da editora vpem3_un3_cap01_130a157.indd  146 4/15/10  2:56:00 pm</Page><Page Number="149">capítulo 1 – a carta argumentativa  147 2 leia agora um modelo de carta produzido por um candidato ao vestibular da unicamp de 2009. em seguida, copie a tabela abaixo em seu caderno e avalie a produção lida. no texto lido sim não comentário  a estrutura está adequada: apresenta o problema e o início da argumentação?  o estilo está adequado: usa linguagem formal, estabelece diálogo com o leitor?  o ponto de vista do candidato está claro? em que momento?  a linguagem está adequada ao leitor apresentado?  a escolha do recorte temático feita pelo candidato foi respeitada?  há desvios da norma em relação à pontuação, ortografia, acentuação ou concordância?  os argumentos usados pelo candidato foram retirados da coletânea de textos oferecida pelo vestibular?  os argumentos são coerentes? carta divinópolis — mg, 16 de novembro de 2008 prezado dr. fernando aquino, membro do conselho nacional de controle de experimentação animal (concea) e da sociedade brasileira para o progesso da ciência (sbpc), é com grande satisfação que lhe envio esta carta dr. fernando aquino, num contexto brasileiro em que as controvérsias sobre o uso de animais em experimen-tação científica vem ganhando importante destaque, exigindo de todos os estudio-sos uma reflexão cuidadosa sobre os limites da ciência diante da vida. também sou cientista: faço pesquisas pelo departamento de fisiologia da unicamp e nossa equipe vem conseguindo excelentes descobertas científicas através de pesquisas realizadas com o uso de camundongos. esta minha formação acadêmica na área biológica pode me conduzir à defesa do uso de animais nos experimentos científi-cos; entretanto, afirmo que vou defender o uso de animais em experimentos cien-tíficos usando um pouco do que aprendi no curso de filosofia, também concluído aqui na unicamp. sendo assim, dr. fernando aquino, eu defendo as pesquisas com animais num contexto de produção científica em que a vida e sua complexidade sejam levadas em consideração de tal modo que as repercussões das descobertas colaborem também, para a formação de um ser humano mais consciente, respei-tável e firme em suas atitudes favoráveis à vida. prof.(a), se preferir, realize a atividade em grupos. para correção, ouça os problemas e os acertos observados pelos alunos. em seguida, chame atenção para os pontos que os alunos não perceberam. não se esqueça de dizer que essa foi uma carta bem avaliada e que, portanto, o aluno foi aprovado no vestibular. aponte para o que a produção do candidato tem de melhor: perfeitamente estruturado, articulado, coeso e coerente. mostre aos alunos alguns problemas gramaticais, tais como: vírgula entre o verbo e a oração subordinada que o complementa em “que as repercussões das descobertas colaborem também, para…”; o uso de desta forma em lugar de dessa forma em “desta forma, a proibição do uso de animais em experimentos científicos…”; o uso do pronome anafórico esse no lugar do catafórico este em “… e peço que defenda esse ponto de vista mais amplo junto ao concea: permitir o uso de animais em pesquisas científicas…”; desvio de concordância em "… há pesquisas em andamento com o objetivo de se encontrar [em vez de encontrarem] vacinas específicas contra a…". é importante mostrar que esses usos não apontam para uma avaliação negativa uma vez que o texto se garante pela articulação, pela coesão. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  147 4/15/10  2:56:03 pm</Page><Page Number="150">148  unidade 3 há muitos anos eu leio seus artigos científicos publicados pela sbpc, muitos deles no campo da ética. a sua tendência de atrair a ética para o campo das áreas biológicas, dr. fernando, faz do senhor o membro adequado do concea para representar, junto a esse respeitável conselho, pontos de vista semelhantes aos meus, os quais procuram compreender o problema em questão a partir de uma perspectiva mais ampla. realmente, os ganhos na saúde da população a partir de pesquisas realizadas com animais são reais e expressivos: produção de vacinas contra a hepatite b, febre amarela, meningite e raiva constitui um importante exemplo. além disso, há pesquisas em andamento com o objetivo de se encontrar vacinas específicas contra a aids, malária e leishmaniose. desta forma, a proibição do uso de ani-mais em experimentos científicos pode significar a interrupção abrupta dessas pesquisas, o que pode acarretar sérios problemas na saúde pública daqui alguns anos, o que significará mais sofrimento para uma população brasileira já muito marginalizada e excluída. nesse contexto de controvérsias, dr. fernando, as boas soluções vão surgindo e uma delas é o concea, que terá a função de estabelecer normas, cuidados e pro-cedimentos para o uso científico dos animais. uma dessas importantes funções, dr. fernando, é a avaliação e o monitoramento de técnicas alternativas que subs-tituam o uso de animais no ensino e na pesquisa. isso demonstra o interesse que a equipe multidisciplinar do concea possui no sentido de valorizar a vida além da esfera do corpo físico humano, reconhecendo-a, também, nos animais que são, quase sempre, tratados como objetos. a proibição das pesquisas com animais, se isolada, não surtirá efeito posi-tivo na consciência humana, dr. fernando. é preciso encontrar um meio termo que permita respeitar o artigo 225 da constituição federal (que incumbe o poder público de proteger os animais contra os maus-tratos) e permita o avanço desobs-truído das pesquisas científicas, de tal forma que o homem se veja evoluindo em seus conhecimentos de forma responsável, comprometida com o que está na lei federal e nos códigos de ética. acredito, dr. fernando, que a ética, quando pra-ticada realmente em todas as áreas profissionais, poderá resolver controvérsias como esta aqui por mim discutida. a vivência ética desenvolve o poder reflexivo, aproxima opiniões contrárias e favorece a descoberta de uma solução benéfica a todos os brasileiros. agradeço, desde já, a sua atenção, dr. fernando, e peço que defenda esse ponto de vista mais amplo junto ao concea: permitir o uso de animais em pesquisas científicas, desde que se reflita continuamente sobre a vivência ao longo das pes-quisas. há um desafio longo a ser superado, dr. fernando, e a criação do concea (multidisciplinar) representa uma importante etapa. atenciosamente, w. r. a. revista guia do estudante — redação vestibular enem, 2010. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  148 4/15/10  2:56:08 pm</Page><Page Number="151">capítulo 1 – a carta argumentativa  149 atividade 2 — produção: carta do leitor as cartas dos leitores transcritas a seguir foram enviadas à redação da revista superinteressante em manifestação à reportagem de capa “a década da transformação”. elas servirão de modelo para você produzir a sua. leia as cartas e observe com atenção os argumentos usados. carta 1 tenho só 15 anos, e boa parte da minha vida foi nessa década. a maior revolu-ção? com certeza foi a tecnologia. lembro-me de que, quando era pequena, ficava fascinada com o celular do meu pai, um tijolão que só tinha aquele jogo da cobri-nha. agora jogo o mesmo jogo em versão 3d. (h. m.) revista superinteressante, fev. 2010. nessa carta, o produtor apresenta sua opinião: ele acredita que a maior revolução ocorreu na tecnologia. para comprovar o que disse, compara os celulares atuais com o que seu pai tinha quando ele, leitor, era criança. carta 2 acredito que, para o brasil, a revolução mais importante dos últimos 10 anos foi o disparo da petrobras. com o pré-sal, ela se tornou a empresa que mais cresce em nosso país. torço para que haja uma extração sustentável desse petróleo tão abundante, que pode até levar o brasil a ser integrante da opep. (g. b.) idem. nessa carta, o produtor acredita que a maior revolução ocorreu com a petrobras. para nos convencer de que a opinião dele é válida, cita como grande responsável por esse avanço o pré-sal. leia agora a reportagem da  superinteressante e observe como o assunto é tratado e qual o ponto de vista da revista. em seguida, produza sua carta do leitor sobre esse texto, considerando os modelos. não se esqueça de que se trata de um veículo de comunicação de apelo científico destinado ao público jovem. lembre-se também de apresentar sua opinião, o seu ponto de vista sobre o assunto e de argumentar. a década da transformação o futuro já começou. entenda nas próximas páginas por que os anos 2000  revolucionaram para sempre a humanidade você pode não ter percebido, mas viveu a década mais revolucionária da história. dificilmente um punhado de anos vai mudar tanto a sua vida como os que passaram. ficamos mais conectados, mais ricos, mais siliconados, mais rápidos. a internet entrou na nossa vida (e nos celulares), você conheceu o significado da palavra sus-tentabilidade, a economia global cresceu e cresceu (para depois ruir) e você descobriu a graça de assistir à vida de anônimos na tv. ok, todas as décadas deixam marcas. mas foram poucas aquelas que dividiram o planeta em “antes” e “depois”. os anos 2000 foram assim, porque afetaram a vida das pessoas comuns — nós, da super, você, seus amigos — e prepararam o terreno para o que está por vir. sim, porque o futuro será moldado com base no que aconteceu nos anos 2000. muito disso tem a ver com prof.(a), confira se o aluno produziu uma carta do leitor adequada ao tema e aos argumentos usados. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  149 4/15/10  2:56:08 pm</Page><Page Number="152">150  unidade 3 a tecnologia. pense nos fatos: a velocidade da conexão aumentou 1170%, a capacidade de armazenamento de dados cresceu 3200% emuitas das pessoas que leemesta revista nem sequer devem se lembrar do barulho que a internet discada fazia. quase tudo que você faz diariamente — de entrar no orkut a pagar uma conta online no banco — estava longe de existir em 1999. mas as mudanças também foram no nosso comportamento, na maneira como nos divertimos e nos políticos em que votamos. por isso, não fizemos uma mera retrospectiva dos fatos mais importantes (se você está interessado nos 10 melhores filmes ou discos da década, é melhor procurar no google). elaboramos uma gigantesca lista com pequenas e grandes transformações que mudaram sua vida nos últimos 10 anos — e em que você talvez nem tenha reparado. divirta-se! 1. mulheres no poder nunca tantas mulheres foram eleitas democraticamente para chefias de estado, em tantos países tão importantes, quanto nos anos 2000. 2. o dia em que michael jackson derrubou a internet 3. medos que não tínhamos antes dos anos 2000 aquecimento global  golpes na internet  terrorismo  sequestros relâmpagos  sermos barrados na imigração dos aeroportos  telemarketing nos acordar no sábado de manhã  4. o homem cada vez mais veloz comavanços nos treinamentos, na nutrição dos atletas e no equipamento—como o lzr race e outros maiôs de poliuretano —, os recordes mundiais despencaram. 5. a família mudou papai, mamãe, filhinhos — a família brasileira se distanciou dessa formação tradicional, como mostram dados do ibge. 6. plásticas bombando 7. reality shows a grande novidade da tv nessa década deve seu big-bang a tecnologias (edi-ção digital, hds contendo bilhões de horas de vídeo) e tendências (celebração do voyeurismo, ânsia por celebridades). 8. estrelas do youtube chegamos lá: todos têm direito a 15 minutos de fama — às vezes, até invo-luntária. 9. discos mais redondos com a indústria fonográfica soando pré-histórica, surgiram novos jeitos de atrair ouvidos. 10. books on the table livraria online. 11. células-tronco 12. doenças da sua cabeça novos remédios e descobertas neurológicas fizeram os distúrbios mentais cair na boca do povo. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  150 4/15/10  2:56:09 pm</Page><Page Number="153">capítulo 1 – a carta argumentativa  151 13. a ciência fez o impossível teletransporte: não é o ato de deslocar objetos, mas, sim, de destruí-los em um lugar e construí-los idênticos depois. isso já foi feito. mas, por enquanto, com áto-mos e à distância de 1 metro. invisibilidade: com os metamateriais, cientistas fizeram a luz contornar objetos da mesma maneira que a água contorna uma pedra quando cai nela. é só embalar o que você quiser nesses materiais para deixá-lo aparentemente invisível. mão biônica: ela mexe os 5 dedos, responde a impulsos nervosos do braço e manuseia objetos pequenos como chaves. é uma mão realmente biônica, desen-volvida por cientistas escoceses, em 2007. 14. genoma pechincha o preço de conhecer seus genes despencou em 6 anos: us 300 milhões em 2003; us 1 milhão em 2007; us 60 mil em 2009. 15. genética 2.0 com o genoma destrinchado, cientistas encontraram genes relacionados a doenças como câncer de mama, diabetes e mal de alzheimer. 16. dinheiro de plástico em países como os eua, 90% do dinheiro que circula pela economia é eletrôni-co, via cartões de crédito e débito. por aqui, o uso quadriplicou na década. olha só: 275 milhões em 2002; 1,09 bilhão em 2008. 17. novos crimes andar sozinho no carro: quanto mais gente em um carro, menos trânsito e poluição. sacolas plásticas: em alguns lugares só são permitidas sacolas biodegradáveis. fumar: dar um trago foi proibido em lugares fechados em vários lugares no brasil e no exterior. 18. 9 inovações que mudaram a sua vida a década que passou foi, sem dúvida nenhuma, a década da tecnologia digi-tal. seus desdobramentos deram origem a um mar de novos produtos, serviços e maneiras de se comunicar e consumir informação: banda larga, mp3, p2p, google, câmera digital, internet sem fio, blogs, cloud computing, gps. 19. o boom das redes sociais nos anos 2000, encontramos velhos amigos na internet. revista superinteressante, jan. 2010. adaptado. atividade 3 — decalque: carta aberta em grupo leiam a carta aberta a seguir. carta aberta da população de registro  ao governo do estado de são paulo nós, moradores do município de registro, aqui representados pela senhora prefeita da cidade, sandra kennedy viana, vimos manifestar nosso repúdio com relação à decisão do governo do estado de são paulo, por meio da secretaria de administração penitenciária, de instalar em nossa cidade uma penitenciária mas-culina de segurança máxima com capacidade para 756 presos, conforme ofício sap/gs nº- 0209/09 afp/ebss. prof.(a), para correção, observe se a carta do leitor feita pelo aluno apresenta  não só a opinião dele, mas também um argumento. observe também se houve  respeito ao público e aos temas típicos da revista. por fim, aponte para problemas em relação à pontuação, construção de períodos coesos, articulação de orações e ortografia. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  151 4/15/10  2:56:09 pm</Page><Page Number="154">152  unidade 3 no dia 17 de fevereiro último, realizamos uma audiência pública em registro que contou com a presença de representantes dos mais diferentes segmentos da comunidade registrense onde foi decidido, por unanimidade, que a população de registro não quer uma unidade prisional de característica de uma penitenciária instalada na região, tampouco na cidade. não aceitamos a instalação de uma penitenciária no nosso município, visto que a vinda desse tipo de equipamento atrapalharia ainda mais o desenvolvimento de nossa região que já vem sendo penalizada com a falta de investimentos públicos e apoio para o crescimento econômico, o que nos leva a ser considerados a região mais pobre do estado mais rico da federação e o que já nos custa, além de um baixo idh, também uma baixa autoestima da população. somos a única região com vastas áreas remanescentes da mata atlântica, temos uma forte vocação para o desenvolvimento do turismo, além da nossa grande vocação agrícola. além disso, hoje com a recuperação da infraestrutura de acesso viário, como por exemplo a recuperação da br-116, estamos nos empe-nhando para desenvolver e atrair investimentos na área de logística e distribui-ção do processo produtivo. a instalação de uma zpe — zona de processamento e exportação — é um dos projetos estratégicos que buscaremos implantar na região ou mesmo a decisão da maior franquia de perfumaria e cosméticos do mundo, que erguerá um centro de distribuição no município até o fim deste ano, reforça o caminho que a região vem buscando para superar décadas de estagnação e pobreza. o argumento apresentado pelo governo de que cada região tem que ter um pre-sídio para atender sua demanda não se justifica uma vez que a população de toda a região é apenas 330 mil habitantes, população igual a de um bairro de uma cidade grande e nem por isso esses bairros possuem uma penitenciária. temos cerca de 80 presos na cadeia da cidade e a população carcerária do vale do ribeira não alcança 300 pessoas, o que nos deixa preocupados quanto ao fato de o presídio de 756 vagas que está sendo planejado para registro poder ser destinado a detentos de outros lugares e não somente da região. segundo estimativas publicadas no jornal folha de s.paulo do dia 17 de fevereiro de 2009, existem 446 mil presos em todo país, sendo que 145 mil deles estão no esta-do de são paulo e um terço disso está preso indevidamente. o estado não necessita de novos presídios, e sim de uma política carcerária mais séria. advertimos tam-bém a respeito da falta de estrutura do nosso município para comportar um pre-sídio, nas áreas de saúde, assistência social e segurança pública, entre outros. não temos número de polícias suficientes para controlar uma rebelião. a região precisa é de investimentos para se desenvolver de forma sustentável: regularização fundiária; universidade pública com mais cursos; capacitação de mão de obra; investimentos em infraestrutura para o turismo, para a agricultura familiar e para atração de novos investimentos. não precisamos de uma penitenciária, mas sim de apoio para o nosso desenvol-vimento. definitivamente, a instalação de um presídio na região do vale do ribeira vai na contramão de todos os esforços que estão sendo realizados para fomentar o desenvolvimento na região. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  152 4/15/10  2:56:09 pm</Page><Page Number="155">capítulo 1 – a carta argumentativa  153 frente ao exposto, repudiamos a forma autoritária do governo do estado de são paulo ao implantar esse projeto na nossa região e solicitamos imediata suspensão da construção do presídio de segurança máxima proposto para o município de registro. registro 17 de fevereiro de 2009. disponível em: www.registro.sp.gov.br/pr_ver.asp?c18&amp;id6rxvrxvnbm68nbm0inlrxv6lsj00.  acessado em 5 mar. 2010. adaptado. a carta lida apresenta todas as características do gênero carta aberta: está escrita na variedade-padrão da língua, apresenta a posição de um grupo diante de um fato e defende a posição do grupo de forma clara e objetiva, por meio de argumentos de provas concretas, de consenso e de raciocínio lógico. considerando a estrutura dessa carta como modelo, produzam uma carta aberta. para isso, copiem  no caderno os trechos abaixo e escrevam outros com uma nova ideia, escolhida por vocês, para sua cidade. carta aberta da nós, moradores do município de , vimos manifestar nosso . apresentem o grupo em nome do qual a carta aberta é produzida. no dia , realizamos  em  que contou com a presença de  onde foi decidi-do, por unanimidade, que a . relatem como a decisão foi tomada — o fato de ter sido uma decisão tomada em conjunto fortalece a defesa da ideia. não aceitamos , visto que . reforcem o fato que não aceitam e iniciem a defesa, apresentando por que não é possível aceitar o fato. somos a única região com . além disso, . apresentem a região de vocês de forma positiva, usando essa descrição como argumento para a defesa da ideia de vocês. o argumento apresentado pelo . apresentem o argumento contrário ao de vocês e façam a desconstrução dessa ideia. não precisamos de , mas sim de . concluam a carta aberta reforçando a ideia com a qual não concordam e apresentando o que de fato a região de vocês precisa. [cidade, data.] prof.(a), na correção, verifique se os alunos seguiram a estrutura dada e a enxertaram com informações coerentes. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  153 4/15/10  2:56:09 pm</Page><Page Number="156">154  unidade 3 atividade 4 — produção de autoria leia a reportagem "loucura do clima" e, pensando no assunto principal apresentado, produza uma  carta aberta à sociedade ou uma carta de solicitação ao ministro do meio ambiente. se for preciso, releia os textos usados nas atividades 1 e 3 de produção. qualquer que seja a carta produzida — a aberta ou a de solicitação —, siga as orientações para pro-duzir seu texto: escolha seu ponto de vista sobre o assunto e como você pode abordá-lo em seu texto.  apresente sua opinião e defenda-a com argumentos coerentes, que devem ser retirados da repor-  tagem dada e também de seus conhecimentos de mundo. nesse momento, retirar informações de um texto-base é muito importante. por isso, avalie o que de fato servirá para a defesa do seu ponto de vista. cuide para que nenhuma escolha deixe seu texto confuso. considere que, tanto na carta aberta quanto na carta de solicitação, a variedade-padrão da língua  deve ser usada. estruture sua carta em parágrafos. se decidir por uma carta aberta, elabore a apresentação da ideia,  os argumentos para defendê-la ou dê sugestões para a solução. se for uma carta de solicitação ao ministro, apresente seu pedido e os argumentos para requerê-lo. loucura do clima o aquecimento global é paradoxal; muitos de seus efeitos devastadores não são visíveis no momento, mas a falta de intervenção imediata irá torná-los inevitáveis no futuro. o caos vem devagar, mas de forma irrefreável — e já dá pra sentir as primeiras mudanças. de uns tempos para cá, não é mais uma questão de discutir “será que está rolando aquecimento global?” a pergunta agora é: “já estamos sentindo os efeitos dele?”. e a resposta é: provavelmente sim. são paulo, por exemplo, teve neste ano o inverno mais chuvoso de sua história. claro, não dá para dizer que esse episódio específico foi causado pelo aquecimento global. afinal, flutuações no regime de chuvas são comuns. mas o que dá para dizer é que uma das predições dos modelos climáticos do aquecimento é que a quanti-dade de chuvas tende a aumentar. tem a ver com o fato de que o aquecimento não acontece só na atmosfera mas também nos oceanos. “há uma boa base física para estabelecer uma relação entre valor da temperatura da superfície do mar e a intensidade dos ventos de um fura-cão e também da quantidade de chuva, isto é, quanto mais quente a temperatura do mar, maiores serão os ventos, a duração do furacão e a quantidade de chuva”, afirma carlos nobre, climatologista do inpe (instituto nacional de pesquisas espaciais). portanto, não só veremos estações mais chuvosas nos próximos anos como teremos maior ocorrência de furacões de alta intensidade, sobretudo no atlântico norte, onde eles já são mais comuns. a chuva que invadiu o sudeste brasileiro fora de hora e episódios trágicos como o katrina, que devastou a cidade de nova orleans, não podem ser individualmente atribuídos ao aquecimento global. mas o fato de que eles vão se tornar mais comuns pode. e que não venha alguém tentar pegar os dados de 5 anos para trás numa tentativa de desbancar o aquecimento global. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  154 4/15/10  2:56:09 pm</Page><Page Number="157">capítulo 1 – a carta argumentativa  155 é bem verdade que 2009 será mais frio que 2008, ano que, por sua vez, foi bem menos quente que o de 2005. mas isso está longe de ser evidência de um surpreen-dente “resfriamento global”. “não faz sentido falar de aquecimento global na escala de um ano para outro porque o clima apresenta significativas variações naturais nessa escala de tempo, como os fenômenos el niño ou la niña”, explica nobre. “a comparação deve ser feita na escala de muitas décadas. nesse sentido, a média da temperatura global à superfície dos últimos 10 anos é a maior do registro histórico.” as temperaturas começaram a ser registradas sistematicamente por instru-mentos em 1880. e, daquela época para cá, não houve década mais quente que a atual. o ano de 2005 foi o mais quente de todos. ou seja, gostemos ou não, o bicho está pegando. […] o aumento do consumo de energia pelas redes leva à emissão de mais carbono na atmosfera. mais carros nas ruas, lá se vai mais carbono para o ar. comeu um hambúrguer? toma carbono na atmosfera […]. só para recapitular: esse carbono, combinado na forma de moléculas conheci-das como gases-estufa (como o dióxido de carbono e o metano), faz com que a atmosfera aumente sua capacidade de aprisionar a energia enviada pelo sol. resultado: um planeta mais quente. esse distúrbio, que começou a se fazer presente para valer nas últimas décadas do século 20, está alterando sensivelmente o equilíbrio do planeta. o mundo está ficando mais quente, e vários fenômenos observados hoje (numa terra mais ou menos 0,5 grau mais quente que a média dos anos 1950-1980) já dão uma mostra do que está por vir. além do aumento na intensidade dos furacões e nos regimes de chuvas, o gelo das calotas polares está indo para as cucuias. “não há dúvida de que a progressiva perda de gelo marinho flutuando no oceano ártico é causada pelo aquecimento do ar — que come o gelo por cima — e das águas — que come o gelo por baixo”, afirma carlos nobre. mesmo assim, há outra verdade sobre o aquecimento: existem poucas certezas sobre como ele vai afetar nosso futuro. isso é uma característica da própria ciência: ela não produz fatos com a rapidez que os jornalistas gostam. nem teria como pro-duzir: ela lida com uma realidade complexa, em que várias hipóteses têm o mesmo valor. por exemplo: segundo alguns modelos de previsão, a temperatura deve subir pouca coisa a mais que o 0,5 ºc de hoje. enquanto isso, outros modelos indicam que o aumento será de 6,5 ºc (um apocalipse). o problema é que a atmosfera da terra ainda é um sistema complexo demais até para os nossos melhores computadores — se não fosse, a previsão do tempo seria muito mais certeira do que é hoje. a incerteza sobre o clima é tanta que nem sabemos com total exatidão quais são os gases-estufa que mais contribuem para o aquecimento […]. mas isso é o de menos: seja qual for o cenário, espera-se que muitos efeitos devastadores venham à tona, como a elevação agressiva do nível do mar e a trans-formação da amazônia numa savana, uma mata de vegetação rasteira. ao que parece, já estamos condenados a sofrer esses efeitos. por uma razão muito simples: os gases-estufa que lançamos no ar não vão embora do dia para a noite. mesmo que paremos de emitir amanhã, tudo que colocamos na atmosfera até hoje vai levar uns 100 anos para sair de lá. vpem3_un3_cap01_130a157.indd  155 4/15/10  2:56:10 pm</Page><Page Number="158">ou seja, não dá mais para fugir do aquecimento. se correr, ele pega, se ficar, ele come. o trabalho, então, é impedir que a mudança no clima se torne catastrófica. isso envolve cortar emissões para que a terra possa se recuperar com o passar das décadas, mas também se preparar para as adaptações que serão necessárias. não será fácil. nem barato. e pode exigir uma medida radical: a reconstrução da atmosfera na marra […]. revista superinteressante, dez. 2009. preparando a segunda versão do texto releia sua carta e reflita: a opinião defendida está clara?  os argumentos são lógicos, convincentes, não são generalizantes?  é estabelecido um diálogo com o leitor?  a linguagem usada na carta está adequada ao leitor: a sociedade ou o ministro do meio  ambiente? as orientações estabelecidas no início da atividade para a produção do texto foram seguidas?  foi feito um recorte temático da reportagem dada como tema?  o recorte está claro, não está confuso?  prof.(a), se possível, corrija alguns textos apontando trechos em que eventualmente tenham sido usados recursos semelhantes aos dos autores lidos no capítulo. finalizada a atividade, os alunos devem guardar suas produções para utilização no projeto do final do ano. e por falar em cartas… além da cartas argumentativas estudadas ao longo deste capítulo, não podemos nos esquecer das cartas pessoais, que, mesmo com a internet, ainda são produzidas mundo afora. as cartas pessoais podem ser relatos, exposição de sentimentos, pedidos de desculpas, etc. todas expressam os pontos de vista de quem escreve para pessoas amigas. marcos antonio moraes, professor de literatura brasileira da faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da usp, em edição de 2007 da revista da folha, afirmou que, nesse tipo de carta, “o papel fica impregnado da presença humana, deixamos partes de nossas vidas entre as pautas de uma carta”. na reportagem da revista da folha, há inúmeros exemplos de pessoas que ainda conservam o hábito de redigir cartas no papel, negando a rapidez do computador justificada pela frieza da tela. um dos exemplos é a jovem thainá simões da silva, que escreve cartas pessoais depois de horas no computador. para a menina, o hábito não pode morrer e, por isso, ela escolhe bem o que vai usar. leia um trecho da reportagem: diante de um monitor lcd de 17 polegadas, depois que desliga o msn (programa de mensagens instantâneas) ela enfeita as folhas do fichário com adesivos e carimbos — já que os românticos papéis de carta ficaram aprisionados nos anos 80 e se tornaram objetos em extinção nas papelarias atuais — e começa a redigir a cartinha do dia. “as meninas dizem que não têm tempo de escrever, mas quem tem tempo para o computador tem para as cartas, não é?” revista da folha, 27 maio 2007. folhapress. 156 alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un3_cap01_130a157.indd  156 4/15/10  2:56:11 pm</Page><Page Number="159">capítulo 1 – a carta argumentativa  157 pensando nisso, que tal exercitar essa prática de produzir cartas pessoais no papel? escolha uma pessoa  para quem você gostaria de escrever: diretora, coordenadora, ex-professor, professor, colega, amigo, enfim, alguém a quem você gostaria de mandar uma carta pessoal. escolha uma folha bem bonita, cole adesivos, faça desenhos, etc. deixe sua imaginação voar… lembre- -se de que você está no último ano do ensino médio e, por isso mesmo, tem muito a dizer. nessa carta, exponha seus sentimentos em relação ao período que você está vivendo, relate algo que tenha vivido nos últimos dias, enfim, escreva um pouco de você. envelope a carta e encaminhe-a à pessoa por intermédio de seu professor. bom trabalho! prof.(a), recolha as cartas e encaminhe-as às pessoas endereçadas. aproveite para… … ler jornais e revistas diversos  especialmente as cartas do leitor — espaço reservado, nesses veículos de comunicação, para o leitor manifestar suas sugestões, críticas, opiniões, reclamações — e as cartas ao leitor — também chamadas de editoriais, por apresentar o ponto de vista do jornal, da revista. cartas a anita malfatti  , mário de andrade, forense universitária a vasta correspondência do autor revela suas intenções mais secretas e os processos de sua criação, além de informações valiosas para um estudo mais preciso da história da cultura brasileira. joão guimarães rosa — correspondência com seu tradutor italiano  edoardo bizzarri, de edoardo bizzarri, editora t. a. queiroz guimarães rosa conversava com todos seus editores, mas com o italiano as discussões sobre a palavra se aprofundavam e servem para entender um pouco mais a obra do grande escritor. para sempre — 50 cartas de amor de todos os tempos  , de janine renato ribeiro, editora globo o livro apresenta 50 modelos de cartas redigidas por escritores e artistas nacionais e estrangeiros e que mostram a maneira como viviam e concebiam a vida. … assistir uma verdade inconveniente  , de davis guggenheim (eua, 2006) neste documentário, al gore, ex-vice-presidente dos eua, faz um alerta sobre a necessidade de uma ação imediata contra o aquecimento global e suas consequências. mensagem para você  , de nora ephron (eua, 1998) dona de uma pequena livraria, que há anos pertence à sua família, kathleen (meg ryan) troca e-mails com um misterioso amigo (o ator tom hanks) sem imaginar que ele é a mesma pessoa que comanda a enorme livraria que se instala em sua cidade e que pode acabar com seu negócio. … ver na internet http://planetasustentavel.com.br  site com várias informações sobre o que se pode fazer para que o planeta seja sustentável. www.abaixoassinado.org/pages/novo  site apresenta diversos modelos de abaixo-assinado. warner bros./courtesy everett collection/keystone vpem3_un3_cap01_130a157.indd  157 4/15/10  2:56:13 pm</Page><Page Number="160">capítulo 158  unidade 3 2 antes de ler 1 leia atentamente os quadros a seguir e reflita: eles expressam arbitrariedade, injustiça, ganância, impunidade? quadro 1 prisões e solturas dias atrás, a imprensa divulgou a prisão, por crime ambiental, do sr. josias, um lavrador que tentava reti-rar da casca de uma árvore o tratamento de doença da qual padece sua mulher. naturalmente, não poderia se valer de um medicamento comprado em farmácia. por ser crime inafiançável, o sr. josias ficou cinco dias preso. o sr. luiz estevão [ex- -senador, acusado de participar das corrupções que envolvem as obras do prédio do tribunal regional do trabalho na barra funda, em são paulo] fez o que fez e saiu em menos de 24 horas. essas são as leis que o congresso nacional produz, que o executivo federal sanciona e que o judiciário aplica descontraidamente. carta de leitor. folha de s.paulo, 3 jul. 2000. folhapress. quadro 2 a sombra pesada da impunidade paulo sérgio pinheiro alguns governos estaduais — como no pará — toleram (ou mandam) que poli-ciais militares atuem como jagunços de fazendeiros. ausência de registro de armas (uma apenas identificada), perícia médico-legal precaríssima, investigação de men-tirinha por policiais amadores, provas insuficientes, promotoria sem recursos. se esse veredicto escandaloso prevalecer, prenunciando a absolvição geral de todos os réus, aparecerá às escâncaras que o sistema judiciário no brasil continua incapaz de quebrar o ciclo de impunidade que, qual densa sombra, protege os cri-mes das polícias militares desde a ditadura. essas chacinas impunes são inconsis-tentes com a democracia: denotam um enfraquecimento da autoridade democráti-ca e abalam a confiança dos cidadãos nas instituições do estado de direito. folha de s.paulo, 22 ago. 1999. folhapress. prof.(a), realize esta atividade oralmente. peça a alguns alunos a leitura dos textos e, em seguida, organize uma discussão das questões propostas. se preferir, divida a turma em grupos e peça aos alunos que elejam um representante para apresentar os resultados da discussão. jupiterimages/afp prosa modernista — geração de 1930 vpem3_un3_cap02_158a182.indd  158 4/15/10  2:58:22 pm</Page><Page Number="161">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  159 quadro 3 seca no nordeste bloqueio de recursos mantém suspensa a distribuição de água agência folha, em fortaleza a distribuição de água potável feita pelo governo federal para a população atingida pela seca no nordeste está suspensa desde o final de dezembro devido ao bloqueio dos recursos já destinados ao programa. foram afetados 570 municípios beneficiados pela operação pipa, coordenada pelo exército, no semiárido de oito estados do nordeste (al, ba, ce, pb, pe, pi, rn e se). a água distribuída é usada principalmente para consumo de famílias que moram nas zonas rurais. folha de s.paulo, 24 jan. 2008. folhapress. 2 você conhece algum fato atual que seja exemplo de injustiça, impunidade, ganância, arbitrariedade e que deveria estar (ou costuma estar) nos jornais? relate-o a seus colegas. 3 hoje em dia muitas vezes a imprensa funciona como veículo de denúncia de problemas sociais e políti-cos. você acredita que a literatura também exerça um papel social, ou seja, a literatura também pode ser um meio de denúncia dos problemas de seu país? menino em busca de água de açude para abastecer sua casa na fazenda alto alegre, em município da região central do ceará, 2003. jarbas oliveira/folha imagem vpem3_un3_cap02_158a182.indd  159 4/15/10  2:58:28 pm</Page><Page Number="162">160  unidade 3 texto 1 transcrevemos a seguir um fragmento do segundo capítulo do livro o quinze. publicado em 1930, esse romance foi escrito por raquel de queirós quando ela tinha apenas vinte anos. a obra chama a atenção sobretudo por ser uma narrativa bastante enxuta e realista da seca que assolou o nordeste em 1915. a preocupação social divide espaço com a caracterização psicológica das personagens, baseada principalmente no embate do homem com o meio em que vive, ideia muito comum na prosa regionalista da década de 1930. em 1915, forte seca atingiu o nordeste brasileiro, levando o presidente da república hermes da fonseca a reestruturar o instituto de obras contra as secas, que passou a construir açudes de grande porte na região. para impedir que os retirantes se dirigissem às cidades, criou-se algo parecido com campos de con-centração nas praias nordestinas, nos quais a população faminta era recolhida. além da seca, da perda das condições básicas de subsistência, muitos nordestinos enfrentaram a fome e, em algumas áreas, surto de varíola. no trecho selecionado, note a preocupação da romancista em descrever o cenário da seca e, ao mesmo tempo, revelar os sentimentos das personagens. o quinze ii raquel de queirós encostado a uma jurema seca, defronte ao juazeiro que a foice dos cabras ia pouco a pouco mutilando, vicente dirigia a distribuição de rama verde ao gado. reses magras, com grandes ossos agudos furando o couro das ancas, devoravam confiadamente os rebentões que a ponta dos terçados espalhava pelo chão. era raro e alarmante, em março, ainda se tratar de gado. vicente pensava sombriamente no que seria de tanta rês, se de fato não viesse o inverno. a rama já não dava nem para um mês. imaginara retirar uma porção de gado para a serra. mas, sabia lá? na serra, também, o recurso falta… também o pasto seca… também a água dos ria-chos afina, afina, até se transformar num fio gotejante e transparente. além disso, a viagem sem pasto, sem bebida certa, havia de ser um horror, morreria tudo. uma vaca que se afastava chamou a atenção do rapaz, que deu um grito: — eh! menino, olha a jandaia! tange para cá! e chamando o vaqueiro: marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un3_cap02_158a182.indd  160 4/15/10  2:58:29 pm</Page><Page Number="163">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  161 — você viu, compadre joão, como a jandaia tem carrapato? até no focinho! o joão marreca olhou para o animal que todo se pontilhava de verrugas pretas, encaroçando- -lhe o úbere, as pernas, o corpo inteiro: — tem umas ainda pior… carece é carrapa-ticida muito… e as reses assim fracas… vicente lastimou-se: — inda por cima do verãozão, diabo de tanto carrapato… dá vontade é de deixar morrer logo! — por falar em deixar morrer… o compadre já soube que a dona maroca das aroeiras deu ordem pra, se não chover até o dia de s. josé, abrir as porteiras do curral? e o pessoal dela que ganhe o mundo… não tem mais serviço pra ninguém. escandalizado, indignado, vicente saltou de junto da jurema onde se encostava: — pois eu, não! enquanto houver juazeiro e mandacaru em pé e água no açude, trato do que é meu! aquela velha é doida! mal empregado tanto gado bom! e depois de uma pausa, fitando um farrapo de nuvem que se esbatia no céu longínquo: — e se a rama faltar, então, se pensa noutra coisa. também não vou abandonar meus cabras numa desgraça dessas… quem comeu a carne tem de roer os ossos… o vaqueiro bateu o cachimbo num tronco e pigarreou um assentimento. vicente continuou: — do que tenho pena é do vaqueiro dela… pobre do chico bento, ter de ganhar o mundo num tempo destes, com tanta família!… — ele já está fazendo a trouxa. diz que vai pro ceará e lá embora pro norte… vicente se dirigiu ao seu velho pedrês, enquanto o vaqueiro comentava: — nem parece que este bicho come milho todo dia… já tão descarnado!… vicente montou: — vocês fiquem por aqui, até acabar. eu tenho que fazer lá em casa. sacudido pela estrada larga do quartau, seguiu rápido, o peito entreaberto na blusa, todo vermelho e tostado do sol, que lá no céu, sozi-nho, rutilante, espalhava sobre a terra cinzenta e seca uma luz que era quase como fogo. queirós, raquel de. o quinze. rio de janeiro: josé olympio, 1988. carrapaticida: que serve para matar carrapatos. carecer: não ter; ter necessidade de, precisar de. esbater: adquirir tons pálidos. juazeiro: árvore da família das ramnáceas, de folhas serreadas. jurema: árvore da família das leguminosas, de caule torto e casca malhada. mandacaru: planta da família das cactáceas. pedrês: galo. quartau: cavalo manso. rama: pastagem usada para alimentar o gado. rebentão: arbusto de terreno não cultivado. rês: qualquer animal quadrúpede que se abate para o ser humano se alimentar. rutilante: brilhante, cintilante. tanger: instigar de algum modo a marcha de indivíduos ou animais; tocar. terçado: facão. úbere: mama de animal. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un3_cap02_158a182.indd  161 4/15/10  2:58:30 pm</Page><Page Number="164">162  unidade 3 interpretação do texto 1	no capítulo 2 de o quinze é desenhado um cenário de seca. nesse contexto, quais são os principais problemas apontados pela autora? 2	considere as falas de vicente e indique exemplos de seu senso de justiça e de compaixão. 3	a linguagem do fragmento lido apresenta vocábulos próprios dos habitantes da terra descrita. isso revela a preocupação da autora em expressar diretamente os elementos regionais, buscando evitar artificialismos linguísticos. destaque alguns trechos cuja linguagem evidencie a interação do homem com seu meio.qualquer uma das falas das personagens. texto 2 publicado em 1938, vidas secas é uma das grandes obras da literatura brasileira. centra-se em um período da vida das personagens fabiano, sua esposa (sinha vitória), os filhos e a cachorra baleia, seres que experimentam na pele as agruras da seca do sertão nordestino. um dos grandes valores do romance está na linguagem seca, de poucos adjetivos, de frases curtas, diretas, com diversas orações coordenadas, em outras palavras, uma sintaxe tão dura quanto a vida no sertão. o capítulo transcrito a seguir traz a personagem fabiano no momento em que depara mais uma vez com o soldado amarelo, depois de ter tido o desprazer de conhecê-lo em uma de suas idas à cidade, quan-do participara de um mesmo jogo que o soldado. nessa ocasião, fabiano perdera dinheiro e saíra sem se despedir. ao encontrar fabiano pela segunda vez, o soldado provocou o sertanejo, que apanhou de outros soldados e foi jogado na cadeia, bastante humilhado. leia como se deu um novo encontro deles. vidas secas o soldado amarelo graciliano ramos […] seguiu a direção que a égua havia tomado. andara cerca de cem braças quan-do o cabresto de cabelo que trazia no ombro se enganchou num pé de quipá. desembaraçou o cabresto, puxou o facão, pôs-se a cortar as quipás e as palmató-rias que interrompiam a passagem. tinha feito um estrago feio, a terra se cobria de palmas espinhosas. deteve-se percebendo rumor de garranchos, voltou-se e deu de cara com o soldado amarelo que, um ano antes, o levara a cadeia, onde ele aguentara uma surra e passara a noite. baixou a arma. aquilo durou um segundo. menos: durou uma fração de segundo. se houvesse durado mais tempo, o amarelo teria caído esperneando na poeira, com o quengo rachado. como o impulso que moveu o braço de fabiano foi muito forte, o gesto que ele fez teria sido bastante para um homicídio se outro impulso não lhe dirigisse o braço em sentido contrário. a lâmina parou de chofre, junto à cabeça do intruso, bem em cima do boné vermelho. a princípio o vaqueiro não compreendeu nada. viu apenas que estava ali um inimigo. de repente notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade. sentiu um choque violento, deteve-se, o braço ficou irresoluto, bambo, inclinando-se para um lado e para outro. 	 as reses já estão muito magras; se não chover, o alimento para elas (as ramas) acabará em menos de um mês; há uma fazendeira decidida a demitir seus trabalhadores e a abandonar seu gado caso não chova até o dia de são josé. 	 sugestões: vi-cente revela, em uma de suas falas, que não vai abandonar seus trabalhadores no meio daqueles problemas. além disso, sensibiliza-se com a situação de chico bento, vaqueiro de dona maroca. 1 5 10 15 vpem3_un3_cap02_158a182.indd  162 4/15/10  2:58:30 pm</Page><Page Number="165">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  163 o soldado, magrinho, enfezadinho, tremia. e fabiano tinha vontade de levan-tar o facão de novo. tinha vontade, mas os músculos afrouxavam. realmente não quisera matar um cristão: procedera como quando, a montar brabo, evitava galhos e espinhos. ignorava os movimentos que fazia na sela. alguma coisa o empurra-va para a direita ou para a esquerda. era essa coisa que ia partindo a cabeça do amarelo. se ela tivesse demorado um minuto, fabiano seria um cabra valente. não demorara. a certeza do perigo surgira — e ele estava indeciso, de olho arregalado, respirando com dificuldade, um espanto verdadeiro no rosto barbudo coberto de suor, o cabo do facão mal seguro entre os dois dedos úmidos. tinha medo e repetia que estava em perigo, mas isto lhe pareceu tão absurdo que se pôs a rir. medo daquilo? nunca vira uma pessoa tremer assim. cachorro. ele não era dunga na cidade? não pisava os pés dos matutos, na feira? não botava gente na cadeia? sem-vergonha, mofino. irritou-se. porque seria que aquele safado batia os dentes como um caititu? não via que ele era incapaz de vingar-se? não via? fechou a cara. a ideia do perigo ia-se sumindo. que perigo? contra aquilo nem precisava facão, bastavam as unhas. agitando os chocalhos e os látegos, chegou a mão esquerda, grossa e cabeluda, à cara do polícia, que recuou e se encostou a uma catingueira. se não fosse a catin-gueira, o infeliz teria caído. fabiano pregou nele os olhos ensanguentados, meteu o facão na bainha. podia matá-lo com as unhas. lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. sim senhor. aquilo ganhava dinheiro para maltratar as criaturas inofen-sivas. estava certo? o rosto de fabiano contraía-se, medonho, mais feio que um focinho. hem? estava certo? bulir com as pessoas que não fazem mal a ninguém. por quê? sufocava-se, as rugas da testa aprofundavam-se, os pequenos olhos azuis abriam-se demais, numa interrogação dolorosa. o soldado encolhia-se, escondia-se por detrás da árvore. e fabiano cravava as unhas nas palmas calosas. desejava ficar cego outra vez. impossível readquirir aquele instante de inconsciência. repetia que a arma era desnecessária, mas tinha a certeza de que não conseguiria utilizá-la — e apenas queria enganar-se. durante um minuto a cólera que sentia por se considerar impotente foi tão grande que recuperou a força e avançou para o inimigo. a raiva cessou, os dedos que feriam a palma descerraram-se — e fabiano esta-cou desajeitado, como um pato, o corpo amolecido. 20 25 30 35 40 45 50 marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un3_cap02_158a182.indd  163 4/15/10  2:58:31 pm</Page><Page Number="166">164  unidade 3 grudando-se à catingueira, o soldado apresentava apenas um braço, uma perna e um pedaço da cara, mas esta banda de homem começava a crescer aos olhos do vaqueiro. e a outra parte, a que estava escondida, devia ser maior. fabiano tentou afastar a ideia absurda: — como a gente pensa coisas bestas! alguns minutos antes não pensava em nada, mas agora suava frio e tinha lembranças insuportáveis. era um sujeito violento, de coração perto da goela. não, era um cabra que se arreliava algumas vezes — e quando isto acontecia, sempre se dava mal. naquela tarde, por exemplo, se não tivesse perdido a paciência e xin-gado a mãe da autoridade, não teria dormido na cadeia depois de aguentar zinco no lombo. dois excomungados tinham-lhe caído em cima, um ferro batera-lhe no peito, outro nas costas, ele se arrastara tiritando como um frango molhado. tudo porque se esquentara e dissera uma palavra inconsideradamente. falta de criação. tinha lá culpa? o sarapatel se formara, o cabo abrira caminho entre os feirantes que se apertavam em redor: — “toca pra frente”. depois surra e cadeia, por causa de uma tolice. ele, fabiano, tinha sido provocado. tinha ou não tinha? salto de reiuna em cima da alpercata. impacientara-se e largara o palavrão. natural, xingar a mãe de uma pessoa não vale nada, porque todo o mundo vê logo que a gente não tem a intenção de maltratar ninguém. um ditério sem importância. o amarelo devia saber isso. não sabia. saíra-se com quatro pedras — figura na mão, apitara. e fabiano comera da banda podre. — “desafasta”. deu um passo para a catingueira. se ele gritasse agora “desafasta”, que faria o polícia? não se afastaria, ficaria colado ao pé de pau. uma lazeira, a gente podia xingar a mãe dele. mas então… fabiano estirava o beiço e rosnava. aquela coisa arriada e achacada metia as pessoas na cadeia, dava-lhes surra. não entendia. se fosse uma criatura de saúde e muque, estava certo. enfim apanhar do governo não é desfeita, e fabiano até sentiria orgulho ao recordar-se da aventura. mas aquilo… soltou uns grunhidos. por que motivo o governo aproveitava gente assim? só se ele tinha receio de empregar tipos direitos. aquela cambada só servia para morder as pessoas inofensivas. ele, fabiano, seria tão ruim se andasse fardado? iria pisar os pés dos trabalhadores e dar pancada neles? não iria. aproximou-se lento, fez uma volta, achou-se em frente do polícia, que embas-bacou, apoiado ao tronco, a pistola e o punhal inúteis. esperou que ele se mexes-se. era uma lazeira, certamente, mas vestia farda e não ia ficar assim, os olhos 55 60 65 70 75 80 85 marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un3_cap02_158a182.indd  164 4/15/10  2:58:32 pm</Page><Page Number="167">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  165 arregalados, os beiços brancos, os dentes chocalhando como bilros. ia bater o pé, gritar, levantar a espinha, plantar-lhe o salto da reiuna em cima da alpercata. desejava que ele fizesse isso. a ideia de ter sido insultado, preso, moído por uma criatura mofina era insuportável. mirava-se naquela covardia, via-se mais lasti-moso e miserável que o outro. baixou a cabeça, coçou os pelos ruivos do queixo. se o soldado não puxasse o facão, não gritasse, ele, fabiano, seria um vivente muito desgraçado. devia sujeitar-se àquela tremura, àquela amarelidão? era um bicho resistente, calejado. tinha nervo, queria brigar, metera-se em espalhafatos e saíra de crista levantada. recordou-se de lutas antigas, em danças com fêmea e cachaça. uma vez, de lambedeira em punho, espalhara a negrada. aí sinha vitória começara a gostar dele. sempre fora reimoso. iria esfriando com a idade? quantos anos teria? ignorava, mas certamente envelhecia e fraquejava. se possuísse espelhos, veria rugas e cabelos brancos. arruinado, um caco. não sentira a transformação, mas estava-se acabando. o suor umedeceu-lhe as mãos duras. então? suando com medo de uma peste que se escondia tremendo? não era uma infelicidade grande, a maior das infeli-cidades? provavelmente não se esquentaria nunca mais, passaria o resto da vida assim mole e ronceiro. como a gente muda! era. estava mudado. outro indivíduo, muito diferente do fabiano que levantava poeira nas salas de dança. um fabiano bom para aguentar facão no lombo e dormir na cadeia. virou a cara, enxergou o facão de rasto. aquilo nem era facão, não servia para nada. ora não servia! — quem disse que não servia? […] aprumou-se, fixou os olhos nos olhos do polícia, que se desviaram. um homem. besteira pensar que ia ficar murcho o resto da vida. estava acabado? não estava. mas para que suprimir aquele doente que bambeava e só queria ir para baixo? inutilizar-se por causa de uma fraque-za fardada que vadiava na feira e insultava os pobres! não se inutilizava, não valia a pena inu-tilizar-se. guardava a sua força. vacilou e coçou a testa. havia muitos bichinhos assim ruins, havia um horror de bichinhos assim fracos e ruins. afastou-se, inquieto. vendo-o acanalhado e ordeiro, o soldado ganhou coragem, avançou, pisou firme, perguntou o caminho. e fabiano tirou o chapéu de couro. — governo é governo. tirou o chapéu de couro, curvou-se e ensinou o caminho ao soldado amarelo. ramos, graciliano. vidas secas. 51. ed. rio de janeiro: record, 1983. achacado: que sofre de achaques (mal-estar) ou se encontra doente. alpercata: sandália que se prende ao pé por tira de couro ou de pano. arreliar: aborrecer-se. bilro: instrumento similar a um fuso, para fazer rendas. braça: antiga medida de comprimento que equivale a 10 palmos (c. 1,8 metro). caititu: mamífero encontrado na américa, com pelagem cinza-escura e faixa branca no pescoço em forma de colar. catingueira: árvore ou arbusto da família das leguminosas. ditério: mexerico. dunga: sujeito corajoso, valentão. figura: diabo. lambedeira: faca pontuda e estreita. látego: chicote, açoite. lazeira: preguiça. matuto: sujeito que vive no campo e cuja personalidade revela falta de traquejo social. mofino: infeliz; covarde. palmatória: planta da família das cactáceas. quengo: cabeça. quipá: planta da família das cactáceas. reimoso: genioso. reiuna: botina com elástico usada por soldados. ronceiro: lento, preguiçoso. sarapatel: confusão, algazarra. zinco: arma branca (faca, navalha, punhal, etc.). 90 95 100 105 110 115 120 125 vpem3_un3_cap02_158a182.indd  165 4/15/10  2:58:32 pm</Page><Page Number="168">166  unidade 3 interpretação do texto 1	entre o encontro de fabiano com o soldado amarelo e o momento em que o sertanejo decide ensinar o caminho para o oficial, uma enxurrada de pensamentos de fabiano invade a narrativa: ele se lembra de um acontecimento passado que envolve o mesmo soldado, reflete sobre o medo, sobre ser ou não valente, sobre envelhecimento, etc. usando o discurso indireto livre, o narrador nos dá acesso a refle-xões da personagem e, assim, ao conjunto de valores que rege o comportamento desse sertanejo. a)	que razões fabiano tinha para desejar se vingar do soldado? b)	fabiano encontra características em si mesmo que justificariam a vingança. quais? c)	que características da situação tornam a vingança plenamente possível? d)	como fabiano enxerga o soldado no momento em que se sente humilhado? e)	qual é a situação de fabiano diante do soldado perdido? justifique sua resposta. 2	releia os trechos das linhas 18 a 21, 31 a 36, 91 e 92. reflita: o medo e o comportamento do soldado amarelo fazem fabiano, que na mata tem condições de se vingar, sentir-se humilhado por duas razões opostas. quais? 3	depois de toda a reflexão, no penúltimo parágrafo a fala de fabiano, em discurso direto, sintetiza uma escolha de ação, a opção por não se vingar. escreva no caderno a alternativa que, no contexto, justifica essa escolha. a) medo que sente do soldado amarelo. b)	peso de uma instituição — o governo — que no texto se caracteriza pela capacidade de repressão arbitrária. x c)	sua incapacidade de reagir diante de um homem fraco e amedrontado como aquele. d)	sua bondade natural, a sua compaixão. texto 3 publicada em 1942, a obra terras do sem-fim foi considerada por alguns críticos literários uma das melhores de jorge amado. narra, em três partes, a chegada e a permanência do homem na terra do cacau, além de relatar a disputa entre duas famílias, a do coronel sinhô badaró e a do coronel horácio da silveira, pela posse de mais terras. o fragmento abaixo relata o depoimento de um dos viajantes que se dirigem a terras longínquas da bahia à procura de trabalho. o navio capítulo 6 jorge amado a voz cantava e os homens se encolhiam com frio. o vento passava rápi-do, vinha do sul e era violento. o navio jogava sobre as ondas, muitos daqueles homens nunca tinham entrado num navio. tinham atravessado as ásperas caatin-gas do sertão num trem que arrastava vagões e vagões de imigrantes. o velho os olhava com seus olhos duros. 	 fabiano apanhou dos homens do soldado, além disso foi preso e humilhado por ele. 	 durante sua reflexão, ele se reconhece como um homem valente, resistente, que sempre foi reimoso, intempestivo. o lugar onde se encontram os dois antagonistas: o soldado amarelo está perdido e amedrontado com a possibilidade da vingança, treme de medo. fabiano está em seu território, tem armas e a possibilidade de atingir o soldado. 	 o soldado é uma autoridade contra a qual ele não pode nada, um homem valente e cheio de coragem exatamente porque pode se esconder atrás de sua farda protetora. 	 ele pode, se quiser, ma-chucar, assustar ou mesmo matar o soldado, mas não deseja fazer isso. diz para si mesmo que não é homem capaz de se vingar, além de ter medo de agredir uma autoridade. 	 por um lado, fabiano sente-se incapaz de se vingar de alguém, e essa incapacidade o humilha, pois o medo do soldado parece a ele um indício de que a autoridade espera uma vingança de fabiano. por outro, o sertanejo nota a covardia daquela autoridade, e ter sido humilhado por alguém covarde é em si uma humilhação. vpem3_un3_cap02_158a182.indd  166 4/15/10  2:58:33 pm</Page><Page Number="169">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  167 — tão vendo essa modinha? “nessas terras vou morrer.” tá aí uma coisa ver-dadeira… quem vai pra essas terras nunca mais volta… tem uma coisa que parece feitiço, é feito visgo de jaca. segura a gente… — tem dinheiro fácil, não é? — o jovem se atirou para a frente de olhos acesos. — dinheiro… tá aí o que prende a gente. a gente chega, faz algum dinheiro, que dinheiro há mesmo, deus seja servido. mas é dinheiro desgraçado, um dinhei-ro que parece que tem maldição. não dura na mão de ninguém, a gente faz uma roça… a música vinha em surdina, os jogadores haviam parado a “ronda”. o velho fitou o jovem bem dentro dos olhos, depois relanceou a vista pelos demais homens e mulheres que estavam presos às suas palavras: — já ouviram falar em “caxixe”? — diz que é um negócio de doutor que toma a terra dos outros… — vem um advogado com um coronel, faz caxixe, a gente nem sabe onde vai parar os pés de cacau que a gente plantou… espiou em volta novamente, mostrou as grandes mãos calosas: — tão vendo? plantei muito cacaueiro com essas mãos que tão aqui… eu e joaquim enchemos mata e mata de cacau, plantamos mais que mesmo um bando de jupará que é bicho que planta cacau… que adiantou? — perguntava a todos, aos jogadores, à mulher grávida, ao jovem. ficou novamente ouvindo a música, fitou longamente a lua: — diz que a lua quando tá assim cor de sangue que é desgraça na estrada nessa noite. tava assim quando mataram joaquim. não tinha por quê, mataram só de malvadez. — por que mataram ele? — perguntou a mulher. — o coronel horácio fez um caxixe mais dr. rui, tomaram a roça que nós havia plantado… que a terra era dele, que joaquim não era dono. veio com os jagunços mais uma certidão do cartório. botou a gente pra fora, ficaram até com o cacau que já tava secando, prontinho pra vender. joaquim era bom no trabalho, não tinha mesmo medo do pesado. ficou acabado com a tomada da roça, deu de beber. e uma vez, já bebido, disse que ia se vingar, ia liquidar com o coronel. tava um cabra do coronel por perto, ouviu, foi contar. mandaram tocaiar joaquim, mataram ele na outra noite, quando vinha pra ferradas… marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un3_cap02_158a182.indd  167 4/15/10  2:58:34 pm</Page><Page Number="170">168  unidade 3 o velho silenciou, os homens não perguntaram mais nada. os jogadores volta-ram ao seu jogo, o que estava com o baralho botou duas cartas no chão, os outros apostaram. a música morria aos poucos na noite. o vento aumentava de minuto a minuto. o velho voltou a falar: — joaquim era um homem de paz, ele não ia matar ninguém. o coronel horácio bem sabia, os cabras também sabiam. ele disse aquilo porque tava bêbedo, não ia matar ninguém. era um homem do trabalho, queria era ganhar com que viver… sentiu que tomassem a roça, isso sentiu. mas só falou porque tinha bebido… não era homem pra matar… liquidaram ele pelas costas… — foram presos? o velho olhou com raiva: — na mesma noite que mataram ele, tavam bebendo numa venda, contando como o caso tinha se dado… fez-se silêncio no grupo, só um jogador falou: — sete… mas o outro nem recolheu o dinheiro, absorto na figura do velho que agora estava dobrado e parecia esquecido do mundo, sozinho na sua desgraça. amado, jorge. terras do sem-fim. são paulo: círculo do livro, s.d. interpretação do texto 1	a amargura do velho está baseada numa experiência de injustiça e de impunidade. relate em poucas palavras o que aconteceu. 2	há nesse trecho algumas forças contra as quais muitas pessoas não conseguem lutar. quais? justifique sua opinião. para entender a prosa da década de 1930 os trechos narrativos que você leu neste capítulo ilustram o que se chamou “era do romance bra-sileiro”. a preocupação com a documentação da realidade que notamos nas obras do pré-modernismo (como em os sertões, de euclides da cunha) é retomada pelos prosadores da década de 1930, mas já com influência da primeira fase modernista, que abriu caminhos para novas formas de narrar a reali-dade cotidiana. o primeiro livro a ser publicado com olhar mais crítico sobre a sociedade brasileira foi a bagaceira, de josé américo de almeida. nesse romance, a situação do nordestino é retratada com exatidão para o leitor, que acompanha também os poemas de 1930 e seu caráter mais engajado. o contexto histórico propiciou ficções mais realistas, preocupadas em retratar as regiões mais casti-gadas do brasil e denunciar sua condição. viviam-se os anos do estado novo de getúlio vargas, com seu poder centralizado e opressor. o cenário econômico internacional não era menos crítico, já que se passava pelas consequências da quebra da bolsa de nova york, pelo entreguerras e pela desconfiança nos valores democráticos e burgueses, o que gerou espanto, depressão e indignação. prof.(a), se preferir, resolva estas questões oralmente. 	 o velho e joaquim perderam terras onde haviam plantado cacau. mais tarde, joaquim foi assassinado por ter dito que se vingaria do coronel que deles tomara as terras. há a força da autoridade legal e da impunidade. a autoridade legal é representada pelo coronel e seu advogado, que apresentam um documento provando ser esse coronel o dono das terras, mesmo que por muito tempo aqueles homens tenham trabalhado e produzido ali. há também o poder da impunida-de, exemplificado pelo fato de os homens que mataram joaquim pelas costas não serem presos e ainda comentarem o feito às claras. é possível também 	 comentar um poder que está por trás dessas duas forças, o poder do dinheiro, já que o coronel se vale do fato de poder pagar um advogado, e a impunidade, de certa maneira, é apoiada pelo dinheiro que pode calar algumas pessoas. caxixe: negociata feita em torno de terras produtoras de cacau. jupará: mamífero da família dos procionídeos. visgo: viscosidade. vpem3_un3_cap02_158a182.indd  168 4/15/10  2:58:34 pm</Page><Page Number="171">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  169 durante muito tempo, o brasil havia sido governado por presidentes de são paulo e minas gerais (polí-tica do “café com leite”), contribuindo para que questões específicas do nordeste e de outras regiões do país fossem deixadas de lado. enfraquecida a política que apoiava esses dois estados, não se pode negar que houve certo avanço na economia brasileira: maior diversificação dos produtos de exportação (algodão, frutas, óleos vegetais, minérios) e o desenvolvimento da indústria. o centro literário desse período fecundo sai da região sudeste, mais especificamente de são paulo, e parte para o nordeste, onde se destacam josé lins do rego, raquel de queirós e graciliano ramos, e para o sul, onde se destaca érico veríssimo. marcadamente dominada por autores nordestinos que conhecem a realidade que retratam porque a vivem ou viveram, a prosa do período trata de temas específicos das regiões brasileiras mais distantes do poder central. por serem marcados por uma linguagem simples e de fácil acesso, assim como por apresentarem um brasil desconhecido pelos leitores das grandes capitais (são paulo, minas gerais e rio de janeiro), os romances desse período foram bem aceitos e representaram um salto enorme de vendas no mercado literário brasileiro. cândido portinari/museu nacional de belas artes – iphan/minc, rio de janeiro café, de cândido portinari, 1934. as artes plásticas brasileiras, que também refletem a conscientização política dos artistas da década de 1930, procuram denunciar as sofridas condições dos trabalhadores, a situação opressora da sociedade de massas, entre outras injustiças. em cadeia de rádio, o presidente getúlio vargas anunciou o estado novo, em novembro de 1937. getúlio fechou o congresso nacional e impôs ao país uma nova constituição, de tendência fascista, alegando que os comunistas iam tomar o país. além de contar com o apoio de militares, o golpe de getúlio vargas foi bem recebido por boa parte da sociedade brasileira, já que desde o fim de 1935 o governo amedrontava a classe média ao reforçar a propaganda anticomunista. a partir daí vargas, por um lado, perseguiu e prendeu inimigos políticos, impôs a censura aos meios de comunicação; por outro, adotou medidas econômicas nacionalizantes e deu continuidade a sua política trabalhista. o presidente criou o departamento de imprensa e propaganda (dip), responsável por centralizar e orientar a propaganda nacional, censurar as artes e os meios de comunicação em geral, incentivar mani-festações cívicas e expor as atividades do governo central. o dip, uma das estruturas fundamentais do estado novo, difundiu a imagem de progresso e desenvolvimento do período e associou-a diretamente à figura de vargas. vpem3_un3_cap02_158a182.indd  169 4/15/10  2:58:35 pm</Page><Page Number="172">170  unidade 3 características da prosa brasileira de 1930 regionalismo a imensidão do território brasileiro colabora para a existência de inúmeras diferenças econômicas e culturais entre as populações das regiões do país e suas subdivisões. quem é o nordestino? quem é o gaúcho? quem são os brasileiros? ainda hoje muitos intelectuais buscam formar um retrato dos indivíduos que vivem em regiões tão distintas e compõem um povo com identidade nacional, os brasileiros. e os escritores da década de 1930 não fugiram a essa questão, buscaram desvendar não as regiões apenas, mas o brasil, procurando retratar o país por meio da denúncia do que acontecia nas regiões brasileiras. com essa intenção, os romancistas e contistas procuraram tratar em sua ficção sobretudo a relação humana com o meio e o impacto desse meio na formação da personalidade das personagens. temática social e neorrealismo com tantas inquietações sociais que marcaram esse período, a literatura precisava apresentar a reali-dade, a vida do povo nas mais diversas situações. todavia, ao contrário da concepção realista do século xix, que procurava retratar a realidade tal qual ela se mostrava, a concepção modernista da geração de 1930 buscou interpretar a vida dessas personagens levando em conta a situação espacial e social que enfrentavam. graciliano ramos, jorge amado, josé lins do rego e os demais romancistas e contistas desse período tinham uma visão madura, mais crítica das relações sociais. os romances desse período não se limitavam a apresentar a realidade. os escritores preocupavam-se com seu papel social: pretendiam, com sua arte, participar do momento histórico que viviam. daí o tom de análise e de protesto das produções do período. linguagem simples a geração de 1930 buscava retratar os setores marginalizados do brasil. com essa intenção, procura-se reproduzir na prosa uma linguagem mais próxima do português falado por essas camadas sociais. é nesse período que se conhece melhor a diversidade da língua portuguesa no brasil. jorge amado, por exemplo, é um dos autores que registram em seus romances a variedade linguística de uma região castigada pela miséria e pela opressão. sino filmes, riofilme e sagres vídeo/divulgação/arquivo da editora cena do filme vidas secas, de nelson pereira dos santos, 1963, baseado no romance homônimo de graciliano ramos. vpem3_un3_cap02_158a182.indd  170 4/15/10  2:58:36 pm</Page><Page Number="173">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  171 principais autores graciliano ramos a obra do alagoano graciliano ramos (1892-1953) representa o conflito entre o escritor e a sociedade que o formou. em seus romances as personagens são marcadas pela dor e pela opressão exercida pelo meio. nascido em quebrângulo, numa família de classe média com quinze filhos, graciliano ramos foi o retrato dessa falta de adaptação: doente e fraco, enfrentou sempre a zombaria dos irmãos e costumava ser humilhado pelo pai, que queria fazer dele um homem duro. prefeito de palmeira dos índios de 1928 a 1930, fez dessa cidade palco dos fatos do cotidiano narrados em seu primeiro romance, caetés. de 1930 a 1936, trabalhando como dirigente da im-prensa e da instrução do estado em maceió, escreveu são bernardo e angústia, além de fortalecer os laços de amizade com autores nordestinos de sua geração. preso em 1936 como subversivo, graciliano ramos enfrentou diversas humilhações. o romance mais uma vez lhe serviu de documento: em seu livro memórias do cárcere, considerado um dos mais tensos depoimentos da época, retratou sua experiência na prisão. sua obra é marcada pela economia verbal, pela sín-tese. ele reescreveu seus romances várias vezes, buscava sempre enxugar o texto, eliminar palavras desnecessárias. graciliano ramos pensava que a palavra não deveria ilus-trar, e sim dizer de forma objetiva. em entrevista concedida em 1948, o escritor comentou o assunto: deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de alagoas fazem seu ofício. elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer. disponível em: http://66.228.120.252/entrevistas/1573784. acessado em 4 fev. 2010. seus romances apresentam heróis inadaptados, que têm consciência de não pertencerem a este mundo, a esta sociedade. não se aceitam e não aceitam os outros. é essa a primeira tensão de seus romances, a que gera todos os comportamentos. em são bernardo, por exemplo, conhecemos paulo honório, perso-nagem que luta contra o meio para sobreviver e, em seu longo percurso, endurece devido à dura compe-tição capitalista. casa com madalena, professora idealista, situação que abre espaço para se construir uma bonita narrativa em torno do conflito entre o ter (representado por paulo honório) e o ser (representado por madalena). reminiscências/acervo iconographia o escritor graciliano ramos em foto de 1948. muitas vezes, durante a releitura de um texto, ele queimava com o cigarro as palavras que achava melhor cortar, furando o papel. vpem3_un3_cap02_158a182.indd  171 4/15/10  2:58:36 pm</Page><Page Number="174">172  unidade 3 josé lins do rego josé lins do rego (1901-1957), paraibano, passou a infância no enge-nho do avô, por quem foi criado. cursou faculdade de direito em recife, onde entrou em contato com intelectuais que contribuíram para a busca da identidade nacional, como o sociólogo e antropólogo gilberto freyre. em maceió, conheceu graciliano ramos e jorge de lima. em 1935, transferiu-se para o rio de janeiro, onde passou a escrever ficção procurando denunciar os problemas de sua região de origem. durante a infância, vivenciou a passagem dos engenhos de açúcar para as usinas e o impacto dessa mudança numa região já castigada pela seca. ainda conheceu os cantadores de feira nordestina, forte influência em sua obra, marcada por um ritmo gostoso como o das narrativas de cordel. em seus textos, adotou uma linguagem simples e mais oral, procuran-do aproximar as personagens do comportamento real. em sua busca pelo aspecto documental de seu trabalho, narrava o que e como ouvia, mas principalmente o que vivia. a partir de sua experiência, compôs em seus romances os conflitos humanos, o cenário do engenho decadente, assim como a região, as histó-rias contadas oralmente pelas escravas, as angústias sexuais da puberdade e o mal-estar próprio daquele período histórico. por isso seus romances são considerados narrativas memorialistas. fogo morto, sua obra mais representativa, narra o declínio do ciclo da cana-de-açúcar ao contar a história do poderoso engenho santa rosa, desde a fundação até sua queda. raquel de queirós filha de família letrada de fortaleza e descendente do escritor josé de alencar, a jornalista raquel de queirós sempre esteve próxima dos livros. dona de uma prosa enxuta e viva, escreveu romances que documentam um nordeste decadente, num estilo menos literário e mais documental. um dos fatores que contribuíram para a forte aceitação de seus romances foi a naturalidade dos diálogos. com forte intenção política, ainda jovem publicou o quinze, romance que narra a seca de 1915. a autora não se contentou com a simples observação, procurou fazer uma análise psicológica das personagens do sertão. de forma harmoniosa, relaciona o aspecto social ao psicológico, tratando também de temas sociopolíticos, como o do papel da mulher na sociedade nordestina. doidinho, romance de 1933, conta a história do adolescente carlinhos, que vive em um internato dirigido por um homem capaz de tornar o ambiente bastante opressor. trata-se do segundo romance do ciclo da cana-de-açúcar criado pelo autor. o escritor josé lins do rego (à direita) durante entrevista com o repórter do jornal última hora. oscar cabral/editora abril josé olympio editores/divulgação/arquivo da editora acervo última hora/folha imagem/folhapress a escritora raquel de queirós em foto de 1996, no rio de janeiro. conta-se que, na noite de sua formatura, a jornalista, eleita rainha dos estudantes, largou a coroa, dispensou os abraços e, dizendo que era repórter, abandonou a festa quando soube do assassinato do político joão pessoa. vpem3_un3_cap02_158a182.indd  172 4/15/10  2:58:39 pm</Page><Page Number="175">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  173 jorge amado jorge amado (1912-2001) representa o amor pela bahia dos marginais, dos marinheiros e pescadores, da mulher sensual. nascido em itabuna, retrata esse amor de forma crítica e sensual. seus temas são os problemas de seu estado: a condição do negro e do menor de idade abandonado, o trabalhador das fazendas de cacau, do cais. ilustração da capa do livro tereza batista cansada de guerra, romance lançado em 1972. o artista plástico carybé, criador dessa imagem, foi responsável pela ilustração de diversas obras de jorge amado, contribuindo para a construção de suas personagens no imaginário dos leitores. excelente contador de histórias, jorge amado caiu no gosto popular. entre suas obras, destacam- -se terras do sem-fim e capitães da areia. nesta última retrata a cidade de salvador pela perspectiva de meninos de rua abandonados e marginalizados. pedro bala é o chefe do grupo, que rouba para sobreviver. no início do romance, o autor apresenta notícias e reportagens com a intenção de emprestar veracidade aos fatos da ficção e assim reforçar, na narrativa, o caráter de denúncia da opressão sofrida por tipos humanos menos favorecidos. érico veríssimo o gaúcho érico veríssimo (1905-1975) também se tornou um autor bastante popular. retrata os costumes da burguesia gaúcha, trabalha figuras comuns, mas representativas. clarissa (personagem que dá nome a um de seus romances), por exemplo, representa a adolescente entregue aos sonhos e à incapacidade de entender a infelicidade familiar. orgulho e ódio, paixões que ganham uma dimensão maior que a da vida pessoal das personagens e se fundem na história da comunidade compõem a trilogia o tempo e o vento. composta de três partes — o continente, o retrato e o arquipélago —, é a obra mais significativa do autor. narra a história de gerações do rio grande do sul por meio das famílias terra-cambará e amaral, registrando desde as missões nos tempos coloniais até o estado novo, no século xx. os trechos selecionados a seguir foram retirados de ana terra, capítulo de o continente. por causa de seu valor, esse capítulo foi lançado como livro independente. a narrativa apresenta a família terra — o pai maneco, a mãe d. henriqueta e os filhos ana, horácio e antônio —, que vive em uma estância no interior gaúcho. um dia ana socorre um mestiço indígena e o leva para sua casa. mais tarde, lutando contra a paixão que a domina, engravida do enigmático índio e dá à luz pedro terra. seus irmãos, para honrá-la, matam o mestiço. mais tarde, num ataque de bandidos castelhanos, pai e irmãos são mortos. livres, ana, o filho pedro terra, a cunhada e a sobrinha partem para santa fé, palco de o tempo e o vento. observe nestes trechos a consciência do tempo como elemento da natureza e a garra e a capacidade de resistência de um povo, o rio-grandense. o escritor érico veríssimo em foto de 1963. o escritor jorge amado em sua casa na cidade de salvador, ba, em 1996. luiz prado/agência estado carybé/acervo do artista acervo última hora/folha imagem/folhapress vpem3_un3_cap02_158a182.indd  173 4/15/10  2:58:42 pm</Page><Page Number="176">174  unidade 3 ana terra érico veríssimo naquela noite nasceu o filho de ana terra. a avó cortou-lhe o cordão umbilical com a velha tesoura de podar. e o sol já estava alto quando os homens voltaram, apearam e vieram tomar mate. ouviram o choro de criança na cabana, mas não perguntaram nada nem foram olhar o recém-nascido. — é um menino! — disse d. henriqueta ao marido, sem poder conter um con-tentamento nervoso. maneco pigarreou mas não disse palavra. quando o pai saiu para fora, ana ouviu horácio cochichar para a mãe: — ela vai bem? — vai indo, graças a deus — respondeu d. henriqueta. — está com os ubres cheios. tem mais leite que uma vaca — acrescentou com orgulho. naquele instante ana dava de mamar ao filho. estava serena, duma serenidade de céu despejado, depois de uma grande chuva. três dias depois já se achava de pé, trabalhando. e sempre que ia lavar roupa levava o filho dentro da cesta, e enquanto batia nas pedras as camisas e calças e vestidos, deixava a criança deitada a seu lado. e cantava para ela velhas cantigas que aprendera quando menina em sorocaba, cantigas que julgava esquecidas, mas que agora lhe brotavam milagrosamente na memória. e a água corria, e a criança ficava de olhos muito abertos, com a sombra móvel dos ramos a dançar-lhe no rostinho cor de marfim. pelos cálculos de antônio deviam estar no ano-novo. uma noite, depois do jan-tar, horácio disse: — se não me engano, estamos agora no 79. maneco terra suspirou. — eu só queria saber que nova desgraça este ano vai nos trazer… disse essas palavras e começou a enrolar tristemente um cigarro. […] ana sentia-se animada, com vontade de viver. sabia que por piores que fossem as coisas que estavam por vir, não podiam ser tão horríveis como as que já tinha sofrido. esse pensamento dava-lhe uma grande coragem. ali deitada no chão a olhar para as estrelas, ela se sentia agora tomada por uma resignação que chegava quase a ser indiferença. tinha dentro de si uma espécie de vazio: sabia que nunca mais teria vontade de rir nem de chorar. queria viver, isso queria, e em grande parte por causa alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un3_cap02_158a182.indd  174 4/15/10  2:58:44 pm</Page><Page Number="177">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  175 de pedrinho, que afinal de contas não tinha pedido a ninguém para vir ao mundo. mas queria viver também de raiva, de birra. a sorte andava sempre virada contra ela. pois ana estava agora decidida a contrariar o destino. ficara louca de pesar no dia em que deixara sorocaba para vir morar no continente. vezes sem conta tinha chorado de tristeza e de saudade naqueles cafundós. vivia com o medo no coração, semnenhuma esperança de dias melhores, sem a menor alegria, trabalhando como uma negra, e passando frio e desconforto… tudo isso por quê? porque era a sua sina. mas uma pes-soa pode lutar contra a sorte que tem. pode e deve. e agora ela tinha enterrado o pai e o irmão e ali estava, sem casa, sem amigos, sem ilusões, sem nada, mas teimando em viver. sim, era pura teimosia. chamava-se ana terra. tinha herdado do pai o gênio de mula. érico, veríssimo. ana terra. são paulo: companhia das letras, 2005. sintetizando a prosa modernista — geração de 1930 copie o esquema a seguir no caderno e complete-o com base no que foi estudado no capítulo.  durante muito tempo, o brasil foi governado por presidentes dos estados de , a chamada política . isso contribuiu para que as questões específicas do nordeste e de outras regiões . enfraquecida a política que apoiava esses dois estados, não se pode negar que houve  	 são paulo e minas gerais / do “café com leite” / fossem deixadas de lado / certo avanço na economia brasileira: maior diversificação dos produtos de exportação (algodão, frutas, óleos vegetais, minérios) e o desenvolvimento da indústria. são características da prosa modernista de 30: 	 o regionalismo, a escolha por temáticas sociais, o neorrealismo — apresentação dos problemas sociais como denúncia e como participação, não como ilustração apenas — e, por fim, o uso de linguagem simples. os escritores mais importantes do período são: graciliano ramos, raquel de queirós, jorge amado, josé lins do rego e érico veríssimo. desafo responda às questões no caderno. 1	(cefet, 2002) o diálogo a seguir é entre paulo honório, narrador, e gondim, jornalista contratado inicial-mente por paulo para escrever o romance: — vá para o inferno, gondim. você acanalhou o troço. está pernóstico, está safado, está idiota. há lá ninguém que fale dessa forma! azevedo gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala. — não pode? perguntei com assombro. e por quê? azevedo gondim respondeu que não pode porque não pode. — foi assim que sempre se fez. a literatura é a literatura, seu paulo. a gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia. (graciliano ramos: são bernardo, cap. 1) prof.(a), aceite outras possibilidades de resposta, desde que coerentes com o que foi estudado. cafundó: lugar afastado, de difícil acesso. ubre: mama, seio. prof.(a), as questões de vestibular usadas nesta seção, em geral, foram transcritas literalmente, pois buscamos preservar sua configuração original. vpem3_un3_cap02_158a182.indd  175 4/15/10  2:58:45 pm</Page><Page Number="178">176  unidade 3 com base no texto, pode-se afirmar que: a)	a concepção de literatura da 1ª- fase do modernismo expressa-se na opinião de gondim. b)	as ideias de paulo aplicam-se à obra de graciliano, não a outros autores modernos. c)	as buscas da prosa da 2ª- fase do modernismo não aparecem no ponto de vista de paulo. d)	a divergência entre gondim e paulo é antes temática que estilística. e)	a concepção de literatura da 1ª- e 2ª- fases do modernismo está no parecer de paulo. x 2	(ufv) fogo morto, de josé lins do rego, é um romance característico: a)	do regionalismo romântico do século xix, como se comprova pela descrição da personagem idea-lizada pelo sofrimento exagerado. b)	da ficção dos anos 30 e 40 do século xx, em que a observação do meio social não reduz o alcance da análise dos conflitos humanos. x c)	da experimentação dos anos 20 do século xx, uma vez que o autor critica os valores da família burguesa e sua inadequação aos padrões culturais. d)	do regionalismo realista-naturalista de finais do século xix, pois o comportamento das personagens é determinado pelo meio natural. 3	(enem) texto i principiei a leitura de má vontade. e logo emperrei na história de um menino vadio que, dirigindo-se à escola, se retardava a conversar com os passarinhos e recebia deles opiniões sisudas e bons conselhos. em seguida vinham outros irracionais, igualmente bem-intencionados e bem falantes. havia a moscazinha que morava na parede de uma chaminé e voava à toa, desobedecendo às ordens maternas, e tanto voou que afinal caiu no fogo. esses contos me intrigaram com o [livro] barão de macaúbas. infelizmente um doutor, utilizando bichinhos, impunha-nos a linguagem dos doutores. — queres tu brincar comigo? o pas-sarinho, no galho, respondia com preceito e moral, e a mosca usava adjetivos colhidos no dicionário. a figura do barão manchava o frontispício do livro, e a gente percebia que era dele o pedantismo atribuído à mosca e ao passarinho. ridículo um indivíduo hirsuto e grave, doutor e barão, pipilar conselhos, zumbir admoestações. ramos, g. infância. rio de janeiro: record, 1986 (adaptado). texto ii dado que a literatura, como a vida, ensina na medida em que atua com toda sua gama, é artificial querer que ela funcione como os manuais de virtude e boa conduta. e a sociedade não pode senão escolher o que em cada momento lhe parece adaptado aos seus fins, enfrentando ainda assim os mais curiosos parado-xos, pois mesmo as obras consideradas indispensáveis para a formação do moço trazem frequentemente o que as convenções desejariam banir. aliás, essa espécie de inevitável contrabando é um dos meios por que o jovem entra em contato com realidades que se tenciona escamotear-lhe. candido, a. a literatura e a formação do homem. duas cidades.  são paulo: ed. 34, 2002 (adaptado). vpem3_un3_cap02_158a182.indd  176 4/15/10  2:58:45 pm</Page><Page Number="179">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  177 os dois textos lidos, com enfoques diferentes, abordam um mesmo problema, que se refere, simulta-neamente, ao campo literário e ao social. considerando-se a relação entre os dois textos, verifica-se que eles têm em comum o fato de que a)	tratam do mesmo tema, embora com opiniões divergentes, expressas no primeiro texto por meio da ficção e, no segundo, por análise sociológica. b)	foi usada, em ambos, linguagem de caráter moralista em defesa de uma mesma tese: a literatura, muitas vezes, é nociva à formação do jovem estudante. c)	são utilizadas linguagens diferentes nos dois textos, que apresentam um mesmo ponto de vista: a literatura deixa ver o que se pretende esconder. x d)	a linguagem figurada é predominante em ambos, embora o primeiro seja uma fábula e o segundo, um texto científico. e)	o tom humorístico caracteriza a linguagem de ambos os textos, em que se defende o caráter peda-gógico da literatura.  comparando textos  tipos de discurso leia um trecho da primeira parte do romance fogo morto, de josé lins do rego, que apresenta mestre josé amaro, homem revoltado, que trabalha como seleiro em frente de sua casa, à beira da estrada. pelas inúmeras conversas com moradores do lugar, é possível perceber sua revolta, seu ponto de vista sobre a sociedade que o cerca. fogo morto josé lins do rego […] sentado no seu tamborete, o velho josé amaro parou de falar. ali estavam seus instrumentos de trabalho. pegou no pedaço de sola e foi alisando, dobrando-a, com os dedos grossos. […] pela estrada passava um comboio de aguardente. o matuto chefe parou para conversar. — deus guarde v. sª-, mestre josé amaro. estamos na demanda do sertão. e sucede que se partiu uma cilha do meu animal. o mestre pode me ajudar? o mestre josé amaro olhou para o homem, como se o quisesse identificar. depois foi lhe dizendo: — você não é o alípio, do ingá? — sim, senhor, mestre josé amaro. […] o mestre josé amaro tomou a cilha partida, fez a emenda e o homem quis puxar dinheiro para lhe pagar. — não é nada, seu alípio. não é nada. e quando o comboio sumiu no fim da estrada, o mestre falou: marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un3_cap02_158a182.indd  177 4/15/10  2:58:46 pm</Page><Page Number="180">178  unidade 3 — bicho homem, este alípio. […] gosto de homem assim. ele fora com o pai vender milho verde na vila e o cabo do destacamento achou de desfazer do velho. foi aquela desgraça. alípio se fez na faca, espalhou a feira. o cabo ficou para um canto de bofe de fora, e um soldado que se metera a besta não ficou para contar história. foi no júri. encontrou homem para livrar ele. se fosse aqui do santa fé, morreria de podre na cadeia. nem é bom falar. o pintor laurentino levantou-se para sair. — bem, mestre zé, muito obrigado, mas o sol está caindo. — já quer ir mesmo, homem? aqui a casa é sua. passando pela estrada, pare aqui. […] depois voltou para seu tamborete e começou o serviço outra vez. pela estra-da gemia um carro de boi, carregado de lã. o carreiro parou para conversar com o mestre. estava precisando de correame para os bois. o coronel mandara encomen-dar no pilar. ele gostava mais do trabalho de mestre josé amaro. o mestre olhou para o homem. e lhe falou, com voz mansa, como se não esti-vesse com alma pesada de mágoa. — é encomenda do santa rosa? pois, meu negro, para aquela gente não faço nada. todo mundo sabe que não corto uma tira para o coronel josé paulino. você me desculpe. é juramento que fiz. — me desculpe, seu mestre, respondeu o carreiro, meio perturbado. o homem é bom. não sabia da diferença de vosmecê com ele. — pois fique sabendo. se fosse para você, dava de graça. para ele nem a peso de libra. é o que digo a todo mundo. não aguento grito. mestre josé amaro é pobre, é atrasado, é um lambe-sola, mas grito não leva. o carreiro saiu. […] parou na sua porta um negro a cavalo. — boas tardes, mestre. — boa tarde, leandro. está de viagem? — nada não, mestre zé. vou levando um recado para o delegado do pilar que o seu augusto do oiteiro mandou. — houve crime por lá? — duas mortes […] vou dar a notícia ao major ambrósio do assucedido. — este ambrósio é um banana. queria ser delegado nesta terra, um dia só. mostrava como se metia gente na cadeia. senhor de engenho, na minha unha, não falava de cima para baixo. […] — mestre zé está zangado, vou saindo. — não estou zangado, estou dizendo a verdade. sou um oficial que não me entrego aos mandões. quando a gente fala nestas coisas vem logo um pobre como você dizendo que estou zangado. zangado por quê? porque digo a verdade? sou eleitor, dou meu voto a quem quero. não voto em governo. rego, josé lins do. fogo morto. rio de janeiro: josé olympio, 1968. assucedido: não encontramos registro; provavelmente é uma variação de sucedido (ocorrido). cilha: cinta larga, de couro ou tecido, que envolve a barriga das cavalgaduras para apertar a sela ou a carga. correame: reunião de correias. lambe-sola: não encontramos registro; provavelmente é uma adaptação de lambe-botas (bajulador). vpem3_un3_cap02_158a182.indd  178 4/15/10  2:58:46 pm</Page><Page Number="181">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  179 1	leia com atenção este quadro. um texto narrativo em geral pode reproduzir a fala de uma personagem de três maneiras: por discurso direto, discurso indireto e discurso indireto livre. no discurso direto as palavras da personagem são reproduzidas literalmente e, para introduzi-las, usam-se travessões, aspas. por exemplo: sinha vitória disse: — as aves matarão o gado. no discurso indireto a fala da personagem é reproduzida pelo narrador. nesse tipo de discurso, usa-se um verbo dicendi (dizer, falar, perguntar, responder, etc.) e uma oração subordinada substan-tiva. por exemplo: sinha vitória disse que as aves matariam o gado. 	 v. dicendi	 or. sub. substantiva obj. direta no discurso indireto livre a fala da personagem não aparece destacada por aspas, nem travessão, surge de repente, no meio da narrativa, como se fossem palavras do narrador. por exemplo: fabiano estirou o beiço e enrugou mais a testa suada: impossível compreender a intenção da mulher. não atinava. um bicho tão pequeno! achou a coisa obscura e desistiu de aprofundá-la. 	 discurso indireto livre 	 (fala da personagem) 2	releia a seguir alguns trechos de vidas secas, de graciliano ramos, e fogo morto, de josé lins do rego. compare a fala das personagens (os destaques são nossos) considerando o que você leu no quadro acima. depois responda às questões no caderno. i. tinha medo e repetia que estava em perigo, mas isto lhe pareceu tão absurdo que se pôs a rir. medo daquilo? nunca vira uma pessoa tremer assim. cachorro. ele não era dunga na cidade? não pisava os pés dos matutos, na feira? não botava gente na cadeia? sem-vergonha, mofino. ramos, graciliano, op. cit. ii. lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. sim senhor. aquilo ganhava dinheiro para maltratar as criaturas inofensivas. estava certo? o rosto de fabiano contraía, medonho, mais feio que um focinho. hem? estava certo? bulir com as pessoas que não fazem mal a ninguém. por quê? idem, ibid. iii. fabiano tentou afastar a ideia absurda: — como a gente pensa coisas bestas! idem, ibid. vpem3_un3_cap02_158a182.indd  179 4/15/10  2:58:46 pm</Page><Page Number="182">180  unidade 3 iv. tinha medo e repetia que estava em perigo, mas isto lhe pareceu tão absurdo que se pôs a rir. idem, ibid. v. e quando o comboio sumiu no fim da estrada, o mestre falou: — bicho homem, este alípio. […] gosto de homem assim. ele fora com o pai vender milho verde na vila e o cabo do destacamento achou de desfazer do velho. foi aquela desgraça. alípio se fez na faca, espalhou a feira. o cabo ficou para um canto de bofe de fora, e um soldado que se metera a besta não ficou para contar história. foi no júri. encontrou homem para livrar ele. rego, josé lins do, op. cit. vi. o mestre olhou para o homem. e lhe falou, com voz mansa, como se não esti-vesse com alma pesada de mágoa. — é encomenda do santa rosa? pois, meu negro, para aquela gente não faço nada. todo mundo sabe que não corto uma tira para o coronel josé paulino. você me desculpe. é juramento que fiz. idem, ibid. a)	quais dos trechos reproduzem a fala da personagem por meio de discurso indireto livre? i e ii. b)	em quais trechos as falas das personagens são reproduzidas literalmente? iii, v e vi. c)	quais dos trechos reproduzem a fala da personagem por meio de discurso indireto? iv d)	relacione as afirmações a seguir ao discurso que caracteriza as personagens dos textos lidos: fabiano (1) e mestre josé amaro (2): o narrador apresenta a personagem e a deixa expressar-se com suas próprias palavras. assim, por  meio do discurso direto, ela mostra seu orgulho, seu valor humano, sua consciência sobre seus direitos e deveres. 2 sem grandes recursos expressivos, a personagem precisa de alguém que fale por ela, que expres-  se sua indignação, sua decepção com o mundo, com as autoridades. dessa maneira, por meio do discurso indireto livre, o narrador torna-se porta-voz de fluxo da consciência da personagem. 1 e por falar em regionalismo… empregar a língua adequadamente nas mais diversas situações é fundamental se quisermos garantir o máximo de compreensão no jogo interacional, isto é, nos eventos em que é necessário entender a informação passada pelo outro ao mesmo tempo que pretendemos fazer que o outro entenda o que desejamos transmitir. além de servir de instrumento de comunicação, por meio da língua podemos conhecer a cultura do povo que a usa. vpem3_un3_cap02_158a182.indd  180 4/15/10  2:58:46 pm</Page><Page Number="183">capítulo 2 – prosa modernista — geração de 1930  181 assim, ao conhecermos os romances regionalistas da geração de 30, conhecemos também um pouco da cultura desse povo por meio do uso que os autores fazem da língua. observe dois trechos que apresen-tam vocabulário e estruturas de frases típicos das personagens que ocupam o espaço e, sobretudo, têm a condição social que querem denunciar. alexandre e outros heróis graciliano ramos (amigos conversam na varanda da casa de alexandre, no sertão, onde ele conta causos de sua vida) naquela noite de lua cheia esta-vam acocorados os vizinhos na sala pequena de alexandre: o seu libório, cantador de emboladas, o cego preto firmino e mestre gaudêncio curandei-ro, que rezava contra mordedura de cobras. das dores, benzedeira de que-branto e afilhada do casal, agachava-se na esteira, conversando com cesária. — vou contar aos senhores… ramos, graciliano. alexandre e outros  heróis. rio de janeiro: record, 2003. capitães da areia jorge amado (diálogo entre os capitães da areia, meninos marginalizados que vivem em salvador) — bonita, professor? professor desviou os olhos do livro, bateu a mão descarnada no ombro do negro, seu mais ardente admirador: — uma história zorreta, seu grande — seus olhos brilhavam. — de marinheiro? — é de um negro assim como tu. um negro macho de verdade. amado, jorge. capitães da areia.  são paulo: companhia das letras, 2008. na leitura dos trechos acima, percebemos palavras e expressões comuns à região e às pessoas que as usam. por meio da literatura, entramos em contato com algumas das muitas variedades linguísticas que ocorrem nas regiões brasileiras. mas você sabia que existem também variedades linguísticas em sua própria escola? cada uma representa uma identidade, um grupo, e esse uso específico que fazem da língua o diferencia dos demais grupos. reúnam-se em equipes e escolham um grupo social de sua escola (ou de seu bairro, de sua comunida-  de) que tenha um uso específico da língua. podem ser escolhidos os grupos de sambistas, os de funk, os surfistas, os esqueitistas, os blogueiros, os internautas, etc. levantem exemplos do uso da língua específico que eles têm. vocês podem selecionar músicas, expres-sões, gravar no celular alguma entrevista, enfim, reúnam o maior número de exemplos. organizem o material encontrado e preparem-se para a apresentação oral das descobertas do grupo de vocês. no mundo da oralidade para a exposição oral, decidam na equipe quem será o responsável pelos seguintes momentos:  a)	apresentação do grupo social escolhido — a história, a origem e a determinação desse grupo; b)	exposição de exemplos; c)	conclusão, reforçando o respeito às mais diversas formas de usar a língua. prof.(a), todos os trabalhos podem ser apresentados em uma grande folha de papel craft que, depois, pode ser exposta no pátio da escola. vpem3_un3_cap02_158a182.indd  181 4/15/10  2:58:46 pm</Page><Page Number="184">182  unidade 3 aproveite para… … ler vidas secas  , de graciliano ramos, editora record o romance narra a história de uma família de retirantes em busca de um lugar que lhe ofereça meios de sobreviver. são bernardo  , de graciliano ramos, editora record a obra conta a história de paulo honório, homem simples que, movido por uma ambição sem limites, acaba por se transformar num grande fazendeiro do sertão alagoano. fogo morto  , de josé lins do rego, editora josé olympio a história do romance desenrola-se em torno do engenho de santa fé, no nordeste. cenas brasileiras  , de raquel de queirós, editora ática num clima de conversa com o leitor, a autora desfia histórias tocantes da gente brasileira. terras do sem-fim  , de jorge amado, editora record jorge amado descreve o crescimento de cidades e a transformação dos costumes. o tempo e o vento  , de érico veríssimo, editora companhia das letras conta a história da família terra-cambará durante dois séculos. sob o ponto de vista dessa família, relata a história do rio grande do sul e o drama de seu povo, na cidade fictícia de santa fé. … assistir memórias do cárcere  , de nelson pereira dos santos (bra­ sil, 1984) retrata o brasil da década de 1930, sob a perspectiva de graciliano ramos, que foi preso por suas convicções políticas e escreveu o romance no qual o filme se baseia. menino de engenho , de walter lima júnior (brasil, 1965) baseado em obra homônima de josé lins do rego, o filme conta a história do órfão carlinhos, enviado a um engenho de cana-de-açúcar para ser criado pelo avô. dona flor e seus dois maridos  , de bruno barreto (brasil, 1976) baseado em romance homônimo de jorge amado, o filme conta a história de flor, professora de culi-nária em salvador, que, depois de ficar viúva de um boêmio, casa com um farmacêutico. … ver na internet www.graciliano.com.br/  site oficial do escritor alagoano graciliano ramos. www.jorgeamado.org.br/jorge_biografia.htm  site mantido pela fundação casa de jorge amado. www.estado.rs.gov.br/erico/  site do governo do rio grande do sul em comemoração ao centenário de érico veríssimo. é possível ouvir trechos de o tempo e o vento, lidos pelo próprio escritor. embrafilme/divulgação/ arquivo da editora vpem3_un3_cap02_158a182.indd  182 4/15/10  2:58:48 pm</Page><Page Number="185">do cotidiano ao extraordinário nesta unidade, você vai estudar a crônica e a geração de 1945, na poesia e na prosa. no capítulo sobre a crônica, você verá como fatos simples do cotidiano podem ser recriados, transformando-se em momentos de reflexão, de emoção, de alegria, o que não será diferente com a geração de 1945, marcante também por usar a arte literária como meio de incitar a reflexão sobre os mais diversos acontecimentos. timothy a, clary/afp/getty images unidade 4 183 caminhando por uma calçada na cidade de los angeles, eua, os cidadãos dificilmente esperariam encontrar com o batman ou o flash em um passeio matinal. a dupla, entretanto, se mistura na paisagem, já que não parece chamar a atenção dos demais pedestres. realidade e fantasia podem caminhar, afinal, na mesma direção. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  183 4/15/10  3:02:27 pm</Page><Page Number="186">1 capítulo a crônica 184  unidade 4 antes de ler 1 é provável que você já tenha lido algumas crônicas ou, pelo menos, ouvido falar delas. liste no caderno as ideias que lhe surgem quando ouve ou lê a palavra crônica. 2 leia a seguir um trecho de três textos diferentes. somente um deles foi retirado de uma crônica. tente identificá-lo e depois explique por que você chegou a essa conclusão. prof.(a), o trecho retirado de uma crônica é o 3. os alunos que chegarem a essa conclusão provavelmente terão se baseado em alguns destes indícios que identificam o gênero crônica: o autor parte de um fato corriqueiro, de uma frase do senso comum (“sempre me disseram que a vida do homem se dividia em quatro partes”) e dá a esse comentário outro enfoque (observa que existe a envelhescência entre a maturidade e a velhice). esse fato é apresentado com informalidade, numa linguagem simples, espontânea, como se o autor estivesse conversando com o leitor. provavelmente excluíram os outros dois por estes motivos: no trecho 1 prevalece o caráter informativo da linguagem; no trecho 2 há um distanciamento entre o leitor e o autor, que usa uma linguagem mais  elaborada, para contar ou descrever uma situação. prof.(a), o trecho acima é o segundo parágrafo da crônica “você é um adolescente?”, de mário prata, que será lida na seção produção de texto deste capítulo. prof.(a), esse trecho inicia uma notícia publicada na folha de s.paulo, em 14 de junho de 2005. prof.(a), esse texto inicia o romance cunhataí, de maria filomena bouissou lepecki (editora talento, 2003). trecho 1 começa hoje, em belo horizonte, o festival internacional de bonecos 2005, que levará, até o próximo dia 21, 15 espetáculos de companhias da alemanha, bélgica, brasil, chile e peru aos palcos mineiros. além da capital, onde acontece até o dia 15, neste ano o evento terá apresentações em ipatinga (de 17 a 21/6). trecho 2 era um 15 de abril. o ano, 1865. os dias de outono eram sempre assim: ensolarados, estagnados, previsíveis. micaela bem cedo atravessou a cozinha principal, a varanda dos fundos e desceu a escada até o chão de terra batida. sair da casa-grande pela portinhola dos escravos era o caminho mais rápido para atingir o seu refúgio matinal. trecho 3 sempre me disseramque a vida do homem se dividia emquatro partes: infância, adolescência, maturidade e velhice. quase correto. esqueceram de nos dizer que entre a maturidade e a velhice (entre os 45 e os 65) existe a envelhescência. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  184 4/15/10  3:02:30 pm</Page><Page Number="187">capítulo 1 – a crônica  185 texto 1 sobre o amor, desamor 	 rubem braga chega a notícia de que um casal de estrangeiros, nosso amigo, está se sepa-rando. mais um! é tanta separação que um conhecido meu, que foi outro dia a um casamento grã-fino, me disse que, na hora de cumprimentar a noiva, teve a vonta-de idiota de lhe desejar felicidades “pelo seu primeiro casamento”. e essas notícias de separação muito antes de sair nos jornais correm com uma velocidade espantosa. alguém nos conta sob segredo de morte, e em três ou quatro dias percebemos que toda a cidade já sabe — e ninguém morre por causa disso. uns acham graça em um detalhe ou outro. mas o que fica, no fim, é um ressaibo amargo — a ideia das aflições e melancolias desses casos. ah, os casais de antigamente! como eram plácidos e sábios e felizes e serenos... (principalmente vistos de longe. e as angústias e renúncias, e as longas humilha-ções caladas? conheci um casal de velhos bem velhinhos, que era doce ver — os dois sempre juntos, quietos, delicados. ele a desprezava. ela o odiava.) sim, direis, mas há os casos lindos de amor para toda vida, a paixão que vira ter-nura e amizade. acaso não acreditais nisso, detestável braga, pessimista barato? e eu vos direi que sim. já me contaram, já vi. é bonito. apenas não entendo bem por que sempre falamos de um caso assim com uma ponta de pena. (“eles são tão unidos, coitados.”) de qualquer modo, é mesmo muito bonito; consola ver. mas, como certos quadros, a gente deve olhar de uma certa distância. “eles se separaram” pode ser uma frase tris-te, e às vezes nem isso. “estão se separando” é triste mesmo. adultério devia ser considerado palavra feia, já não digo pelo que exprime, mas porque é uma palavra feia. concubina também. concubinagem devia ser simplesmente riscada do dicionário; é horrível. mas do lado legal está a pior palavra: côn-juge. no dia em que a mulher descobre que o homem, pelo simples fato de ser seu marido, é seu cônjuge, coitado dele. mas no meio de tudo isso, fora disso, atra-vés disso, apesar disso tudo — há o amor. ele é como a lua, resiste a todos os sonetos e abençoa todos os pântanos. braga, rubem. pequena antologia do braga. rio de janeiro: record, 1997. cena de kill bill, volume 2, com a atriz uma thurman vestida de noiva. nesse filme dirigido por quentin tarantino, em 2004, podemos ter ideia de um caso de amor-desamor único. concubina: mulher que vive maritalmente com um homem com quem não é legalmente casada. cônjuge: cada uma das pessoas ligadas pelo casamento em relação à outra. ressaibo: mau sabor, ranço. miramax/cortesia de everett collection/keystone vpem3_un4_cap01_183a203.indd  185 4/15/10  3:02:31 pm</Page><Page Number="188">186  unidade 4 interpretação do texto 1	dentro do tema amor, o cronista pretende tratar do desamor. no texto, a partir de que fatos ele comenta esse assunto? 2	releia: “eles se separaram” pode ser uma frase triste, e às vezes nem isso. “estão se separando” é triste mesmo. compare as duas frases entre aspas. por que, para o autor, uma delas é sempre triste e a outra não? qual a visão do cronista a respeito da separação? 3	algumas impressões que o cronista tem dos relacionamentos duradouros confirmam sua ideia sobre a separação. a)	que impressões são essas? b)	o autor muitas vezes passa a impressão de que os relacionamentos duradouros contêm a semente do fim do amor. você concorda com essa ideia? justifique sua opinião. 4	antes de concluir seu texto, o autor brinca com o som e o sentido de algumas palavras. na sua opinião, por que um homem pode se tornar um coitado no momento em que sua mulher descobre que ele é seu cônjuge? 5	a conclusão do texto, contida no último parágrafo, destaca aquilo que para o cronista é mais importante e significativo: o amor. releia a forma como o parágrafo foi organizado e indique a visão que o cronista demonstra ter do amor. 6	releia: ele é como a lua, resiste a todos os sonetos e abençoa todos os pântanos. explique a comparação feita pelo cronista. se necessário, pesquise antes o sentido das palavras soneto e pântanos. desenvolvendo habilidades leitoras ao resolver as questões propostas, você: identificou o tema e as impressões do autor sobre ele;  identificou os fatos que serviram de ponto de partida para as reflexões do autor;  identificou o ponto de vista do cronista;  identificou a conclusão dada pelo autor e confrontou-a com as identificações feitas  anteriormente. 	 um casal de amigos estrangeiros está se separando; um amigo do cronista sente vontade de desejar a uma noiva felicidades em seu primeiro casamento; as notícias de separação correm a uma velocidade espantosa. “eles se separaram” indica que o ato da separação está concluído, e, por mais dramático que tenha sido, uma outra etapa pode ser iniciada; por sua vez, “estão se separando” indica o momento da separação, com todos os problemas, dores e perdas que o cercam. o cronista revela não ver a separação como um grande problema, principalmente quando ela já está concluída. ele afirma que os casais de antigamente eram felizes, principalmente se vistos de longe (porque de perto não havia tanta felicidade assim), que os casos de amor para toda a vida resultam de paixão que vira ternura e amizade e que esse tipo de união sempre provoca uma ponta de pena e que, embora seja consolador um casal unido por muito tempo, isso deve ser visto com certa distância. o autor sugere que os relacionamentos duradouros perdem um elemento importante: a paixão. o sentimento de amor transforma-se em ternura, em amizade, o que lhe provoca uma ponta de pena. prof.(a), aceite a opinião dos alunos, desde que ela esteja fundamentada por trechos da crônica. prof.(a), espera-se que os alunos percebam que o cronista destacou mais o aspecto sonoro da palavra que propriamente seu sentido. é interessante ainda lembrar que essa palavra, por ser empregada em situações ou textos oficiais relacionados ao processo legal que envolve o casamento, é mais usada quando 	 nos referimos às obrigações civis que ao vínculo amoroso. o amor está acima dos vínculos civis, está fora dos casos de separação; é absoluto e existe apesar da forma como as pessoas o vivenciam; resiste por estar fora e além dessas relações. prof.(a), aceite que os alunos se expressem de outras formas, desde que se mantenham dentro dos limites de interpretação impostos pelo texto. pode-se tratar do amor, assim como da lua, em qualquer texto poético, que mesmo o pior poema não lhe tirará o que ele sempre tem de novo e singular; assim como a lua brilha até mesmo sobre os pântanos (águas paradas e lamacentas), também o amor pode surgir em qualquer ambiente, mesmo os mais melancólicos, e para qualquer pessoa. celio junior/agência estado rubem braga (1913-1990), escritor e jornalista nascido no espírito santo, é considerado um dos maiores cronistas do brasil. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  186 4/15/10  3:02:32 pm</Page><Page Number="189">capítulo 1 – a crônica  187 texto 2 o amor acaba 	 paulo mendes campos o amor acaba. numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva con-tra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colori-do iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode aca-bar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da sim-plicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepús-culos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em brasília o amor pode virar pó; no rio, frivolidade; em belo horizonte, remorso; em são paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de paris, londres, nova iorque; no coração que se dilata e que-bra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando aturdido: atordoado. aurora: claridade que aponta o início da manhã, antes do nascer do sol. bruma: névoa, neblina. dissonância: falta de harmonia, discordância. epifania: manifestação ou percepção do significado essencial de uma coisa. eriçar(-se): arrepiar-se. escarlate: de cor vermelha muito viva. frivolidade: futilidade, superficialidade. libido: instinto sexual. périplo: navegação ao redor de um continente. polvilhar: cobrir de pó. póstuma: que se passa depois da morte de alguém. província: região mais afastada do governo central; interior. reverberar: refletir (luz ou calor); resplandecer. silabadas: erro de pronúncia, sobretudo o que resulta do deslocamento do acento tônico de uma palavra (“líbido” em vez de libido, por exemplo). tentáculos: cada um dos apêndices delgados e flexíveis encontrados em diversos invertebrados aquáticos. usura: juro excessivo; avareza, mesquinharia. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  187 4/15/10  3:02:32 pm</Page><Page Number="190">188  unidade 4 em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçu-ra e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. werneck, humberto (org.). boa companhia — crônicas. são paulo: companhia das letras, 2005. iugo koyama/editora abril paulo mendes campos (1922-1991), cronista e poeta mineiro, faz parte da geração de fernando sabino, de quem foi muito amigo. focus features/cortesia de everett collection cena do filme brilho eterno de uma mente sem lembranças, dirigido por michael gondry, em 2004. nessa história, há uma luta por manter ao menos as lembranças de um amor que, de alguma forma, terminou. interpretação do texto 1	paulo mendes campos parte de um evento pelo qual mui-tos já passaram — o fim de um amor — para escrever uma crônica com diversos elementos poéticos: seu texto está repleto de termos empregados em linguagem figurada. para compreender as circunstâncias em que, segundo o autor, o amor acaba, é necessário que o leitor: tenha certo conhecimento de mundo, ou seja, tenha pas-  sado por algumas experiências amorosas, tenha lido sobre o assunto ou ouvido relatos de separação de casal; associe esse conhecimento às imagens poéticas criadas  pelo cronista; relacione as diversas circunstâncias comentadas umas com  as outras. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  188 4/15/10  3:02:35 pm</Page><Page Number="191">capítulo 1 – a crônica  189 releia estes trechos: numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio [...]  [...] e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se   movimentam no escuro como dois polvos de solidão [...] [...] em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais   encanto que desejo [...] [...] nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para   nada [...] a) escolha uma dessas circunstâncias em que o amor acaba e imagine uma situação que a exemplifique, procurando explicar as imagens metafóricas criadas pelo cronista. b) o que há em comum entre as quatro situações destacadas acima? 2 a crônica “o amor acaba” é formada por um só parágrafo com dois períodos (considere período uma frase que se inicia com letra maiúscula e termina no ponto final): “o amor acaba” (primeiro período) e todo o restante do texto (segundo período). no segundo período, as pausas mais fortes são marca-das apenas por ponto e vírgula. reflita sobre essas informações, sobre o tema e sobre o desfecho da crônica e levante uma hipótese de por que o autor optou por organizar o texto dessa maneira. 3 no segundo período, entre um ponto e vírgula e outro, existe sempre uma história que se diferencia das demais. é como se o cronista quisesse mostrar todas as situações em que o amor pode acabar. sobre qual das circunstâncias apresentadas pelo cronista você escreveria um texto? por quê? 4 compare as crônicas “sobre o amor, desamor” e “o amor acaba”. a) cada autor inicia sua crônica de uma forma. o que serve de ponto de partida para as reflexões desenvolvidas em cada texto? b) qual a visão do amor de cada um dos cronistas?  conhecimentos linguísticos parágrafo pontuação: travessão, ponto e vírgula, parênteses, reticências 1 durante alguns segundos, apenas observe a aparência do texto 1 e do texto 2, sem lê-los. texto 1 do rapto de noivas ao casamento por amor homens e mulheres juntam os trapos pelos mais diferentes motivos casamentos por sequestro eram comuns na pré- -história e vigoraram até o início da era cristã em locais como a grécia roma e norte da europa quando um homem via uma mulher que desejava geralmente de uma tribo vizinha ele a tomava à força para raptar a noiva ele requisitava ajuda de um amigo guerreiro afirma diane ackerman no livro uma história natural do amor o mito de fundação de roma fala sobre um dos mais famosos episódios do gênero o rapto das sabinas segundo a lenda após a fundação de roma em 753 a c rômulo decidiu povoar a cidade e para isso mandou raptar as jovens do povo vizinho os sabinos prof.(a), aceite as respostas dos alunos, desde que embasadas no texto. comente também que o autor enfatiza os cenários, possivelmente, para mostrar que, quando não há mais amor, o relacionamento passa a se sustentar naquilo que está ao redor, no que está fora dos amantes (e não no que está dentro, o sentimento amoroso). o desencanto, o silêncio e o tédio, por exemplo. prof.(a), espera-se que os alunos percebam que, para o autor, o amor acaba em todos os lugares e em todos os momentos, mas não definitivamente, já que recomeça sempre — daí a extensão do período e o uso do ponto e vírgula. rubem braga parte da notícia da separação de um casal de amigos para apresentar sua visão do amor e dos relacionamentos amorosos. paulo mendes campos parte de uma situação — o fim do amor — e enumera as mais diversas circunstâncias em que isso pode ocorrer.  são semelhantes. ambos reconhecem que os relacionamentos podem acabar, mas que o sentimento de amor existe, resiste a separações, termina e recomeça a todo instante. prof.(a), desenvolva oralmente esta atividade. primeiro, peça aos alunos que apenas observem os textos — sem lê-los — e respondam ao item a. depois, peça que realizem a leitura de cada texto marcando o tempo utilizado para cada uma das leituras. na sequência, eles respondem aos itens b e c. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  189 4/15/10  3:02:36 pm</Page><Page Number="192">190  unidade 4 revoltados eles resolveram revidar mas era tarde demais as moças já haviam se enamorado dos romanos e graças à intervenção delas assinaram um tratado de paz na roma antiga o casamento foi instituído como forma de garantir uma linhagem legítima havia dois tipos de casamento o com manus e o sem manus no primeiro o matrimônio supunha a transmissão da autoridade paternal ao marido que se tornava o tutor da mulher no segundo não havia transmissão da autoridade pater-nal e a mulher assim como o homem podia pedir o divórcio em ambos os casos o casamento não envolvia o estado, tratava-se de uma cerimônia privada sem juiz de paz ou papéis a serem assinados o noivo oferecia um anel à noiva que o usava no mesmo dedo dos dias de hoje os convidados jogavam sementes no casal símbolo da fertilidade rituais bastante familiares para nós já que muitos desses costumes pagãos foram incorporados pelo casamento cristão e se mantêm até hoje revista aventuras na história, maio 2006. adaptado. texto 2 beijos, beliscos e pisadelas as incríveis histórias dos gestos de amor algumas práticas amorosas do passado continuam fazendo sucesso até hoje. é o caso do french kiss, o beijo de língua, que ganhou esse nome dos ingleses no sécu-lo 17. na época, os puritanos da inglaterra ficaram impressionados com o grau de libertinagem que caracterizava o beijo em terras gaulesas e batizaram o voluptuoso gesto de beijo francês. o curioso é que, na frança, ele ficou conhecido como english kiss — os franceses associavam a palavra à importância que os ingleses davam àquela carícia labial, que para eles, franceses, era tão comum. no japão o beijo é chamado de kissu (importado do inglês kiss) e só começou a ser feito em público pelos casais nas últimas décadas, com a influência da cultura norte-americana no país. outros gestos não fariam sucesso hoje. é o caso das pisadelas e dos beliscões, práticas trazidas de portugal que se tornaram populares no brasil no século 19. “tratava-se de pisadelas no pé e beliscões que deixavam uma marca roxa no braço da amada”, diz a historiadora mary del priore. outra prática comum era esmigalhar limões de cheiro no corpo da dama. “não faltaram pedidos de casamento que tiveram como motivo um limão de cheiro comprimido contra um braço benfeito”, afirma mary del priore. revista aventuras na história, maio 2006. responda oralmente aos itens abaixo. a) com base apenas em uma observação visual, você percebe alguma diferença entre os textos 1 e 2? justifique sua resposta. agora leia os textos, marcando o tempo que você leva para fazer a leitura de cada um deles. depois, responda aos itens b e c. b) você precisou de mais tempo para ler e compreender o texto 1 ou o texto 2? na sua opinião, por que isso aconteceu? c) você julga que um texto organizado, com títulos destacados, pontuação adequada e distribuição das ideias em parágrafos facilita sua leitura e compreensão? prof.(a) veja o original do texto 1, pontuado, no manual do professor. se julgar importante, faça a pontuação do texto oralmente com toda a classe, mostrando a importância dela para facilitar a leitura e a compreensão do texto. aceite outras opções de pontuação que os alunos venham a sugerir, desde que coerentes com as ideias do texto. prof.(a), espera-se que os alunos respondam que sim, que percebem diferenças. no texto 2, eles poderão identificar título e subtítulo, que há separação dos blocos de assunto em parágrafos e que o texto está pontuado. no texto 1, o título e o subtítulo não estão destacados, não há divisão em parágrafos. se observarem mais atentamente, perceberão ainda que não há nenhum sinal de pontuação no texto. alguns alunos, provavelmente, só perceberão a ausência de pontuação quando começarem a ler o texto.  prof.(a), é provável que os alunos demorem mais tempo para ler e compreender o primeiro texto, em razão da ausência de organização: título e subtítulo não estão destacados, os assuntos não estão divididos em parágrafos nem há pontuação. prof.(a), espera-se que os alunos percebam que a pontuação de um texto e sua organização em parágrafos facilitam e agilizam a leitura. veja no manual do professor nossas sugestões de leitura sobre pontuação. limão de cheiro: bola de cera fina, cheia de água aromatizada, que se usava no carnaval de antigamente. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  190 4/15/10  3:02:40 pm</Page><Page Number="193">capítulo 1 – a crônica  191 você sabia... que os sinais de pontuação são relativamente novos?  que eles se desenvolveram com o advento da imprensa?  que de 320 a.c. a 240 a.c. a escrita era contínua?   que na idade média os escribas ou escravos copiavam o que os autores ditavam sem marcar   pausa alguma? que, na idade média, o jogral, ao   preparar os textos que declamaria, era quem fazia as divisões consi-deradas importantes à leitura em voz alta?  que o parágrafo foi o primeiro sinal   de pontuação? 2 os parágrafos —marcados na primeira linha por um pequeno afastamento da margem esquerda da página — são compostos de frases verbais (que apresentam verbo) e/ou nominais (que não apresentam verbo). responda no caderno: quantos parágrafos compõem a crônica “o amor acaba”? 3 a crônica “o amor acaba” apresenta a mesma dificuldade de leitura que o texto “do rapto de noivas ao casamento por amor”? 4 leia: em geral, o parágrafo é formado por três partes: introdução   — normalmente, apresenta o tópico frasal, isto é, a ideia central do parágrafo; desenvolvimento   — explora o tópico frasal (nessa parte estão os períodos que confirmam, especificam, fundamentam ou exemplificam o tópico frasal); conclusão   — nem sempre aparece. tópico frasal é a frase que apresenta a ideia mais importante de um parágrafo. em geral, é apresentado na introdução, mas pode aparecer em qualquer parte do parágrafo. o texto “o amor acaba” tem apenas um parágrafo.  prof.(a), espera-se que o aluno perceba que a crônica “o amor acaba” não é de difícil compreensão: a maneira como o texto foi organizado e pontuado tem finalidade expressiva (as eventuais dificuldades encontradas na leitura possivelmente se devem à pouca vivência dos adolescentes e ao desconhecimento do vocabulário). o texto “do rapto de noivas ao casamento por amor” teve sua pontuação retirada, por isso é pouco compreensível. na idade média, os monges copistas dedicavam-se a copiar os livros à mão. na imagem, escriba do século xiv, em sua mesa de trabalho, faz o cotejo entre dois livros. the british library/heritage-images/other images vpem3_un4_cap01_183a203.indd  191 4/15/10  3:02:47 pm</Page><Page Number="194">192  unidade 4 5 o tópico frasal orienta os períodos que vêm na sequência, garantindo a objetividade e a coerência do parágrafo. identifique o tópico frasal do único parágrafo da crônica “o amor acaba”. 6 no tópico frasal de “o amor acaba”, o autor faz uma declaração que, no desenvolvimento do pará-grafo, será modificada/aperfeiçoada e levará o leitor a uma conclusão. escreva no caderno a alternativa que indica essa conclusão. a) o amor sempre se modifica, mas não chega a acabar. b) o amor acaba no silêncio. c) o amor acaba por causa do cotidiano. d) o amor acaba de certa forma, mas renasce de outra. x 7 por meio da pontuação, organizamos melhor o texto e, consequentemente, ele se torna mais claro; portanto, ela também ajuda o leitor, durante o processo de leitura, a compreender com mais facilidade o que lê. observe o parágrafo e a pontuação do texto “o amor acaba”. qual o sinal de pontuação que mais ocorre? o ponto e vírgula. a pontuação contribui para tornar coesas — ou seja, ligadas harmonicamente, com lógica — as ideias expostas em um texto, garantindo que esse texto seja fiel à intenção do autor e orientando a leitura. a frequência maior ou menor de alguns sinais de pontuação pode contribuir para tornar mais expressiva uma ideia. volte à segunda questão de interpretação do texto “o amor acaba” (p. 189) e verifique que o emprego repetitivo do ponto e vírgula confirma a ideia de que o amor, na realidade, não tem um fim: acaba apenas para recomeçar. 8 ao omitirmos um termo de uma oração, podemos indicar a elipse (supressão) desse termo por meio da vírgula. por exemplo: o amor saiu há pouco: eu saí antes dele. o amor saiu há pouco: eu, antes dele. na crônica “o amor acaba”, é possível notar que o ponto e vírgula foi empregado para marcar ao mesmo tempo uma pausa e a omissão de um termo. a) reescreva no caderno o trecho a seguir: acrescente o termo que foi omitido e use ponto no lugar do ponto e vírgula: o amor acaba. numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva con-tra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio [...] b) ao usar o ponto em lugar do ponto e vírgula, que efeito de sentido você conseguiu? ainda se tem a impressão de continuidade, de que o amor acaba para recomeçar? o ponto e vírgula é um sinal intermediário entre o ponto e a vírgula, que indica que a frase não está finalizada. usa-se, entre outras situações, em frases formadas por várias orações, dentro das quais já existe uma ou mais vírgulas. o tópico frasal é “o amor acaba”. o amor acaba. numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio. o amor acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar. o amor acaba de repente [...] polvilhando de cinzas o escarlate das unhas. o amor acaba na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio [...]  prof.(a), com o ponto-final, a impressão de recomeço diminui, fica mais evidente a ideia de que o amor realmente acaba em cada uma das situações apresentadas. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  192 4/15/10  3:02:48 pm</Page><Page Number="195">capítulo 1 – a crônica  193 9	volte à crônica “sobre o amor, desamor” e faça, no caderno, o que se pede. a)	usa-se um só travessão para acrescentar uma ideia no final de um período. identifique exemplos desse uso na crônica. b)	os parênteses são excelente recurso num texto para acrescentar explicações, comentários, infor-mações complementares, etc. identifique pelo menos um exemplo nessa crônica e copie-o. c)	rubem braga empregou reticências em sua crônica. identifique a frase que tem esse sinal de pon-tuação e diga que efeito de sentido ele causa. d)	na frase “como eram plácidos e sábios e felizes e serenos...”, houve repetição da conjunção e. o que lhe sugere essa repetição? e)	imagine que você tenha de reescrever a frase “como eram plácidos e sábios e felizes e serenos...” tornando-a mais “neutra”, de tal modo que um leitor não tivesse muitos indícios para subentender algo além do que está escrito. que sinais de pontuação você empregaria para substituir tanto a conjunção e quanto as reticências finais? reescreva a frase no caderno com esses sinais de pontua­ ção e confirme se conseguiu o efeito desejado. conclusão “a pontuação foi uma conquista para facilitar a leitura; sem ela, a interpretação de um texto ficaria bem prejudicada.” josé l. fiorin, professor de linguística da universidade de são paulo. disponível em: www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/ sub.php?oppolemica/docs/umavidasempontuacao tanto a pontuação como a organização das frases em parágrafos são recursos de que dispomos para tornar um texto escrito claro e expressivo. o parágrafo é composto de uma ou mais frases verbais ou nominais e em geral tem a seguinte estrutura: introdução (a frase que contém a ideia principal do parágrafo: o tópico frasal), desenvol-vimento (frase ou frases em que o tópico frasal é desenvolvido) e conclusão. frase é um conjunto organizado de palavras. na escrita é marcada por ponto, ponto de inter-rogação ou de exclamação. na fala, pela entonação. por exemplo: mas do lado legal está a pior palavra: cônjuge. também as reticências podem encerrar uma frase. nesse caso, com frequência a ideia exposta na frase não tem sentido completo. por exemplo: ela não viu que… bem, não importa. o travessão é usado para indicar mudança de interlocutor em um diálogo, para indicar o começo e o fim de uma informação intercalada na frase. se a informação estiver no fim da frase, usa-se apenas um travessão. por exemplo: mas o que fica, no fim, é um ressaibo amargo — a ideia das aflições e melancolias desses casos. o ponto e vírgula é sempre usado no interior das frases e indica uma pausa maior que a indicada pela vírgula, porém menor que a representada pelo ponto. entre outros empregos, ele pode marcar uma enumeração de ideias, como em “o amor acaba”. os parênteses podem ser usados para intercalar na frase uma explicação, um comentário, ou mesmo para marcar o início e o fim de todo um trecho que componha um aparte no texto. por exemplo: apenas não entendo bem por que sempre falamos de um caso assim com uma ponta de pena. (“eles são tão unidos, coitados.”) “alguém nos conta sob segredo de morte, e em três ou quatro dias percebemos que toda a cidade já sabe — e ninguém morre por causa disso.”; “conheci um casal de velhos bem velhinhos, que era doce ver — os dois sempre juntos, quietos, delicados.”; “mas no meio de tudo isso, fora disso, através disso, apesar disso tudo — há o amor.”. “ah, os casais de antigamente! como eram plácidos e sábios e felizes e serenos...” esse sinal dá a ideia de continuidade do pensamento. prof.(a), considerando o “pessimismo” do cronista, as reticências podem indicar que a relação de adjetivos positivos continua, o que caracterizará certa ironia, já que nem tudo era tão perfeito assim. 	 prof.(a), ajude os alunos a observar que a repetição do e, juntamente com as reticências, dá a entender que a lista de adjetivos continuaria. a vírgula e o ponto (ou o ponto de exclamação). como eram plácidos, sábios, felizes e serenos. o efeito não é o mesmo, pois, nesse caso, o ponto-final indica um pensamento concluído, enquanto as reticências indicam que existem pensa-mentos não revelados. “ah, os casais de antigamente! como eram plácidos e sábios e felizes e serenos... (principalmente vistos de longe. e as angústias e renúncias, e as longas humilhações caladas? conheci um casal de velhos bem velhinhos, que era doce ver — os dois sempre juntos, quietos, delicados. ele a desprezava. ela o odiava.)”; “apenas não entendo bem por que sempre falamos de um caso assim com uma ponta de pena. (‘eles são tão unidos, coitados.’)”. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  193 4/15/10  3:02:48 pm</Page><Page Number="196">194  unidade 4 atividades de fixação 1	o texto a seguir é um trecho da crônica “aconteceu na ilha de cat”, de rubem braga. o assunto da crônica é o seguinte: uma leitora pergunta ao autor se fazer palavras cruzadas é bom para enri-quecer o vocabulário. a partir daí, ele realiza um levantamento de perguntas e respostas típicas desse passatempo. a)	leia o segmento da crônica. depois, reescreva-o no caderno acrescentando os onze pontos e vírgulas que o digitador não colocou. lembre-se de que o ponto e vírgula pode servir para acrescentar novas informações a uma principal (reiteração de ideias): aconteceu na ilha de cat 	 rubem braga [...] as pessoas que fazem palavras cruzadas têm um vocabulário especial, e não apenas um vocabulário como uma história, uma geografia e todo um tipo de cultu-ra. para elas as palavras não têm o sentido comum que nós, os leigos, entendemos, mas um sentido especial, cavado no dicionário, de preferência em um dicionário especializado em palavras cruzadas. a princípio a gente acha difícil — antigo navio de combate é ram arrieira é má filho de jacó é gad rio da sibéria é om da polônia é ros da holanda é aa afluente do reno é aar 10ª- letra do alfabeto árabe é ra medida de amsterdã para líquidos é aammedida sueca é só ame — coisa espantosa! — luz que emana da ponta dos dedos é od dificuldade como se vê. [...] braga, rubem. pequena antologia do braga. rio de janeiro: record, 1997. b)	é possível saber a opinião do autor por esse segmento da crônica. fazer palavras cruzadas enriquece o vocabulário, na opinião de rubem braga? c)	que efeito o cronista provoca ao separar os itens da enumeração com ponto e vírgula, em vez de vírgula? 2	a seguir você lerá uma crônica curta de paulo mendes campos. todos os sinais de pontuação foram colocados, mas ela não foi separada em cinco parágrafos, como o texto original. reescreva a crônica no caderno, organizando-a em parágrafos. continho 	 paulo mendes campos era uma vez um menino triste, magro e barrigudinho, do sertão de pernambuco. na soalheira danada de meio- -dia, ele estava sentado na poeira do caminho, imaginan-do bobagem, quando passou um gordo vigário a cavalo: — você aí, menino, para onde vai essa estrada?— ela não vai não: nós é que vamos nela. — engraçadinho duma figa! como você se chama? — eu não me chamo não, os outros é que me chamam de zé. campos, paulo mendes. in: crônicas i. são paulo: ática, 1991. (col. para gostar de ler). prof.(a), antes do item b, indique aos alunos a localização correta dos pontos e vírgulas no texto e peça a eles que o leiam novamente, agora pontuado. 	 segundo o autor, fazer palavras cruzadas não é um exercício eficiente para aumentar o vocabulário, já que os conhecimentos pedidos se repetem constantemente. 	 prof.(a), comente com os alunos que o ponto e vírgula torna a leitura mais pausada, o que dá ao leitor um tempo maior para refletir sobre a inutilidade de cada conhecimento, por exemplo. além disso, o ponto e vírgula, por ser muito usado em enumerações de leis e em outros textos oficiais e formais, dá a esse trecho certo tom rançoso de coisas antiquadas e conhecimentos obsoletos. prof.(a), o início dos parágrafos está indicado no texto pelo sinal /. amaro borges/coleção giuseppe baccaro detalhe da xilogravura o plantio da cana, de amaro borges, década de 1970. ; ; ; ; ; ; ; ; ; ; ; / / / / vpem3_un4_cap01_183a203.indd  194 4/15/10  3:02:48 pm</Page><Page Number="197">capítulo 1 – a crônica  195 3	o travessão pode ser usado para isolar uma palavra, uma expressão ou uma oração no interior de um texto. use travessões e introduza adequadamente no trecho a seguir as frases “uma tradição seguida tanto no casamento católico quanto no judeu” e “tradição católica que não faz parte dos ritos judaicos”. tradições unidas depois de um ano morando juntos, tatiana ammar, 27 anos, e urubatan salles palhares júnior, 24, decidiram se casar. além de unir seus corações, queriam uma festa que combinasse as tradições de suas famílias: judia e católica. [...] para celebrar o casamento, eles chamaram um juiz de paz e rechearam a festa com os rituais de cada religião. tatiana entrou de branco, de braços dados com o pai. a música, cantada em hebraico, uniu os noivos em um altar feito no jardim do espa-ço alugado para a festa, em são paulo. perto deles, além da família, os padrinhos. revista bons fluidos, ago. 2004. atividades de aplicação leia a crônica com atenção e responda às questões no caderno. amor e outros males 	 rubem braga uma delicada leitora me escreve: não gostou de uma crônica minha de outro dia, sobre dois amantes que se mataram. pouca gente ou ninguém gostou dessa crônica; paciência. mas o que a leitora estranha é que o cronista “qualifique o amor, o principal sentimento da humanidade, de coisa tão incômoda”. e diz mais: “não é possível que o senhor não ame, e que, amando, julgue um sentimento de tal grandeza incômodo”. não, minha senhora, não amo ninguém; o coração está velho e cansado. mas a lembrança que tenho de meu último amor, anos atrás, foi exatamente isso que me inspirou esse vulgar adjetivo — “incômodo”. na época eu usaria talvez adjeti-vo mais bonito, pois o amor, ainda que infeliz, era grande; mas é uma das tristes coisas desta vida sentir que um grande amor pode deixar apenas uma lembrança mesquinha; daquele ficou apenas esse adjetivo, que a aborreceu. não sei se vale a pena lhe contar que a minha amada era linda; não, não a des-creverei, porque só de revê-la em pensamento alguma coisa dói dentro de mim. era linda, inteligente, pura e sensível — e não me tinha, nem de longe, amor algum; apenas uma leve amizade, igual a muitas outras e inferior a várias. a história acaba aqui; é, como vê, uma história terrivelmente sem graça, e que eu poderia ter contado em uma só frase. mas o pior é que não foi curta. durou, doeu e — perdoe, minha delicada leitora — incomodou. eu andava pela rua e sua lembrança era alguma coisa encostada em minha cara, travesseiro no ar; era um terceiro braço que me faltava, e doía um pouco; era uma gravata que me enforcava devagar, suspensa de uma nuvem. a senhora acharia exagerado se eu lhe dissesse que aquele amor era uma cruz que eu carregava o dia inteiro e à qual eu dormia pregado; então serei mais modesto e mais prosaico dizendo que era como um mau jeito no pescoço que de vez para celebrar o casamento, eles chamaram um juiz de paz e rechearam a festa com os rituais de cada religião. tatiana entrou de branco — uma tradição seguida tanto no casamento católico quanto no judeu —, de braços dados com o pai. a música, cantada em hebraico, uniu os noivos em um altar feito no jardim do espaço alugado para a festa, em são paulo. perto deles, além da família, os padrinhos — tradição católica que não faz parte dos ritos judaicos. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  195 4/15/10  3:02:48 pm</Page><Page Number="198">196  unidade 4 em quando doía como bursite. eu já tive um mês de bursite, minha senhora; dói de se dar guinchos, de se ter vontade de saltar pela janela. pois que venha outra bursite, mas não volte nunca um amor como aquele. bursite é uma dor burra, que dói, dói, mesmo, e vai doendo; a dor do amor tem de repente uma doçura, um instante de sonho que mesmo sabendo que não se tem esperança alguma a gente fica sonhan-do, como um menino bobo que vai andando distraído e de repente dá uma topada numa pedra. e a angústia lenta de quem parece que está morrendo afogado no ar, e o humilde sentimento de ridículo e de impotência, e o desânimo que às vezes invade o corpo e a alma, e a “vontade de chorar e de morrer”, de que fala o samba? por favor, minha delicada leitora; se, pelo que escrevo, me tem alguma estima, por favor: me deseje uma boa bursite. disponível em: www.uepg.br/cps/provas/1º_2005/lingua_portuguesa.pdf.  acessado em 17 fev. 2010. 1	(uepg) quanto à significação textual, estão corretas as afirmações: a)	o cronista defende a ideia de que o amor é um sentimento incômodo. x b)	o cronista objetivou contar a história de seu último amor. c)	o autor mostra que a dor do amor e uma dor física ocasionam sofrimento em igual medida. d)	o autor demonstra ser masoquista, pois deseja ter bursite, como deixa claro no último parágrafo. e)	na visão do cronista, a dor do amor é superior à dor ocasionada por bursite. x 2	ao empregar três vezes o ponto e vírgula no segundo parágrafo, o autor enfatiza seu sofrimento. releia o parágrafo e faça o que se pede. a)	é comum empregar-se o ponto e vírgula para separar orações coordenadas adversativas, quando se deseja realçar a oposição. indique em qual trecho se aplica essa regra. b)	explique o que o autor pretende realçar ao fazer essa pausa antes da oração adversativa. 3	no trecho a seguir o ponto e vírgula torna a leitura mais pausada, e, por essa razão, o leitor terá tempo para refletir sobre cada uma das informações enumeradas. releia-o com atenção: eu andava pela rua e sua lembrança era alguma coisa encostada em minha cara, travesseiro no ar; era um terceiro braço que me faltava, e doía um pouco; era uma gravata que me enforcava devagar, suspensa de uma nuvem. a senhora acharia exa-gerado se eu lhe dissesse que aquele amor era uma cruz que eu carregava o dia intei-ro e à qual eu dormia pregado; então serei mais modesto e mais prosaico dizendo que era como um mau jeito no pescoço que de vez em quando doía como bursite. o que as pausas marcadas pelo ponto e vírgula levam o leitor a sentir? 4	(uepg) são também significações presentes no texto, relativamente à leitora citada: a)	o adjetivo constituinte do sintagma “delicada leitora”, várias vezes empregado pelo autor em relação à leitora indignada, deixa entrever uma ironia sutil. x b)	na forma de entender o amor, a visão da leitora se contrapõe à do autor. x c)	o adjetivo constituinte do sintagma “delicada leitora” revela a postura romântica da leitora pela forma como ela julga o amor. x d)	nos sintagmas “minha senhora” e “minha delicada leitora”, o pronome “minha” não expressa relação de posse, mas indica afetividade. x e)	o autor se desculpa com a leitora por ter qualificado o amor de “incômodo”. na época eu usaria talvez adjetivo mais bonito, pois o amor, ainda que infeliz, era grande; mas é uma das tristes coisas desta vida sentir que um grande amor pode deixar apenas uma lembrança mesquinha; daquele ficou apenas esse adjetivo, que a aborreceu. o autor destaca que o grande amor que ele sentiu fê-lo extremamente infeliz e amargo, a ponto de não relacionar amor a coisas boas e felizes. 	 sugestão: inicialmente, o ponto e vírgula parece indicar gradativamente o sofrimento do narrador (um braço que falta, uma gravata que enforca) e, depois, o que resta: a dor. prof.(a), faça o aluno observar que o ponto e vírgula das questões 2 e 3 confirmam as respostas indicadas na questão 1. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  196 4/15/10  3:02:49 pm</Page><Page Number="199">capítulo 1 – a crônica  197 5 os travessões são usados quando se quer acrescentar uma explicação, um comentário a uma infor-mação já apresentada. na frase “durou, doeu e — perdoe, minha delicada leitora — incomodou”, o acréscimo destacado pelos travessões refere-se: a) à leitora, que foi incapaz de perceber o sofrimento do autor. x b) ao verbo doer que enfatiza o sofrimento do autor. c) ao verbo incomodar, que, aplicado ao substantivo amor, pode ser um ponto de discordância da leitora. 6 usa-se travessão para acrescentar uma ideia no final de um período. encontre na crônica lida um exemplo e explique qual a informação importante que se apresenta para o leitor. ortografia e outras questões 1 os verbos terminados em -jar mantêm a letra j em todas as flexões, como, por exemplo, o verbo dese-jar: desejo, deseje, desejei, desejamos, desejem. cuidado para não fazer confusão com certas palavras cognatas (da mesma família) desses verbos, como os substantivos viagem e ferrugem, que são escritos com g. copie a tabela no caderno e complete-a. verbo presente do indicativo (3ª- pessoa do plural) presente do subjuntivo (3ª- pessoa do plural) algumas palavras cognatas viajar eles viajam que eles viajem viagem enferrujar eles que eles avantajar eles que eles encorajar eles que eles 2 substitua adequadamente o símbolo  pelo substantivo viagem, pelos verbos viajar ou enferrujar. hooligans ingleses entregampassaportes à polícia—mais de 3000 hooligans ingleses devem entregar o passaporte até hoje para a polícia de seu país. a medida foi tomada para evitar que os torcedores envolvidos em brigas na inglaterra  à alemanha. folha de s.paulo, 30 maio 2006. folhapress. última chamada para o feriado — os minutos correm para quem ainda pre-tende programar uma  no feriado que se aproxima. para atender os atrasados às vésperas da semana santa, as agências trabalham em ritmo alucinante. viagem jb online, 21 abr. 2006. os frascos de vidro devem ter tampa de plástico, para que não  depois de repetidas esterilizações. enferrujem disponível em: www.unipe.br/ver.php?id2241. acessado em 5 fev. 2010. qual o risco de que a parte externa da geladeira  com a umidade da praia? disponível em: http://veja.abril.com.br/especiais/tecnologia/p_038.html. acessado em 11 fev. 2010. a informação acrescentada pela oração que está isolada pelo travessão indica que o autor sofreu por nunca ter sido amado, não se tratando, portanto, de um namoro desfeito, por exemplo.“era linda, inteligente, pura e sensível — e não me tinha, nem de longe, amor algum; apenas uma leve amizade, igual a muitas outras e inferior a várias.” viajem enferruje enferrujam enferrujem vantagem coragem ferrugem avantajam avantajem encorajam encorajem vpem3_un4_cap01_183a203.indd  197 4/15/10  3:02:51 pm</Page><Page Number="200">198  unidade 4 3	escolha uma das duas formas de cada palavra e escreva-a no caderno. em seguida, consulte um dicio-nário e verifique se a palavra que você escolheu é a que está grafada corretamente: a)	reivindicar ou reinvidicar?	 g) mortadela ou mortandela? b)	beneficente ou beneficiente?	 h)	frustação ou frustração? c)	cabelereiro ou cabeleireiro?	 i)	previlégio ou privilégio? d) mantegueira ou manteigueira?	 j)	rubrica ou rúbrica? e)	carangueijo ou caranguejo?	 k)	metereologia ou meteorologia? f)	areoporto ou aeroporto?	 produção de texto crônica a crônica é um gênero híbrido, uma mistura de texto jornalístico e literário. por isso se costuma dizer que o cronista é um repórter escritor — ou um escritor repórter. assim, a crônica tanto pode ser produzida para jornal e revista e depois publicada em livro (em uma coletânea de crônicas, por exemplo) como pode ser produzida especialmente para publicação em livro. quanto ao assunto, as crônicas variam muito, mas em geral o autor mostra seu ponto de vista a res-peito do cotidiano (encontros, desencontros, sentimentos, situações embaraçosas, etc.) ou reflete sobre o que acontece na política, nos esportes, nas artes, na vida social em geral. textos geralmente curtos e sempre escritos em prosa, as crônicas trazem indícios de informalidade na escolha das palavras e expressões, nos comentários feitos diretamente ao leitor, como se se tratasse de uma conversa. aliás, o tom de conversa é uma das características que permitem classificar um texto como crônica. você pode confirmar as características desse gênero relendo as crônicas estudadas neste capítulo. atividade 1 — decalque: a composição da crônica as crônicas apresentam um tipo de composição característico. geralmente elas se iniciam pela narrati-va de um fato ou por uma declaração que servirá de apoio para a reflexão do autor. observe que isso se confirma no início (ou primeiro parágrafo) das crônicas lidas: sobre o amor, desamor chega a notícia de que um casal de estrangeiros, nosso amigo, está se separando. mais um! é tanta separa-ção que um conhecido meu, que foi outro dia a um casamento grã-fino, me disse que, na hora de cumprimen-tar a noiva, teve a vontade idiota de lhe desejar felicidades “pelo seu pri-meiro casamento”. o amor acaba o amor acaba. numa esqui-na, por exemplo, num domin-go de lua nova, depois de tea-tro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar [...] narração de um fato: separação de um casal amigo. declaração: o amor acaba. 	 prof.(a), comente com os alunos que a palavra cabeleireiro deriva de cabeleira, e não de cabelo. segundo luiz a. sacconi, na corte de luís xv havia um profissional, o cabeleireiro, que cuidava das cabeleiras (perucas) de toda a nobreza. hoje esse profissional cuida de cabelos e poderia ser chamado de cabeleiro, porém o nome tradicional se manteve. explique também que meteorologia se origina de meteoro. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  198 4/15/10  3:02:51 pm</Page><Page Number="201">capítulo 1 – a crônica  199 na crônica a seguir, falta o primeiro parágrafo, que cortamos propositalmente. leia o texto e decida se  seria melhor iniciá-lo com a narração de um fato ou com uma declaração. crie no caderno um primeiro parágrafo usando a estrutura estudada: tópico frasal, desenvolvimento e conclusão. atenção: mantenha no primeiro parágrafo as características do restante do texto: limite-se ao assunto especificado, procure usar a linguagem no mesmo grau de formalidade/informalidade, conserve o tom bem-humorado do texto. você é um envelhescente? 	 mário prata sempre me disseramque a vida do homem se dividia emquatro partes: infância, adolescência, maturidade e velhice. quase correto. esqueceram de nos dizer que entre a maturidade e a velhice (entre os 45 e os 65) existe a envelhescência. a envelhescência nada mais é que uma preparação para entrar na velhice, assim como a adolescência é uma preparação para a maturidade. engana-se quem acha que o homemmaduro fica velho de repente, assim da noite para o dia. não. antes, a enve-lhescência. e, se você está em plena envelhescência, já notou como ela é parecida com a adolescência? coloque os óculos e veja como este nosso estágio é maravilhoso: já notou que andam nascendo algumas espinhas em você? notadamente na  bunda? assim como os adolescentes, os envelhescentes também gostam de  meninas de vinte anos. os adolescentes mudam a voz. nós, envelhescentes, também.  mudamos o nosso ritmo de falar, o nosso timbre. os adolescen-tes querem falar mais rápido; os envelhescentes querem falar mais lentamente. os adolescentes vivem a sonhar com o futuro; os envelhes-  centes vivem a falar do passado. bons tempos... os adolescentes não têm ideia do que vai acontecer com eles  daqui a vinte anos. os envelhescentes até evitam pensar nisso. ninguém entende os adolescentes... ninguém entende os enve-  lhescentes... ambos são irritadiços, se enervamcompouco. acham que já sabem de tudo e não querem palpites nas suas vidas. às vezes, um adolescente tem um filho: é uma coisa precoce. às  vezes, um envelhescente tem um filho: é uma coisa pós-coce. os adolescentes não entendem os adultos e acham que ninguém  os entende. nós, envelhescentes, também não entendemos eles. “ninguém me entende” é uma frase típica de envelhescente. quase todos os adolescentes acabam sentados na poltrona do  dentista e no divã do analista. os envelhescentes, também a contragosto, idem. o adolescente adora usar uns tênis e uns cabelos. o envelhes-  cente também. sem falar nos brincos. ambos adoram deitar e acordar tarde.  o adolescente ama assistir a um  show de um artista enve-lhescente (caetano, chico, mick jagger). o envelhescente ama assistir a um show de um artista adolescente (rita lee). alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un4_cap01_183a203.indd  199 4/15/10  3:02:54 pm</Page><Page Number="202">200  unidade 4 [...] a adolescência vai dos 10 aos 20 anos: a envelhescência vai dos 45 aos 60. depois   sim, virá a velhice, que nada mais é que a maturidade do envelhescente. daqui a alguns anos, quando insistirmos em não sair da envelhescência para   entrar na velhice, vão dizer: é um eterno envelhescente!  que bom. prata, mário. 100 crônicas. são paulo: cartaz editorial, 1997. atividade 2 — reprodução: das notícias às crônicas as crônicas nascem da observação do dia a dia, do cotidiano, dos costumes, da vida social e política. sendo assim, elas frequentemente tratam do que é notícia nos jornais. leia a notícia a seguir. note que ela desencadeia uma série de reflexões sobre a vida, a passagem do   tempo, a família, o lazer, as diversões simples... com base nela, crie uma crônica a ser lida pelos colegas de outras turmas. marque as palavras que vai usar em seu texto (por exemplo, segundos, movimento, terra). se achar necessário, reveja as crônicas lidas ao longo deste capítulo. 2005 ganha um segundo a mais relógio atômico, que fornece hora oficial, está atrasado em relação ao movimento da terra são paulo — o ano de 2005 terá um segundo a mais que todos os outros anos. às 22 horas de sábado, técnicos do observatório nacional ajustam o relógio atômi-co que fornece a hora oficial do brasil, que está desregulado em relação ao movi-mento da terra. o ajuste também acontece nos 250 relógios atômicos espalhados pelo mundo, exatamente à 0 hora utc (código do tempo coordenado universal, o antigo gmt ou horário de greenwich). ele é necessário porque a terra gira um pou-quinho mais devagar ano após ano ao redor do seu eixo — ou seja, em sua rotação — por motivos que vão da influência de marés ao atrito com a atmosfera. os relógios atômicos têm precisão acima de 1 milhão de vezes maior que os melhores aparelhos tradicionais. mas, mais que garantir a hora exata, eles são usados, por exemplo, para sincronizar saté-lites. é o escritório internacional de pesos e medidas, na frança, que decide a adaptação a cada semestre. hoje, o intervalo entre a contagem solar e a atômica é de 32 segundos. se o ajuste não acontecer neste momento, a diferença pode comprometer programas que precisam da sincronia, como sistemas de telecomunicações e computadores utilizados por astrônomos. fazer o ajuste é, pelo menos na teoria, bastante simples, explica o engenheiro ivan mourilhe silva, responsável pela operação prof.(a), como estratégia de correção, peça a alguns alunos, voluntários, que escrevam no quadro o primeiro parágrafo criado. verifique, com a ajuda da classe, se a estrutura de parágrafo estudada foi empregada, se o assunto é coerente com o que o autor desenvolve nos parágrafos seguintes, se eventualmente o aluno deu alguma informação que não poderia ter sido dada por estar em desacordo com o texto que segue. terminada a atividade, leia o parágrafo original da crônica de mário prata para os alunos: “se você tem entre 45 e 65 anos, preste bastante atenção no que se segue. se você for mais novo, preste também, porque um dia vai chegar lá. e, se já passou, confira.”. rogério reis/olhar imagens edifício do observatório nacional e museu de astronomia e ciências afins, na cidade do rio de janeiro, 2007. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  200 4/15/10  3:02:59 pm</Page><Page Number="203">capítulo 1 – a crônica  201 no observatório nacional, no rio. cinco minutos antes das 22 horas, ele desliga os aparelhos, ajusta o novo horário e espera o tempo passar. relógios em brasília e são paulo são mexidos remotamente. cinco minutos e um segundo depois das 22 horas, ele religa tudo após a conferência. nesse período, todo o serviço de hora exata — por telefone, rádio ou internet — ficará suspenso. a chance de erro na operação é nula. “mas sempre contamos com a lei de murphy, pois os equipamentos são novos. não se pode simular a operação anteci-padamente e eles nunca passaram por isso antes”, diz silva. desde 1972, quando o mundo adotou os relógios atômicos, já foram adiciona-dos 22 segundos ao utc, mantendo assim a sincronia com a rotação da terra. a última vez em que o observatório nacional precisou fazer um ajuste e atrasou o relógio em um segundo foi em 1998. gazeta do sul, 30 dez. 2005. sugerimos que sua crônica tenha pelo menos três parágrafos. como você terá vários leitores, tente ser claro. para isso, planeje bem a pontuação: travessões e parênteses para inserir comentários e explicações complementares, reticências para deixar a reflexão a cargo do leitor (seus colegas de outra turma), etc. utilize em seu texto uma linguagem mais informal, em que você se dirija diretamente ao leitor, como se estivesse conversando com ele. atividade 3 — produção de autoria produza agora uma crônica com o tema que preferir, em três ou quatro parágrafos. comece pelo   planejamento: a) organize o tempo disponível para a produção da crônica. verifique o prazo dado pelo professor para a tarefa (número de aulas/dias). defina um tempo para rascunho, um tempo para a escrita, um tempo para a revisão e para passar a limpo. b) identifique a situação comunicativa: seus leitores serão os colegas de outras turmas.  existem crônicas esportivas, da vida social, da vida política, artística, etc. e existem aquelas que   tomam por base o cotidiano. sua crônica vai fazer parte desse segundo grupo. note, entretanto, que o cotidiano comporta uma infinidade de assuntos que podem ser tratados em uma crônica: o dia a dia da escola, do bairro, da rua, da casa, a vivência das pessoas em relação aos sentimentos mais diversos, o comportamento delas em relação ao outro, etc. sua intenção será levar o leitor a pensar sobre o tema escolhido. deixe-o, portanto, bem claro.  não se esqueça das características da estrutura do gênero. inicie por uma declaração ou pela   narração de um fato. em seguida, reflita sobre o assunto, apresentando seu ponto de vista, sua vivência e comentários. c) conheça os critérios que o professor usará para corrigir seu texto. d) dê um título à crônica. releia o texto pronto, levando em conta os critérios de avaliação apresen-tados pelo professor como referência. por fim, passe-o a limpo. preparando a segunda versão do texto troque de texto com os colegas e, no texto que você lerá, observe: a pontuação;  a adequação da linguagem ao estilo do gênero produzido;  o desenvolvimento do tema de acordo com o gênero produzido.   prof.(a), na correção, observe a pontuação, o uso da linguagem informal e sobretudo se escreveram um texto criativo usando como pretexto a notícia jornalística. finalizada e corrigida a atividade, promova uma troca de crônicas entre alunos de turmas diferentes, para que elas tenham leitores reais. prof.(a), é interessante que você tenha acesso também ao rascunho de cada aluno, assim será possível observar seus processos de produção, revisão e reescrita. critérios sugeridos para sua avaliação: o texto está estruturado em parágrafos? é curto? apresenta momentos em que o autor se dirige diretamente ao leitor? a pontuação estudada no capítulo é empregada adequadamente? o texto leva a uma reflexão? vpem3_un4_cap01_183a203.indd  201 4/15/10  3:03:01 pm</Page><Page Number="204">202  unidade 4 e por falar em crônica... leia um trecho da entrevista que luis fernando verissimo concedeu à revista língua portuguesa, em junho de 2009. muito além do gênero luis fernando verissimo criou como quem não queria nada uma marca de esti-lo difícil de imitar: a de tratar cada texto, o mais insignificante bilhete, a crônica mais apressadamente escrita ou o livro mais ambicioso, como peça única a conju-gar elegância, criatividade e bom humor. [...] se você pudesse resumir a técnica da crônica como seria? é difícil dar uma receita, pois é um gênero indefinido, desde sempre. você pode falar do que quiser e chamar o que escreveu de crônica, e o que sair será efetiva-mente crônica. como sob esse rótulo cabe tudo, há também muito de invenção, muito de exercício de estilo. agora, tirando a geração de cronistas como rubem braga, antônio maria e paulo mendes campos, não sei se o termo “crônica” caberia ao que se escreve hoje com esse nome. a crônica que eles faziam estava mais perto do lírico, sem ser alienada. hoje em dia, o que se escreve como “crônica” é muito mais factual do que antes. paulo mendes campos podia fazer crônicas que eram genuínas peças literárias, o próprio rubem braga escrevia um tipo de texto com aquele seu jeito despojado, mas ainda assim lírico. hoje, a ênfase do que se lê por aí é comentar, é testemunhar. [...] revista língua portuguesa, ano 3, n. 44, jun. 2009. adaptado. como você leu no trecho da entrevista, na opinião de verissimo, as crônicas atuais testemunham,  comentam os fatos. sendo assim, reúna-se a um grupo e escolham cenas atuais em jornais, revistas, sites, tv, etc. no dia marcado pelo professor, levem as imagens selecionadas para a classe. em grupo, escolham a imagem mais representativa de situações ligadas ao cotidiano de vocês. em seguida, redijam uma crônica com apenas um parágrafo com, no máximo, cem palavras. na produção de vocês, somente comentem o que veem; não relatem, não narrem. construam períodos simples ou coordenados, estabeleçam diálogo com o leitor, procurando envolvê-lo, e terminem com um comentário. escritos os textos, preparem-se para apresentar a crônica que fizeram à classe. no mundo da oralidade para a apresentação da crônica, elejam um ou dois colegas do grupo. eles devem considerar alguns  aspectos para facilitar o entendimento do texto: falar em voz alta, com firmeza;  pronunciar as palavras de forma clara e compreensível;  respeitar os sinais de pontuação estudados ao longo deste capítulo, dando às frases a entonação  adequada. prof.(a), se possível, grave as leituras e passe para outras classes para que possam ouvir os textos dos colegas. vpem3_un4_cap01_183a203.indd  202 4/15/10  3:03:01 pm</Page><Page Number="205">capítulo 1 – a crônica  203 aproveite para... ... ler pequena antologia do braga  , organizado por domicio proença, editora record o livro reúne 28 crônicas do escritor rubem braga. crônicas  , coleção para gostar de ler, editora ática em seis volumes, a coleção reúne textos de grandes cronistas, como carlos drummond de andrade, fernando sabino, paulo mendes campos, rubem braga e luis fernando verissimo. de notícias e não notícias faz-se a crônica  , de carlos drummond de andrade, editora record reunião de crônicas de drummond, organizadas conforme as seções de um jornal. drummond fala de política, cidade, cultura e até de classificados amorosos. crônicas  , organização de humberto werneck, coleção boa companhia, editora companhia das letras a reunião de 42 cronistas forma um painel da crônica no brasil, desde as origens ao fim do século xix. comédias para se ler na escola  , organização de ana maria machado, editora objetiva uma seleção de crônicas de luis fernando verissimo. a crônica,  de jorge de sá, coleção princípios, editora ática define a crônica, inserindo-a no plano geral dos gêneros literários e analisa textos dos principais cro-nistas brasileiros. histórias que os jornais não contam  , de moacyr scliar, editora agir o livro reúne 54 crônicas em que o autor mostra o lado fantástico da vida real criando histórias ficcio-nais inspiradas em notícias de jornal. ... assistir o homem nu  , de hugo carvana (brasil, 1997) baseado em crônica homônima de fernando sabino, o filme retrata a situação constrangedora de um homem (interpretado por cláudio marzo) que fica totalmente nu do lado de fora do apartamento. ... ver na internet portalliteral.terra.com.br/verissimo/  página oficial de luis fernando verissimo. www.releituras.com/releituras.asp  o site reúne os melhores textos de grandes escritores, como fernando sabino, paulo mendes campos e rubem braga. www.almacarioca.com.br/cronicas.htm  textos de grandes cronistas disponíveis para leitura. www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/cronicas/index.htm  saiba um pouco mais sobre origem e características das crônicas. conheça modelos de análise e dicas para o desenvolvimento de sua crônica. riofilme/divulgação/arquivo da editora vpem3_un4_cap01_183a203.indd  203 4/15/10  3:03:02 pm</Page><Page Number="206">2 capítulo geração de 1945 — poesia e prosa 204  unidade 4 unidade 4 antes de ler leia os fragmentos de textos críticos a seguir:  sobre o poeta joão cabral de melo neto […] uma atitude de vigilância e lucidez no que fazer, contrária ao deixar-se fazer do espontâneo e ao saber fazer do acadêmico. campos, haroldo de. in: melo neto, joão cabral de. melhores poemas de joão cabral de melo neto. 8. ed. são paulo: global, 2001. joão cabral de melo neto dá categoria estética a muito daquilo que, no chama-do romance nordestino, tinha apenas categoria documentária. nunes, benedito. in: melo neto, joão cabral de, op. cit. sobre joão guimarães rosa para contar o sertão, guimarães rosa utiliza-se do idioma do próprio sertão, falado por riobaldo em sua extensa narrativa. mas, como acontece com toda lite-ratura regional que ultrapassa a simples descrição para situar-se no plano da arte, ela adquire dimensões universais pelo vigor e beleza do texto. rosa, joão guimarães. grande sertão: veredas. 36. ed. rio de janeiro: nova fronteira, 1986. texto da quarta capa. sobre clarice lispector seus textos podem ser desmontados, desfeitos em pedaços — até mesmo dife-rentes dos fragmentos originais — sem que se perca sua intensidade. cada palavra ou frase dessa escritora sem igual origina-se em camadas tão fundas do ser, que traz consigo mais que um testemunho, a própria voltagem da vida. colasanti, marina. in: lispector, clarice. felicidade clandestina. rio de janeiro: rocco, 1998. texto da orelha. prof.(a), chame a atenção dos alunos para o significado da expressão categoria estética: um trabalho artístico que busca despertar a sensibilidade por meio da beleza, da harmonia. em outras palavras, o crítico afirma que, na obra de joão cabral de melo neto, aquilo que antes era meramente documentado passa a ser apresentado de maneira artística, sensível. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  204 4/15/10  3:05:59 pm</Page><Page Number="207">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  205 esses fragmentos fazem referência a três importantes autores da literatura brasileira cujos textos serão lidos a seguir. os comentários sobre os autores apresentam um ponto em comum. escreva no caderno a alternativa que indica a que ponto em comum eles se referem. a) 	ao conteúdo desenvolvido nas obras. b)	à ousadia no modo de apresentar as informações. c)	ao descuido com a linguagem. d)	ao cuidado artístico na composição do texto. x texto 1 joão cabral de melo neto escreveu morte e vida severina entre 1954 e 1955 por encomenda da dire-tora de teatro maria clara machado, que lhe pedira um auto de natal pernambucano. é um dos poemas mais populares e acessíveis de joão cabral de melo neto, cuja obra se caracteriza pela quase ausência de subjetividade e de lirismo. em morte e vida severina, a personagem severino abandona o sertão e segue em direção ao litoral, buscando uma forma de sobreviver, fugindo da seca nordestina. no caminho procura trabalho, mas não encontra nada que possa fazer; todas as vezes que tenta alimentar esperanças é a morte que ele vê pela fren-te. ao chegar ao cais do rio capibaribe, severino, certo de que deve se suicidar, encontra um dos moradores da região: seu josé. a seguir, leia o diálogo entre os dois homens e o desfecho surpreendente dessa conversa. morte e vida severina 	 joão cabral de melo neto aproxima-se do retirante o morador de um dos mocambos que existem entre o cais e a água do rio — seu josé, mestre carpina, que habita este lamaçal, sabe me dizer se o rio a esta altura dá vau? sabe me dizer se é funda esta água grossa e carnal? — severino, retirante, jamais o cruzei a nado; quando a maré está cheia vejo passar muitos barcos, barcaças, alvarengas, muitas de grande calado. cena da montagem da peça morte e vida severina, dirigida por gabriel villela, no rio de janeiro, em 1997. a montagem contou com o trabalho de atores do teatro glória. eduardo albarello/editora abril 1 2 vpem3_un4_cap02_204a229.indd  205 4/15/10  3:06:00 pm</Page><Page Number="208">206  unidade 4 — seu josé, mestre carpina, para cobrir corpo de homem não é preciso muita água: basta que chegue ao abdome, basta que tenha fundura igual à de sua fome. — severino, retirante, pois não sei o que lhe conte; sempre que cruzo este rio costumo tomar a ponte; quanto ao vazio do estômago, se cruza quando se come. — seu josé, mestre carpina, e quando ponte não há? quando os vazios da fome não se tem com que cruzar? quando esses rios sem água são grandes braços de mar? — severino, retirante, o meu amigo é bem moço; sei que a miséria é mar largo, não é como qualquer poço: mas sei que para cruzá-la vale bem qualquer esforço. — seu josé, mestre carpina, e quando é fundo o perau? quando a força que morreu nem tem onde se enterrar, por que ao puxão das águas não é melhor se entregar? […] — severino, retirante, sou de nazaré da mata, mas tanto lá como aqui jamais me fiaram nada: a vida de cada dia cada dia hei de comprá-la. […] — seu josé, mestre carpina, que diferença faria se em vez de continuar tomasse a melhor saída: a de saltar numa noite, fora da ponte e da vida? 3 4 5 6 7 8 9 marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un4_cap02_204a229.indd  206 4/15/10  3:06:01 pm</Page><Page Number="209">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  207 uma mulher, da porta de onde saiu o homem, anuncia-lhe o que se verá — compadre, josé, compadre, que na relva estais deitado: conversais e não sabeis que vosso filho é chegado? estais aí conversando em vossa prosa entretida: não sabeis que vosso filho saltou para dentro da vida? saltou para dentro da vida ao dar seu primeiro grito; e estais aí conversando; pois sabeis que ele é nascido. […] começam a chegar pessoas trazendo presentes para o recém- -nascido — minha pobreza tal é que não trago presente grande: trago para mãe caranguejos pescados por esses mangues; mamando leite de lama conservará nosso sangue. — minha pobreza tal é que coisa não posso ofertar: somente o leite que tenho para meu filho amamentar; aqui são todos irmãos, de leite, de lama, de ar. — minha pobreza tal é que não tenho presente melhor: trago papel de jornal para lhe servir de cobertor; cobrindo-se assim de letras vai um dia ser doutor. […] 10 11 12 13 marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un4_cap02_204a229.indd  207 4/15/10  3:06:03 pm</Page><Page Number="210">208  unidade 4 o carpina fala com o retirante que esteve de fora, sem tomar parte em nada — severino, retirante, deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia, se não vale mais saltar fora da ponte e da vida; nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga; é difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, severina; mas se responder não pude à pergunta que fazia, ela, a vida, a respondeu com sua presença viva. e não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida; mesmo quando é assim pequena a explosão, como a ocorrida; mesmo quando é uma explosão como a de há pouco, franzina; mesmo quando é a explosão de uma vida severina. melo neto, joão cabral de, op. cit.  by herdeiros de joão cabral de melo neto. 14 alvarenga: embarcação de forte construção. calado: distância vertical entre a superfície da água em que a embarcação flutua e a face inferior da sua quilha. carpina: carpinteiro. dar vau: dar passagem, escoamento. mocambo: refúgio, em geral em mata, de escravos foragidos. perau: lugar íngreme, precipício. severino: adjetivo formado a partir do substantivo próprio severino, personagem principal deste texto. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un4_cap02_204a229.indd  208 4/15/10  3:06:05 pm</Page><Page Number="211">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  209 interpretação do texto 1	releia as quatro primeiras falas do fragmento e responda no caderno. a)	por que severino quer saber se o rio é fundo? severino passa muita fome e pensa em se afogar no rio. b)	seu josé, mestre carpina, compreende imediatamente a intenção de severino? justifique sua resposta. 2	ao longo do diálogo entre severino e mestre josé, observa-se o emprego de um recurso de lingua-gem importante para a construção do trecho: compara-se atravessar o rio com atravessar a fome. identifique, ao longo do diálogo, esses pontos de comparação. 3	uma mulher interrompe a conversa entre mestre josé e severino, e todo o desenvolvimento da prosa muda de direção. em que consiste essa mudança? o que ela pode significar para severino? 4	a confiança na vida representada pela criança recém-nascida motiva todas as pessoas que partici-pam do momento. de que modo isso é representado no poema? escreva a(s) alternativa(s) correta(s) no caderno. a)	pela atenção de severino às cenas que se desenrolam. b)	pela empolgação com que a mulher anuncia a chegada da criança. x c)	pela maneira como os presentes são ofertados pelas pessoas da comunidade. x d)	pela transformação que esse nascimento provoca imediatamente na vida de severino. 5	na introdução ao texto você leu que morte e vida severina foi escrito por encomenda de uma diretora de teatro que queria montar um auto de natal. que elementos do texto aproximam esse poema de um auto natalino? texto 2 grande sertão: veredas é considerado um dos mais importantes romances brasileiros. essa afirmação apoia-se sobretudo na inventividade com que guimarães rosa tratou a linguagem do texto, ao destacar o vocabulário e o ritmo do falar sertanejo, construindo por meio desse falar uma obra inovadora, de grande valor estético. faça uma leitura silenciosa de um tre-cho do romance, um momento em que riobaldo, a personagem principal, fala de sua concepção de religiosidade. procure imaginar que o texto está sendo contado mentalmente por uma pessoa, numa situação de conversa informal. identifique o sentido das palavras desconhecidas e certifique-se de que compreen­deu o conteúdo de cada frase. não. a princípio ele se limita a responder de acordo com o primeiro sentido que vem à mente de alguém quando se faz essa pergunta, sem relacionar a fome ao desejo de se matar. diz que sempre atravessou o rio pela ponte e que comer resolve o problema da fome. fala 3; linhas 3 a 6 da fala 4; linhas 3 a 6 da fala 5; linhas 3 e 4 da fala 6. a mulher interrompe a conversa para comunicar o nascimento de uma criança. assim, passa-se do desejo de morte de severino para a ideia de vida, de nascimento. em um contexto de morte e de desespero, o nascimento de uma criança significa esperança, possibilidade de renascimento. 	 a referência a seu josé, que é um mestre carpinteiro, nascido em nazaré da mata, remete à história de jesus cristo, cujo pai se chamava josé e era carpinteiro; nazaré é referência ao lugar onde nasceu o menino jesus. além disso, o nascimento de jesus está associado à ideia de esperança, de renovação e se opõe ao significado de morte. cena de grande sertão: veredas, adaptação da rede globo do romance de mesmo nome escrito por guimarães rosa. minissérie dirigida por walter avancini, 1985. marcelo prates/agência o globo vpem3_un4_cap02_204a229.indd  209 4/15/10  3:06:05 pm</Page><Page Number="212">210  unidade 4 grande sertão: veredas 	 joão guimarães rosa hem? hem? o que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. o senhor, eu, nós, as pessoas todas. por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. reza é que sara loucura. no geral. isso é que é a salvação-da-alma… muita religião, seu moço! eu cá, não perco ocasião de religião. aproveito de todas. bebo água de todo rio… uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue. rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de com-padre meu quelemém, doutrina dele, de cardéque. mas, quando posso, vou no mindubim, onde ummatias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. tudo me quieta, me suspende. qualquer sombrinha me refresca. mas é só muito provisório. eu queria rezar — o tempo todo. muita gente não me aprova, acham que lei de deus é privilégios, invariável. e eu! bofe! detesto! o que sou? — o que faço, que quero, muito curial. e em cara de todos faço, executado. eu não tresmalho! olhe: tem uma preta, maria leôncia, longe daqui não mora, as rezas dela afa-mammuita virtude de poder. pois a ela pago, todo mês — encomenda de rezar por mim um terço, todo santo dia, e, nos domingos, um rosário. vale, se vale. minha mulher não vê mal nisso. e estou, já mandei recado para uma outra, do vau-vau, uma izina calanga, para vir aqui, ouvi de que reza também grandes mereme-rências, vou efetuar com ela trato igual. quero punhado dessas, me defendendo em deus, reunidas de mim em volta… chagas de cristo! viver é muito perigoso… querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. esses homens! todos puxavam o mundo para si, para consertar o consertado. mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. rosa, joão guimarães. grande sertão: veredas. rio de janeiro: nova fronteira, 2005. no mundo da oralidade após a leitura silenciosa e de ter se certificado de que compreendeu o conteúdo de cada frase, prepare-  -se para uma leitura expressiva desse fragmento. para isso: imagine certa velocidade na fala de algumas das frases, de modo que, no momento da leitura, fique  evidente que se trata de um comentário feito em voz alta para um amigo; observe bem a pontuação: ponto-final, ponto de exclamação, travessões, reticências. relacione cada  uma delas à expressividade da frase, às pausas que possam ser necessárias; antes de apresentá-la, pronuncie mais de uma vez palavras pouco comuns no seu vocabulário. isso  vai fazer que a leitura seja mais fluente. prof.(a), divida o texto em quatro partes. os alunos que não quiserem fazer a leitura em voz alta podem eleger qual leitura expressiva pareceu mais natural, mais próxima do falar do narrador. cardéque: forma abrasileirada do nome kardec (de allan kardec, nome com que ficou conhecido o professor francês responsável pela divulgação da doutrina espírita). curial: relativo à cúria (local em que se fazem os serviços religiosos). embrenhar: internar-se, esconder-se. meremerência: palavra formada provavelmente a partir de mérito. tresmalhar: sair do caminho desejado, perder-se, extraviar-se. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  210 4/15/10  3:06:06 pm</Page><Page Number="213">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  211 interpretação do texto 1	por que, segundo o narrador, todo o mundo carece de religião? nesse contexto, qual é o papel da religião na vida das pessoas? 2	a forma como o texto foi escrito é revolucionária. observe que o autor se vale de uma linguagem muito próxima da fala. com uma sintaxe diferente da que encontramos nos manuais de gramática e um vocabulário cheio de neologismos, sua linguagem dá um ritmo completamente diferente à narra-tiva, sem, evidentemente, subverter a lógica do texto. 	 releia os trechos a seguir, volte ao texto para identificar o contexto do qual fazem parte e proponha uma interpretação para eles. a)	“bebo água de todo rio… uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue.” b)	“qualquer sombrinha me refresca. mas é só muito provisório.” 3	releia: muita gente não me aprova, acham que lei de deus é privilégios, invariável. e eu! bofe! detesto! o que sou? — o que faço, que quero, muito curial. e em cara de todos faço, executado. eu não tresmalho! a)	o que as pessoas não aprovam? b)	como ele se comporta diante do que as pessoas pensam sobre seu modo de se envolver com a religião? 4	no último parágrafo do fragmento fica clara a visão que o narrador tem da vida, o que justifica, de certa forma, sua grande necessidade de religião, de rezas, de orações. a)	que visão é essa? para ele, viver é muito perigoso. b)	por que, segundo ele, a religião, nesse contexto, tem papel fundamental? texto 3 clarice lispector publicou o conto a seguir no livro felicidade clandestina, de 1971, fase já bastante madura da escritora, que teve seus três primeiros livros (todos romances) publicados entre 1944 e 1949 (perto do coração selvagem, o lustre e a cidade sitiada), o que a inscreve na geração de 1945 da literatura brasileira. sua obra se destaca por sua narrativa voltada para os eventos interiores das personagens; trata- -se de uma literatura de caráter introspectivo. o conto que você vai ler, de grande simplicidade narrativa e vocabular, contém uma bonita metáfora do modo de alguns seres humanos amarem. uma história de tanto amor 	 clarice lispector era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. a galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longíquas claridades e cantar o mais sonoro possível. é o seu dever e a sua arte. voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. uma se chamava pedrina e a outra petronilha. 	 segundo o narrador, todo o mundo precisa de religião para “desendoidecer”. nesse contexto, o papel da religião é o de orientar as pessoas para um equilíbrio maior, de modo que não sofressem tanto e evitassem fazer os demais sofrer. prof.(a), aceite outras possibilidades de resposta para a segunda parte da questão. ele segue diversas religiões. para ele, uma só não é suficiente para dar conta de sua necessidade de transcendência. sombrinha, nesse contexto, significa qualquer rito religioso. qualquer rito, oração o acalma, mas não por muito tempo, daí sua necessidade de se alimentar de várias religiões. isso revela, na verdade, uma espécie de angústia constante do narrador-personagem, uma angústia que ele não 	 consegue aplacar. 	 o fato de ele se servir de diversas religiões e não ser fiel a nenhuma. “acham que lei de deus é privilégios, invariável.” ele não se esconde. ele detesta a ideia de que é necessário seguir apenas uma religião para ser atendido por deus. acredita estar certo em buscar “muito curial”, por isso não se preocupa em disfarçar suas práticas: “e em cara de todos faço, executado. eu não tresmalho!”. sugestão: se viver é muito perigoso, é possível que o tempo todo se esteja sujeito a perigos de diversas naturezas. a religião é uma forma de afastá-los, de proteger as pessoas desses perigos. prof.(a), aceite outras respostas. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  211 4/15/10  3:06:06 pm</Page><Page Number="214">212  unidade 4 quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brin-car. então pedia um remédio a uma tia. e a tia: “você não tem coisa nenhuma no fígado”. então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. a menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a pedrina quanto a petronilha para evitar contágios misteriosos. era quase inútil dar o remédio por-que pedrina e petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. e o cheiro debaixo das asas era aquela morri-nha mesmo. não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas minas gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia. a tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café — e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. a menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfei-ta) inerentes à própria espécie. a menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar. outro inferno de dificuldade era quando a menina achava pedrina e petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. a menina não entendera que engordá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. e reco-meçava o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. a menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das minas gerais. e quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava: — mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! o galo é quem fica procurando amar uma e não consegue! um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. e quando voltou, já não existia aquela que em vida fora petronilha. sua tia informou: — nós comemos petronilha. a menina era uma criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não cor-responde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem espe-rar reciprocidade. quando soube o que acontecera com petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. o seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe: marcos guilherme/ arquivo da editora vpem3_un4_cap02_204a229.indd  212 4/15/10  3:06:07 pm</Page><Page Number="215">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  213 — quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. daqui de casa só nós duas é que não temos petronilha dentro de nós. é uma pena. pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. a menina, ao ver pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a numpano escuro e depois de bemembrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das minas-gerais. todos lhe avisaram que estava apressando a morte de pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. quando na manhã do dia seguinte pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido. um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada eponina. o amor por eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. e quando chegou a vez de eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. as galinhas pareciam ter uma pré-ciência do próprio destino e não apren-diam a amar os donos nem o galo. uma galinha é sozinha no mundo. mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim eponina se incorpo-raria nela e se tornaria mais sua do que em vida. tinham feito eponina ao molho pardo. de modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia eponina. a menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens. lispector, clarice, op. cit. interpretação do texto 1	destaque do conto os elementos principais de uma narrativa: tipo de narrador (narrador-personagem, narrador-observador ou narrador onisciente); personagens; tempo de duração da história; espaço onde se desenrola a ação; conflito/principal problema; clímax e desfecho. 2	destaque do texto formas encontradas pela menina para expressar seu amor. 3	isso se modifica com o tempo? como a narradora justifica a mudança? 4	releia: nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia eponina. a menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens. 	 o enredo do conto é na realidade pretexto para tratar de certa forma de amar. que forma de amar é essa? narrador onisciente, pois acompanha os sentimentos interiores da menina. as personagens são a menina, a tia da menina e sua mãe. (as galinhas são impor-tantes para a narrativa, mas dentro do que é relevante para as ações da menina, elas não têm autonomia no texto; portanto, não podem ser consideradas personagens.) a história dura alguns anos; o tempo de a menina crescer e tornar-se moça. as ações se desenrolam na casa da menina, em minas gerais. o problema: o amor desmedido da menina por suas galinhas, às quaisdeseja proteger. o clímax: o momento em que a menina resolve comer eponina ao molho pardo para integrar o ser da galinha ao seu próprio ser. desfecho: a menina torna-se moça e transfere seu modo de amar as galinhas para o seu relacionamento com os homens. 	 o cuidado com a saúde das gali-nhas, que a fazia dar-lhes remédios adotando critérios muito próprios de diagnosticar a doença; o cuidado para que elas estivessem sempre gordas; a tentativa de salvar a qualquer custo pedrina da morte. 	 sim, a forma de amar as galinhas se modifi-ca com o tempo. o fato de ter sofrido muito duas vezes faz a garota compreender a inexorabilidade do destino das galinhas. isso a torna mais prática com relação ao amor. 	 trata-se de um amor que não exige reciprocidade, possessivo, quase doentio, que envolve uma simbiose com o outro, a necessidade não só de tê-lo, mas de incorporá-lo à própria existência. alvitre: proposta, sugestão, conselho. morrinha: odor desagradável. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  213 4/15/10  3:06:07 pm</Page><Page Number="216">214  unidade 4 desenvolvendo habilidades leitoras ao interpretar esses textos você: identificou informações importantes do conteúdo de cada um deles;  dedicou-se à interpretação de certas frases dos excertos, considerando o contexto em que  estão inseridos; observou o valor estético dos textos;  reconheceu os elementos da narrativa em um conto;  interpretou uma narrativa como metáfora de certo sentimento.  para entender a geração de 1945 a produção literária de 1945 inicia-se com a publicação de rosa extinta, de domingos carvalho da silva, o engenheiro, de joão cabral de melo neto, predestinação, de geraldo vidigal, ode e elegia, de ledo ivo. trata-se de um período marcado pelo fim de uma guerra mundial e pela renovação do movi-mento modernista. os textos lidos neste capítulo dão uma ideia de renovação, de espírito inteligente, mas, sobretudo, de preocupação com os problemas humanos. esses textos nos ajudam a perceber também que os autores da época estavam comprometidos com a pesquisa e a experimentação estética, ainda que não propusessem um outro movimento literário. a geração de 1945 ficou marcada pelo desejo de conciliar modernidade e tradição. proclamava a arte livre, o amor pelos ideais e a necessidade de sentir e criar. ao lermos neste capítulo alguns trechos da obra de guimarães rosa, joão cabral e clarice lispector, autores que se debruçam sobre as tradições locais e/ou questões do cotidiano e sobre os problemas da existência humana, temos uma ideia do que essa produção queria alcançar. terminada a segunda guerra e instaurada certa tranquilidade no cenário mundial, os artistas se voltam para a pesquisa estética, para o trabalho com a linguagem. nas artes plásticas ganha espaço a composição abstrata, que não se preocupa em retratar fielmente a realidade. na literatura, a pesquisa com a linguagem literária torna-se o foco do traba-lho dos escritores. e isso ao lado das produções da década de 1930, voltadas para a denúncia dos problemas sociais e questões regionais. assim, a preocupação com o aspecto formal do texto (prosa ou poesia) é o tom da geração de 1945. alguns poetas cultuam a estética textual, enveredando por um caminho semelhante ao dos parnasianos; outros se concentram em buscar uma linguagem mais racional, essencial, sintética. destacam-se, no período, a obra poética de joão cabral de melo neto, geir campos e ledo ivo. alguns contistas e romancistas buscam aprofundar a son-dagem psicológica, enquanto outros procuram um caminho diferenciado para retratar questões regionais. destacam-se, na primeira corrente, o trabalho de clarice lispector e o de lygia fagundes telles. na outra, é evidente o marco representado pelos textos de joão guimarães rosa e de mário palmério. hermelindo fiaminghi/coleção particular, são paulo triângulos com movimento diagonal, de hermelindo fiaminghi, 1956. nas artes plásticas, a tendência do período é o abstracionismo, a pesquisa estética, como nessa obra do pintor, artista gráfico, litógrafo e publicitário fiaminghi. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  214 4/15/10  3:06:08 pm</Page><Page Number="217">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  215 contexto histórico com o fim da segunda guerra mundial, em 1945, instaura-se a nova ordem mundial determinada pelo período chamado de guerra fria. o mundo vive entre os ideais do comunismo (representado então pelo socia-lismo da união soviética, em expansão) e os do capitalismo (liderado pelos estados unidos, que colaboram para a recons-trução de nações europeias e do japão, destroçados pela guerra). os demais países veem-se constrangidos a assumir um dos lados dessa disputa, marcada por fortes antagonismos. a américa latina conhece o populismo, ou seja, em diversos países do continente, instala-se uma prática política cuja figura central, aparentemente acima dos partidos políticos, é um líder carismático e autoritá-rio, que promete benefícios e mesmo leis favoráveis aos trabalhadores e agrada à classe média urbana. em geral, as medidas adotadas são assistenciais, sem preocupa-ção de formar criticamente o povo. assim, no século xx, populismo e dita-duras se sucedem no continente, no qual impera o capitalismo norte-americano. entretanto, numa ilha, tem lugar um sopro socialista, a revolução cubana. no brasil, getúlio vargas é deposto, e nas eleições presidenciais de 1946 vence eurico gaspar dutra. no ano seguinte, dutra apoia os estados unidos e rompe relações com a união soviética. assistimos então a um período em que se valoriza a cultura norte-americana e o estilo de vida capitalista. como prioridade, o governo procura desenvolver a indústria e o uso de energia elétrica no país. agence france-presse/arquivo da editora em julho de 1973, perto do portão de brandemburgo, trabalhadores terminam parte da construção do muro de berlim, que por muito tempo separou as duas alemanhas, simbolizando a guerra fria. cuba conquistou sua independência política em 1898. entretanto, como economicamente dependia dos estados unidos, que compravam a maior parte do açúcar produzido pela ilha, os norte-americanos aproveitavam essa situação para impor seu domínio. em 1901, firmaram o direito de instalar bases militares na ilha e intervir militarmente sempre que considerassem seus interesses ameaçados. em um cenário de desigualdade social — praticamente toda a riqueza de cuba estava nas mãos de algumas famílias da ilha e de empresas norte-americanas aí instaladas —, um grupo de revolucionários, liderado pelo jovem fidel castro, iniciou uma luta contra o ditador fulgêncio batista, no poder desde 1934. em janeiro de 1959, quase dois anos depois de iniciada a guerrilha, fidel e seus companheiros, entre eles o argentino ernesto “che” guevara, levaram batista a fugir do país e se prepararam para iniciar um outro governo. as principais medidas desse novo governo — a reforma agrária e a nacionalização de indústrias e refinarias — abalaram a relação entre a ilha e os estados unidos, que, em represália, deixaram de comprar o açúcar cubano. o governo de fidel então firmou acordos comerciais com os países socialistas, desencadeando diversas reações norte- -americanas no sentido de repreender o governante cubano e seu povo. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  215 4/15/10  3:06:08 pm</Page><Page Number="218">216  unidade 4 todavia, apesar dos incentivos, dutra não agrada a população e, em 1950, getúlio vargas volta ao poder, com o apoio dos trabalhadores, prometendo-lhes benefícios. mas as promessas não são realizadas, e o povo se revolta. pressionado, em agosto de 1954, getúlio vargas se suicida e provoca imensas manifestações populares que obrigam o governo a convocar imediatamente eleições diretas para presidente. juscelino kubitschek, eleito então pelo povo, marcaria seu governo com intenso desenvolvimento urbano. na década de 1940, a empresa lever lança uma campanha para vender seus produtos, com a imagem de grandes estrelas do cinema, como vemos neste anúncio, com a atriz elizabeth taylor, um mito na época. observe o slogan da campanha: “usado por 9 entre 10 estrelas do cinema”. banco de imagens/arquivo da editora em 1950, com a colaboração de assis chateaubriand, dono da cadeia de jornais diários associados, a tv chegou ao brasil, e inaugurou-se o primeiro programa brasileiro para televisão, com a tv tupi. esse aparelho, que invadiu a sala de estar e captou a atenção das famílias de classe média, tornou-se o marco do início de uma era voltada para a informação e o consumo. peter scheier/arquivo da editora agência jornal do brasil/arquivo da editora nas ruas do rio de janeiro, o povo manifesta sua tristeza diante da morte de getúlio vargas, em 24 de agosto de 1954. marcel gautherod/instituto moreira salles congresso nacional, brasília, c. 1959. a foto focaliza a construção dos blocos em forma de h, que abrigam atividades administrativas. projetado por oscar niemeyer e inaugurado em 1960, o congresso nacional tornou-se a sede do poder legislativo na esfera federal. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  216 4/15/10  3:06:11 pm</Page><Page Number="219">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  217 características da literatura da geração de 1945 exatidão na forma e na palavra sugestiva a linguagem dessa geração de escritores indica maior disciplina formal, o cultivo das formas tradicionais e maior cuidado com a escolha da palavra que daria ritmo à frase ou ao verso. os escritores mostravam uma tendência ao simbolismo. os sentimentos de um mundo pós-guerra e dividido pela guerra fria eram expressos por meio de sugestões, de elementos que representariam os sentimentos. por meio de metrificação exata e de imagens sugestivas, os poetas desse período apresentavam seus sentimentos em relação à sociedade. observe versos decassílabos cuidadosamente construídos por geir campos: urubu 	 geir campos sobreviventes da pureza antiga, as penas brancas, no debrum das asas, pesam como remorsos a encurvá-las; vírgulas negras de uma negra história. como que o sentimento do pecado neutraliza a atenção e trunca os gestos, e o voo — lento cair espiralado, misto de hesitação e de abandono — penetra fundo o cerne azul da tarde: longa verruma de carvão e sono. campos, geir. in: bosi, alfredo.  história concisa da literatura brasileira.  são paulo: cultrix, 1997. participação social os poetas incursionaram principalmente pela temática social. poemas com a mesma preocupação formal e estética que caracterizam o movimento tratam de temas ligados à política, às lutas do povo, à opressão. são poemas que denunciam o período histórico injusto e contraditório que vivenciavam. ao tratar desses temas, percebe-se uma preocupação com a sociedade que sofre com a má distribuição de renda e com a concentração de massas urbanas nos grandes centros devido à urbanização acelerada que ocorria no momento.  interesse por explorações o artista desse período é um explorador. bastante preocupado com o aspecto formal do texto, explora os espaços desconhecidos, as diferentes linguagens, alguns aspectos especiais das mais comuns personagens com a intenção de tratar de questões existenciais mais profundas. cerne: parte central ou essencial de algo. debrum: ornamento em forma de filete, usado para margear uma figura. truncar: retirar uma parte de, mutilar. verruma: instrumento de aço que tem sua extremidade inferior aberta em espiral e terminada em ponta. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un4_cap02_204a229.indd  217 4/15/10  3:06:11 pm</Page><Page Number="220">218  unidade 4 principais autores joão cabral de melo neto joão cabral de melo neto (1920-1999) nasceu em recife e faleceu no rio de janeiro. autodidata, não fez nenhum curso superior, tudo o que sabia aprendeu sozinho. morou certo tempo na espanha e em outros países devido às funções consulares que exerceu. pode-se encontrar diversos indícios desse fato em sua obra. a característica fundamental de sua poesia é a tentativa de eliminar do poema os resíduos sentimentais. seus textos marcam o espaço do homem moderno e expressam as sensações despertadas por ele. com forte rigor métrico e semântico, o trabalho de joão cabral é apurado, seus poemas trazem um vocabulário diferente e menos pomposo que os dos demais poetas da época. para ele, a riqueza do poeta está na realidade. é por isso que, em seus textos, se mistura o fazer poético (o poema é visto como um artesa-nato) e a instigação social. na realização desse trabalho, o autor retoma a tradição popular e usa trovas, quadras, autos, para criar, por exemplo, morte e vida severina. há em sua poesia um primeiro momento em que se percebem fortes influências de drummond e murilo mendes. notam-se nessa fase certa ironia, um tom coloquial e até pessimismo, como se pode observar em: poema 	 joão cabral de melo neto ó jardins enfurecidos, pensamentos palavras sortilégio sob uma lua contemplada; jardins de minha ausência imensa e vegetal; ó jardins de um céu viciosamente frequentado: onde o mistério maior do sol da luz da saúde? melo neto, joão cabral de. pedra do sono. in: ______. poesias completas. 3. ed. rio de janeiro: josé olympio, 1979. by herdeiros de joão cabral de melo neto. mais tarde partiria para seu próprio projeto literário: elegendo a “pedra” como o elemento que dá a medida do poema, por ter, segundo ele, as características próprias da arte do criar (a dureza, a impes-soalidade, “sua resistência fria / ao que flui e a fluir, a ser maleada”, conforme define o poeta em “a educação pela pedra”). sua composição caminha assim para a contenção, para a sobriedade, para a exatidão. a linguagem é concisa, precisa. a arte não é guiada pela intuição; ela é calculada. o poeta torna-se o engenheiro das palavras. assim, o livro de poemas que melhor exemplifica essa fase é o engenheiro. chico nelson/editora abril joão cabral de melo neto, em 1972. uma dor de cabeça infernal o acompanhou durante toda a vida, a ponto de ser mencionada em cartas aos amigos (a clarice lispector, por exemplo) e em seus poemas (como em “num monumento à aspirina”, publicado em a educação pela pedra). vpem3_un4_cap02_204a229.indd  218 4/15/10  3:06:12 pm</Page><Page Number="221">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  219 o engenheiro 	 joão cabral de melo neto a luz, o sol, o ar livre envolvem o sonho do engenheiro. o engenheiro sonha coisas claras: superfícies, tênis, um copo de água. o lápis, o esquadro, o papel; o desenho, o projeto, o número: o engenheiro pensa o mundo justo, mundo que nenhum véu encobre. […]. melo neto, joão cabral de. serial e antes. rio de janeiro: nova fronteira, s.d.  by herdeiros de joão cabral de melo neto. em 1950 o poeta começa a tratar de assuntos do nordeste. no livro o cão sem plumas, poema dividido em quatro partes, o autor volta-se para as preocupações sociais. a paisagem é o rio, que se assemelha a um cão. leia o início da quarta parte: o cão sem plumas 	 joão cabral de melo neto iv discurso do capibaribe aquele rio está na memória como um cão vivo dentro de uma sala. como um cão vivo dentro de um bolso. como um cão vivo debaixo dos lençóis, debaixo da camisa, da pele. um cão, porque vive, é agudo. o que vive não entorpece. o que vive fere. o homem, porque vive, choca com o que vive. viver é ir entre o que vive. […] melo neto, joão cabral de. o cão sem plumas. rio de janeiro: alfaguara, s.d.  by herdeiros de joão cabral de melo neto. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un4_cap02_204a229.indd  219 4/15/10  3:06:13 pm</Page><Page Number="222">220  unidade 4 em 1956, joão cabral lançou um volume intitulado duas águas. nesse livro, publicou “paisagem sem figura”, “uma faca só lâmina” e “morte e vida severina”. de enfoque social, este último coloca o homem como medida de todas as coisas, inclusive de sua vida e de sua morte. mais uma vez a paisagem nordestina é o palco das angústias humanas, o rio faz parte do destino ingrato do ser humano. com esse texto, joão cabral conquistou reconhecimento internacional. o autor trata da viagem — do sertão a recife — feita pelo retirante severino. pelo caminho, tudo o que ele encontra é morte ou vida sofrida. joão cabral usa a redondilha para estru-turar o lado dramático do poema e para colaborar no ritmo da leitura do texto em voz alta. o nome da personagem principal, severino, torna-se adjetivo no decorrer da narrativa. trata-se da história de tantos outros nordestinos atingidos pela seca, que migram e passam por privações, enfrentam nãos e a morte. guimarães rosa o mineiro joão guimarães rosa (1908-1967), ainda estudante, produziu seus primeiros contos, pre-miados em um concurso. nascido em cordisburgo, o médico, escritor e diplomata guimarães rosa marcou a literatura brasileira (sobretudo os contos) com sua linguagem rica e pitoresca. em sagarana, seu primeiro livro, podemos perceber a característica fundamental de seu trabalho: trans-por para a literatura a cultura de seu povo — sua prosa então apresenta hábitos, crenças, características físicas e linguagem da região — e ao mesmo tempo tratar de questões universais — o amor, a morte, as sutilezas das relações humanas. viveu o período da segunda guerra mundial no espaço mais tenso da época: a europa. testemunhou destruições e mortes, contribuiu para fugas de judeus durante a perseguição nazista. sempre que voltava ao brasil, incursionava pelos mais desconhecidos destinos: o sertão de mato grosso, o de minas gerais. em todas essas viagens, o escritor anotava tudo: fauna, flora, costumes, crenças, superstições, linguagens, etc. situadas sempre no espaço do sertão, suas histórias registram a fala regional, principalmente expressões e construções linguísticas locais. e, com essa linguagem extremamente particular, ele levanta questões universais, tanto do campo social, como as injustiças a que se sujei-tam os seres humanos, quanto do campo psicológico e existencial, como os sentimentos de vingança, de amor e as relações entre o bem e o mal. em suas narrativas, observamos onomatopeias, rimas internas, construções sintáticas cortadas, voca-bulário diferenciado, figuras de linguagem (metonímias, anáforas). leia um trecho do conto “o burrinho pedrês”: boi bem bravo bate baixo, bota baba, boi berrando… dansa doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito… vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando… rosa, joão guimarães. sagarana. rio de janeiro: josé olympio, 1976. abertura do documentário recife/sevilha — joão cabral de melo neto, de bebeto abrantes, 2003. divulgação/arquivo da editora joão guimarães rosa no sertão mineiro, em foto publicada na revista o cruzeiro em junho de 1952. reminiscências/acervo iconographia vpem3_un4_cap02_204a229.indd  220 4/15/10  3:06:14 pm</Page><Page Number="223">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  221 guimarães rosa escreveu um único romance, grande sertão: veredas. o centro dessa narrativa é o amor de riobaldo, sertanejo, por diadorim, que se apresenta como homem, embora seja mulher. nesse romance, sertanejos representam tanto o cavaleiro quanto o bandido. no trecho a seguir, em que se apresentam diversos sertanejos, repare como o narrador deixa claro que, com exceção de hermógenes, eles não nasceram bandidos: grande sertão: veredas 	 joão guimarães rosa […] esses homens! todos puxavam o mundo para si, para concertar o consertado. mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. montante, o mais supro, mais sério — foi medeiro vaz. que um homem antigo… seu joãozinho bem-bem, o mais bravo de todos, ninguém nunca pôde decifrar como ele por dentro consistia. joca ramiro — grande homem príncipe! — era político. zé-bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou. sô candelário se endiabrou, por pen-sar que estava com doença má. titão passos era o pelo preço de amigos: só por via deles, de suas amizades foi que tão alto se ajagunçou. antônio dó — severo bandido. mas por metade; grande maior metade que seja. andalécio, no fundo um homem- -de-bem, estourado, raivoso em sua toda justiça. ricardão, mesmo, queria era ser rico em paz: para isso guerreava. só o hermógenes foi que nasceu formado tigre, e assassim. […] rosa, joão guimarães, grande…, cit. riobaldo atravessa o sertão com esses jagunços. o sertão mineiro é o espaço escolhido pelo escritor para as transformações, as aprendizagens das personagens. trata-se, portanto, de um espaço simbólico: pode ser qualquer espaço em que o ser humano se debata com suas dúvidas. clarice lispector clarice lispector (1920-1977) nasceu na ucrânia e faleceu no rio de janeiro. sua família veio da europa para o recife quando ela ainda era bebê. mais tarde, mudou para o rio de janeiro e lá entrou para a faculdade de direito e conheceu diversos escritores da época. ainda estudante, produziu seu primeiro romance, perto do coração selvagem. reconhecida pela preocupação em capturar e até definir o instante sobre o qual escreve, a prosa de clarice muitas vezes explora a revelação proporcionada por um instante que a princípio parece igual aos outros, parece fazer parte do cotidiano mais banal. o tempo tem importância fundamental em sua obra — escoa, se esvai e acaba. essa ideia de finitude a assusta, e a escrita resulta desse medo. ”o tempo não existe. o que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe”, afirma clarice em seu livro um sopro de vida. montante: que se eleva, sobe. supro: derivado de supra (acima). a escritora clarice lispector em sua residência. arquivo do jornal o estado de s.paulo/agência estado vpem3_un4_cap02_204a229.indd  221 4/15/10  3:06:14 pm</Page><Page Number="224">222  unidade 4 alexandre dubiela/arquivo da editora algumas características de sua obra encaminham o leitor para um questionamento de caráter existencial. podemos perceber, em seus textos, o destaque dado ao fluxo de consciência (a narrativa é tomada pelos pensamentos da personagem). assim, dá-se menos importância à sequência cronológica dos fatos, valem mais as reflexões, os questionamentos. a narrativa depende do universo íntimo das personagens. outra característica fundamental de sua obra é a epifania, ou seja, a descoberta, a surpresa que nasce da situação mais banal. em seus contos, as ações simples do cotidiano têm forte caráter revelador — há a esposa que percebe a fragilidade de sua vida ao deparar com um cego (em “amor”), há a senhora que percebe a finitude da vida durante sua festa de aniversário (em “feliz aniversário”), enfim, cenas do dia a dia que desencadeiam reflexões e revelações. clarice lispector apresenta personagens que parecem adap-tadas à sociedade, mas que, na verdade, não escapam de viver momentos de angústia e questionamento. leia um trecho de “amor”. amor 	 clarice lispector um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, ana subiu no bonde. depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. recostou- -se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. os filhos de ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. a cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. o calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. mas o vento batendo nas corti-nas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. como um lavrador. ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. e cresciam árvores. crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. ana dava a tudo, tranqui-lamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida. certa hora da tarde era mais perigosa. certa hora da tarde as árvores que plan-tara riam dela. quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. no entan-to sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blu-sas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sen-tido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu vpem3_un4_cap02_204a229.indd  222 4/15/10  3:06:18 pm</Page><Page Number="225">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  223 gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. no fundo, ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. e isso um lar perplexamente lhe dera. por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. o homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. o que sucedera a ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação pertur-bada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. assim ela o quisera e o escolhera. sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. assim chegaria a noite, com sua tranqui-la vibração. de manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. e alimenta-va anonimamente a vida. estava bom assim. assim ela o quisera e escolhera. […] lispector, clarice. laços de família. rio de janeiro: rocco, 2000. sintetizando a geração de 45 — poesia e prosa copie o esquema a seguir no caderno e complete-o com base no que foi estudado no capítulo.  os textos produzidos pela geração de 45 mostram uma ideia de renovação, de espírito inteligente, mas, sobretudo, de preocupação com os problemas humanos. com o fim da segunda guerra mundial, em 1945, instaura-se a nova ordem mundial, chamada de . o mundo vive entre os ideais do , representado , e os do , liderado no brasil, assistimos a um período em que se valoriza  a cultura norte-americana e o estilo de vida capitalista. são características da produção de 45 : a exatidão na forma e na palavra sugestiva; a participação social, e o interesse por explorações na linguagem. os escritores mais importantes do período são:  joão cabral de melo neto, guimarães rosa e clarice lispector. prof.(a), aceite outras possibilidades de resposta, desde que coerentes com o que foi estudado. guerra fria; comunismo; pelo socialismo da união soviética, em expansão; capitalismo; pelos estados unidos, que colaboram para a reconstrução de nações europeias e do japão, destroçados pela guerra). vpem3_un4_cap02_204a229.indd  223 4/15/10  3:06:19 pm</Page><Page Number="226">224  unidade 4 desafo responda às questões no caderno. 1	(puc-sp) e o tucano, o voo, reto, lento como se voou embora, xô, xô! mirável, cores pai-rantes, no garridir; fez sonho. mas a gente nem podendo esfriar de ver. já para o outro imenso lado apontavam. de lá, o sol queria sair, na região da estrela-d’alva. a beira do campo, escura, como um muro baixo, quebrava-se, num ponto, dourado rombo, de bordas estilhaçadas. por ali, se balançou para cima, suave, aos ligeiros vagarinhos, o meio-sol, o disco, o liso, o sol, a luz por tudo. agora, era a bola de ouro a se equilibrar no azul de um fio. o tio olhava no relógio. tanto tempo que isso, o menino nem exclamava. apanhava com o olhar cada sílaba do horizonte. sobre o trecho acima, do conto “os cimos”, de guimarães rosa, é incorreto afirmar que: a)	é texto descritivo caracterizador da natureza, representada pela presença da ave e do amanhecer. b)	utiliza recursos de linguagem poética como a onomatopeia, a metáfora e a enumeração. c)	descreve o tucano, utilizando frase nominal e de encadeamento de palavras com força adjetiva. d)	apresenta um estilo repetitivo que confunde o leitor e impede a manifestação da força poética do texto. x e)	pinta com luz e cor a linha do horizonte, onde em “dourado rombo, de bordas estilhaçadas”, nasce o sol. 2	(fuvest) 1. devo registrar aqui uma alegria. é que a moça num aflitivo domingo sem faro-fa teve uma inesperada felicidade que era inexplicável: no cais do porto viu um arco-íris. experimentando o leve êxtase, ambicionou logo outro: queria ver, como uma vez em maceió, espocarem mudos fogos de artifício. ela quis mais porque é mesmo uma verdade que quando se dá a mão, essa gentinha quer todo o resto, o zé-povinho sonha com fome de tudo. e quer mas sem direito algum, pois não é? (clarice lispector, a hora da estrela) considerando-se no contexto da obra o trecho sublinhado, é correto afirmar que, nele, o narrador: a)	assume momentaneamente as convicções elitistas que, no entanto, procura ocultar no restante da narrativa. b)	reproduz, em estilo indireto livre, os pensamentos da própria macabéa diante dos fogos de artifício. c)	hesita quanto ao modo correto de interpretar a reação de macabéa frente ao espetáculo. d)	adota uma atitude panfletária, criticando diretamente as injustiças sociais e cobrando sua superação. e)	retoma uma frase feita, que expressa preconceito antipopular, desenvolvendo-a na direção da ironia. 2. ele se aproximou e com voz cantante de nordestino que a emocionou, per-guntou-lhe: — e se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear? — sim, respondeu atabalhoadamente com pressa antes que ele mudasse de ideia. — e, se me permite, qual é mesmo a sua graça? x prof.(a), as questões de vestibular usadas nesta seção, em geral, foram transcritas literalmente, pois buscamos preservar sua configuração original. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  224 4/15/10  3:06:19 pm</Page><Page Number="227">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  225 — macabéa. — maca — o quê? — bea, foi ela obrigada a completar. — me desculpe mas até parece doença, doença de pele. — eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a nossa senhora da boa morte se eu vingasse, até um ano de idade eu não era chamada por-que não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém temmas parece que deu certo — parou um instante retomando o fôlego perdido e acrescentou desanimada e com pudor — pois como o senhor vê eu vinguei… pois é… — também no sertão da paraíba promessa é ques-tão de grande dívida de honra. eles não sabiam como se passeia. andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. e macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado: — eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor? da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que ensopava os ossos. sem nem ao me­nos se darem as mãos caminhavam na chuva que na cara de macabéa parecia lágrimas escorrendo. (clarice lispector, a hora da estrela) neste excerto, as falas de olímpico e macabéa: a)	aproximam-se do cômico, mas, no âmbito do livro, evidenciam a oposição cultural entre a mulher nordestina e o homem do sul do país. b)	demonstram a incapacidade de expressão verbal das personagem, reflexo da privação econômica de que são vítimas. c)	beiram às vezes o absurdo, mas, no contexto da obra, adquirem um sentido de humor e sátira social. d)	registram, com sentimentalismo, o eterno conflito que opõe os princípios antagônicos do bem e do mal. e)	suprimem, por seu caráter ridículo, a percepção do desamparo social e existencial das personagens. comparando textos patativa do assaré, conhecido poeta popular, apresenta em seus poemas figuras do povo, como o camponês, o mendigo, o sertanejo, ou seja, pessoas simples, muitas vezes vítimas de injustiças sociais. o poema “a triste partida”, por exemplo, conta a história de um retirante, que, por causa da seca, abandona suas terras e segue para são paulo, em busca de melhor sorte. leia com atenção algumas estrofes desse poema, musicado por luiz gonzaga: prof.(a), se houver possibilidade, ouça com seus alunos esse poema, musicado por luiz gonzaga. x alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un4_cap02_204a229.indd  225 4/15/10  3:06:22 pm</Page><Page Number="228">226  unidade 4 a triste partida 	 patativa do assaré meu deus, meu deus setembro passou outubro e novembro já tamo em dezembro meu deus, que é de nós, meu deus, meu deus assim fala o pobre do seco nordeste com medo da peste da fome feroz ai, ai, ai, ai […] agora pensando ele segue outra tria chamando a famia começa a dizer meu deus, meu deus eu vendo meu burro meu jegue e o cavalo nóis vamo a são paulo viver ou morrer ai, ai, ai, ai […] a seca terrívi que tudo devora lhe bota pra fora da terra natá ai, ai, ai, ai […] seu filho choroso exclama a dizer ai, ai, ai, ai de pena e saudade papai sei que morro meu pobre cachorro quem dá de comer? meu deus, meu deus já outro pergunta mãezinha, e meu gato? com fome, sem trato mimi vai morrer ai, ai, ai, ai […] assaré, patativa. inspiração nordestina. são paulo: hedra, 2003. a temática do poema de patativa do assaré assemelha-se à do poema “morte e vida severina”, de joão cabral de melo neto. releia o trecho do poema de joão cabral estudado (p. 205) e compare-o com o de “a triste partida”. 1	o discurso poético de joão cabral e o de patativa do assaré giram em torno de um mesmo problema social. releia a primeira estrofe de cada um desses textos e indique os elementos que revelam a triste realidade nordestina. a fome e a seca revelam o sofrimento do povo nordestino. 2	nas estrofes citadas desses poemas, as personagens dirigem-se a alguém por meio de um vocativo. quem é evocado em cada poema? seu josé, mestre carpina (em “morte e vida severina”) e deus (em “a triste partida”). 3	nos dois textos os diálogos aparecem de forma clara, mas somente em “morte e vida severina” são indica-dos por travessões. identifique os versos de “a triste partida” em que o diálogo também se faz presente. 4	escreva no caderno a(s) alternativa(s) que completa(m) a frase a seguir: ao deixar a personagem falar em um poema, o poeta pretende a)	representar o lamento do povo nordestino. x b)	resgatar um momento diferente da vida do nordestino. c)	apontar a dura realidade do nordestino. x “papai sei que morro / meu pobre cachorro / quem dá de comer? / mãezinha, e meu gato? / com fome, sem trato / mimi vai morrer”. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  226 4/15/10  3:06:22 pm</Page><Page Number="229">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  227 e por falar em gerações de novos escritores… como vocês estudaram ao longo deste capítulo, a geração de 1945 trouxe novos caminhos para a produção literária brasileira. os escritores buscavam conciliar modernidade e tradição. ao mesmo tempo que se voltam para a pesquisa e a experimentação estética da linguagem, preocupam-se com os problemas humanos, aprofundando a sondagem psicológica, com as questões sociais e regionais, escrevendo textos benfeitos, cuidados, de denúncia. a cada período literário, estudamos o autor inserido em um contexto histórico, que, muitas vezes, explica a opção que ele teve para escrever daquele modo. no tempo que você está vivendo também é assim: acontecem fatos históricos que levam os escritores a produzir um texto de determinado jeito. e você sabe que jeito é esse do seu tempo, da sua época? é isso que propomos agora: em grupos, pesquisem os poetas que formam a geração de 2010. com o  resultado da pesquisa, preparem uma pequena antologia com a biografia breve desses autores e dois poemas que vocês considerem interessantes. escrevam uma introdução para a antologia destacando as características comuns a essa produção. a anto-logia pode ser escrita em folhas avulsas, que serão entregues ao professor, ou em papel craft, que pode ser usado para exposição. no dia combinado, apresentem o resultado da pesquisa aos colegas da classe. no mundo da oralidade para apresentar os resultados da pesquisa sobre os poetas da geração de 2010, sugerimos que cada grupo prepare um seminário. seminário o seminário é um gênero oral que tem por objetivo transmitir conhecimentos sobre um assunto pes-quisado. para tanto, é necessária a presença de um apresentador — o especialista no assunto — e de um público, no caso a sala de aula, que quer aprender sobre o que foi pesquisado. a organização do texto seminário feita a pesquisa e organizadas as antologias, o objetivo da apresentação deve estar claro: fazer a classe conhecer poetas contemporâneos. para garantir que esse objetivo será atingido, o grupo deve pensar em uma organização textual que ajude a plateia a compreender o que será exposto. em primeiro lugar, o apresentador deve situar os ouvintes, logo na abertura do seminário: “hoje nós estamos aqui para falar sobre …”. essa apresentação deve ser seguida de uma problemática, ou seja, é importante partir do que já sabem para identificar as expectativas quanto ao novo assunto: “vocês diriam que um texto como esse (o apresentador lê um poema pesquisado) seria literatura?”. em segundo lugar, apresenta o plano de exposição: em que partes o seminário será dividido, quais alunos apresentarão cada parte e qual o objetivo dessa exposição. para desenvolver o tema, cada aluno do grupo pode apresentar um novo artista, falar das características pesquisadas, mostrar exemplos dessas características, ler as novas produções poéticas. o importante é que, entre a exposi-ção de um aluno e a de outro, haja coesão, ou seja, não pareçam falas independentes, mas falas que acrescentem, ampliem, retomem o que já foi dito pelo colega. para isso podem ser usados elementos prof.(a), antes de iniciar esta atividade, leia no manual do professor o texto “a exposição oral”, de dolz e schneuwly, que trata de seminário. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  227 4/15/10  3:06:22 pm</Page><Page Number="230">228  unidade 4 linguísticos de coesão, como, por exemplo, “além das características que fulano comentou, vejamos agora neste poema…”; “vocês ouviram a leitura do poema tal que evidencia tais e tais características. ouçam, agora este poema…”. para que a apresentação do grupo não perca o foco, é preciso que, enquanto um dos apresenta-dores expõe sua parte, os demais não mantenham conversas paralelas (com algum colega do grupo ou mesmo da plateia) e procurem contribuir, auxiliando o colega com algum comentário pertinente, fazen-do alguma anotação importante na lousa, ajudando com cartazes, ou simplesmente acompanhando a exposição do colega. durante essa parte da apresentação, o grupo que estiver expondo deve ficar atento aos sinais dos ouvintes: se parecem interessados; se conversam — nesse caso, a apresentação do grupo pode estar fra-ca —; se têm dúvidas; etc. nessa situação, repitam, deem a informação de outra maneira, reformulem, definam, façam perguntas, etc. é claro que, para isso, é importante que os expositores dominem o assunto, conheçam bem todas as partes e não leiam a apresentação. por fim, o apresentador deve concluir a apresentação, informando o assunto que trataram e deixando à classe um novo problema: “será que se divulgam adequadamente esses novos artistas?”. a linguagem oral na apresentação do seminário, os alunos devem usar a variedade-padrão da língua. para organizar o texto oral de forma que a plateia possa entendê-lo e acompanhá-lo, o apresentador deve: evitar certas expressões comuns da linguagem oral como: “tipo”, “tá?”, “né?” e “ahn…”, para não  prejudicar a fluência da exposição; empregar palavras, expressões, ideias específicas do tema tratado e explicar à plateia seu significado  sempre que necessário; usar alguns conectivos temáticos, como, por exemplo, as expressões: ”falemos agora”, ”é preciso  neste momento”, “chegamos ao artista tal”, etc.; sinalizar o texto para a plateia, isto é, usar expressões que mostrem o que é mais importante e o  que é secundário, como: “esses autores”, “é importante conhecer”, “logo”, etc. aproveite para… … ler primeiras estórias  , de guimarães rosa, editora nova fronteira contos com a linguagem e as descrições de personagens do sertão de minas gerais. sagarana  , de guimarães rosa, editora nova fronteira outro livro de contos do autor. a temática é também o sertão e as pessoas que aí vivem. a linguagem inventada, a técnica elaborada e os experimentos linguísticos que marcam a obra do autor estão presentes nesses textos. morte e vida severina  , de joão cabral de melo neto, editora objetiva história de severino e sua viagem do sertão ao litoral, em busca de uma vida melhor, sem seca e sem fome. o cão sem plumas  , de joão cabral de melo neto, editora objetiva lançado na década de 1950, quando o autor morava em barcelona, o livro traz poemas de peso e seus quatro primeiros livros, entre eles, o engenheiro. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  228 4/15/10  3:06:22 pm</Page><Page Number="231">capítulo 2 – geração de 1945 — poesia e prosa  229 a hora da estrela  , de clarice lispector, editora rocco macabéa é uma nordestina que não tem a menor consciência de sua pobre existência. relatando o dia a dia da garota no rio de janeiro, o livro traz profunda reflexão sobre a condição humana. felicidade clandestina  , de clarice lispector, editora rocco o livro traz 25 contos sobre infância, adolescência e família, sempre sob o olhar da alma e suas angústias. folha explica: joão cabral de melo neto  , de joão alexandre barbosa, editora publifolha folha explica: clarice lispector  , de yudith rosenbaum, editora publifolha folha explica: guimarães rosa  , de walnice nogueira galvão, editora publifolha na série da publifolha, a editora traz textos de professores e especialistas comentando as obras consa-gradas de escritores conhecidos e renomeados. … assistir veredas de minas  , de fernando sabino e david neves (brasil, 1975) nesse documentário, conversa-se com homens do sertão que inspiraram personagens a guimarães rosa. também há trechos dos filmes a criação literária de guimarães rosa, de paulo thiago (1968), do sertão ao beco da lapa, de maurice capovilla (1972), e a joão guimarães rosa, de roberto santos (1966). a hora e a vez de augusto matraga  , de roberto santos (brasil, 1965) baseado no conto de mesmo nome escrito por guimarães rosa, o filme conta a história de matraga, fazendeiro violento traído pela mulher, que é tido como morto. ele sobrevive, torna-se religioso e vive o drama de decidir entre se vingar e pagar pelos crimes cometidos.   a hora da estrela, de suzana amaral (brasil, 1986) baseado no romance de mesmo nome escrito por clarice lispector, esse filme conta a história da nordestina macabéa, que vive numa cidade grande. a terceira margem do rio  , de nelson pereira dos santos (brasil, 1994) esse filme, baseado em conto de mesmo nome escrito por guimarães rosa, conta a história de um homem que abandona sua família e os amigos para morar numa canoa, no meio do rio. recife/sevilha — joão cabral de melo neto  , de bebeto abrantes (brasil, 2003) documentário sobre o poeta e as cidades mais presentes em sua obra: recife e sevilha. outras estórias,   de pedro bial (brasil, 1999) trata-se da filmagem de diversos contos do livro primeiras estórias, de guimarães rosa. … ver na internet www.uol.com.br/augustodecampos/home.htm / www.haroldodecampos.com.br  sites com obras e biografia de dois dos maiores autores concretistas do país, os irmãos campos. www.poiesis.org.br/mlp/  site do museu da língua portuguesa, localizado em são paulo, que se dedica à preservação da nossa língua e a obras que são escritas nela. no site, há biografia, curiosidades e listas dos livros dos maiores autores do país. … ouvir trilha sonora da peça   morte e vida severina, gravada por chico buarque (1966) ou elba ramalho (1977) músicas escritas para a peça de teatro morte e vida severina. embrafilme/divulgação/ arquivo da editora os atores marcélia cartaxo e josé dumont. vpem3_un4_cap02_204a229.indd  229 4/15/10  3:06:23 pm</Page><Page Number="232">pontos de vista nesta unidade, você vai estudar o gênero artigo de opinião, texto argumentativo que apresenta e defende um ponto de vista com objetivo de convencer, e a primeira parte das produções literárias brasileiras depois da geração de 1945, época conturbada pelo final da segunda guerra mundial, pela publicação da “declaração dos direitos humanos”, pela insa-tisfação trabalhista no brasil, enfim época de mudanças e de se externarem opiniões. paulo salomão/editora abril unidade 5 iii festival da música popular brasileira, são paulo, 1967. o país vive um período de grande agitação política, e os protestos começam a surgir nas áreas da cultura. na música, aparecem os festivais e, com eles, novos artistas, que compõem músicas de caráter social. na foto, a torcida pelas canções roda-viva, de chico buarque, e domingo no parque, de gilberto gil, interpretada por ele e a banda de rock os mutantes. com o aparecimento da tropicália no final dos anos 1960, o som das guitarras elétricas incorporou-se à música popular. 230 vpem3_un5_cap01_230a249.indd  230 4/15/10  3:10:47 pm</Page><Page Number="233">231 1 capítulo o artigo de opinião antes de ler observe a seguir um modelo de currículo: nome completo idade, nacionalidade, estado civil endereço telefone, e-mail área de atuação área em que deseja trabalhar formação acadêmica • nome da instituição de ensino superior graduação em  — ano de formação estágio nome da empresa em que fez o estágio, duração idioma • idioma — nível de fluência experiência profissional período em que trabalhou — nome da empresa cargo: principais realizações: principais cursos com base no modelo de currículo acima, elabore, em uma folha, o currículo que você gostaria de ter  daqui a dez anos. indique a profissão que pretende seguir, as experiências profissionais pelas quais espera passar, as línguas estrangeiras que conhece ou pretende aprender nos próximos anos, os cursos técnicos ou acadêmicos que deseja fazer. em outra folha, copie o modelo apresentado no livro e complete-o com dados do seu currículo atual. compare os dois e aventure-se a fazer um pequeno planejamento das etapas necessárias ao alcance do currículo ideal, partindo evidentemente do ponto em que você se encontra. troque o resultado com alguns colegas e discutam os caminhos possíveis atualmente para se alcançar a situação profissional sonhada. prof.(a), se no colégio houver laboratório de informática com computadores conectados à internet, marque a aula com antecedência nesse espaço e peça ao responsável que abra uma das seguintes páginas para a realização de um teste vocacional interativo: http://guiadoestudante.abril.com.br; http://psu.terra. com.br//testevocacional.php; www.enciclopedia.com.br. prof.(a), encoraje os alunos a refletir sobre as questões relacionadas à carreira, sobre as condições que o governo, as instituições e o próprio mercado de trabalho oferecem a quem está iniciando sua vida profissional. elaborar um currículo nem sempre é tarefa fácil. jose luis pelaez, inc./corbis/latinstock vpem3_un5_cap01_230a249.indd  231 4/15/10  3:10:49 pm</Page><Page Number="234">232  unidade 5 texto 1 o artigo de opinião a seguir apresenta uma crítica à proposta de novas regulamentações para os está-gios oferecidos a universitários. preste atenção nos argumentos do articulista e verifique os princípios em que ele e os autores da proposta se baseiam para defender suas ideias. falsos estágios 	 cláudio de moura castro muito se fala e se escreve sobre os estágios. alguns decantam incansavelmente suas virtudes. mas tambémdenunciam-se os estágios como forma disfarçada de con-tratação de mão de obra barata. por isso, tramitam novas regulamentações, visando a coibir tais abusos, estabelecendo limites às tarefas pertinentes aos estagiários, bem como reduzindo sua jornada de trabalho e proibindo o trabalho produtivo. aqueles que acusam o estágio de ser uma forma disfarçada de emprego a baixo custo estão cobertos de razão. do milhão de estágios, boa parte é exatamente isso. contudo, esse é umde seus méritos. grande número de jovens tira xerox, leva papéis, executa os trabalhos mais simples e desinteressantes dos escritórios. no fundo, não são estágios legítimos. são empregos simplórios reservados para estudantes. mas é assim que os jovens financiam os estudos. sem esses falsos estágios, muitos deles estariam impedidos de estudar, pois não disporiam de recursos para pagar a mensalidade da escola. em outras palavras: diante de uma legislação traba-lhista que desencoraja o emprego, o estágio é uma saída, ainda que seja pela porta dos fundos. é bom para a empresa, pois é mão de obra mais barata. pesquisas mos-tram que os (falsos) estagiários também gostam, o trabalho permite-lhes muito aprendizado útil. é infinitamente melhor do que o desemprego. as companhias têm diferentes razões para acolher estagiários. essa pode ser a principal estratégia para selecionar seus futuros funcionários de primeira linha. nessa lógica, atraem os melhores candidatos e investem neles. seu número não depende de leis protegendo os estagiários, mas das políticas de contratação vigentes na empresa e do dinamismo da economia. bem sabemos que há pouca criatividade e inadequado aproveitamento dos estagiários. contudo, as leis são impotentes para mudar isso. outra razão para receber estagiários é o fato de obter trabalho temporário ou serviços adicionais a baixo custo. não são reais está-gios, mas empregos simples para estudan-tes, garantidos por uma reserva de mercado. enquanto for mais barato, contrata-se um estagiário para tirar xerox. se a lei não deixa o estagiário produzir “de verdade”, limita as horas de presença no trabalho e cria outros constrangimentos, a empresa preferirá con-tratar office boys. as restrições em discussão poderão ter um efeito devastador sobre os nick clements/taxi/getty images tirar cópia xérox é um trabalho muitas vezes feito  por estagiários, mas… será que o habilita a exercer  sua profissão? vpem3_un5_cap01_230a249.indd  232 4/15/10  3:10:50 pm</Page><Page Number="235">capítulo 1 – o artigo de opinião  233 ­falsos estágios, por uma questão elementar de racionalidade econômica. muitos dirão, ora vivas, taparemos um buraco na lei. para as empresas, a perda será limitada. mas acontece que são ínfimas as chances que têm esses alunos modestos de arranjar verdadeiros estágios, competindo com colegas academicamente mais fortes. mas o prejuízo atinge também os reais estágios, oferecidos pelas grandes empresas. os autores da proposta de lei, pelo que se depreende, nunca entraram em uma empresa e jamais entenderam a lógica do “aprender fazendo”, mais velha e tão respeitável quanto a escola. pelas novas regras, um aluno de marcenaria deve aprender a serrar em tábuas que serão jogadas fora. contudo, há muitos conhe-cimentos que só podem ser adquiridos pelo exercício da ocupação. um aprendiz nas tarefas gerenciais ou administrativas não pode decidir e jogar fora a decisão. aprende-se executan-do, “de verdade”, tarefas mais simples ou ajudando colegas mais experientes. se os estagiários não podem produzir, não podem aprender. portanto, é tudo “de fingidinho”, empobrecendo o processo de aprendizado dos reais estagiários. os clássicos beneficiários da atual flexibilidade da lei são os mais pobres. como tentar consertar a clt é encrenca certa, deixar como está seria o mal menor. de fato, os estágios financiam a educação de 28% dos universitários (em sp). são mais alunos do que no prouni e no fies. quantos estágios desaparecerão com a nova lei? mas há lógica nessa burrice. a legislação brasileira já conseguiu varrer do mapa o milenar sis-tema de aprendizagem. é perfeitamente esperado que agora se dedique a destruir os estágios, outra forma de aprender fazendo. revista veja, 17 out. 2007. interpretação do texto 1	o artigo de opinião “falsos estágios” destaca duas posições, a da sociedade e a dos legisladores, sobre essa fase preparatória para o exercício de uma profissão. a qual dessas posições o articulista se opõe? 2	o próprio articulista admite que o estágio muitas vezes nada mais é do que um emprego de baixo salá-rio disfarçado. assim mesmo, levanta uma série de argumentos defendendo que esse tipo de emprego continue como está. destaque três deles. 3	em que consiste a nova proposta de regulamentação para os estágios? 4	no sexto parágrafo, o articulista afirma que, por essa nova regulamentação, os “reais” estágios ofere-cidos pelas grandes empresas também serão prejudicados. em sua argumentação, ele usa um exemplo contrário a um dos itens da proposta de mudança na lei. indique o exemplo e a forma como a ideia é desenvolvida no parágrafo. o articulista opõe-se à ideia de nova regulamentação que torne a contratação de estagiários desvantajosa para as empresas, além de se opor à ideia de o estagiário não poder produzir de fato. 1. os estágios não legítimos transformam-se num meio de estudantes mais pobres financiarem seus estudos. 2. as empresas contratam porque o estagiário representa mão de obra mais barata. 3. é infinitamente melhor que o desemprego. 4. se a legislação for alterada, as empresas podem preferir contratar office boys a estagiários, e os alunos modestos, que não têm chances de concorrer com estudantes mais bem preparados academicamente, ficarão sem o estágio de verdade e sem meios de financiar seus estudos. a sugestão é haver limites às tarefas pertinentes aos estagiários, redução da jornada de trabalho e proibição de trabalho produtivo. 	 segundo a nova regulamentação, um aluno de marcenaria, por exemplo, aprenderia a serrar em madeiras que seriam jogadas fora. para ele, isso contraria o aprender fazendo. um estagiário de administração não poderia, por exemplo, tomar uma decisão e jogá-la fora. clt: consolidação das leis do trabalho, principal norma legislativa brasileira referente ao direito do trabalho. coibir: refrear, impedir. decantar: celebrar em cantos ou versos. fies: programa de financiamento estudantil, destinado a financiar a graduação no ensino superior de estudantes que não têm condições de arcar com sua formação e estejam regularmente matriculados em instituições não gratuitas cadastradas nesse programa e com avaliação positiva nos processos conduzidos pelo mec. ínfimo: que possui pouca importância. prouni: programa universidade para todos, que tem como finalidade a concessão de bolsas de estudos (integrais ou parciais) a estudantes de baixa renda, em cursos de graduação e sequenciais de formação específica, em instituições privadas de educação superior. tramitar: seguir o curso regular para a consecução de algo. vigente: que está em vigor. vpem3_un5_cap01_230a249.indd  233 4/15/10  3:10:51 pm</Page><Page Number="236">234  unidade 5 em novembro de 2007, o senado aprovou substitutivo a projeto de lei (pls 473/03) regulamentan-do o estágio de estudantes de instituições de educação superior, de educação profissional, de ensino médio, de educação especial e de educação de jovens e adultos. de acordo com esse substitutivo, o estágio — obrigatório ou não — não cria vínculo empregatício. a instituição concedente do estágio deve oferecer seguro contra acidentes pessoais ao estagiário, obrigado a apresentar relatórios semestrais da atividade. além de órgãos públicos e empresas privadas, podem contratar estagiários profissionais liberais de nível superior registrados no respectivo conselho profissional. em relação à jornada de está-gio, deve ser de quatro horas diárias e vinte horas semanais para os estudantes de educação especial e de educação de jovens e adultos. para os estudantes do ensino superior, de educação profissional e ensino médio, a carga horária é de seis horas diárias e trinta horas semanais. a duração máxima do estágio na mesma empresa é de dois anos (exceto para estagiário com necessidades especiais) e, nos estágios com duração igual ou superior a um ano, é garantido recesso de trinta dias. 5	fica claro, ao longo do desenvolvimento do texto, que articulista e proponentes da nova regulamenta-ção de estágios raciocinam com base em pontos de vista completamente diferentes. em que princípios se baseia o raciocínio de cada um? 6	com qual das duas ideias você concorda? levante argumentos que possam convencer seus leitores. texto 2 o texto a seguir, escrito por uma psicanalista, revela que existem hoje novas formas de se encarar pro-fissões antigas que podem indicar novos caminhos para os jovens interessados em escolher uma carreira. jeitos novos anna veronica mautner há pouco tempo, quando jovens oriundos da classe média ascendente ou da burguesia não queriam seguir do colegial para a universidade, como era esperado, famílias inteiras entravam em polvorosa. o que vai ser dele? — perguntavam-se todos. e a vida em casa virava um pesadelo. nesta virada para o século 21, proliferam profissões de prestígio que exigem destreza, talento e conhecimento, mas não obrigatoriamente diploma. muitos filhos de famílias em que pai e mãe ostentam diplomas universitários optam por artes/ artesanato, artes/comunicação, artes/artes. e mesmo assim não é mais “banido” da família aquele que abre um pequeno comércio de coisas especiais ou que vai para o design, partindo da marcenaria, ou para a confecção, partindo da moda/estilismo. não é do curso universitário de nutrição que o jovem embarca na carreira de chef, e sim pela prática do fogão, eventualmente por um curso breve no senac. só muito eventualmente, não obrigatoriamente, alguns chefs ostentam cursos de hotelaria. o mesmo ocorre com quem opta por jardinagem/paisagismo, ourivesaria, tecelagem, criação de papéis especiais, além de música, teatro, esportes, atividades ligadas ao bem-estar, como massagem ou ginástica. a posição social do artesão que cria todo esse “luxo sob medida” sofreu enorme transformação nas últimas décadas. se é por isso que se formou essa nova elite ou se foi essa nova elite que provocou essa mudança, não sei. ocorreu paralelamente­ os criadores da proposta acreditam que o estágio só pode ser válido se cumprir a função a que se destina: manter uma pessoa por algum tempo em uma empresa para que ela tenha a oportunidade de se aprimorar profissionalmente. assim, não poderiam ser consideradas válidas aquelas ocupações que desviam o aprendiz da função que o leva a estar em determinado posto, em certo local. o articulista considera melhor um “falso” estágio do que nenhum emprego. ele acredita que a nova regulamentação vá coibir as contratações e tirar o trabalho de gente que precisa dele. vpem3_un5_cap01_230a249.indd  234 4/15/10  3:10:51 pm</Page><Page Number="237">capítulo 1 – o artigo de opinião  235 com certeza. até os meados do século 20, aqueles que nos tornavam especiais entre os especiais, os artesãos-artistas, eram valorizados, prezados, respeitados e até, de certa maneira, festejados. cada consumidor se orgulhava, exibia ou até escondia seu artesão. mas, até muito pouco tempo atrás, por mais preciosos que fossem, entravam ou pela porta dos fundos ou pela lateral. podia haver até intimi-dade, mas nunca um convívio público. atualmente, os artesãos-artistas são espe-rados na porta da frente e exibidos como trunfos na vida pública de seus clientes. e nos penúltimos tempos andam penetrando até no afetivo e no familiar. as críticas incessantes feitas ao estilo de vida que os executivos de grandes corporações levam fazem com que os jovens mais bem informados venham a se desinteressar dessas carreiras. eles não se deixam seduzir pelo canto das sereias que prometem viagens, hotéis, prêmios e outras tantas mordomias. a ideia de qualidade de vida vai tendo uma influência decisiva na escolha de uma carreira. paralelamente à importância da qualidade de vida, os jovens sentem uma pressão forte e ininterrupta para se distinguirem do anonimato. para tanto, pelo menos dois caminhos estão abertos: o da criação e o do uso de objetos especiais que vão definir um estilo. o primeiro passo desta escalada para a modernidade está em ser, pelo menos, igual aos outros, para imediatamente após procurar uma forma de emergir da igualdade para a individualidade. a produção industrial em larga escala responsabiliza-se por suprir o necessário para este primeiro passo. os artífices que esculpem e projetam as novas possibilidades de ser e de usar foram agraciados com uma posição preferencial na escala social. isso vem abrindo um enorme leque de novas opções de carrei-ra que antes pertenciam exclusivamente à classe média baixa. assim, hoje, a bor-dadeira, a modista, o ourives, o designer, o chef, o dono de pousada vão adquirindo status de nova e invejável elite que tem a função de realimentar a si própria e a seus pares. essa transformação vai mexendo com o esquema de profissionalização. mas sobre isso vou falar em um outro dia. só vou adiantar que um dos atra-tivos destas novas profissões nobres e assinadas está na liberdade de escolher o mestre com quem aprender, enquan-to a formação tradicional impunha aos alunos necessidades de um certo saber e de um professor. quando nos afasta-mos dos caminhos tradicionais, não só escolhemos novas carreiras como esco-lhemos um estilo de vida e, de uma certa forma, uma certa liberdade. folha de s.paulo, 7 set. 2000. folhapress. agraciado: sortudo. destreza: habilidade, aptidão. proliferar: multiplicar-se rapidamente. suprir: prover, completar. photononstop/agence france-presse entre as profissões que ganharam prestígio nos últimos anos está a de pâtissier, um especialista em doces. vpem3_un5_cap01_230a249.indd  235 4/15/10  3:10:52 pm</Page><Page Number="238">236  unidade 5 interpretação do texto 1	o título do texto é “jeitos novos”. a que jeitos novos a articulista se refere? 2	a organização geral do texto indica que a autora é contrária ou favorável a esses “jeitos novos”? aponte três passagens do texto que justifiquem sua resposta. 3	releia: a posição social do artesão que cria todo esse “luxo sob medida” sofreu enorme transformação nas últimas décadas. a que transformação a autora do texto se refere? 4	releia os trechos e preste atenção nos destaques:  o mesmo ocorre com quem opta por jardinagem/paisagismo, ourivesaria, tecelagem, cria-ção de papéis especiais, além de música, teatro, esportes, atividades ligadas ao bem-estar, como massagem ou ginástica.  se é por isso que se formou essa nova elite ou se foi essa nova elite que provocou essa mudança, não sei. para tanto  , pelo menos dois caminhos estão abertos: o da criação e o do uso de objetos especiais que vão definir um estilo. assim  , hoje, a bordadeira, a modista, o ourives, o designer, o chef, o dono de pousada vão adquirindo status de nova e invejável elite que tem a função de realimentar a si própria e a seus pares. a organização textual revela uma trama em que todos os elementos destacados recuperam uma informação, para em seguida acrescentar o elemento necessário à progressão do texto, ou seja, parte-se de uma ideia já desenvolvida para, em seguida, completá-la. vejamos como esses trechos podem exemplificar essa ideia: a)	o termo o mesmo, destacado no primeiro trecho, recupera uma situação descrita anteriormente. qual? b)	que informação o demonstrativo isso recupera? c)	a expressão para tanto introduz uma ação necessária à realização de uma ideia apresentada ante-riormente. que ideia é essa? os jovens sentem-se pressionados a distinguirem-se do anonimato. d)	qual é a ação necessária introduzida por para tanto? a criação e o uso de objetos especiais que definirão um estilo. e)	no último trecho destacado, assim indica que a informação a ser dada é a conclusão de outras já apresentadas. que informações essa palavra recupera? f)	o que significa, nesse contexto, ter a função de “realimentar a si própria e a seus pares”? ou seja, de que maneira essa “nova e invejável elite” se realimenta e de que maneira alimenta seus pares? refere-se a novas maneiras de se adquirir uma profissão, de se especializar em determinada área sem, necessariamente, fazer o percurso tradicional seguido pela classe média, que envolve a obtenção do diploma universitário. a organização geral do texto sugere ser ela favorável a esses novos jeitos: “os artífices que esculpem e projetam as novas possibilidades de ser e de usar foram agraciados com uma posi-ção preferencial na escala social. isso vem abrindo um enorme leque de novas opções de carreira que antes pertenciam exclu-sivamente à classe média baixa”; “só vou adiantar que um dos atrativos destas novas profissões nobres e assinadas está na li-berdade de es-colher o mes-tre com quem aprender, enquanto a formação tradicional impunha aos alunos necessidades de um certo saber e de um professor”; “quando nos afastamos dos caminhos tradicionais, não só escolhemos novas carreiras como escolhemos um estilo de vida e, de uma certa forma, uma certa liberdade”. até meados do século xx, os artesãos eram festejados, prezados e respeitados, mas, por mais importantes que fossem, entravam pela porta dos fun-dos e não faziam parte do convívio familiar. atualmente são esperados na porta da frente e exibidos como trunfos na vida pública de seus clientes. 	 a de pessoas que desenvolvem um ofício a partir da prática, sem necessariamente passar por algum tipo de curso formal ou superior. 	 a transformação social do artesão, que passa de profissional subalterno a elite no meio em que trabalha.prof.(a), observe com os alunos que essa informação só se completa com a explicação que vem a seguir. 	 devido ao status adquirido por profissões que não exigem for-mação acadêmica, hoje se abriu um leque imenso de opções de carreiras que antes se destinavam às classes médias baixas. ao adquirir status por sua escolha profissional, essas pessoas reforçam suas opções e as daquelas que fizeram o mesmo percurso e foram reco-nhecidas por ele. emiliano capozoli b./folha imagem estudantes em aula do curso de moda do centro universitário do senac, no bairro de santo amaro, em são paulo, 2005. vpem3_un5_cap01_230a249.indd  236 4/15/10  3:10:53 pm</Page><Page Number="239">capítulo 1 – o artigo de opinião  237 desenvolvendo habilidades leitoras ao interpretar os artigos de opinião, você: identificou a posição adotada pelos articulistas;  observou os argumentos usados a favor da opinião deles;   verificou a trama textual do segundo texto e o modo de relacionar as informações usado   pela articulista; identificou, a partir desses termos, os dados recuperados.   conhecimentos linguísticos concordância (nominal e verbal) 1 leia com atenção esta definição de concordância: concordância é um mecanismo pelo qual o verbo concorda em número e pessoa com o sujeito da oração (concordância verbal ) e adjetivos, artigos, pronomes e alguns numerais concordam em gênero e número com o substantivo a que se referem (concordância nominal). nas frases a seguir foram destacados alguns casos de concordância. leia-as com atenção, retome a definição acima e diga se são casos de concordância nominal ou verbal. justifique sua resposta usando a definição. a) “nesta virada para o século 21, proliferam profissões de prestígio […]” b) “até os meados do século 20, aqueles que nos tornavam especiais entre os especiais, os artesãos- -artistas, eram valorizados, prezados, respeitados e até, de certa maneira, festejados.” c) “assim, hoje, a bordadeira, a modista, o ourives, o designer, o chef, o dono de pousada vão adquirindo status […]” d) “mas é assim que os jovens financiam os estudos.” e) “mas acontece que são ínfimas as chances que têm esses alunos modestos de arranjar verdadeiros estágios […]” casos de concordância verbal 2 leia com atenção algumas regras básicas de concordância verbal: 1. sujeito simples — o verbo concorda em pessoa e número com o núcleo desse sujeito. 2. sujeito composto — em geral o verbo é usado na 3ª- pessoa do plural. 3. sujeito composto com um dos núcleos em 1ª- pessoa — verbo é usado na 1ª- pessoa do plural. relacione, no caderno, as frases a seguir com as regras apresentadas. a) jardinagem/paisagismo, ourivesaria, tecelagem, criação de papéis especiais são ótimas opções profissionais. 2 b) “eles não se deixam seduzir pelo canto das sereias…” 1  concordância verbal — o verbo (pro-liferar) está no plural porque o sujeito simples (profissões de prestígio) tem por núcleo um substantivo que está no plural (profissões). concordância nominal — as marcas de número (plural) e gênero (masculino) do substantivo (artesãos-artistas) foram assumidas pelo adjetivo (valorizados) e pelo artigo (os).  concordância verbal — a locução verbal (ir adquirindo) está no plural porque o sujeito composto (a borda-deira, a modista, o ourives, o designer, o chef, o dono de pousada) tem por núcleo mais de um substantivo. concordância verbal — o verbo (financiar) está no plural porque o sujeito simples (os jovens) tem por núcleo um substantivo plural.  concordância nominal — o adjetivo (ínfimas) e o artigo (as) concordam em número (plural) e gênero (feminino) com o substantivo (chances). vpem3_un5_cap01_230a249.indd  237 4/15/10  3:10:54 pm</Page><Page Number="240">238  unidade 5 c)	muitos universitários e inclusive eu acreditamos que o diploma nos dias atuais pode não ser o cami-nho do sucesso. 3 d)	“a ideia de qualidade de vida vai tendo uma influência decisiva na escolha de uma carreira.” 1 e)	“[…] a modista, o ourives, o designer, o chef, o dono de pousada vão adquirindo status…” 2 f)	o canto das sereias promete sonhos que não se realizam. 1 3	os verbos haver e fazer que aparecem nas frases a seguir são impessoais; portanto, não têm um sujeito com o qual concordar. leia todas com atenção. a)	havia dois meses apenas que ela partira. 	 haviam dois meses apenas que ela partira. b)	fazia meses que universitários buscavam estágios remunerados. 	 faziam meses que universitários buscavam estágios remunerados. c)	fazia anos que não se viam alunos do ensino médio desistirem da universidade. 	 faziam anos que não se viam alunos do ensino médio desistirem da universidade. d)	houve mudanças radicais de papéis. 	 houveram mudanças radicais de papéis. em cada dupla há uma frase que não é aceita pela variedade-padrão (aquela ditada pelas gramáticas) da língua. indique-a e justifique no caderno sua resposta. 4	quando o sujeito do verbo é um pronome relativo, o verbo concorda com o termo que o antecede. reescreva as frases a seguir no caderno, completando-as com os verbos indicados nos parênteses. identifique o antecedente do pronome relativo e faça a concordância adequada. a)	“aqueles que  o estágio de ser uma forma disfarçada de emprego a baixo custo estão cobertos de razão.” (acusar — presente do indicativo) acusam b)	o limite da jornada de estágio, que, para estudantes do ensino superior, médio e de educação profissional,  de seis horas diárias, está previsto pela nova lei. (ser — presente do indicativo) é c)	“[…] diante de uma legislação trabalhista que  o emprego, o estágio é uma saída, ainda que seja pela porta dos fundos.” (desencorajar — presente do indicativo) desencoraja d)	“pelas novas regras, um aluno de marcenaria deve aprender a serrar em tábuas que  jogadas fora.” (ser — futuro do presente do indicativo) serão e)	nós que  a importância de qualquer estágio para um universitário inexperiente, pedimos cuidado com a possibilidade de mudança da lei. (saber — presente do indicativo) sabemos f)	eu que  estágios que não  relacionados ao meu curso universitário, sei como eles são importantes. (fazer — pretérito perfeito do indicativo; estar — pretérito imperfeito do indicativo) fiz; estavam 5	quando o sujeito do verbo ser ou parecer é representado pelos pronomes isto, isso, aquilo, tudo, nada ou pelas expressões de sentido coletivo o resto, o mais e o predicativo do sujeito estiver no plural, o verbo deve ser usado na 3ª- pessoa do plural. reescreva as frases a seguir no caderno, completando-as com os verbos ser ou parecer no presente do indicativo, fazendo a con-cordância. a)	tudo  profissões dignas. são/parecem b)	isso  tendências do mundo atual. são/parecem c)	isto  profissões prestigiadas. são/parecem d)	o resto  objetos sem valor. são/parecem e)	o mais  palavras vazias. são/parecem prof.(a), recorde com os alunos que o verbos haver no sentido e “existir” e fazer indicando tempo cronológico ou meteorológico são impessoais e, por isso, ficam sempre na 3ª- pessoa do singular. 	 a segunda frase de cada dupla está incorreta, porque os verbos impessoais não podem ser flexionados; devem ser usados na 3ª- pessoa do singular, uma vez que não há sujeito nas orações. vpem3_un5_cap01_230a249.indd  238 4/15/10  3:10:55 pm</Page><Page Number="241">capítulo 1 – o artigo de opinião  239 6	leia as regras expostas a seguir e complete as frases fazendo a concordância adequada dos verbos entre parênteses. 1º- caso — quando ocorre um sujeito formado pelas expressões coletivas a maior parte, a maioria seguidas de um adjunto adnominal no plural, o verbo pode concordar com o núcleo do sujeito no singular ou com o adjunto adnominal no plural. a)	a maior parte dos alunos já  a bibliografia de literatura do vestibular. (ler — pretérito perfeito do indicativo) leu/leram b)	a maioria dos universitários  de estágios remunerados. (precisar — presente do indicativo) c)	a maior parte dos caminhos  ao sucesso. (levar — presente do indicativo) leva/levam 2º- caso — quando aparecem as expressões cerca de, perto de, mais de, o verbo concorda com o numeral. d)	perto de cem estudantes  estágios em boas empresas. (conseguir — pretérito perfeito do indicativo) e)	cerca de trezentos universitários não  o que fazer com o diploma. (saber — presente do indicativo) f)	mais de cem chefes de cozinha não  universidades. (cursar — pretérito perfeito do indicativo) g) mais de um candidato  mal. (passar — pretérito perfeito do indicativo) passou 3º- caso — quando há substantivos próprios no plural que nomeiam lugares ou obras, o verbo fica no singular se não houver artigo antes do nome. caso apareça o artigo no plural, emprega-se o verbo no plural. h)	os andes  uma famosa cordilheira da américa do sul. (ser — presente do indicativo) são i)	os estados unidos  condenados mundialmente por atirarem a bomba em hiroshima. (ser — pre-térito perfeito do indicativo) foram j)	buenos aires  a famosa capital do tango. (ser — presente do indicativo) é 7	leia as regras de concordância do verbo ser e relacione-as, no caderno, às frases a seguir. 1. o verbo ser concorda com muito, pouco, bastante quando o sujeito indica preço, peso, medida. 2. o verbo ser concorda com o predicativo quando o sujeito é o pronome interrogativo quem. a)	quem eram aqueles profissionais? 2 b)	quatrocentos reais é pouco para o salário de um estagiário. 1 casos de concordância nominal 8	leia com atenção as informações do quadro a seguir para depois preencher sua cartela da loteria. precisa/precisam conseguiram sabem cursaram regra básica: artigos, pronomes, adjetivos e numerais concordam com o substantivo a que se referem em gênero e número. por exemplo: “[…] famílias inteiras entravam em polvorosa” 	 	 	 substantivo	 adjetivo 	 feminino plural	 feminino plural vpem3_un5_cap01_230a249.indd  239 4/15/10  3:10:55 pm</Page><Page Number="242">240  unidade 5 a)	a seguir, na tabela de loteria, há algumas frases com diferentes tipos de concordância nominal. faça seu jogo usando seus conhecimentos e anote no caderno a(s) frase(s) que julgar correta(s) em cada grupo. grupo 1 emprego e trabalho bons. x emprego e trabalho bom. x grupo 2 filhos e filhas estudiosos. x filhos e filhas estudiosas. x grupo 3 valorização de novas profissões e estágios. x valorização de novos profissões e estágios. grupo 4 modista e costureira invejável. x modista e costureira invejáveis. grupo 5 crítica e elogio necessários. x crítica e elogio necessário. grupo 6 os estudantes ficam meio cansados. x os estudantes ficam meios cansados. grupo 7 agora os estagiários têm menos oportunidades. x agora o estagiários têm menas oportunidades. grupo 8 os textos pedidos seguem em anexo. x os textos pedidos seguem anexos. x grupo 9 os estagiários pensavam em si mesmos. x os estagiários pensavam em si mesmo. grupo 10 os políticos estão quites com os pedidos dos eleitores. x o político está quite com o pedido do eleitor. x b)	confira os palpites. leia as regras a seguir e identifique a que grupo de frases cada uma se refere. escreva as respostas no caderno. 1. o adjetivo colocado depois de substantivos do mesmo gênero deve ir para o plural ou concordar com o substantivo mais próximo. grupo 1 2. o adjetivo colocado depois de substantivos de diferentes gêneros deve ir para o masculino plural ou concordar com o substantivo mais próximo. grupo 2 3. o adjetivo colocado antes de substantivos de diferentes gêneros deve concordar com o mais próximo. grupo 3 4. quando os substantivos são antônimos, o adjetivo deve ir para o plural. grupo 5 5. quando os substantivos são sinônimos, o adjetivo deve concordar com o mais próximo. grupo 4 6. o advérbio meio é invariável. grupo 6 7. as palavras menos e alerta são invariáveis. grupo 7 8. a palavra anexo concorda com a palavra a que se refere. já a expressão em anexo é invariável. grupo 8 9. mesmo e próprio concordam com a palavra a que se referem. grupo 9 10. extra e quite concordam com as palavras a que se referem. grupo 10 vpem3_un5_cap01_230a249.indd  240 4/15/10  3:10:55 pm</Page><Page Number="243">capítulo 1 – o artigo de opinião  241 9	leia o trecho a seguir, retirado do livro terras do sem-fim, de jorge amado. trata-se do momento em que jeremias se indigna com a possibilidade da derrubada da mata do sequeiro grande, no sul da bahia, para a plantação de cacau, que aumentaria a fortuna e o poder político de coronéis que a disputavam. a mata capítulo 12 	 jorge amado jeremias se ergueu. deu dois passos para a porta da cabana. agora seus olhos cegos viam perfeitamente a mata em todo seu esplendor. e via desde os dias mais longínquos do passado até essa noite que marcava o seu fim. sabia que os homens iam derrubar a floresta, matar animais, plantar cacau na terra onde havia sido a mata do sequeiro grande. […] via agora era a mata devastada, derrubada, queimada, via os cacaueiros nascendo, e estava possuído de um ódio imenso. sua voz não saiu como nummurmúrio como sempre […] as palavras de jeremias eram aos deuses que tinham vindo das florestas da áfrica. clamava por eles para que desencadeassem a sua cólera sobre aqueles que iam perturbar a paz de sua moradia. e disse: — agora eles vai entrar na mata mas antes vai morrer homem e mulher, os menino e até os bicho de pena. vai morrer até não ter mais buraco onde enterrar, até os urubu não dar conta de tanta carniça, até a terra tá vermelha de sangue que vire rio nas estrada e nele se afogue os parente, os vizinho, e as amizade deles, sem faltar nenhum. vão entrar na mata mas é pisando carne de gente, pisando defunto. cada pé de pau que eles derrube vai ser um homem derrubado, e os urubu vão ter tanto que vai esconder o sol. carne vai ser estrume de pé de cacau, cada muda vai ser regada com sangue deles, deles tudo, tudo, sem faltar nenhum. amado, jorge. terras do sem-fim. são paulo: companhia das letras, 2008. quando escreve, o autor pode controlar, entre outros itens, a escolha de vocabulário, a aplicação das regras gramaticais adequadas a ele. já, na fala, o texto é imediato e não sofre, como no texto escrito, intervenções como ser revisado, reorganizado, etc. podendo por isso apresentar desvios das normas gramaticais. a)	compare as frases dos artigos de opinião lidos com as frases da fala de jeremias e diga por que podemos aceitar as desarmonias verbais e nominais presentes na fala da personagem. b)	estudamos que os artigos, adjetivos, pronomes, etc. concordam com o substantivo ao qual se referem, mas nem sempre é o que ocorre na linguagem oral. na fala de jeremias, por exemplo, é possível encontrarmos marcas de plural em uma das palavras de um bloco e sua ausência em outra. encontre, na fala da personagem, exemplos de concordância nominal em que isso ocorre. c)	vimos que a principal regra de concordância diz que o verbo deve concordar com o sujeito; no entanto, diversos fatores podem intervir nessa regra. quando o sujeito está colocado depois do verbo, é comum não haver concordância. destaque da fala de jeremias um exemplo para a afirmativa. no mundo da oralidade vamos verificar se na linguagem oral predomina a realização da concordância verbal ou não. junte-se a alguns colegas de classe, peguem qualquer recurso de gravação (gravador, celular, etc.) para  gravar uma conversa informal entre colegas, familiares, passageiros à espera de ônibus ou outro meio de transporte, pessoas à espera de atendimento em filas de banco, de mercados, etc. prof.(a), é importante que o aluno perceba que a diferença entre os gêneros é que indica essa diversidade. o artigo de opinião é um texto veiculado em jornais e revistas, por exemplo, por isso os problemas de concordância não são aceitos. já no romance, o escritor procura caracterizar a personagem e a situação de comunicação em que ela se encontra por meio da fala, ou seja, pela maneira como ela se expressa, por isso tais problemas podem ser admitidos. os menino, os bicho, os urubu, nas estrada, os vizinho, as amizade, etc. “[…] mas antes vai morrer homem e mulher, os menino e até o bicho de pena.” é importante fixar que, dependendo do grau de informalidade, a linguagem oral pode apresentar preocupação com a escolha do vocabulário, com a organização de frases, com o emprego de regras gramaticais (como em uma palestra, por exemplo) ou não (como em uma conversa familiar, entre amigos, por exemplo), porém, mesmo descontraída, não tem de apresentar necessaria-mente desvios de concordância. vpem3_un5_cap01_230a249.indd  241 4/15/10  3:10:56 pm</Page><Page Number="244">242  unidade 5 feita a gravação, transcrevam o texto sem fazer nenhuma alteração. deixem marcados os pensamentos interrompidos, as repetições, etc. no texto transcrito, pintem de vermelho as frases em que há concordância entre o verbo e o sujeito e de azul as frases em que não há a concordância. contem o número de ocorrências da concordância e o número de ocorrências da não concordância. relacionem os resultados à situação de comunicação em que as pessoas ouvidas se encontravam: maior ou menor informalidade, faixa etária, tipo de compromisso profissional, etc. e proponham uma conclusão para a pesquisa de vocês. apresentem para a classe a gravação, a transcrição, que pode ser feita em transparência, e o texto com as conclusões do grupo. se quiserem, vocês podem seguir o exemplo abaixo: 1. apresentação da situação e dos entrevistados — a gravação foi realizada com alunos do 1º- ano do ensino médio, numa situação de bastante informalidade, uma vez que eles estavam conversando no pátio da escola na hora do intervalo. os alunos que participaram da entrevista foram (colocar nome, idade e profissão). 2. os procedimentos de análise — após o levantamento no texto da realização ou não da concor-dância verbal, verificamos que predominou em nossa gravação a (colocar o resultado da pesquisa). 3. apresentação da hipótese que explica a presença ou ausência da concordância — concluímos que, numa situação de maior informalidade, é natural a preocupação/despreocupação com… ou, ainda, concluímos que, entre pessoas com maior nível de escolaridade, é natural a preocupação com a realização da concordância, por ser essa uma característica da linguagem observada por seus pares e exigida no seu meio profissional. atividade de fixação reescreva as frases no caderno substituindo o   pelos verbos e pelos adjetivos indicados nos parênte-ses. faça a concordância necessária. a)	“os motoristas americanos e europeus  pela educação. não por serem  ou melhores do que nós, mas porque  a lei.” (revista veja, 20 fev. 2008.) 	 (impressionar — presente do indicativo; bonzinho; temer — presente do indicativo) b)	“a ideia das cotas reforça conceitos : o de que os negros    e  de um empurrão e o de que a escola pública é péssima e não tem salvação.” (revista veja, 6 fev. 2008.) 	 (nefasto; ser — presente do indicativo; menos capaz; precisar — presente do indicativo) c)	“a experiência dos estados mais bem-sucedidos  que consertar a educação requer muito mais do que jogar dinheiro no sistema.” (revista veja, 13 fev. 2008.) 	 (mostrar — presente do indicativo) mostra d)	“cartões de crédito  dinheiro de plástico. não se  a financiar compras, e sim a facilitar o controle de gastos pessoal, familiar e empresarial. as administradoras  que entender que, se não forem aceitos, os cartões não  nada para o cliente. e os comerciantes, por sua vez,  saber que, restringindo as formas de pagamento,  o impacto em suas vendas.” (folha de s.paulo, 22 mar. 2008.) 	 (ser, destinar, ter — presente do indicativo; valer — futuro do presente do indicativo; dever — pre-sente do indicativo; sentir — futuro do presente do indicativo) e)	“os estados unidos  habituados à supremacia econômica e muitos americanos sofrem com a ideia de perder o posto da nação número 1.” (revista veja, 26 mar. 2008.) 	 (estar — presente do indicativo) estão 	 prof.(a), incentive o aluno a realizar o trabalho para que possamos desmistificar a concordância adequada em textos orais e escritos. se considerar possível, o trabalho de pesquisa pode ser diversificado. assim, um grupo pode ficar responsável pela gravação de uma conversa entre alunos; outro, de uma conversa entre professores; outro, de uma conversa entre profissionais de uma área específica; outro, 	 de pessoas mais velhas escolarizadas; outro, de pessoas mais velhas com pouca escolaridade. os resultados podem surpreender e, durante as apresentações, os alunos poderão ficar mais interessados pelas conclusões dos colegas. impressionam; bonzinhos; temem nefastos; são; menos capazes; precisam são; destinam; têm; valerão; devem; sentirão vpem3_un5_cap01_230a249.indd  242 4/15/10  3:10:56 pm</Page><Page Number="245">capítulo 1 – o artigo de opinião  243 atividades de aplicação leia a letra da canção “inútil”, de roger moreira, cantada pelo grupo ultraje a rigor e responda às questões no caderno. prof.(a), “inútil” foi gravada no início dos anos 80, época em que o país vivia ainda sufocado pela ditadura militar. inútil 	 roger moreira a gente não sabemos escolher presidente a gente não sabemos tomar conta da gente a gente não sabemos nem escovar os dente tem gringo pensando que nóis é indigente… inútil! a gente somos inútil! inútil! a gente somos inútil! a gente faz carro e não sabe guiar a gente faz trilho e não tem trem pra botar a gente faz filho e não consegue criar a gente pede grana e não consegue pagar… inútil! a gente somos inútil! inútil! a gente somos inútil! inútil! a gente somos inútil! inútil! a gente somos inútil! inútil! a gente somos inútil! inútil! a gente somos inútil! a gente faz música e não consegue gravar a gente escreve livro e não consegue publicar a gente escreve peça e não consegue encenar a gente joga bola e não consegue ganhar… inútil! a gente somos inútil! inútil! a gente somos inútil! inútil! inútil! inútil! disponível em: http://letras.terra.com.br/ultraje-a-rigor/49189/. acessado em 19 dez. 2009. raimundo neto/agência o globo jorge rosenberg/editora abril o vocalista roger moreira, da banda ultraje a rigor, cantando em show na década de 80. vpem3_un5_cap01_230a249.indd  243 4/15/10  3:11:00 pm</Page><Page Number="246">244  unidade 5 1	identifique na letra de música os desvios de concordância: a)	verbal; 	 b)	nominal. “os dente” 2	leia: o cancioneiro popular está repleto de casos em que o padrão da língua foi subvertido. muitos assaltaram a gramática […]. outros buscam aproximar-se do coloquial […] o compositor luiz tatit, que é professor titular do departamento de linguística da usp, observa que a intenção das letras nas canções é retratar falas e não gramá-ticas normativas, e as exigências da composição tomam o primeiro plano. […] jebaili, paulo; pereira junior, luiz costa. a gente cantamos errado?.  revista língua portuguesa, são paulo, ano 3, n. 30, 2008. com base na leitura do trecho acima, explique o motivo de os desvios de concordância terem sido aceitos na música cantada pelo ultraje a rigor? 3	o sucesso de ultraje a rigor na década de 80 revela o sentimento do povo, ainda sob a ditadura militar. o que, na afirmação irônica da letra de música, “a gente não sabe fazer”? 4	na sua opinião, por que a concordância está de acordo com a norma gramatical em versos como “a gente faz carro / a gente faz trilho / a gente faz filho / a gente pede grana / a gente faz música / a gente escreve livro / a gente escreve peça / a gente joga bola” e não segue a norma em versos como “a gente não sabemos / que nóis é indigente / a gente somos inútil!”? 5	em “os dente”, a flexão do artigo pressupõe o plural do substantivo. procure explicar a razão do uso de “a gente somos”, “a gente sabemos”. produção de texto artigo de opinião o artigo de opinião é um texto argumentativo, isto é, apresenta e defende um ponto de vista por meio de argumentos, de evidên-cias, de justificativas ou até mesmo de apelo emocional — quem argumenta tem como objetivo convencer e persuadir. em relação à estrutura, nos primeiros parágrafos, o artigo de opi-nião costuma apresentar o assunto por meio de exposição, narração ou descrição do tema. todavia, o mais comum é expor o assunto tratado por meio de uma opinião conhecida para, na sequência, desenvolver parágrafos argumentativos em que se defende determi-nada opinião por meio de diferentes tipos de argumentos: os de exemplos a serem seguidos (ou os antimodelos, aqueles  que não se devem seguir); os de analogia: usam-se exemplos que possam ser relaciona-  dos à ideia defendida; os de quantidade: usam-se os números de pesquisas para  convencer que determinada ideia vale mais do que outra; “agente não sabemos”; “que nóis é indigente”; “a gente somos inútil”. os desvios de concordância da letra ocorreram porque a intenção do autor foi criar diferentes sentidos para o texto. a gente é ineficiente para eleger presidente, para escovar os próprios dentes, para dirigir, para escovar os dentes, etc. sugestão: o autor se apropria da norma nos versos que expressam conhecimento/capacidade de fazer. o desvio da norma é empregado nos versos que mostram como o povo é tratado e visto pelos governantes. 	 a expressão a gente apresenta uma significação plural, por isso a concordância parece se fazer com a ideia expressa, e não com o que aparece na escrita. uma estratégia para ini-ciar um artigo de opinião é apresentar um fato ou uma suposição lógica que ganhe a concordância do leitor para, em seguida, apresentar a ideia que se quer defender. essa estratégia é chamada de tese de adesão e, por meio dela, ganha-se a atenção do leitor, que já inicia a leitura concor-dando com o ponto de vista do autor do texto. vpem3_un5_cap01_230a249.indd  244 4/15/10  3:11:00 pm</Page><Page Number="247">capítulo 1 – o artigo de opinião  245 os de autoridade: entre aspas ou por meio de marcas como  segundo, de acordo, etc. usam-se as falas de especialistas no assunto do texto, de trechos de livros especializados no assunto, de obras literárias, trechos de lei, etc; os de qualidade: centra-se a argumentação na valorização dos aspectos qualitativos em detrimento  dos quantitativos. o artigo de opinião, em relação ao tema, pode comentar os mais diversos assuntos que estiverem em pauta na época de publicação. por esse motivo, às vezes, um artigo logo se torna ultrapassado. por exemplo, a opinião de alguém sobre a eleição de 2004 pode não chamar a atenção de um leitor em 2009. o artigo de opinião tem algumas marcas linguísticas fáceis de identificar, tais como: o verbo ser na construção de opiniões impessoais, por exemplo: “é importante…”, “seria necessário…”. é comum também o uso (sempre no presente do indicativo) de verbos como afirmar, declarar, considerar, implicar, alegar, assegurar, etc. que apresentam valores apreciativos e depreciativos em relação à ideia defendida. atividade 1 — reprodução: a organização global do texto o artigo de opinião a seguir está fora de ordem. leia o texto e reorganize-o em seu caderno. lembre-se  de que, para fazer esta atividade, será necessário ler as partes para, em seguida, iniciar a reorganiza-ção. use a estratégia adotada na interpretação do texto 2 deste capítulo: a partir de termos de coesão, identifique os dados recuperados. fazer nada  paulo nogueira afinal, nós nunca aceleramos tanto. na ilusão de anteciparmos o futuro, roubamos o momento seguinte e deixamos de vivê-lo. convivemos sem prestar atenção no outro, respiramos com sofre-guidão, comemos sem sentir o sabor. fugimos do presente, o único tempo que existe e sobre o qual criamos a referência para um passado reconstruído na memória e um futuro sonhado. como parar e fazer nada? como apenas ser, sem se debater por ter entrado em uma porta estranha? há quem não consiga relaxar e, simplesmente, fazer nada. alguém já disse que fazer nada não é a completa falta de ação, mas a ação feita com desapego, sem visar resultado para si mesmo. há algo de bom em atingir esse momento em que só se é parte da paisagem e não um observador em separado. se ainda quiséssemos procurar um significado para a visita da pequena ave, poderíamos dizer que ela veio trazer o tema para estas linhas que você lê agora. como se nos dissesse: que bom que vocês conseguiram uns dias de folga e vieram aqui, cuidar um do outro. sejam bem- -vindos a este momento e esqueçam o resto. fui. depois, vimos que deixou de lembrança um cocozinho na nossa cama. de onde teria vindo essa ave? qual o significado do carimbo de passarinho sobre o lençol? resisti à ideia de lembrar que excremento de pássaro é sinal de boa fortuna em anti-gas tradições. augúrio? sinal? ali não havia mistério. era apenas um bichinho assus-tado, acelerado demais. talvez apenas apavorado por haver entrado em um lugar de onde parecia impossível sair. mais do que um significado oculto, sua visita pode é nos heide benser/arquivo da editora vpem3_un5_cap01_230a249.indd  245 4/15/10  3:11:05 pm</Page><Page Number="248">246  unidade 5 inspirar, quem sabe, uma analogia. quantas vezes o homem não se debate, na ilusão de que está acuado? quantas vezes sofre sem perceber que está saturado por estí-mulos que ele próprio foi buscar? a sensação de que seu tempo é estrangulado, sem se dar conta de que é ele quem cultiva desassossego para si. um amigo, sobrinho de um sábio do interior, costuma usar a imagem da trajetória errática e vã das formigas para ilustrar a ilusão que acomete o homem em movimentos inócuos e sem sentido, o esforço inútil. não é à toa que se fale tanto na necessidade de ir com mais calma. conseguimos uns dias de folga e fomos passar um tempo cuidando um do outro. no hotel, em itatiba, deram-nos o quarto 37, que se abre para um mar de morros verdes, com plantações, pastos, florestas. fica no piso superior, tem pé-direito alto e uma varanda abraçada por árvores repletas de pássaros. à noite, entrou pela janela um passarinho. minúsculo, branco no peito e na parte inferior da face, preto no dorso e na metade de cima da cabeça. entrou pelo quarto, acelerado. voava junto ao teto e não conseguia baixar até a altura da porta por onde havia entrado. temíamos que se machucasse. apagamos as luzes. ele se acalmou e parou para descansar no toucador. pulou em pé, no chão. caminhou um pouco, ofegante. usamos um cha-péu para levá-lo à varanda, onde ficou ainda um tempo, refazendo-se. disponível em: http://vidasimples.abril.uol.com.br/edicoes/037/caminhos/conteudo_ 237474.shtml. acessado em 23 mar. 2008. atividade 2 — decalque: a estrutura do artigo de opinião no artigo a seguir, há um parágrafo que não pertence a esse texto. identifique-o e no seu caderno  produza um outro que mantenha a coerência com o restante do texto. em seguida, dê um título à produção final. o filme coração valente, com mel gibson, conta, de forma romanceada, a his-tória real do líder escocês william wallace. um dos momentos marcantes é a batalha de stirling, em que o pobre e mal-armado exército escocês vence a autoproclamada invencível força inglesa. fica evidente a liderança de wallace porque oferece a seus homens três coisas: uma causa — a liberdade, o maior de todos os valores; um exemplo — ele luta à frente de seus homens; e os meios — uma estratégia inteligente e uma nova arma, capaz de anular a cavalaria dos bretões. trata-se de um excelente exemplo de liderança em que o líder atinge o resultado desejado por dizer a seus homens o que iriam fazer, por que e como. o encontro desses três componentes transforma cada membro da equipe em pro-prietário de seu futuro, criando um espírito comum de con-fiança na vitória. criar causas (diferente de apenas delegar tarefas) e liderar pelo exemplo são duas posturas funda-mentais e pertencem ao componente comportamental do prof.(a), na correção, considere correta a sequência 3, 2 e 1 dos parágrafos. verifique se os alunos identificaram a apresentação de uma narração como estratégia para iniciar o texto. observe ainda se os alunos identificaram o parágrafo em que se apresenta a tese e o que a conclui.  prof.(a), combine com os alunos a maneira de realizar a atividade: passando o texto integral a limpo com os parágrafos de autoria deles ou só produzindo os parágrafos deles. escolha a melhor estratégia de acordo com a necessidade da turma. não se esqueça de verificar se o título está de acordo com o desenvolvimento do texto. o ator mel gibson, no filme coração valente, dirigido por ele em 1995. divulgação/20 th centuryfox home entertainment/ divulgação/arquivo da editora vpem3_un5_cap01_230a249.indd  246 4/15/10  3:11:10 pm</Page><Page Number="249">capítulo 1 – o artigo de opinião  247 exercício da liderança. já o fornecimento da estratégia e dos recursos indispen-sáveis à realização das tarefas necessárias faz parte da técnica de liderar. o líder que não se preocupa com os recursos corre o risco de desperdiçar o que tem, sem alcançar o que deseja. olha que isso é relativamente comum. líderes competentes para mobilizar as pessoas, mas incapazes de obter e gerir os recursos necessários. após o assassinato de seu grande amor, o escocês william wallace (mel gibson), cansado dos abusos e da violência dos ingleses contra seu povo, se revolta e junto aos seus compatriotas declara guerra contra a inglaterra. wallace lidera várias batalhas em que os escoceses lutam contra a dominação inglesa, usando da deter-minação e da inteligência para compensar os poucos homens que tinham em com-paração ao exército inimigo. este é o momento em que o idealismo se encontra com o pragmatismo; e um precisa do outro. o líder idealista tem visões do futuro. o pragmático cria as con-dições para tornar a visão realidade. o idealista olha para a outra margem do rio, enquanto o pragmático constrói a ponte. a boa notícia é que essas qualidades não são excludentes. ou seja, você pode ter a visão e também pode providenciar os recursos para chegar lá. lembre-se que quem não se preocupa com as finanças corre o risco de ver desperdiçado seu talento de ter ideias, por mais geniais que elas sejam. experiência própria! mussak, eugenio. revista você s/a, n. 111. atividade 3 — produção de autoria escolha um assunto atual que esteja gerando polêmica. em seguida, inicie a produção de seu artigo de  opinião. para isso, decida qual seu posicionamento em relação a esse tema, por qual estratégia vai ini-ciá-lo: apresentando sua posição ou produzindo uma tese de adesão, a quais estratégias você pretende recorrer (se for a de quantidade, verifique se os números que você tem, por exemplo, são verdadeiros, não chute!). tomadas as decisões iniciais, pense em seu leitor, que faz parte do público-alvo escolhido para a revista a ser produzida por meio do projeto do fim de ano. preparando a segunda versão do texto releia seu artigo de opinião, observando se usou: a variedade-padrão da língua, respeitando as concordâncias necessárias;  clareza na apresentação de sua ideia;  desenvolvimento lógico e pautado nas estratégias estudadas.  verifique se você não desenvolveu vários assuntos, o que seria inadequado. e por falar em opiniões… a revista reader’s digest, publicada em mais de 70 países, tem uma seção chamada “meu tipo ines-quecível”, em que pessoas comuns escrevem para a revista apresentando alguém que, de alguma forma, encantou o leitor e marcou a vida dele. claro que o texto apresenta a opinião de quem escreve: às vezes, o tipo inesquecível é a mãe do leitor; às vezes, um amigo; às vezes, uma figura artística, enfim, não importa quem seja a pessoa, mas o que ela fez para se tornar inesquecível. prof.(a), o 3 o parágrafo não pertence ao artigo de opinião, trata-se de um parágrafo da sinopse do filme, publicada no site http://br.cinema.yahoo.com/ filme/8215/sinopse/coracaovalente. na correção, verifique se os alunos continuaram a desenvolver a ideia defendida pelo autor por meio de uma das estratégias lidas. vpem3_un5_cap01_230a249.indd  247 4/15/10  3:11:13 pm</Page><Page Number="250">248  unidade 5 o escritor sílvio lancellotti aproveitou essa ideia e escreveu sua seção “quintal paulistano”, publicada na revista da folha, do jornal folha de s.paulo, sobre seu tipo inesquecível. leia o texto desse jornalista para, em seguida, dar início à atividade. um tipo inesquecível  sílvio lancellotti criada em 1922, a revista seleções do reader’s digest, até hoje publicada em mais de 70 países, ostenta uma rubrica que sempre me fascinou: “o meu tipo inesquecível”. pessoas várias enviam textos a respeito de outras que, de alguma forma, encantaram os seus destinos. neste começo de 2010 eu utilizo este “quintal paulistano” a fim de eleger meu tipo inesquecível no ano que acabou. trata-se de frederico marcondes de carvalho, nascido em santos, em março de 1981, um produtor do “pontapé inicial”, o programa matinal do qual, eventualmen-te, participo no canal espn brasil. filho de um neurologista e de uma enfermeira, por incrível que pareça, frederico padeceu no parto. o cordão umbilical se enrolou no seu pescoço e praticamente o enforcou. por falta do oxigênio crucial, se tornou um deficiente físico, na sua mobilidade e na sua fala. deficiente? absolutamente, não. à parte o fato de ele torcer para o “peixe”, em que fulgurou um certo pelé, que frederico jamais viu jogar ao vivo e em cores. um absurdo de inteligência e de criatividade, ele aprendeu, nas suas palavras, “a acei-tar o fato de ser diferente”. completou, em escolas convencionais, o curso colegial. e se diplomou em jornalismo. na faculdade, mesmo com todas as dificuldades de dicção, conduziu umprograma de rádio no qual alinhavou entrevistas inesquecíveis com mário soares, líder político de portugal, com o presidente fernando henrique cardoso e com chico buarque. o esforço e o sucesso cativaram josé trajano, diretor da espn, que lhe abriu um espaço, em 2004. apaixonado por música, dono de uma vasta coleção de cds de todos os estilos, da mpb ao fado, do jazz ao tango, ele é hoje responsável pela trilha sonora que escolta o “pontapé”. do chefe, recebe broncas, quando escorrega, como qualquer funcionário da emissora. invariavelmente, porém, responde com um bom humor cativante. emociona testemunhar o seu esforço e a sua competência. e saber que frederico, atualmente, faz aulas de teclado e de canto. que frederico, apesar das dificuldades na fala e na mobilidade, é um jovem feliz. eu o admiro. aqui, peço que ele enquadre e dependure este “quintal” na parede do seu quarto. revista da folha, 10 jan. 2010. folhapress. agora é você quem vai falar de alguém que tenha sido ou que seja inesquecível. comece pensando  por que você acha essa pessoa inesquecível e vá anotando no papel suas opiniões a respeito dela. em seguida, enumere duas ou três ações dessa pessoa que convençam o leitor de que ela é mesmo ines-quecível. por fim, mande um recado a ela agradecendo ou pedindo mais exemplos de suas ações que podem ser usados para exposições. seu texto pode ser apresentado oralmente ou por escrito, em cartazes, que podem ser expostos pela escola. vpem3_un5_cap01_230a249.indd  248 4/15/10  3:11:18 pm</Page><Page Number="251">capítulo 1 – o artigo de opinião  249 aproveite para… … ler atividades para orientação vocacional  , de lia renata a. giacaglia, editora thomson learning o livro procura ajudar o leitor a refletir sobre o assunto e ter visão ampla e bem fundamentada antes de tomar decisões. as profissões do futuro  , de gilson schwartz, editora publifolha o economista schwartz analisa o futuro das profissões a partir do mundo atual, em que questões como automação, humanização e criatividade têm cada vez mais destaque. argumentação e linguagem  , de ingedore v. koch, editora cortez o livro é um estudo pioneiro sobre a argumentação em língua portuguesa. as aventuras de huckleberry finn  , de mark twain, editora ática acompanhado de um amigo, huckleberry finn, um menino pobre e muito imaginativo, parte em uma viagem de jangada pelo rio mississipi. eloquente, finn sempre arruma saída para os problemas em que se mete, graças à sua grande capacidade argumentativa. … assistir acima de qualquer suspeita  , de alan j. pakula (eua, 1990) advogado começa a buscar pistas sobre o assassinato de sua amante e descobre que elas apontam para ele mesmo. quando é acusado, começa sua defesa. anti-herói americano  , de robert pulcini e shari springer berman (eua, 2003) o filme conta como harvey pekar, que trabalha no arquivo de um hospital, passa a escrever a série de quadrinhos “anti-herói americano” e é bem-sucedido, apesar de não ter talento como desenhista e de sua personagem, autobiográfica, contar apenas com o charme do humor irônico. billy elliot  , de stephen daldry (inglaterra, 2000) o garoto billy (jamie bell) descobre que tem talento para dança e decide investir no balé, apesar do precon-ceito e contrariedade de seu pai e seu irmão, que não veem na profissão espaço para homens. … ver na internet http://guiadoestudante.abril.com.br  o site oferece dicas de cursos, faculdades e profissões, além de testes vocacionais para serem feitos on-line. www.curriculum.com.br  se quiser fazer um currículo, acesse o site e monte o seu. http://br.nget.com/educacao/listas_discussao/  o endereço lista uma série de fóruns de discussão on-line, para treinar argumentação. universal/cortesia de everett collection/keystone vpem3_un5_cap01_230a249.indd  249 4/15/10  3:11:19 pm</Page><Page Number="252">250  unidade 5 2 capítulo literatura brasileira contemporânea — poesia 250  unidade 5 antes de ler leia os poemas a seguir: de sol a sol soldado de sal a sal salgado de sova a sova sovado de suco a suco sugado de sono a sono sonado sangrado de sangue a sangue campos, haroldo de. in: bosi, alfredo. história concisa da literatura brasileira.  são paulo: cultrix, 1999. marcos guilherme/arquivo da editora marcos guilherme/arquivo da editora onde 	 régis bonvicino onde eu escrevo há o ruído do lixo da cidade depois de recolhido sendo triturado há um abajur uma cômoda com espelho e uma cama desarrumada o outono está próximo a janela fechada um cansaço súbito toma conta das palavras. bonvicino, régis. céu-eclipse. são paulo: editora 34, 1999. erra uma vez 	 paulo leminski nunca cometo o mesmo erro duas vezes já cometo duas três quatro cinco seis até esse erro aprender que só o erro tem vez leminski, paulo. la vie en close.  são paulo: brasiliense, 1991. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  250 4/15/10  3:13:22 pm</Page><Page Number="253">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  251 os poemas que você acabou de ler foram publicados a partir da década de 1960. na sua opinião, que  escola literária parece mais influenciar essas composições? por quê? texto 1 o poema a seguir foi publicado em 1963. observe seu caráter social, mas também o jeito menos regular de dispor as palavras nos versos e de organizá-los nas estrofes, legado dos poetas modernistas. homem comum 	 ferreira gullar sou um homem comum 	 de carne e de memória 	 de osso e esquecimento. 	 ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião e a vida sopra dentro de mim 	 pânica 	 feito a chama de um maçarico e pode subitamente 	 cessar. sou como você 	 feito de coisas lembradas 	 e esquecidas 	 rostos e 	 mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia 	 em pastos-bons 	 defuntas alegrias flores passarinhos 	 facho de tarde luminosa 	 nomes que já nem sei 	 bandejas bandeiras bananeiras 	 tudo 	 misturado 	 essa lenha perfumada 	 que se acende 	 e me faz caminhar sou um homem comum 	 brasileiro, maior, casado, reservista, 	 e não vejo na vida, amigo, 	 nenhum sentido, senão 	 lutarmos juntos por um mundo melhor. poeta fui de rápido destino. mas a poesia é rara e não comove nem move o pau de arara. prof.(a), chame a atenção dos alunos para o legado do modernismo. os poemas aqui apresentados trazem maior liberdade na composição dos versos, que são livres, e na organização das estrofes. nota-se também a escolha de um registro mais coloquial para tratar dos temas. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  251 4/15/10  3:13:23 pm</Page><Page Number="254">252  unidade 5 	 quero, por isso, falar com você, 	 de homem para homem, 	 apoiar-me em você 	 oferecer-lhe o meu braço 	 que o tempo é pouco 	 e o latifúndio está aí, matando. que o tempo é pouco e aí estão o chase bank, a it &amp; t, a bond and share, a wilson, a hanna, a anderson clayton, e sabe-se lá quantos outros braços do polvo a nos sugar a vida e a bolsa 	 homem comum, igual 	 a você, cruzo a avenida sob a pressão do imperialismo. 	 a sombra do latifúndio 	 mancha a paisagem, 	 turva as águas do mar 	 e a infância nos volta 	 à boca, amarga, 	 suja de lama e de fome. mas somos muitos milhões de homens 	 comuns 	 e podemos formar uma muralha 	 com nossos corpos de sonho e margaridas. gullar, ferreira. os melhores poemas de ferreira gullar.  2. ed. são paulo: global, 1985. interpretação do texto 1 	de acordo com o poema, quem é e como é o homem comum? 2 	o que se opõe a esse homem? 3 	segundo o texto, qual é a força do homem comum? o que ele pode conseguir com ela? 4 	chama a atenção a forma como foram dispostos os versos no poema. proponha uma interpretação para os diversos deslocamentos presentes na organização material do texto. 5 	como visto na introdução, o poema “homem comum” foi escrito em 1963. você já sabe que toda produção literária sofre a influência não só da estética vigente e da experiência pessoal do poeta, mas também do contexto histórico. pesquise o que acontecia no brasil no início da década de 1960, perío­ do que antecedeu o golpe militar de 1964, e verifique que eventos, provavelmente, influenciaram a visão de mundo do poeta, registrada no poema. um homem que se diz como todos os outros, feito de memória, de carne e osso e com a consciência de que um dia vai acabar. um homem que acredita ser possível unir-se a outros homens comuns para a construção de um mundo melhor. de acordo com o poema, o latifúndio mata, as grandes corporações (assim como o imperialismo que elas representam) sugam a bolsa e a vida do homem comum e o tempo é pouco. a força do homem comum está na união, na luta conjunta por um mundo melhor. segundo o eu lírico, apenas essa união pode formar uma muralha contra o imperialismo e a exploração. prof.(a), esta questão pode ser resolvida oralmente. estimule os alunos a relacionar o conteúdo com a posição da informação no verso. por exemplo, a palavra cessar, indicadora da ideia de morte na primeira estrofe do poema, está sozinha no último verso e mais centralizada que as demais (assim como a palavra pânica, no sexto verso). a palavra tudo, na segunda estrofe, marca, por sua posição, a reunião de tudo o que foi enumerado anteriormente. os versos meio que dançam no texto, conforme o desenvolvimento das ideias. 	 prof.(a), se de um lado havia o crescimento do número de multinacionais no país, incentivadas pelo governo de juscelino kubitschek, de outro cresciam as discussões acerca dos problemas sociais: as diferenças entre ricos e pobres, a necessidade de reforma agrária, a revisão das condições de trabalho. joão câmara/coleção do artista autorretrato, de joão câmara, 1990. neste autorretrato de corpo inteiro, frente e costas, o paraibano câmara também nos apresenta uma imagem de um “homem comum”. ele trabalha o corpo humano preocupado em ressaltar o realismo (temos a impressão de estarmos diante de um homem real), mas deixando uma ponta de estranhamento, pois algo nessa figura nos inquieta. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  252 4/15/10  3:13:23 pm</Page><Page Number="255">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  253 texto 2 armando freitas filho apresenta em sua poesia a influência do legado construído pelos diversos poetas a partir da década de 1960, entre eles ferreira gullar, os poetas concretistas e os poetas marginais. como resultado, tem-se uma produção que traduz a intensidade de uma experiência por meio de uma escrita caracterizada por certo rigor na forma. torneio armando freitas filho o touro num instante o toureiro noutro — estanques. no entanto, as duas vidas tão distintas, tentam o encontro, quadro a quadro já que tanta velocidade dura e fúria só pode vir a furo, para se ver e ser tocada, se for assim, por partes: passo e pata, talhe bem cortado de cada um, de pele e de carne. ambos coagulados, fixos, nos olhos do outro com chifre e espada à vista quando o espaço acaba e cai a capa quando o instinto vira destino. freitas filho, armando. in: boa companhia — poesia.  são paulo: companhia das letras, 2003. interpretação do texto 1 	no poema são apresentados dois elementos antagônicos. identifique-os. trata-se do touro e do toureiro. 2 	que aspectos da forma e do conteúdo do poema marcam claramente esse antagonismo? 3 	expressões como “num instante”, “quadro a quadro” e palavras como “noutro” pertencem ao campo semântico da imagem — as cenas de cinema, de televisão — e podem ser apresentadas segundo os critérios do editor de imagens (aquele que seleciona as cenas e a ordem em que elas serão apresen-tadas). copie do poema a justificativa para o fato de esses dois seres serem apresentados um após o outro, de maneira estanque. o fato de touro e toureiro serem apresentados em instantes diferentes, como marca a expressão “num instante” e a palavra “noutro”; o fato de cada um desses seres serem apresentados em versos diferentes. “já que tanta velocidade dura e fúria / só pode vir a furo, para se ver / e ser tocada, se for assim, por partes…” marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un5_cap02_250a272.indd  253 4/15/10  3:13:25 pm</Page><Page Number="256">254  unidade 5 4 	releia os seguintes versos: passo e pata, talhe bem cortado de cada um, de pele e de carne. ambos coagulados, fixos, nos olhos do outro com chifre e espada à vista observe que nesses versos os dois seres passam a ocupar a mesma cena. a)	que recursos o poeta usou para conseguir esse efeito? b)	por que são esses os elementos destacados nas cenas descritas? 5 	explique o verso “quando o espaço acaba e cai a capa”. 6 	releia o último verso do poema: a)	ao instinto de quem o poema faz referência? ao instinto do homem e ao instinto do animal. b)	ao destino de quem o poema faz referência? ao destino do homem e ao destino do animal. c)	no que pode resultar o encontro com o próprio instinto? texto 3 o poema a seguir foi escrito por arnaldo antunes, que também é músico e compositor. pertencente a uma geração mais jovem que a de ferreira gullar e armando freitas filho — antunes nasceu em 1960. sua produção poética apresenta muitas características do concretismo, além de um trabalho em que explora os diversos sentidos de uma palavra, a ponto de esses diferentes sentidos organizarem toda a construção do texto. pensamento vem de fora e pensa que vem de dentro, pensamento que expectora o que no meu peito penso. pensamento a mil por hora, tormento a todo momento. por que é que eu penso agora sem o meu consentimento? se tudo que comemora tem o seu impedimento, se tudo aquilo que chora cresce com o seu fermento; pensamento, dê o fora, saia do meu pensamento. pensamento, vá embora, desapareça no vento. e não jogarei sementes em cima do seu cimento. antunes, arnaldo. tudos. 4. ed.  são paulo: iluminuras, 1998. 	 destacar partes do touro e do toureiro e apresentá-los sempre no mesmo verso: “passo e pata”; “de pele e de carne”; “nos olhos do outro”; “com chifre e espada à vista”. porque são os elementos envolvidos no provável confronto: passo, pata, olhos, pele, carne, chifre, espada. sugestão: esse verso traz o encontro entre touro e toureiro, o momento propriamente do confronto. a máxima integração entre os dois seres. prof.(a), aceite as diferentes interpretações desde que baseadas na ideia geral do poema. alguns alunos podem inferir que o toureiro é vencido por causa da oração “cai a capa”; entretanto, essa pode não ser a única conclusão possível porque a queda da capa pode representar também o momento em que o toureiro atinge o touro. o encontro com o próprio instinto resulta na morte ou, ainda, no encontro com o instinto da sua contraparte, do seu antagonista. incubadora, de ernesto neto, s.d. interessado em trabalhar questões que envolvem a parte orgânica e o corporal, esse artista carioca desenvolve peças tridimensionais, como esta da foto, em que a pessoa (no caso o próprio neto) é envolvida fisicamente pelo objeto, pode senti-lo e fazê-lo se amoldar a ela. observando esta obra depois de ler o poema, reflita: a sensação de estar numa incubadora deve vir de fora ou pode vir de dentro? http://forumpermanente.incubadora.fapesp.br/ portal/.convidados/ernestoneto vpem3_un5_cap02_250a272.indd  254 4/15/10  3:13:26 pm</Page><Page Number="257">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  255 interpretação do texto 1 	releia os dois primeiros versos: “pensamento vem de fora / e pensa que vem de dentro”. explique o sentido das palavras fora e dentro no contexto do poema. 2 	como você interpretaria esses versos? 3 	escreva no caderno a alternativa que completa adequadamente a frase a seguir: o que incomoda o eu lírico é a)	sua facilidade para pensar.	 b)	sua dificuldade para pensar.	 c)	a autonomia de seu pensamento. x d)	sua familiaridade com suas ideias. e)	a quantidade de ideias incompreensíveis que produz. 4 	o poema termina com estes versos: “e não jogarei sementes / em cima do seu cimento.”. a)	as palavras sementes e cimento foram empregadas em sentido metafórico. nesses dois versos, elas se opõem. na sua opinião, o que são as sementes que o eu lírico diz não jogar no cimento do pensamento? b)	o que o poeta quer dizer com “cimento do pensamento”? c)	que valor final o eu lírico atribui a seu pensamento? para entender a literatura brasileira contemporânea o experimentalismo da geração de 1922 serviu de base para a literatura contemporânea. como a socie-dade em que vivemos, a literatura de hoje está fragmentada, em constante transformação. para defini-la só mesmo lendo o que se produz. a partir da década de 1960, importantes fatos históricos marcariam as artes brasileiras. o mundo vivia o fortalecimento do capitalismo e, principalmente, das grandes potências. censura, autoritarismo e adver-sidades políticas apontam para tempos difíceis, mas de intensa produção artística. o consumismo, marca da contemporaneidade, caracteriza não só a economia, como todas as áreas — compra-se tudo e cada vez mais, compram-se as ideias, as vidas… o homem tornou-se um ser anônimo em meio à massa. o mesmo ocorre com a arte, que perde sua autenticidade (seu aspecto único) ao ser reproduzida em massa, feito uma mercadoria qualquer capaz de gerar lucros enormes. na literatura, por exemplo, ganham destaque os best-sellers, como os livros da coleção do bruxinho harry potter. fora: todas as informações externas ao eu lírico, tudo o que ele vê, lê, escuta. dentro: as informações elaboradas pelo próprio eu lírico. o eu lírico constata que seu pensamento é a reunião das coisas vistas e ouvidas; aquilo que ele pensa criar, pensar, na realidade é externo a ele. prof.(a), destaque o uso da antítese nesses versos, nos quais a imagem de fertilidade que há nas sementes se opõe à infertilidade do cimento. as sementes são as ideias em estado inicial, aquelas que deveriam se desenvolver a partir da ação do pensamento. trata-se da infertilidade do pensamento do eu lírico, de sua incapacidade de transformar ideias em estado embrionário em algo realmente produtivo ou criativo. o eu lírico acredita que seu pensamento é limitado, além de agir de um modo independente à sua vontade. andy warhol/museum of modern art, nova york marilyn, de andy warhol, 1967. reproduzida em sequência, a imagem da atriz marilyn monroe torna-se um objeto de consumo como outro qualquer neste trabalho de warhol (1930-1987), um dos grandes nomes da pop art, movimento que propunha destruir as barreiras entre a arte e a vida cotidiana. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  255 4/15/10  3:13:28 pm</Page><Page Number="258">256  unidade 5 n. v. cadena-brasil – 100 anos de propaganda, edições referência/arquivo da editora em 1º- de abril de 1964, tanques circulando na cidade do rio de janeiro concretizam a tomada do governo pelos militares. o crítico literário italiano alfonso berardinelli, que vê os best-sellers de maneira negativa (por vezes ele expressa sua opinião de maneira contundente), acredita que há uma verdadeira indústria pronta a fabricá-los. leia trecho de sua entrevista a lucia wataghin, do jornal folha de s.paulo: sobre o best-seller tenho duas ideias principais. a primeira é: ele não amplia os horizontes do leitor, é um livro mata-livros, cria o deserto em torno de si, porque o leitor de best-seller não procura outros autores, não é curioso, espera a saída do próximo best-seller, porque quer o livro-síntese, que lhe permita não ler mais nada e lhe dê a ilusão de ter lido o essencial. a segunda ideia é a de que, antes, o best-seller era frequentemente casual, ao passo que agora se trata de livros programados; há uma indústria do best-seller. cria-se um certo produto literário de acordo com uma fórmula considerada magnética, que tende a se repetir, já que o leitor de best-seller ama a repetição, quer trilhar caminhos seguros. folha de s.paulo, 6 nov. 2005. folhapress. contexto histórico após o suicídio de getúlio vargas, em 1954, o brasil enfrentou profun-das transformações sociais. do governo do mineiro juscelino kubitschek ao do nordestino luiz inácio lula da silva, o país passou por diversos aconte-cimentos que interferiram bruscamente em sua produção artística. com kubitschek no poder, viveu-se a efervescência — com seu lema “50 anos em 5”, pretendia desenvolver cinquenta anos da história do país em cinco anos de governo. a indústria nacional cresceu vertiginosamente nesse período. marcas como arno, walita, general electric, volkswagen, entre outras, chegaram ao brasil durante esse governo e provocaram pro-funda mudança na cultura nacional, gerando outros hábitos. na primeira metade da década de 1960, dois presidentes da república chegaram ao poder, mas pouco permaneceram na presidência: jânio quadros e, na sequência, seu vice-presidente, joão goulart, que jamais conquistou a simpatia do exército e da elite brasileira. esses grupos começaram a tramar um golpe contra goulart, o que de fato ocorreu em março de 1964, inserindo o brasil em um de seus períodos mais obscuros: a ditadura militar. liquidificadores são uma novidade no brasil da década de 1950. por isso podemos notar neste anúncio da arno uma tentativa de ensinar a dona de casa a usar o equipamento. agência o globo/arquivo da editora vpem3_un5_cap02_250a272.indd  256 4/15/10  3:13:29 pm</Page><Page Number="259">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  257 a partir de 1964, os militares assumiram o poder. em dezembro de 1968, pressionado por movi-mentos contrários ao regime militar, o presidente em exercício, o marechal costa e silva, fechou o congresso nacional e decretou o ato institucional nº- 5 (ai-5), que concedia ao poder executivo o direito de determinar medidas repressivas específicas, como decretar o recesso do congresso, das assembleias legislativas estaduais e das câmaras municipais. o governo podia também censurar os meios de comunicação, eliminar garantias de estabilidade do poder judiciário e suspender a aplica-ção do habeas corpus em caso de crimes políticos. essa atitude radical dos militares levou políticos e artistas a se exilarem. grupos de estudantes e operários militantes foram levados à clandestinidade. o cenário repressor só começou a receber uma suave luz no final dos anos 1970, quando se inicia um processo de abertura política a partir da permissão dada à volta de exilados políticos. as artes evidentemente refletiram esse estado de desgaste e revolta, por meio de obras marcadas pelo desejo de contestação. se a década de 1980 é marcada no brasil pela efetivação da abertura política e pela volta, ainda que pro-blemática, ao sistema democrático de governo, no plano mundial a guerra fria chega ao fim, que é simbolizado pela queda do muro de berlim. iniciamos o século xxi num cenário em que cada vez mais se fortalece a globalização da economia, acentuam-se as diferenças entre a riqueza das potências econômicas e a pobreza dos países em desenvol-vimento e se constata a necessidade de agir para garantir a sustentabilidade do planeta. um dos marcos de nossa época é, sem dúvida, a comunicação vir­ tual. vivemos a era da transmissão via internet, uma ideia na rede pode estar em todos os lugares do mundo. não existe mais a arte para um pú­blico específico, há diversas possi-bilidades artísticas que muitas vezes fazem desaparecer a barreira entre o erudito e o popular. cena do filme zuzu angel, de sérgio rezende, 2006. o filme conta a história da então reconhecida estilista zuzu angel, cujo filho, stuart, participa da luta armada contra a ditadura. ao saber que o filho foi preso, a empresária começa sua busca pelo rapaz ou ao menos pelo corpo do filho, para enterrá-lo. warner bros./divulgação/arquivo da editora observe a moça da foto: ela usa dois notebooks ao mesmo tempo. alemanha, 2008. joero sarbach/associated press vpem3_un5_cap02_250a272.indd  257 4/15/10  3:13:31 pm</Page><Page Number="260">258  unidade 5 marcantes manifestações artísticas do período os concretistas — uma influência duradoura durante a década de 1950, um grupo de intelectuais se reunia no cha-mado clube de poesia, de são paulo. a partir desses encontros, os poetas haroldo de campos (1929-2003), décio pignatari (1927) e augusto de campos (1931) uniram-se em torno de um movimento poético chamado concretismo, retomando algumas propostas dos modernistas de 1922. essa corrente tem se revelado a mais influente no trabalho dos poetas brasileiros desde então. seus criadores recorrem à linguagem dos cartazes, ao ideograma chi-nês, às artes plásticas para valorizar a estrutura verbal e visual do poema — segundo esse movimento, mais importante do que o tema. para eles, o poema caracteriza-se pelo contraste das palavras dispostas no espaço em branco da página. também vale formar imagens a partir de sílabas e vocábulos, como no poema “ovo novelo”, de augusto de campos: n o v e l o novo  no  velho o  filho em  folhos na  jaula   dos  joelhos infante   em   fonte f e t o    f e i t o d e n t r o d o centro o v o campos, augusto de. in: bosi, alfredo.  história concisa da literatura brasileira. são paulo: cultrix, 1979. o poema “pluvial / fluvial”, de augusto de campos, é construído pela disposição repetitiva dos adjetivos pluvial (de chuva) e fluvial (de rio). observe que é possível perceber o movimento em que o “pluvial” se transforma em “fluvial”, passando da posição vertical (chuva) para a horizontal (rio). p p l p l u p l u v p l u v i p l u v i a p l u v i a l f l u v i a l f l u v i a l f l u v i a l f l u v i a l f l u v i a l f l u v i a l os irmãos haroldo (à esquerda) e augusto de campos; ao fundo, o poeta décio pignatari. arquivo do jornal o estado de s.paulo/ agência estado disponível em:  www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet066.htm.  acessado em 2 mar. 2010. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  258 4/15/10  3:13:32 pm</Page><Page Number="261">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  259 com “cidade/city/cité”, augusto de campos produziu um dos mais interessantes poemas do concretismo. a leitura do poema só é possível se acrescentarmos a palavra cidade, city ou cité depois de cada “pedaço” de palavra (atro, cadu, capa, causti, dupli, elasti, etc.) para formar palavras com o mesmo significado em três línguas diferentes — português, inglês e francês. assim, temos: atrocidade, atrocity, atrocité; capacidade, capacity, capacité; etc. cidade/city/cité atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultiplicorgani-periodiplastipublirapareciprorustisagasimplitenaveloveravivaunivoracidade aguilar, gonzalo. poesia concreta brasileira — as vanguardas na encruzilhada modernista.  são paulo: edusp, 2005. bossas, jovens guardas, tropicalismos, marginalidade a bossa nova representou uma releitura do samba brasileiro, nos anos 1950, marcando com o violão o compasso do governo democrático-populista de juscelino kubitschek. na década de 1960, formam-se os movimentos culturais promovidos pela televisão. a jovem guarda (de roberto e erasmo carlos) e o tropicalismo (de caetano veloso e gilberto gil) são movimentos surgidos em programas e festivais da tv record. a jovem guarda cantava a irreverência, questionava em suas músicas alguns conceitos morais da época; o tropicalismo e os compositores de “canções de protesto” (como a conhecida “pra não dizer que não falei de flores”, de geraldo vandré) eram considerados aliados no combate à ditadura, à repressão. em 1970, no auge da ditadura, começa a ganhar espaço a poesia marginal. a palavra marginal caracterizava toda arte que era feita quase que artesanalmente, isto é, sem muito gasto com edição. os poemas eram impressos em pequenas gráficas e, às vezes, com mimeógrafos. grampeados ou dobrados, não tinham muitas edições, ficando restritos a um público pequeno, mas que percebia as diversas vozes desses artistas. os artistas dessa vertente declamavam seus textos em praças, bares, universidades. não lança-vam livros e se recusavam a participar de programas de auditório. a circulação dos textos dessa época era feita por meio de cópias ou de exposições em varais ou murais das universidades do país. com a volta do sistema democrático à sociedade bra-sileira, nas décadas finais do século xx e o início do século xxi, os artistas podem gozar de mais liberdade, proliferam então as tendências artísticas. cada escritor pode seguir seu estilo sem preocupações com uma estética definida ou com temas específicos, não há um grupo que norteie o trabalho artístico. observe o parangolé desta foto, de 1986. parangolés, invenção do artista plástico brasileiro hélio oticica na década de 1960, são capas, bandeiras para serem vestidas ou carregadas. feitos com panos coloridos interligados, revelam-se melhor quando a pessoa se movimenta, dança. essa obra só existe plenamente, portanto, quando há participação corporal: a estrutura da peça depende da ação. antonio ribeiro/editora abril vpem3_un5_cap02_250a272.indd  259 4/15/10  3:13:34 pm</Page><Page Number="262">260  unidade 5 principais características vozes da denúncia nas décadas de 1960 e 1970, a arte era o meio possível para denunciar os problemas sociais — sobretudo em poemas, que muitas vezes acabaram se tornando letra de música. essas letras marcaram a época, e muitas são cantadas e apreciadas pelos jovens. são representantes desse momento os nomes de caetano veloso, gilberto gil, gal costa, tom zé, entre outros. observe como a letra de música “homem bomba” está a serviço da denúncia. homem bomba caetano veloso e jorge mautner lá vem o homem bomba que não tem medo algum porque daqui a pouco vai virar egum mas até lá, mata um, mata dois mata mais de um bilhão não vai deixar sobrar nenhum mas eu sou contra essa ideologia da agonia sou a favor do investimento pra acabar com a pobreza sou pelo estudo e o trabalho em harmonia o amor e o cristo redentor poesia na democracia disponível em: http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/568955/.  acessado em 28 fev. 2010. múltiplas tendências ora voltada para o social, ora para o mundo individual, a arte dos dias atuais aponta para uma multi-plicidade de temas e formas. haicais, poemas concretos, poemas tradicionais, experimentalismo, tudo isso convive muito bem neste início de século. saboreie um painel de textos bem interessantes que representam diversos caminhos poéticos. egum: espírito não desenvolvido que vaga pela terra, alma penada. capa do lp tropicália ou panis et circencis, lançado em 1968 pela phillips. esse disco marca o movimento tropicalista. oliver perroy/divulgação/ph vpem3_un5_cap02_250a272.indd  260 4/15/10  3:13:36 pm</Page><Page Number="263">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  261 ferreira gullar estranheza do mundo olho a árvore e indago: está aí para quê? o mundo é sem sentido quanto mais vasto é. esta pedra esta folha este mar sem tamanho fecham-se em si, me repelem. pervago em um mundo estranho. mas em meio à estranheza do mundo, descubro uma nova beleza com que me deslumbro: é teu doce sorriso é tua pele macia são teus olhos brilhando é essa tua alegria. olho a árvore e já não pergunto “para quê”? a estranheza do mundo se dissipa em você. disponível em: www.releituras.com/fgullar_claudia.asp. acessado em 26 fev. 2010. pervagar: andar sem destino. ferreira gullar (1930), poeta, ensaísta e crítico de arte, em 1954 publica a luta corporal e se aproxima dos irmãos campos e de décio pignatari, integrantes do concretismo. a partir de 1961, volta-se para o movimento de cultura popular. é preso pela ditadura militar em 1968. após um longo período na clandestinidade, segue para o exílio. em 1975, em buenos aires, lê seu poema sujo para um grupo liderado pelo poeta vinícius de moraes, que consegue lançar o livro em 1976 e colabora para a volta de gullar ao brasil logo depois. oscar cabral/editora abril ana cristina césar cabeceira intratável. não quero mais pôr poemas no papel nem dar a conhecer minha ternura. faço ar de dura, muito sóbria e dura, não pergunto “da sombra daquele beijo que farei?” é inútil ficar à escuta ou manobrar a lupa da adivinhação. dito isto o livro de cabeceira cai no chão. tua mão que desliza distraidamente? sobre a minha mão césar, ana cristina. a teus pés. são paulo: brasiliense, 1982. ana cristina césar (1952-1983), poeta carioca que marcou o cenário da poesia brasileira sobretudo dos anos 1970, licenciou-se em letras e fez diversas traduções. teve seus melhores poemas reunidos pela editora brasiliense, em 1982, no volume a teus pés. alguns poemas seus foram publicados após sua morte, como os do volume inéditos e dispersos, editados pela ática. flavio cruz/editora ática vpem3_un5_cap02_250a272.indd  261 4/15/10  3:13:39 pm</Page><Page Number="264">262  unidade 5 arnaldo antunes as coisas o que (se) foi é (s)ido antunes, arnaldo. as coisas. são paulo: iluminuras, 1993. arnaldo antunes (1960), poeta e compositor paulistano, ficou famoso com a banda titãs, da qual já não faz parte. recursos de computação gráfica e de vídeo muitas vezes são usados na sua arte. seu trabalho revela afinidades com o movimento concretista. entre suas obras, ressaltamos as coisas (editora iluminuras) e como é que chama o nome disso (editora publifolha). frederic jean/editora abril edner morelli ciclo morro-me socorro-me nasço-me re-nasço-me ao centro da hipótese que brilha sempre tardia volto-me. relógios relógios? não os tenho são eles que estragam o tempo morelli, edner. latência. são paulo: a-temporal, 2002. acervo pessoal/arquivo da editora edner morelli (1978), poeta paulistano, compositor, professor de literatura. estreou em poesia com a publicação de latência em 2002, pela editora a-temporal. recebe influências nítidas da poesia lírica produzida no século xx, especialmente a brasileira, ao unir subjetividade e questões existenciais aos motivos mais cotidianos. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  262 4/15/10  3:13:42 pm</Page><Page Number="265">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  263 paulo leminski apagar-me apagar-me diluir-me desmanchar-me até que depois de mim de nós de tudo não reste mais que o charme. se se nem for terra paulo leminski (1944-1989), poeta, publicitário e letrista curitibano, aproximou-se de diversas tendências artísticas e literárias da segunda metade do século xx, como o concretismo e o tropicalismo, porém seguiu uma trilha mais independente, deixando-se influenciar mesmo pelos haicais, de origem japonesa. de seu trabalho, destacamos la vie en close e distraídos venceremos, ambos publicados pela brasiliense. monica vendramini/folha imagem armando freitas filho fotografia não amava o amor. nem as suas provas amava sua engrenagem. a urdidura. do palco, o holofote cego com a possibilidade da luz. a cortina caindo em pano rápido na boca de cena, sob o coração imaginário artificial e monitorado, diverso daquele que batia dentro de si: sem controle — na bela e na fera. disponível em: www.germinaliteratura.com.br/aff.htm. acessado em 2 mar. 2010. armando martins de freitas filho (1940), pesquisador e poeta, publicou diversos livros de poesia; entre eles, 3x4 (em 1985), pelo qual recebeu o prêmio jabuti, e fio terra (em 2000), pelo qual recebeu prêmio concedido pela biblioteca nacional. roberto price/folha imagem se trans for mar disponível em: http://pauloleminskipoemas. blogspot.com/2009/07/se-paulo-leminski.html. acessado em 2 mar. 2010. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  263 4/15/10  3:13:45 pm</Page><Page Number="266">264  unidade 5 affonso ávila soneto de amor o coração não pulsa a clave dura cantando a rosa de si mesma urdida, seu tempo esculpe a aurora sem medida sobre as orlas da carne que amadura. nenhuma fonte aqui nos inaugura com a floração de água surpreendida, revolvemos os campos onde a vida pendoa-se e aos seus dias transfigura. confluência de vento e flauta rústica, em nosso lábio colhem outra acústica os pássaros moldados pela tarde. entanto, despojando-se de tudo o amor ainda se apura e, embora mudo, faz do silêncio a fórmula de alarde disponível em: www.revista.agulha.nom.br/aavila01.html#amor. acessado em 2 mar. 2010. affonso ávila (1928), ensaísta e poeta, destaca-se pela linguagem diferenciada de seus poemas. publicou estudos sobre a modernidade literária e, com particular ênfase, sobre a natureza e o impacto do barroco no brasil. a lógica do erro, coletânea de poemas seus, foi lançada pela editora perspectiva e dá uma ideia do trabalho desse poeta. andre brant/editora abril chacal dentes de aço eu te arranco um pedaço com meus dentes de aço e faço e refaço no peito e no braço e te arranco um pedaço com meus dentes de aço e você acha pouco e diz que eu sou muito louco mas eu não dou carne a gato e não vou pagar o pato dos teus sais dos teus ais eu quero é mais planetas estrelas cometas virgínia sofia roraima bem… não se fala mais nisso até que você descubra que a bomba h a bossa nova está na ponta da língua disponível em: www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/chacal.html. acessado em 2 mar. 2010. pendoar: ornar, enfeitar. folha imagem/arquivo da editora chacal (1951), poeta e letrista, publicou diversos livros. seu trabalho está bem representado no volume poetas marginais, da coleção para gostar de ler, publicado pela editora ática, em que se pode conhecer também outros poetas que produziram durante a década de 1970. letrista, chacal trabalhou com lulu santos, fernanda abreu, moraes moreira, entre outros. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  264 4/15/10  3:13:49 pm</Page><Page Number="267">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  265 adélia prado corridinho o amor quer abraçar e não pode. a multidão em volta, com seus olhos cediços, põe caco de vidro no muro para o amor desistir. o amor usa o correio, o correio trapaceia, a carta não chega, o amor fica sem saber se é ou não é. adélia prado (1935), romancista, poeta, formada em filosofia, publicou em 1976 seu primeiro livro, bagagem. alguns de seus textos foram adaptados para o teatro em montagens bem-sucedidas como dona doida, protagonizado por fernanda montenegro. quando eu era pequena, cacos para um vitral e o pelicano, todos publicados pela editora record, dão uma ideia da obra dessa poeta mineira. célio apolinário/editora abril mário quintana eu queria trazer-te uns versos muito lindos eu queria trazer-te uns versos muito lindos colhidos no mais íntimo de mim… suas palavras seriam as mais simples do mundo, porém não sei que luz as iluminaria que terias de fechar teus olhos para as ouvir… sim! uma luz que viria de dentro delas, como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel. trago-te palavras, apenas… e que estão escritas do lado de fora do papel… não sei, eu nunca soube o que dizer-te e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento da poesia… como uma pobre lanterna que incendiou! quintana, mário. apontamentos de história sobrenatural. são paulo: globo, 2005. by elena quintana. o amor pega o cavalo, desembarca do trem, chega na porta cansado de tanto caminhar a pé. fala a palavra açucena, pede água, bebe café, dorme na sua presença, chupa bala de hortelã. tudo manha, truque, engenho: é descuidar, o amor te pega, te come, te molha todo. mas água o amor não é. prado, adélia. o coração disparado. rio de janeiro: record, s.d. by adélia prado. mário quintana (1906-1994), tradutor e poeta gaúcho, em 1940 lançou rua dos cataventos, seu primeiro livro de poesias. de sua vasta obra, pode-se ter uma ideia com a leitura de eu passarinho (editora ática) e nova antologia poética (editora globo). luiz abreu/nextfoto vpem3_un5_cap02_250a272.indd  265 4/15/10  3:13:52 pm</Page><Page Number="268">266  unidade 5 desafo responda às questões no caderno. 1 	(puc-pr) para responder à questão a seguir, leia o poema de paulo leminski, que consta do seu livro poemas. 	 marginal é quem escreve à margem, deixando branca a página 	 para que a paisagem passe e deixe tudo claro à sua passagem. 	 marginal, escrever na entrelinha, sem nunca saber direito 	 quem veio primeiro, o ovo ou a galinha. 	 i.	o poema faz referência à poesia marginal, grupo do qual leminski fez parte. 	 ii.	o humor, uma das marcas da poesia leminskiana, remete o leitor ao fazer poético. 	 iii.	é um haicai, nos moldes japoneses. 	 iv.	no poema, leminski faz uma crítica à marginalização do poeta na sociedade. a)	apenas as assertivas i e ii estão corretas. x b)	apenas as assertivas i, ii e iii estão corretas. c)	apenas a assertiva i está correta. d)	todas as assertivas estão corretas. e)	apenas a assertiva ii está correta. 2 	(puc-rs) viagens constituem um dos temas mais intrigantes na história dos povos. alguns homens deslocam-se de seus lugares de origem em busca de fortuna; outros viajam para alcançar a glória ou o sucesso; outros, ainda, partem pelo simples prazer da aventura. há, contudo, os que apenas realizam uma jornada interior, sem sair do seu espaço, porque a viagem que realizam está dentro deles mesmos ou nas páginas dos livros que leem. instrução: para responder à questão 2, ler o seguinte excerto do poema “a viagem”, de mário quintana. a louca agitação das vésperas de partida! com a algazarra das crianças atrapalhando tudo e a gente esquecendo o que devia trazer, trazendo coisas que deviam ficar… mas é que as coisas também querem partir, as coisas também querem chegar a qualquer parte! — desde que não seja este eterno mesmo lugar… e em vão o pai procura assumir o comando: mas acabou-se a autoridade… só existe no mundo esta grande novidade: viajar! prof. (a), as questões de vestibular usadas nesta seção, em geral, foram transcritas literalmente, pois buscamos preservar sua configuração original. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  266 4/15/10  3:13:52 pm</Page><Page Number="269">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  267 todas as afirmativas estão corretamente associadas ao poema, exceto: a)	o objetivo, tanto das pessoas como das coisas, é poder sair dos espaços da vida cotidiana. b)	a autoridade paterna esvai-se porque viajar é a coisa mais importante para a família. c)	a expectativa da viagem faz o viajante levar objetos necessários e desnecessários. d)	a preparação para a viagem altera completamente a rotina de quem vai viajar. e)	o esquecimento de objetos necessários impede desfrutar adequadamente a viagem programada. x 3 	(ucs-rs) observe o poema. luxo	 luxo	 luxo	 luxo	 luxo luxo luxo luxo	 luxo	 luxo	 luxo	 luxo luxo luxo luxo	 luxo	 luxo	luxo	 luxo luxo luxo luxo	 luxo	 luxoxo	 luxo	 luxo luxo	 luxo	 luxo	 luxo	 luxo luxo	 luxo	 luxoxo	 luxo	 luxo luxo luxo	 luxo	 luxo	luxo	 luxo luxo luxo luxo luxo	 luxo	 luxo	 luxo	 luxo luxo luxo luxo luxo	 luxo	 luxo	 luxo	 luxo luxo luxo (campos, augusto de. luxo. in: moriconi, ítalo.  os cem melhores poemas do século.  rio de janeiro: objetiva, 2001. p. 261.) as afirmações seguintes referem-se ao poema transcrito. 	 i.	é um exemplo da poesia concretista, que tem como propósito aliar a exploração de aspectos formais à crítica da realidade. 	 ii.	a crítica à sociedade de consumo é sugerida pela oposição entre os termos “lixo” e “luxo”. 	 iii.	a disposição gráfica das palavras é fundamental para sua interpretação, uma vez que possibilita estabelecer relações entre a forma e o conteúdo. das afirmativas acima, pode-se dizer que a)	apenas ii está correta. b)	apenas iii está correta. c)	i e ii estão corretas. d)	ii e iii estão corretas. e)	i, ii e iii estão corretas. x 4 	(uerj) texto o dia abriu seu parassol bordado 1	 o dia abriu seu parassol bordado 2	 de nuvens e de verde ramaria. 3	 e estava até um fumo, que subia, 4	mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  267 4/15/10  3:13:52 pm</Page><Page Number="270">268  unidade 5 5	 depois surgiu, no céu azul arqueado, 6	 a lua — a lua! — em pleno meio-dia. 7	 na rua, um menininho que seguia 8	 parou, ficou a olhá-la admirado… 9	 pus meus sapatos na janela alta, 10	sobre o rebordo… céu é que lhes falta 11	pra suportarem a existência rude! 12	e eles sonham, imóveis, deslumbrados, 13	que são dois velhos barcos, encalhados 14	sobre a margem tranquila de um açude. mário quintana. prosa e verso.  porto alegre: globo, 1978. o autor utilizou nesse poema recursos formais da poesia tradicional e a eles incorporou traços carac-terísticos da linguagem modernista. considerando a estrutura do poema, identifique dois aspectos formais da poesia tradicional e aponte uma característica da linguagem modernista e seu respectivo exemplo. 5 	(ufrj) texto casamento há mulheres que dizem: meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. eu não. a qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. é tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como “este foi difícil” “prateou no ar dando rabanadas” e faz o gesto com a mão. o silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva. (prado, adélia. terra de santa cruz. rio de janeiro:  guanabara dois, 1986. p. 29.) pode-se afirmar que o eu lírico apresenta concepção de casamento diferente da cultivada pelas outras mulheres referidas no texto (verso 1). quais seriam essas concepções em oposição? 	 aspectos formais: emprego da rima, empre-go do soneto, emprego de versos metrificados. uma das características e respectivo exemplo: uso da linguagem coloquial: parassol, fumo, pra; uso na linguagem escrita da linguagem oral: mi-nu-ci-o-sa-men-te. a concepção de casamento para as mulheres referidas no verso 1 propõe a recusa de funções tradicionalmente femininas. para o eu lírico, a concepção não põe em causa a delimitação de papéis, tendo em vista que casamento é lugar de encontro, partilha. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  268 4/15/10  3:13:53 pm</Page><Page Number="271">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  269 comparando textos leia a letra de música “é”, do compositor gonzaguinha, e compare-a ao poema “homem comum”, de ferreira gullar (p. 251). é gonzaguinha é! a gente quer valer o nosso amor a gente quer valer nosso suor a gente quer valer o nosso humor a gente quer do bom e do melhor… a gente quer carinho e atenção a gente quer calor no coração a gente quer suar, mas de prazer a gente quer é ter muita saúde a gente quer viver a liberdade a gente quer viver felicidade… é! a gente não tem cara de panaca a gente não tem jeito de babaca a gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela… é! a gente quer viver pleno direito a gente quer viver todo respeito a gente quer viver uma nação a gente quer é ser um cidadão a gente quer viver uma nação… é! é! é! é! é! é! é!… gonzaguinha. corações marginais. disponível em: www.gonzaguinha.com.br. acessado em 13 mar. 2010. 1 	nos dois textos, temos um eu lírico que compartilha com seus interlocutores certas características, impressões e necessidades. que recurso cada um dos autores usou para indicar que faz parte do grupo para o qual fala? 2 	os dois textos, com recursos bem diferentes, apresentam objetivos bem parecidos. quais são eles? 3 	observe, na letra da canção “é”, uma gradação: relendo cada um dos versos, é possível observar que os desejos apontados têm características diferentes. a)	do que trata a primeira estrofe? comprove com versos da letra. b)	do que trata a segunda estrofe? comprove com versos da letra. c)	do que trata a última estrofe? comprove com versos da letra. 4 	existe na letra da canção “é” um pedido implícito. a)	em sua opinião, a quem é feito esse pedido? b)	o que é pedido? 5 	existe no poema “homem comum” um pedido explícito. a)	a quem é feito esse pedido? ao homem comum. b)	o que é pedido? que as pessoas se unam para fazer algo contra a exploração, contra o latifúndio, contra a pressão do imperialismo. 6 	considere as respostas dadas às questões 4 e 5 e identifique uma importante diferença entre os dois textos em análise. no texto de gonzaguinha, é usada a expressão a gente, por meio da qual ele envolve não apenas as suas necessidades, mas aquelas que considera comuns a todas as pessoas. 	 no texto “homem comum”, o poeta, além de usar a primeira pessoa do singular — “sou um homem comum” —, enumera diversas características comuns a todas as pessoas: de carne e de memória, de osso e esquecimento. também se dirige ao interlocutor — “sou como você” —, deixando claras as semelhanças entre os dois. enumerar as características comuns às pessoas e destacar algumas de suas necessidades. dos desejos mais pessoais: “a gente quer valer o nosso amor” / “a gente quer valer nosso suor”. de aspectos mais relativos ao convívio: “a gente quer carinho e atenção”. de aspectos relativos ao coletivo: “a gente quer é ser um cidadão” / “a gente quer é ser uma nação”. sugestão: às autoridades responsáveis pelo país. às pessoas responsáveis pela promoção do bem-estar dos cidadãos. a construção de uma nação fundada no respeito aos direitos básicos das pessoas, entre os quais estão o direito à felicidade, à cidadania, etc. 	 o fato de se dirigirem a interlocutores diferentes: no poema de ferreira gullar, o eu lírico convoca o homem comum a atuar na transformação de uma realidade e, para se aproximar dele, aponta características comuns a eles. na letra de música, o eu lírico fala em nome das pessoas que têm seus direitos negligenciados, dirigindo-se a quem talvez tivesse o poder de transformar essa realidade. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  269 4/15/10  3:13:53 pm</Page><Page Number="272">270  unidade 5 e por falar em poesia contemporânea… além dos autores estudados neste capítulo, existe uma nova geração de poetas, nascida entre as déca-das de 1960 e 1980, cuja produção literária já é reconhecida. selecionamos alguns poemas para que você conheça um pouco a produção literária desses jovens  poetas. após a leitura atenta dos textos, reúna-se com três colegas, escolham alguns poemas e criem uma maneira de divulgá-los na escola. vocês podem: elaborar cartazes. escrevam um ou mais poemas, ilustre-os com desenhos ou colagens que façam  referência a um dos sentidos sugeridos pelo texto; preparar uma apresentação de  performance poética. leiam o poema mais de uma vez, memorizem os versos e pensem em uma forma diferente de apresentá-lo. no intervalo das aulas, atraiam as pessoas para algum lugar do pátio e declamem o poema; elaborar panfletos poéticos. digitem, os poemas escolhidos ou escrevam-nos à mão. acrescentem  ilustrações e uma síntese da biografia dos autores. ocupem apenas o equivalente a uma folha de sul-fite. imprimam, se tiverem sido digitados, tirem cópias e distribuam-nas entre os alunos da escola. os poemas que selecionamos foram retirados do livro poesia do dia — poetas de hoje para leitores de agora. não quero descobrir 	 que te amo prefiro continuar ligando 	 e dizer que foi engano mário bortolotto aprendizado aprender a ser sozinho além de toda melancolia não esperar nada das coisas nem de ninguém mas encantar-se com tudo o que é vivo e imprime um rastro fugaz o amor virá depois como um sacramento fabrício corsaletti prof.(a), prepare os alunos para esta atividade com certa antecedência. se a escola tiver um laboratório de informática, reserve-o para o grupo que optar por fazer panfletos poéticos. para os grupos que optarem por fazer cartazes, peça material de artes e revistas que possam ser recortadas. prof.(a), comente com os alunos que a performance (ou desempenho) é mais que uma leitura em voz alta; é, segundo cohen (cohen, renato. performance como linguagem. são paulo: perspectiva, 2002.), “basicamente uma arte de intervenção, modificadora, que visa uma transformação no receptor.”. a performance pode envolver movimentos, uma interpretação do poema, transformando-o mesmo em um evento teatral. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un5_cap02_250a272.indd  270 4/15/10  3:13:53 pm</Page><Page Number="273">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — poesia  271 passagem o beijo que espero virá da colisão das retas paralelas a caminho da festa banho de lama na minha melhor roupa de raspão passará como tiro em quem tá do lado esperando o ônibus. bruna beber da condição primeira com licença de todos os santos e a de meu pai oxalá pego nesta encruzilhada o prato de comida a fome é grande e é pela minha boca que comem os deuses. alberto pucheu enquanto te espero, sou chamado ao portão. não respondo. o nome ajuda a envelhecer. pela rua deserta, as pessoas passam, fechadas como as lojas. enquanto te espero, custo a recobrar o sono recente. a nudez adormece quando acordamos. amadurecem os dias como se fossem meus. fabrício carpinejar quando o meu amor tira os olhos de mim eu não enxergo elisa andrade buzzo sarmatz, leandro (sel. e org.). poesia do dia — poetas de hoje para leitores de agora. são paulo: ática, 2008. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un5_cap02_250a272.indd  271 4/15/10  3:13:54 pm</Page><Page Number="274">272  unidade 5 aproveite para… … ler literatura brasileira hoje  , de manuel da costa pinto, editora publifolha o livro destaca 60 autores (30 poetas e 30 prosadores) da atualidade, mostrando quem tem feito a literatura nacional dos dias de hoje. coyote — revista de literatura e arte  , editora kan revista editada há cinco anos em londrina pelos poetas rodrigo garcia lopes, marcos losnak, maurício arruda mendonça e ademir assunção. apresenta traduções de textos literários bastante interessantes e inéditos no brasil, além de novos poetas brasileiros. inimigo rumor — revista de poesia  , editora 7 letras a revista dedica-se à publicação de poemas e textos críticos sobre poemas há dez anos, publicada pelas editora 7 letras em parceria com a cosac naify. boa companhia — poesia  , editora companhia das letras neste livro são apresentados alguns poemas de cada um dos dezesseis poetas que, hoje, representam parte da produção poética brasileira contemporânea. os cem melhores poemas brasileiros do século  , sel. ítalo moriconi, editora objetiva trata-se da seleção de poemas diversos, reunidos nesse volume pela qualidade inegável de cada pro-dução. … assistir o que é isso, companheiro?  , de bruno barreto (brasil, 1997) durante a ditadura militar das décadas de 1960 e 1970, grupo de jovens sequestra embaixador norte- -americano para trocá-lo por prisioneiros políticos.  o ano em que meus pais saíram de férias, de cao hamburger (brasil, 2006) mauro é um garoto comum de 12 anos, mas tudo muda em sua vida quando seus pais, persegui-dos pela ditadura, resolvem fugir um dia, deixando-o com o avô e uma nova realidade. … ver na internet www.releituras.com  o site oferece textos e dicas, além de biografias de autores nacionais (e internacionais) conhecidos. portalliteral.terra.com.br  site com notícias, matérias, críticas e comentários sobre literatura brasileira, que dá acesso aos sites oficiais de escritores como luis fernando verissimo, lygia fagundes telles, ferreira gullar, rubem fonseca, zuenir ventura. buena vista/divulgação/arquivo da editora o ator michel joelsas no papel de mauro. vpem3_un5_cap02_250a272.indd  272 4/15/10  3:13:55 pm</Page><Page Number="275">temas e cenas nesta unidade, você vai estudar o gênero dissertação e também tomará contato com alguns textos em prosa, pequenos exemplos das produções literárias brasileiras contemporâneas. unidade 6 273 marlene bergamo/folha imagem/folhapress foto de 2009 mostra detalhe da finalização de um painel que integra a exposição de dentro para fora, de fora para dentro, na galeria subterrânea do museu de arte de são paulo. artistas cobriram 1500 metros quadrados do local com tinta látex e spray. a exposição leva a arte dos muros da cidade — o grafite — às salas do museu. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  273 4/15/10  3:16:16 pm</Page><Page Number="276">1 capítulo a dissertação 274  unidade 6 antes de ler observe os passos para se produzir uma dissertação sugeridos por antônio suárez abreu em seu livro a arte de argumentar, publicado pela editora ateliê: 1º- passo: escrever em forma de pergunta um problema relacionado ao tema sobre o qual deverá dissertar. por exemplo: tema: aquecimento global. problema: quem ganha com o aquecimento global? 2º- passo: encontrar possíveis respostas para a pergunta. por exemplo: hipótese 1: todo o mundo perde com o aquecimento global. hipótese 2: muita gente já investe prevendo os lucros com o aquecimento global. 3º- passo: escolher a melhor hipótese que será a sua tese. por exemplo: tese: muita gente já investe prevendo os lucros com o aquecimento global. tomando por base esse modelo, copie o quadro a seguir no caderno e planeje seu texto dissertativo.  1º- passo: tema/problema 2º- passo: hipóteses 3º- passo: tese tema: o lixo nas grandes cidades problema: hipótese 1: hipótese 2: hipótese 3: tese: tema: problema: hipótese 1: hipótese 2: hipótese 3: tese:  texto dissertar é apresentar para um leitor pontos de vista, opiniões; é argumentar sobre determinado assunto, apresentando uma ideia. assim, o objetivo principal da dissertação é convencer ou instruir o interlocutor por meio de argumentos convincentes. leia com atenção o texto dissertativo a seguir, elaborado por um candidato dos exames vestibulares da fuvest em 2007. prof.(a), sugira temas atuais de acordo com a realidade de seus alunos. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  274 4/15/10  3:16:16 pm</Page><Page Number="277">capítulo 1 – a dissertação  275 divina dádiva a amizade, para os povos da antiguidade clássica, era a melhor e mais agradá-vel dádiva dos imortais. esta face das relações humanas é valorizada desde o início da evolução até a contemporaneidade. é complicado viver sem a felicidade de se encontrar num amigo. assim como não há nada mais doce do que confiar inteiramente em alguém. a felicidade seria desnecessária, se não houvesse com quem o homem partilhá-la, como o mestre e o discípulo, cujas vitórias e alegrias de um, são também do outro. os filósofos da grécia antiga, sófocles e platão, respectivamente mentor e aluno, cultivaram uma amizade tão profunda a ponto dessas condições se mesclarem. de seus conheci-mentos surgiram as bases da sociedade ocidental. outros casos de amizades verdadeiras geradoras de grandes ideias ocorreram na história. como o dos economistas e filósofos karl marx e friederich engels, que revo-lucionaram com “o manifesto comunista”, plantando as ideologias de futuras grandes nações, como a extinta união soviética. pode-se lembrar inclusive dos franceses roger bastide e pierre verger, de cuja amizade nasceram grandes teses antropológicas sobre o brasil, em especial o nordeste, e milhares de fotografias que rodam o mundo em exposições apresentando o brasileiro de meados do século xx para outras culturas. este sentimento quando sincero, gera uma intimidade sem reservas. sentir- -se seguro e confiar em alguém é uma sensação inerente à humanidade. no meio social contemporâneo acreditar nas pessoas tornou-se tarefa árdua, uma vez que a fidelidade, a confiança e a lealdade se desvincularam dos princípios morais, dando espaço para a inveja, o ciúme e a vingança. cada vez é mais difícil manter um amigo digno, o qual fosse capaz de realmente sofrer numa despedida e de se alegrar nas conquistas do outro. a amizade e o amor são complementares, ambos exigem sentimentos sinceros e recíprocos. para a humanidade a existência de amigos sinceros é urgente, o homem é inca-paz de conviver isolado em si mesmo. é preciso uma revisão dos princípios bási-cos para evitar a imoralidade, que envenena amizades e transforma “edmounds dantis” em “condes de monte cristo”. disponível em: www.fuvest.br/vest2007/bestred/bestred.stm.  acessado em 3 mar. 2010. prof.(a), a dissertação escolhida obteve uma boa nota embora apresente construções redundantes, pequenos problemas de pontuação e de concordância. mostre aos alunos que isso não impediu o excelente desempenho do candidato em virtude do alto grau de informação e coerência de seu texto. observe com os alunos, por exemplo, que a grafia correta do primeiro nome de engels é friedrich. alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un6_cap01_273a294.indd  275 4/15/10  3:16:18 pm</Page><Page Number="278">276  unidade 6 interpretação do texto a coerência de um texto é o resultado da organização dos argumentos de forma coesa somados ao conhecimento de mundo da pessoa que o escreve. essa organização é que leva o interlocutor a uma interpretação adequada. 1	o texto que você leu recebeu nota 10 no vestibular da fuvest de 2007. sabendo que em geral o texto dissertativo deve apresentar uma tese, uma ideia, no primeiro parágrafo da redação, identifique a tese que o autor pretende defender. o autor pretende defender a importância da amizade. 2	a coerência de um texto manifesta-se por uma rede coesiva que apresenta vários fatores importantes. vamos analisar um deles. a)	releia a questão 1 e destaque da tese o substantivo que serve de palavra-chave no texto. amizade. b)	identifique nos demais parágrafos palavras semelhantes ou iguais a que você destacou na questão a. c)	pelas respostas apresentadas nos itens acima, escreva no caderno a afirmativa correta: a  repetição apresentada no texto é um importante recurso coesivo, porque retoma elementos para reforçar a argumentação. x a  repetição diz respeito à repetição de palavras pelo fato de o autor não encontrar vocabulário mais adequado. a  repetição representa um erro grave no desenvolvimento dos argumentos de uma dissertação. 3	a coesão por referência pode ocorrer pela substituição de palavras ou expressões por pronomes (pessoais, demonstrativos, possessivos), por advérbio de lugar, por artigo definido, por expressões sinônimas, etc. leia as frases destacadas a seguir e identifique o termo que estabelece a coesão entre as ideias expostas. em seguida, explique que ideias ou palavras esse termo retoma. a)	“a amizade, para os povos da antiguidade clássica, era a melhor e mais agradável dádiva dos imortais. esta face das relações humanas é valorizada desde o início da evolução até a contemporaneidade.” b)	“a amizade, para os povos da antiguidade clássica, era a melhor e mais agradável dádiva dos imortais […] este sentimento quando sincero, gera uma intimidade sem reservas.” prof.(a), se o aluno não acertar a palavra, peça-lhe que fique atento à resposta da questão b. os substantivos amigo e amizade repetem-se ao longo do texto. prof.(a), colabore para que o aluno observe que esses substantivos, ao longo do texto, são mais citados que a palavra felicidade, por exemplo. o pronome demonstrativo esta e a expressão sinônima “face das relações humanas” fazem referência à amizade. o pronome demonstrativo este e o substantivo sentimento (no quarto parágrafo) referem-se ao substantivo amizade (no primeiro parágrafo). prof.(a), comente com os alunos que seria melhor se o autor do texto tivesse usado os demonstrativos essa e esse (anafóricos) em vez de esta e 	 este (catafóricos). faça-os observar o uso inadequado da vírgula. richard melloul/sygama/corbis/latinstock cena de o conde de monte cristo, de josée dayan, 1998, uma adaptação para o cinema do romance de mesmo nome, de alexandre dumas, concluído em 1844. a personagem principal da história, edmond dantès (esse é o nome correto do personagem), é um homem simples e bom, preso injustamente. na prisão, um abade lhe conta onde está escondido um grande tesouro. dantès foge e, com a imensa fortuna do abade, torna-se o conde de monte cristo e vinga-se dos responsáveis pela sua condenação. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  276 4/15/10  3:16:19 pm</Page><Page Number="279">capítulo 1 – a dissertação  277 4	um texto coerente e coeso deve apresentar, além da retomada (repetição), outros fatores importantes, como a progressão. leia e compare os excertos de textos dissertativos destacados. i. para se atingir o sucesso profissional, tem que estar bem preparado, ter uma boa formação escolar, ter talento e coragem para superar os obstáculos que vêm pela frente e se dedicar ao máximo na profissão. a felicidade na vida profissional ocorre quando o talento nela empregado é harmônico com a vocação. o mercado de trabalho assimila o profissional não por causa de sua vocação, mas sim por causa de seu talento. disponível em: http://educacao.uol.com.br/bancoderedacoes/redacao/ult4657u167.jhtm .  acessado em 4 mar. 2010. adaptado. ii. é complicado viver sem a felicidade de se encontrar num amigo. assim como, não há nada mais doce do que confiar inteiramente em alguém. a felicidade seria desnecessária, se não houvesse com quem o homem partilhá-la, como o mestre e o discípulo, cujas vitórias e alegrias de um, são também do outro. os filósofos da grécia antiga, sófocles e platão, respectivamente mentor e aluno, cultivaram uma amizade tão profunda a ponto dessas condições se mesclarem. de seus conhecimentos surgi-ram as bases da sociedade ocidental. ibid. busto do filósofo grego platão (427 a.c.-347 a.c.), em cópia romana de escultura grega. platão foi amigo e discípulo do filósofo sócrates (470 a.c.-399 a.c.). sófocles (496 a.c.-405 a.c.), citado por engano pelo autor da redação como filósofo, era dramaturgo. musei vaticani, vaticano, akg-images/latinstock os excertos apresentados se opõem: em um as ideias não se desenvolvem, voltam ao ponto de partida, o autor não passa informações novas ao leitor; enquanto o outro é exatamente o oposto. a)	em sua opinião, qual texto apresenta pouca ou nenhuma informação ao leitor? qual o texto que a cada etapa acrescenta novas informações ao leitor? b)	acrescente ao excerto a seguir uma informação criada por você. para introduzi-la, utilize expressões como “a respeito de”, “no que se refere a”, “quanto a”. outros casos de amizades verdadeiras geradoras de grandes ideias ocorreram na história. como o dos economistas e filósofos karl marx e friederich engels, que revolucionaram com “o manifesto comunista”, plantando as ideologias de futuras grandes nações, como a extinta união soviética. prof.(a), explique que o primeiro texto é quase um circunlóquio, as ideias não se desenvolvem, enquanto no segundo texto a progressão está clara, é possível observá-la no trecho “os filósofos da grécia antiga, sófocles e platão, respectivamente mentor e aluno, cultivaram uma amizade tão profunda a ponto dessas condições se mesclarem”; se o leitor não soubesse o nome de filósofos da grécia antiga seria informado logo a seguir com a citação de seus nomes, acrescentando ainda que sófocles era o professor e platão o aluno; a tudo isso o autor acrescenta outra informação: “a ponto dessas condições se mesclarem”. sugestão: […] a ponto de, em pleno século xxi, ainda seus nomes serem citados como exemplo de amizade em uma redação de vestibular. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  277 4/15/10  3:16:21 pm</Page><Page Number="280">278  unidade 6 5 a progressão se faz ao longo do texto, isto é, um parágrafo não deve repetir uma ideia exposta ante-riormente sem nada lhe acrescentar. copie o quadro a seguir no caderno. verifique como ocorre a progressão no texto lido e complete os parágrafos do quadro. parágrafo síntese do assunto desenvolvido 1º-a amizade sempre fez parte das relações humanas 2º-3º-4º-5º-o homem, um ser social, não é feliz sem amigos sinceros. 6 a progressão temática resulta de um raciocínio lógico que implica o surgimento de uma ideia. observe: é complicado viver sem a felicidade de se encontrar num amigo. assim como não há nada mais doce do que confiar inteiramente em alguém. pela sequência do raciocínio, percebemos que quem não tem um amigo não é feliz, consequentemente felicidade é ter um amigo para compartilhar sua vida. a) faça, no caderno, a progressão do seguinte raciocínio: dormir bem faz milagres pelo nosso bem-estar. o sono é fundamental para recompor o físico e as funções mentais. jornal leve e leia, abr. 2008. b) volte à atividade 4. o texto i não apresenta progressão de informações. reescreva-o, utilizando a técnica aqui exposta. 7 releia o primeiro e o segundo parágrafos do texto “divina dádiva” e compare-os com o último. qual deles, por ter verbos no tempo presente, pretende apresentar uma verdade? procure explicar por que esse parágrafo tem tal característica. 8 os textos dissertativos apresentam também mecanismos de conexão verbal, que devem explicitar continuidade ou oposição entre as ideias expostas no texto. leia os períodos a seguir e preste atenção nos conectores destacados. depois escreva no caderno: (1) para os períodos compostos por subordinação; (2) para os períodos compostos por subordinação e coordenação. a) “a felicidade seria desnecessária, se não houvesse com quem o homem partilhá-la”[…] 1 b) “os filósofos da grécia antiga, sófocles e platão, respectivamente mentor e aluno, cultivaram uma amizade tão profunda a ponto dessas condições se mesclarem.” 1 c) “no meio social contemporâneo acreditar nas pessoas tornou-se tarefa árdua, uma vez que a fidelidade, a confiança e a lealdade se desvincularam dos princípios morais”[…] 1 d) “é preciso uma revisão dos princípios básicos para evitar a imoralidade, que envenena amizades e transforma “edmounds dantis” em “condes de monte cristo”. 2 9 escreva no caderno a(s) alternativa(s) que completa(m) adequadamente a frase a seguir: o texto lido aparece no site das melhores redações da fuvest. daí podemos concluir que prof.(a), a sugestão de progressão é a original do texto: “uma noite bem dormida melhora a pele e pode diminuir a fome, pois uma pessoa que repousa bastante não tem tanto apetite e provavelmente vai engordar menos”. mas evidentemente aceite outras possibilidades, desde que baseadas na frase dada. sugestão: formação escolar, talento, força de vontade para superar os obstáculos e capacidade de trabalhar em equipe representam, no século xxi, a fórmula infalível de sucesso, a ponto de esse perfil já ser velho conhecido de muitos candidatos em processos de seleção.  o último parágrafo, que é a conclusão do texto, apresenta os verbos no tempo presente para mostrar a importância da amizade no conturbado mundo atual e assim terminar o texto dissertativo. a felicidade só é importante quando se pode compartilhá-la com um amigo. por causa da amizade entre grandes estudiosos surgiram importantes teses que beneficiaram a humanidade. atualmente a amizade verdadeira tornou-se rara. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  278 4/15/10  3:16:22 pm</Page><Page Number="281">capítulo 1 – a dissertação  279 a)	períodos compostos cujas orações se interligam por meio de diferentes conectores são inadequados ao texto dissertativo. b)	períodos curtos não ligados por conectivos não são a melhor forma de apresentação de um texto dissertativo. x c)	períodos compostos cujas orações se interligam por meio de diferentes conectores são adequados ao texto dissertativo. x produção de texto o texto dissertativo o texto dissertativo é produzido em situações que exigem do sujeito produtor a apresentação do seu ponto de vista sobre determinado assunto. comum, sobretudo, no ambiente escolar para desenvolver a competência comunicativa do aluno, a dissertação pode ser produzida em exames vestibulares assim como em processos seletivos de candidatos a estágios e cargos em empresas públicas e privadas. nessas situa-ções, espera-se que o autor demonstre sua competência para dissertar, ou seja, para discorrer logicamente, organizando um texto com começo, meio e fim sobre determinado assunto. na dissertação, o autor precisa externar o pensamento sobre o assunto proposto, demonstrando senso crítico, independência de pensamento e capacidade comunicativa. ao aprender a dissertar, o indivíduo aprende a selecionar e articular ideias, a expô-las e a participar efetivamente das mais diversas situações sociais. assim, ao contrário do que alguns imaginam, a dissertação não serve apenas para o professor ler, mas também para praticar a exposição de um ponto de vista à sociedade. a dissertação sempre tem uma intenção: apresentar o ponto de vista do autor do texto a outras pes-soas, que podem concordar com a ideia ou refutá-la. uma vez que a dissertação é a apresentação do ponto de vista de quem escreve, é bom evitar se prender a um modelo ou a uma forma de texto que não expresse esse ponto de vista. leia o que diz a professora maria thereza fraga rocco, responsável pelas provas de redação da fuvest: as boas redações são aquelas que obedecem ao discurso dissertativo — que têm começo, meio e fim — e são fruto da independência do pensamento de cada um. ficamos exaustos de ver a “camisa de força” enfiada nos jovens pela escola ou pelos cursos preparativos. revista guia do estudante — redação vestibular, 2008. o leitor do texto quer saber a opinião do autor, o que ele pensa sobre o assunto dado e como pensa. para realizar uma produção que atenda a esse propósito, é preciso demonstrar maturidade intelectual ao se posicionar sobre o tema e clareza na organização desse pensamento. o autor da dissertação deve expressar suas ideias e defendê-las por meio de argumentos próprios, construídos a partir de sua visão de mundo. na interação autor-leitor, o objetivo da dissertação é convencer o leitor do ponto de vista do autor, que, para persuadir e convencer, usa argumentos convincentes. toda informação, experiência de vida e conhecimento adquirido ao longo do tempo podem ajudar a elaborar a dissertação. leia outro comentário da professora maria thereza para a mesma revista: pedimos temas que exijam que ele [o aluno] saiba refletir, julgar, analisar sob diversos ângulos, e nunca tópicos referentes às notícias recentes de jornal. os estudantes ficam preocupados com a possibilidade de que caiam temas como a violência urbana, o aquecimento global, o gás natural da bolívia. não vai cair nada disso, já digo de cara! vpem3_un6_cap01_273a294.indd  279 4/15/10  3:16:22 pm</Page><Page Number="282">280  unidade 6 o mais importante em relação a um tema é a sua progressão, isto é, como o tema se desenvolve. convém lembrar que uma dissertação precisa ter raciocínio lógico ou encadeamento de ideias, em que uma implica o surgimento da seguinte. cada uma das partes que formam um texto dissertativo — introdução, desenvolvimento e conclusão — tem um objetivo diferente, que exige um trabalho específico de redação. leia uma das dissertações da fuvest 2007 que teve boa avaliação, com nossos comentários ao lado: vínculos que superam as diferenças um dos sentimentos mais admiráveis que um ser humano pode desenvolver por outro é a amizade. é através dela que muitas pessoas conseguem suportar grandes problemas em suas vidas e vencem grandes desafios. apesar de muitos argumentarem sobre quão difícil é encontrar alguém digno de confiança, o preço a ser pago nessa procura rende frutos ainda maiores quando se encontra uma pessoa disposta a cultivar uma amizade verdadeira com outra. a sabedoria popular prega que “nenhum ser humano é uma ilha”, e essa máxima é confirmada pelo cantor e compositor tom jobim, quando diz que “é impossível ser feliz sozinho”. os seres humanos precisam conviver em sociedade e criar vínculos fortes uns com os outros, porque a verdadeira amizade é mais profunda do que as pessoas imaginam: não é um relacionamento superficial, mas antes é construída à base da confiança, ou seja, lentamente. há muitas pessoas que buscam amizades, mas nessa busca não se importam com sentimentos alheios. essa forma de procura por amigos é prejudicial porque é egoísta. para ter amizades verdadeiras, as pessoas devem antes moldar-se para serem amigas, respeitando as outras pessoas, interessando-se por elas, e dessa forma descobri-rão afinidades que as façam mais próximas umas das outras. há também quem queira manter-se longe de outras pessoas e não cultivar amizades com medo de ser magoado por alguém. nos relacionamentos as pessoas de fato discordam umas das outras, e isso pode acontecer em amizades verdadeiras também, mas se houver real interesse entre as partes envolvidas, as diferenças são superadas a fim de que haja a retomada da amizade e assim preserve-se também a qualidade nos relacionamentos. portanto, o preço a ser pago no desenvolvimento de relaciona-mentos entre as pessoas rende bons frutos, e cultivar amizades verdadeiras faz bem aos seres humanos. a criação de vínculos interpessoais ajudam o indivíduo a superar problemas e moldam- -no para que se interesse por outras pessoas. a verdadeira amiza-de faz com que as pessoas superem as diferenças e busquem uma boa qualidade em seus relacionamentos. disponível em: www.fuvest.br/vest2007/bestred/500105.stm. acessado em abr. 2008. o primeiro pará-grafo expõe, apresen-ta a opinião do autor a respeito do assunto proposto. os parágrafos 2, 3 e 4 argumentam, isto é, apresentam ideias do autor para con-vencer o leitor. para convencer, foram usa-dos alguns recursos, como citações simples e sofismas. o último parágra-fo expõe novamente a opinião do autor, sua visão de mundo, suas crenças e seus valores. prof.(a), esta redação assim como a da atividade 6 desta seção, contém inadequações em relação à variedade-padrão da língua portuguesa, que podem ser apontadas e trabalhadas por você. elas não diminuem o mérito do texto. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  280 4/15/10  3:16:23 pm</Page><Page Number="283">capítulo 1 – a dissertação  281 em relação à língua, é preciso ser claro e, para isso, o ideal é usar frases declarativas, vocabulário simples e, de preferência, objetivo — é conveniente evitar os clichês, ou seja, as frases feitas, como “a união faz a força”, “é preciso saber viver”, etc. dê preferência à ordem direta dos enunciados (primeiro sujeito, depois verbo, complementos). não se pode esquecer de usar termos que articulem as partes, para a progressão do tema, como entretanto, assim, por isso, logo, que contribuem para a coesão necessária a um bom texto. em relação ao estilo, ou seja, ao jeito de escrever uma dissertação, é preciso observar a presença de determinadas marcas gramaticais, tais como o verbo ser das orações subordinadas substantivas subjetivas. por exemplo, é comum aparecerem as construções “é importante…”, “é inútil…”, etc. note que elas aju-dam a apresentar a opinião do autor de forma objetiva. o tempo verbal predominante é o presente com valor atemporal, que transmite a ideia de que a opinião dada vale generalizadamente. atividade 1 — reprodução: introdução numa dissertação, o produtor deve apresentar claramente o seu ponto de vista ao leitor. para isso, deve deixar claro o que pensa sobre o assunto logo no início do texto. portanto, a introdução deve ser clara, objetiva e autônoma, ou seja, não é necessário ler a proposta para compreendê-la. os parágrafos abaixo introduzem dissertações premiadas nos melhores vestibulares do país. introdução 1 a amizade tem sido eleita por pensadores e artistas de diversos tempos como uma das coisas mais importantes da vida. há quem lhe atribua importância maior que o amor. em nosso mundo contemporâneo não faltam produções escritas ou audiovi­ suais que coloquem a amizade no mais alto patamar. porém, tanto nas produções dos tempos passados como nas dos tempos atuais, a amizade é tratada como um ideal, no sentido de que é algo difícil de ser conseguido. revista guia do estudante — redação vestibular 2008. introdução 2 segundo o filósofo nietszche, os inimigos têm grande impor-tância na vida do homem, à medida que um indivíduo só se desenvolve a partir do embate com quem tem opiniões e condutas diferentes das suas. no entanto, é sabido também que o compa-nheirismo, a cumplicidade e o apoio de um bom amigo são funda-mentais para garantir a felicidade e o crescimento de cada um. idem. note que, mesmo sem conhecermos o tema proposto, compreendemos essas introduções. nos dois exemplos, os autores apresentam uma ideia comum, partilhada entre a maioria das pessoas para, em seguida, apresentar a ideia que será defendida ao longo do texto. observe que a estratégia usada em ambos os modelos é a mesma: ideia comum   ideia defendida pelo autor veja que, nos dois parágrafos, a parte que apresenta a opinião de quem escreve é iniciada com um conectivo de oposição. prof.(a), no manual do professor leia mais oito propostas de redação elaboradas por ótimos vestibulares do país. bettmann/corbis/latinstock retrato do filósofo alemão friedrich w. nietzsche (essa é a grafia correta do sobrenome dele). viveu de 1844 a 1900, criticou a cultura ocidental e suas religiões. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  281 4/15/10  3:16:23 pm</Page><Page Number="284">282  unidade 6 considerando os exemplos e a estratégia de construção de texto como modelos, elabore o(s) parágrafo(s)   de introdução de uma dissertação sobre o mesmo tema da fuvest 2007, reproduzido a seguir: tema da fuvest 2007 em primeiro lugar […] pode-se realmente “viver a vida” sem conhecer a felicida-de de encontrar num amigo os mesmos sentimentos? que haverá de mais doce que poder falar a alguém como falarias a ti mesmo? de que nos valeria a felicidade se não tivéssemos quem com ela se alegrasse tanto quanto nós próprios? bem difícil te seria suportar adversidades sem um companheiro que as sofresse mais ainda. […] os que suprimem a amizade da vida parecem-me privar o mundo do sol: os deuses imortais nada nos deram de melhor, nem de mais agradável. cícero, da amizade. aprecio no mais alto grau a resposta daquele jovem soldado a quem ciro per-guntava quanto queria pelo cavalo com o qual acabara de ganhar uma corrida e se o trocaria por um reino: “seguramente não, senhor, e no entanto eu o daria de bom grado se com isso obtivesse a amizade de um homem que eu considerasse digno de ser meu amigo”. e estava certo ao dizer se, pois, se encontramos facilmente homens aptos a travar conosco relações superficiais, o mesmo não acontece quan-do procuramos uma intimidade sem reservas. nesse caso, é preciso que tudo seja límpido e ofereça completa segurança. montaigne, da amizade (adaptado). amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração… assim falava a canção que na américa ouvi… mas quem cantava chorou, ao ver seu amigo partir… mas quem ficou, no pensamento voou, com seu canto que o outro lembrou. […] fernando brant / milton nascimento, canção da américa. […] e sei que a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade. e quem há de negar que esta lhe é superior? […] caetano veloso, língua. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  282 4/15/10  3:16:28 pm</Page><Page Number="285">capítulo 1 – a dissertação  283 considere os textos e a instrução abaixo: instrução: a amizade tem sido objeto de reflexão e elogios de pensadores e artistas de todas as épocas. os trechos sobre esse tema, aqui reproduzidos, pertencem a um pensador da antiguidade clássica (cícero), a um pensador do século xvi (montaigne) e a compositores da música popular brasileira contemporânea. você considera adequadas as ideias neles expressas? elas são atuais, isto é, você julga que elas têm validade no mundo de hoje? o que sua própria experiência lhe diz sobre esse assunto? tendo em conta tais questões, além de outras que você julgue pertinentes, redija uma dissertação em prosa, argumentando de modo a expor seu ponto de vista sobre o assunto. disponível em: www.fuvest.br/vest2007/provas/2fase/por/red.gif. acessado em 3 mar. 2010. prof.(a), coloque alguns parágrafos na lousa e proponha uma correção coletiva e reflexiva. mostre aos alunos a importância de deixar bem clara a ideia do produtor, sem vocabulário rebuscado, sem construções sintáticas longas, etc. atividade 2 — decalque: introdução premiada a seguir apresentamos duas introduções. uma delas foi considerada fraca, abaixo da média; a outra   obteve avaliação positiva e está entre as melhores produções de 2008. copie no seu caderno a intro-dução que considerar positiva e elabore uma lista com os motivos que o levaram a essa escolha. introdução 1 a agricultura é uma das culturas mais importantes para o desenvolvimento do brasil. mesmo inconscientemente grande parte da população contribui para isso, já que a qualidade de vida, adquirida através do uso de produtos naturais, é um dos assuntos mais questionados atualmente, podendo até ser considerada um status para quem a tem ou quer ter. revista guia do estudante — redação vestibular, 2008. introdução 2 atualmente o brasil é um dos países que mais vêm se destacando na área de bionergia, que vem atraindo atenção e investimento crescente de todos os setores da sociedade. destinar a produção agrícola brasileira para atender à geração de bio-nergia significa criar um cenário propício ao cultivo, armazenamento, transporte, transformação e venda de bioenergéticos, como álcool e óleos vegetais, tendo em vista o desenvolvimento econômico e social da população. idem. atividade 3 — decalque: montagem de uma dissertação no quadro a seguir, há três dissertações (fuvest, 2006) que foram desmontadas. na coluna da esquer-  da, leia as introduções desses textos. na coluna da direita, estão os parágrafos que se ligam a essas três introduções (portanto, correspondem ao desenvolvimento da apresentação ou à defesa do tema de cada dissertação). para estabelecer as relações entre introdução e respectivo desenvolvimento, iden-tifique os termos que, na introdução, são nomeados e os termos que recuperam essas informações para progredi-las, isto é, desenvolvê-las. em seguida, estabeleça que texto desenvolve cada introdução relacionando no caderno o número (1, 2 ou 3) do parágrafo inicial com a letra (a, b, ou c) das conti-nuações da coluna a direita. prof.(a), na correção considere o segundo parágrafo como o texto com avaliação positiva, pois o autor apresenta o assunto e já se posiciona sobre a produção de bioenergéticos. aponte o uso do conectivo que gerúndio duas vezes logo na primeira frase. observe com os alunos a clareza do desenvolvimento do pensamento do autor. oralmente, indique os pontos negativos do primeiro parágrafo: falta clareza sobre o assunto que se quer desenvolver: qual o recorte temático dado a esse tema — agricultura ou produtos naturais? a que se refere o pronome isso da segunda frase? vpem3_un6_cap01_273a294.indd  283 4/15/10  3:16:30 pm</Page><Page Number="286">284  unidade 6 1 uma obra de arte, um prédio, uma ponte ou um estudo acadêmico, num pri-meiro momento, podem não estar relacionados, mas se considerar-se como pro-dutos de trabalho, as rela-ções se estabelecem. a no entanto, observando-se as sociedades modernas, uma constatação se impõe: contrariamente a um pro-gressivo e homogêneo desaparecimento do trabalho, o que ocorre é uma diminuição no número de postos e uma concentração do trabalho em efetivos reduzidos, criando uma luta acirrada pelos empregos disponíveis e, ao mesmo tempo, uma pressão extrema sobre os empregados. por que, então, não se pôde desenvolver um modelo social compatível com o declínio do trabalho? a resposta é simples: porque a concepção de tal modelo teria de consi-derar exclusivamente o aspecto técnico do trabalho, o que é um erro. do mesmo modo a parte técnica do trabalho de um gênio como michelangelo é precedida pela maturação de um anseio criativo; no homem comum, a parte técnica do trabalho é precedida por um anseio produtivo que, não podendo materializar-se, torna-se frustração. 2 o trabalho é a forma pela qual o homem trans-forma a natureza, gerando toda a riqueza que possui. desde o trabalho primitivo do homem caçador e cole-tor até o trabalho assalaria-do, típico do sistema capi-talista, as diferentes formas de trabalho acompanham as transformações históri-cas e econômicas das dife-rentes sociedades, nasmais diversas épocas. é através do trabalho que o homem construiu sua história e ain­ da assim acredita-se que o fim do trabalho po­de estar próximo. b um prédio é fruto de vários profissionais, desde enge-nheiros e arquitetos que o projetaram aos pedreiros e mes-tre de obras que o executaram. da mesma forma que uma obra de arte, como a escultura david de michelangelo, é produto de trabalho do artista que o concebeu. desse modo, o trabalho possui várias facetas, podendo ser clas-sificado como trabalho intelectual, braçal, artístico ou produtivo. infelizmente, na sociedade atual, há formas de trabalho que sãomais valorizadas que outras. por exemplo, o trabalho de um advogado é mais conceituado que o de um carpinteiro e pode ser visto na forma de remuneração. um advogado recebe mais pelas mesmas horas trabalhadas que um car-pinteiro. isso porque o pensamento contemporâneo e capi-talista enxerga que o advogado agrega mais valor à cadeia produtiva e, portanto, gera mais renda que o carpinteiro. a essa primeira diferenciação, verifica-se que o progres-so técnico e capacidade produtiva ao longo dos séculos, ao invés de proporcionar mais tempo à própria humanidade, implicou o aumento do trabalho e maior distância entre os que dominam tais técnicas e os que estão à margem delas. a era digital e o uso de computadores e softwares modernos permitiu maior produtividade, corte de custos e otimização do processo produtivo aos que dela participam. também implica maior carga de trabalho. porém, aos excluídos, sig-nificou desemprego e marginalização. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  284 4/15/10  3:16:30 pm</Page><Page Number="287">capítulo 1 – a dissertação  285 3 as últimas décadas vi-ram florescer no pensa-mento ocidental novas teo­ rias acerca do trabalho. entre elas, destaca-se a es-trondosa e aparentemente otimista teoria do fim do trabalho. com efeito, já pa-rece bem remoto o tempo em que, na inglaterra re-cém-industrializada, o de-semprego era considerado “vagabundagem” e punido por lei; hoje, com as cres-centes maquinização e in-formatização, a demanda por mão de obra tem caído, e seu total desaparecimen-to não parece uma previ-são absurda. c alguns teóricos que pensavam sobre os rumos do tra-balho no futuro próximo, como peter drucker, conside-ram que, com a automação da produção e a informação dos serviços, é natural que o trabalho deixe de fazer parte da vida de uma grande parcela da população mundial. essa parcela não tendo mais de trabalhar para sobreviver, poderia dedicar-se ao chamado trabalho criativo ou artís-tico ou artesanal, que se caracteriza pela realização e pela plenitude do homem no trabalho. no entanto, no contexto histórico, social e econômico atual, caracterizado pelo capitalismo de mercado de forte cunho financeiro e pela adoção abrangente de políticas econômicas neoliberais, a substituição da mão de obra humana, decorrente da revolução tecnológica da infor-mática e da automação, não tem contribuído para um maior bem-estar. ao contrário, tem gerado uma massa de desempregados, cuja condição de vida é extremamente precária e insustentável. enquanto o desemprego cresce, um número cada vez menor de trabalhadores se encarrega das funções que antes eram desempenhadas por muitos e são assim sobrecarregados e superexplorados no trabalho. há, por fim, um pequeno grupo dos chamados “trabalhadores do conhecimento”, que constitui a elite dos trabalhadores modernos. o trabalho, no caso destes últimos, pode incor-porar características do trabalho criativo e ser fonte de realização pessoal, porém são muito pouco privilegiados por essa nova forma do trabalho atual. atividade 4 — decalque: a conclusão na atividade anterior, há três dissertações sem conclusão. nessa parte final do texto, é comum citar  expressões que foram usadas no primeiro parágrafo para mostrar ao leitor que o texto está perfeito: o fim retoma o início. todavia, não se prenda a isso. outras características importantes são a simplicida-de, a objetividade e a síntese do posicionamento adotado ao longo dos parágrafos. escolha uma das dissertações da atividade anterior e produza a conclusão no caderno. atividade 5 — decalque: o desenvolvimento leia a seguir a introdução e a conclusão de uma dissertação sobre o tema da fuvest 2007, cuja pro-  posta foi apresentada na atividade 1 de produção. seu trabalho será produzir o desenvolvimento do texto de modo que tenha continuidade e progressão das palavras e das ideias apresentadas na introdução. ao terminar sua parte, observe se o seu texto tem ligação com o último parágrafo (ou conclusão) aqui apresentado. 1 – b; 2 – c; 3 – a prof.(a), se possível, realize a correção das conclusões em transparência ou na lousa. aponte para o que deve ser evitado — fuga do tema, vocabulário rebuscado, conclusão que não corresponda à ideia que se defende, falta de clareza, frases longas — e o que é visto como positivo — síntese da opinião, clareza, objetividade, frases curtas e diretas. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  285 4/15/10  3:16:30 pm</Page><Page Number="288">286  unidade 6 introdução chocolate amigo a amizade é uma palavrinha bonita, e apenas isto. inventada por floristas e fazedores de cartões enfeitados de corações e poemas hipócritas. usada em discur-sos românticos, sem significado algum, completamente banalizada. disponível em: www.fuvest.br/vest2007/bestred/bestred.stm.  acessado em 4 mar. 2010. desenvolvimento identifique o ponto de vista do texto já na introdução;  faça o assunto progredir de forma coerente, mesmo que seu ponto de vista seja  diferente; elabore argumentos pertinentes e lógicos à ideia apresentada;  busque convencer o leitor pela lógica do seu texto, não pela panfletagem (evite  frases como: “somos o país do amanhã!”, “faça a sua parte!”, “seja forte!”, etc.); releia a sua produção e confirme se a resposta — o que o autor pensa a respeito  disso — foi dada. conclusão pois somos todos pessoas, seres humanos; egocêntricos, dissimulados e egoís-tas. só enxergamos a própria vontade e acreditamos que cada um de nós é o único que pode ser magoado. mantemos relações e gostamos de pessoas e coisas quando e enquanto for conveniente. usamos e pisamos em nossos “amigos”… e nos escon-demos. atrás de música, poemas, declarações e discursos sobre sentimentos que sabemos não ter. idem. atividade 6 — reprodução: a estrutura do texto leia a dissertação a seguir e elabore um esquema sobre a apresentação do texto. para isso, copie os  quadrinhos dados em seu caderno e preencha-os com informações da dissertação. o tempo de cada um, cada um a seu tempo talvez uma das maiores conquistas da humanidade em sua evolução das cavernas à sociedade moderna seja o conceito de tempo. com a ideia de passagem do tempo está a ideia de evolução, de mudança, de expectativas que virão, de lem-branças do que já veio. a concepção de tempo nos diferencia dos demais elemen-tos da natureza — animais, vegetais, seres inanimados em geral, todos estes vivem em um cotidiano atemporal, perene, interrompido apenas com a morte (para os seres vivos) e a destruição. o homem consciente do tempo é consciente de sua mortalidade, de sua condição efêmera, e talvez por isso busque a cada momento modificar o mundo que o rodeia e interagir com seus componentes. talvez seja o próprio tempo que nos faz verdadeiramente humanos. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  286 4/15/10  3:16:30 pm</Page><Page Number="289">capítulo 1 – a dissertação  287 por ser o tempo um conceito humano, tantos existem quanto os seres que o con-cebem. para uns, tempo é história, aprendizado com as experiências passadas, refe-rencial para nossa compreensão do mundo; o tempo de hobsbawn, crítico, analítico, manancial de conhecimento. para outros, tempo é instante, é presente, efêmero e dinâmico como os homens que nele vivem, é hoje, é agora, semmaiores divagações; o tempo de heriberto, fugaz e irreversível. alguns, por fim, veem o tempo com olhos contemplativos, num amanhã sem pressa, por ser inevitável. tudo chegará um dia, como o amor da canção de chico buarque. nada é pra já, e certas coisas serão o que são, não importa em que época. certas coisas desafiam o próprio tempo. a verdade talvez resida nos versos do músico. o tempo, surgido para dar um sentido à existência humana, acabou por escravizá-la. o homem moderno é refém do tempo, seja ele passado ou presente. sem perder tais tempos de vista, poderia ser mais interessante voltar os olhos para o futuro, aguardar sua chegada com calma, dele desfrutar quando tornar-se presente e dele recordar-se quando virar passado. seria um resgate à serenidade das eras atemporais, sem descuidar do progresso e da necessidade de mudar que a ideia de tempo traz ao homem. não se afobe, não, que nada é pra já. disponível em: www.fuvest.br/vest2004/bestred/517916.stm. acessado em 4 mar. 2010. com base nesse esquema, produza uma dissertação apresentando o mesmo ponto de vista. para isso, desenvolva as ideias dos quadrinhos ainda que você não concorde com elas. lembre-se de que está exercitando a produção. atividade 7 — reprodução: o excesso leia o que o editor da revista   superinteressante comenta sobre a produção de textos. menos é mais  denis russo burgierman o maior problema que aflige os textos deste brasil é o excesso. por exemplo, tem muita gente que padece de excesso de ideias. acha que tem muita coisa importante para dizer e que tudo é essencial, nada pode ser cortado. aí o texto fica parecendo um depósito de frases apressadas, uma amontoada em cima da 1 a reflexão ligada à ideia tempo é história. 2 a reflexão ligada à ideia o homem é refém do tempo. marcos guilherme/arquivo da editora ponto de vista do autor é o tempo que nos humaniza. é o tempo que nos humaniza. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  287 4/15/10  3:16:32 pm</Page><Page Number="290">288  unidade 6 outra, e ninguém entende nada. texto bom tem de ter uma ideia de cada vez — cada ­parágrafo uma ideia, cada ideia claramente conectada na ideia anterior e na seguinte. tudo bem explicadinho. se não houver espaço para explicar bem uma ideia, nem tente colocá-la no texto — corte-a. menos é mais. outras pessoas sofrem do excesso de palavras. abusam dos adjetivos, dos termos de efeito que não acrescentam nada. ou ficam repetindo duas, três vezes a mesma ideia — se a ideia está clara, ela não precisa ser repetida nenhuma vez. melhor seria trabalhar cada frase até ela ficar perfeita, exata. e aí você pode cortar todas as repetições. menos é mais. escrever bem é mais uma questão de tirar do que de colocar palavras. menos é mais. e vou parar por aqui, porque já estou me repetindo. revista guia do estudante — redação vestibular, 2008. leia a dissertação a seguir e, aplicando as orientações de denis russo, reescreva-a em seu caderno fazendo as alterações necessárias. qualificação e escolhas o mercado de trabalho modifica-se constantemente. o tempo todo está mudan-do. desde o pretérito o ser humano depara-se com a necessidade de adaptar-se com a realidade de trabalho. não obstante, a preparação adequada é veemente descartada pela ilusão de estabilidade e realização profissional disfarçada sob os pilares do profissionalismo frustrante. com a expansão da revolução industrial no século xix, favorecida pela glo-balização, o homem se depara com a necessidade de qualificação. a mão de obra humana já não se fazia tão necessária, uma vez que a mesma era substituída por máquinas, equipamentos que dispensavam a força humana. assim, o empregado atento a tais circunstâncias parte para a capacitação profissional que abrangeria a demanda de emprego para ministrar as novas tecnologias. no mundo contemporâneo o ingresso às universidades sofre influência da dico-tomia do mercado de trabalho, no qual a realização profissional se contrasta com o status que determinadas profissões carregam. mediante a entrada nas instituições de ensino superior, o jovem, não certo de qual profissão seguir, anui às investidas da riqueza material perante a sociedade capitalista que afirma que vocação pro-fissional é aquela cujos teores monetários sobressaem o talento e a realização, a despeito da frustração que os pode assolar futuramente. sendo assim, diante da demanda e oferta profissional, é imprescindível que o homem se capacite a cada dia mais, para ao se deparar com as oscilações do mercado de trabalho, não fique em desvantagem frente a outros concorrentes. ele precisa estudar e fazer cursos. é crucial o incentivo crescente de programas de orientação vocacional, nos centros de ensino, para que a juventude ingressante a educação superior, posteriormente se realize e conquiste o sucesso em sua profis-são, independente de qual seja ela escolhida. disponível em: http://educacao.uol.com.br/bancoderedacoes/redacao/ult4657u170.jhtm.  acessado em 4 mar. 2010. adaptado. prof.(a), na correção, observe as repetições de ideias no primeiro parágrafo, o nível de rebuscamento do vocabulário, a pontuação. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  288 4/15/10  3:16:32 pm</Page><Page Number="291">capítulo 1 – a dissertação  289 atividade 8 — produção de autoria depois de algumas atividades de produção parcial, você vai elaborar uma dissertação por inteiro. para  isso, leia a proposta dada e organize um texto de acordo com o que estudamos até agora. o alimento é fonte de energia e, portanto, de vida. será que processos como a urbanização e o cres-cimento da população podem afetar o plantio, a produção de alimentos? será que faltará comida? quem terá o que comer no futuro? no caderno, redija uma dissertação em prosa, expondo seu ponto de vista sobre essas e outras per-guntas que a leitura dos textos a seguir lhe provocar. consumo e estoque baixo encarecem comida […] foco de atenção dos líderes mundiais, que colocaram o preço dos alimentos no centro das prioridades globais, a alta preocupa também os brasileiros. nos últimos 12 meses, a evolução dos principais alimentos consumidos impres-siona, ainda mais na comparação com a inflação do período em são paulo, de 4,29%: o feijão subiu 168%; o óleo de soja, 56%; o pãozinho, 17%; o filé mignon, 22%; o leite em pó, 42%. na média, os alimentos subiram 11,24% — mais do que o dobro da inflação no período, conforme informações da fipe (fundação instituto de pesquisas econômicas). […] luís carlos guedes pinto, antecessor de stephanes na agricultura, também acredita namanutenção de preços elevados. “a alta ainda permanecerá por um tempo. os estoques estão baixos, e a oferta de alimentos será maior apenas quando houver mais investimentos na produção, o que deve ocorrer com esses preços elevados.” stephanes condiciona a manutenção dos preços lá fora ao crescimento eco-nômico mundial e à manutenção do programa de produção de álcool, que, nos estados unidos, tem o milho como matéria-prima base. mantidas essas duas linhas — e mesmo que seja um pouco menor o ritmo de crescimento mundial —, continuará o desequilíbrio entre demanda e oferta. esse desequilíbrio, que já ocorre há três anos, só não se fez sentir antes porque o mundo vinha “comendo estoques”, que estavam elevados, afirma o ministro. à medida que os estoques estão diminuindo e o desequilíbrio entre oferta e demanda continua, a tendência é que, mais à frente, haja um novo impacto nos preços. possivelmente nos próximos dois anos, afirma stephanes. de 1980 a 2005, a agricultura segurava a taxa de inflação, enquanto o peso vinha de outros setores. “agora, essa curva já começou a inverter e, na minha visão, vai continuar”, diz ele. para guedes, a forte alta dos preços externos é fruto de políticas protecionistas dos países desenvolvidos, que, com subsídios, impediram a evolução da produção nos mais pobres. um exemplo recente é o da produção de álcool nos eua. se os norte-americanos não impusessem elevadas taxas de importação ao produto brasileiro, teriam pelo menos mais 90 milhões de toneladas de milho para oferecer ao mundo, diz ele. […] folha de s.paulo, 13 abr. 2008. folhapress. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  289 4/15/10  3:16:32 pm</Page><Page Number="292">290  unidade 6 biocombustível ou comida? 	 juliana tiraboschi méxico, janeiro de 2007: o povo sai às ruas contra o aumento de 400% da tor-tilha. o prato nacional mexicano é feito com milho branco, mas o preço acom-panha o do milho amarelo, valorizado pelas usinas de etanol dos eua. egito, março de 2008: uma multidão se acotovela em uma padaria no cairo atrás de pães subsidiados pelo governo. haiti, abril de 2008: protestos contra a fome resul-tam em cinco mortos, 50 feridos e na renúncia do primeiro-ministro edouard alexis. mianmar, maio de 2008: o ciclo-ne nargis devasta 65% das lavouras de arroz. indiferentes, os militares que governam o país aproveitam a alta do grão para exportar seu estoque. todas essas histórias estão relacio-nadas à pior crise de preços de alimentos dos últimos 40 anos. e quem— ou o quê? — seria o culpado? para jean ziegler, especialista em direito e consultor inde-pendente da onu, são os biocombustí-veis que estariam tomando o espaço destinado à produção de comida. revista galileu, jun. 2008. fmi teme “guerras e conflitos” por alimentos 	 fernando canzian o diretor-gerente do fmi (fundo monetário internacional), dominique strauss- -kahn, afirmou ontem que o mundo “sofrerá consequências terríveis”, com a possibilidade de “guerras” e “grandes conflitos”, caso a explosão de preços dos alimentos não seja resolvida a médio e longo prazos. “esse não é apenas um problema humanitário ou econômico. é o tipo de ques-tão que leva a guerras. os preços dos alimentos podem estar na raiz de outros conflitos no futuro, com todas as suas terríveis consequências.” em entrevista no penúltimo dia da reunião do fmi, em washington, strauss- -kahn ressaltou que a alta dos alimentos, combinada a um petróleo cada vez mais alto, pode “destruir” o equilíbrio de países que importam comida e que têm déficit energético. os preços mundiais dos alimentos subiram 83%, em média, em 36 meses. entre os fatores apontados pelo banco mundial, está o ingresso de milhões de novos consumidores no mercado de consumo, principalmente na ásia, na áfrica e na américa latina. ao lado da crise financeira atual, esse foi o principal tema da reunião conjunta do fundo e do banco mundial, que termina hoje. […] folha de s.paulo, 13 abr. 2008. folhapress. alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un6_cap01_273a294.indd  290 4/15/10  3:16:34 pm</Page><Page Number="293">capítulo 1 – a dissertação  291 a lavoura da fome — poema 12 	 maria carpi a fome à beira dos bolsos repletos. a fome, teia, nos guichês bancários. a fome, aranha, nos parapeitos sólidos. a fome na alça das valises executivas. a fome das apólices extrapoladas. a fome nos prontuários de serviços. nas gargantas, saturada de joias. a fome, lebre, das tratativas da fome. a fome, lábil, na gorjeta da fome. a sinaleira da fome no tráfego da esmola. a fome, cuspe, no escárnio da fome. a fome, lâmpada, dos mortos de fome. a fome imaculada dos ressurrectos da fome, única, de milhares de bocas; da fome, santíssima, de tantas danações; da fome anil da infecção da fome. a fome gume da contração da fome. a fome toda entranhas do parto de mãe sucumbida de fome. ei-la, está viva! é filha de homem. o mais é placenta. cortemo-la! carpi, maria. a migalha e a fome. petrópolis: vozes, 2000. preparando a segunda versão do texto depois de sua produção, verifique se o texto: tem a estrutura de uma dissertação: introdução, desenvolvimento e conclusão;  está claro, com linguagem objetiva;  apresenta sua opinião logo no primeiro parágrafo, sem o leitor precisar reler a proposta;  tem um desenvolvimento que progride;  tem argumentos bem encadeados.  feito isso, passe seu texto a limpo. e por falar em dissertação… com a chegada do final do ano, aproximam-se os vestibulares, as entrevistas para a seleção de can-didatos a uma vaga no mercado de trabalho e, com tudo isso, a necessidade de produzir dissertações. é comum que, nessa época do ano, muitas publicações tratem desse gênero textual, apresentando modelos, estratégias para produzi-lo e — por que não? — dicas. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un6_cap01_273a294.indd  291 4/15/10  3:16:35 pm</Page><Page Number="294">292  unidade 6 é isso que vamos propor que você e seu grupo elaborem. depois de terem estudado o gênero dis-sertação ao longo deste capítulo, retomem o que anotaram, releiam os textos, regulem o conhecimento construído por meio de conversas, de apontamentos e de retomadas. depois de terem discutido o assunto, pensem em cinco itens que não podem faltar para se escrever bem uma dissertação. em seguida, elaborem um cartaz que apresente essas dicas de forma bem divertida e chamativa. para ajudá-los na elaboração do cartaz de dicas, leiam mais dois exemplos de dissertações bem avaliadas no vestibular da fuvest de 2009. as fronteiras da vida quando pensamos na palavra “fronteira”, é quase inevitável relacioná-la ao limite geográfico de uma região; porém, se analisarmos este termo com mais cau-tela, veremos que ele possui um significado muito mais amplo do que apenas o de “divisa”. por exemplo, dias atrás, à meia-noite, atravessávamos a fronteira entre 2008 e 2009. atravessar uma fronteira não é apenas ultrapassar o limite de um território, é alcançar objetivos, quebrar estigmas, vencer etapas, ou até mesmo, passar dos limites. em 2008 o brasil e o supremo tribunal federal, stf, romperam importantes barreiras. entre elas, podemos destacar duas: a liberação de pesquisas com célu-las-tronco e a demarcação contínua do território raposa serra do sol em benefí-cio dos indígenas. foi atravessada a fronteira de um dogma da igreja católica, a favor da ciência; e a do interesse de uma minoria de fazendeiros, beneficiando representantes de um povo, que aqui estava, antes da chegada dos portugueses em 1500. atravessar uma fronteira raramente é uma tarefa fácil. o vestibular, por exem-plo, é algo que exige muita dedicação, estudo e horas de sono reduzidas. vencer uma etapa como essa, atravessar a divisa entre a adolescência e a vida adulta, estudando nas melhores universidades do país; é algo que poucos poderão, um dia, contar para seus netos. existem também as fronteiras cotidianas a serem atravessadas. levantar cedo, trabalhar muito, dormir pouco, pagar contas, cuidar dos filhos. cada um de nós tem inúmeros exemplos. infelizmente até as fronteiras do inimaginá-vel o ser humano acaba ultrapassando. recentemente, um policial do rio de janeiro alvejou com tiros o carro de uma inocente família, matou uma criança de três anos e acabou sendo absolvido. sempre tem alguém que acaba passando dos limites. se o mundo em que vivemos está repleto de fronteiras territoriais, as nossas vidas também tem as suas próprias. cabe a cada um, vencer as suas próprias difi-culdades, alçar suas metas, quebrar paradigmas, sempre tomando muito cuidado para não passar dos limites. o importante é escolher o caminho do bem para que ao atravessarmos a última fronteira da vida, pela qual todos passam, tenhamos deixado algo de bom para o futuro. disponível em: www.fuvest.br/vest2009/bestred/511835.jpg.  acessado em 4 mar. 2010. vpem3_un6_cap01_273a294.indd  292 4/15/10  3:16:35 pm</Page><Page Number="295">capítulo 1 – a dissertação  293 a necessidade da concordância entre fronteiras  geográficas e ideológicas os diversos confrontos fronteiriços ocorridos em 2008, como na ossétia do sul e em israel, conduzem-nos a uma reflexão sobre o que é fronteira. essencialmente, é o limite, a parte extrema de uma área, ummeio ou, até mesmo, de algo abstrato, como uma ideologia ou uma religião. buscam-se artifícios históricos, sociais e econômicos para a delimitação de fronteiras geográficas, mas essa delimitação nem sempre é eficiente. muitos dos conflitos observados atualmente decorrem fundamentalmente da discordância que ocorre entre as fronteiras ideológicas e as geográficas. a histórica guerra entre palestinos e israelenses exemplifica bem a discor-dância citada. as ideologias adotadas pelos dois povos, fundamentadas em suas diferentes religiões, pregam a discriminação do outro e o direito à totalidade da área representada por israel. a delimitação atual desse país, um prejuízo para o povo palestino, não representa o pensamento desse povo. essa delimitação ape-nas acentua e torna mais conflituosa a fronteira entre o islamismo e o judaísmo. situação semelhante ocorreu na irlanda, onde havia intensos conflitos entre cató-licos e protestantes, envolvendo até ataques terroristas. fronteiras ideológicas, no entanto, nem sempre são causas de conflito. a união europeia representa bem essa conciliação entre os limites abstratos e os limites geográficos. assim como na irlanda, há a dualidade entre religiões cristãs, pois nesse bloco econômico existem países protestantes majoritariamente, como a holanda, e países católicos, como a itália. com o objetivo de alcançar maior for-talecimento político-econômico, esses países pregam o respeito às diferenças reli-giosas entre si. hoje, representam, juntos, uma potência. apesar de claros limites religiosos, não há conflitos territoriais. a concordância entre fronteiras geográficas e ideológicas é importantíssima para o sucesso econômico. a essencialidade da concordância entre os dois referidos tipos de fronteira é facilmente percebida na manutenção da paz e na obtenção do progresso. nesse contexto, a tolerância e o respeito são imperativos. respeitando-se as diferenças, as fronteiras abstratas tornam-se mais harmoniosas, o que se reflete nas fronteiras geográficas, com esforço político. a diversidade e as fronteiras devem ser compre-endidas como elementos enriquecedores e fortalecedores. disponível em: www.fuvest.br/vest2009/bestred/503690.jpg.  acessado em 4 mar. 2010. prof.(a), a primeira dissertação apresenta pequenos problemas de pontuação e de acentuação, mas isso não impediu o bom desempenho do vestibulando em virtude das informações e da coerência do seu texto. observe com os alunos a falta do acento circunflexo no verbo ter, 3ª- pessoa do plural: “… as nossas vidas também tem as suas próprias.” e a vírgula excessiva em “cabe a cada um, vencer as suas próprias dificuldades…”. alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un6_cap01_273a294.indd  293 4/15/10  3:16:37 pm</Page><Page Number="296">294  unidade 6 aproveite para… … ler dissertação não é bicho-papão  , de simone pessoa, editora rocco com linguagem clara e direta, a professora simone pessoa desmistifica o processo de produção de uma dissertação, propondo soluções inovadoras para as etapas. … assistir mais estranho que a ficção  , de marc forster (eua, 2006) harold é um fiscal da receita pública que tem uma vida monótona. de repente começa a ouvir uma voz narrando sua vida, inclusive seus sentimentos. quando a voz anuncia sua morte próxima, ele tenta mostrar que sua existência não é vazia e precisa ser preservada. com mérito  , de alek keshishian (eua, 1994) monty, um aluno do último ano em curso da universidade de harvard, perde a única cópia de sua tese de conclusão de curso. ela cai nas mãos de simon, um mendigo que se esconde na faculdade e que apresenta uma série de exigências para devolver o trabalho. à procura da felicidade  , de gabriele muccino (eua, 2006) chris gardner é um pai de família que enfrenta sérios problemas financeiros e acaba abandonado pela esposa. para dar uma vida melhor ao filho, aceita estagiar em uma grande corretora de ações para dispu-tar a única vaga efetiva e bem remunerada que a empresa abre ao final do estágio. o problema é que esse período de prova não é remunerado, e gardner terá que usar todo seu poder de convencimento e persistência para sobreviver e ser bem-sucedido. conta comigo  , de rob reiner (eua, 1986) quatro garotos entram na mata em busca do corpo de um adolescente de sua cidade. no cami-nho, passam por diversas situações extremas que os fazem amadurecer e aprender o valor da amizade. … ver na internet www.folha.uol.com.br/; www.estado.com.br/editorias/2008/05/14/; http://zerohora.clicrbs.com.br/  zerohora/jsp/default.jsp?uf1&amp;local1&amp;sectioncapa_online; http://jbonline.terra.com.br/; http:// oglobo.globo.com/; www.atarde.com.br/capa/ endereços de jornais on-line, para informações e atualidades. a escrita jornalística também pode ser um bom exemplo de redação dissertativa. http://educacao.uol.com.br/bancoderedacoes/  site com propostas de temas e redações corrigidas, que servem de exemplo. o aluno pode enviar sua própria redação. no site também há dicas de outras disciplinas. columbia pictures/cortesia de everettcollection/keystone vpem3_un6_cap01_273a294.indd  294 4/15/10  3:16:38 pm</Page><Page Number="297">2 capítulo literatura brasileira contemporânea — prosa 295 antes de ler leia a seguir o excerto de um livro escrito pelo jornalista e crítico literário manuel da costa pinto, a literatura brasileira hoje. 1 segundo o excerto, qual o espaço em que estão instaladas as personagens da ficção brasileira contem-porânea? em solo urbano. 2 o autor afirma não haver homogeneidade de estilos,”no máximo uma afinidade temática”. qual é a característica que perpassa a ficção brasileira contemporânea? leia atentamente os textos deste capítulo, todos parte da literatura contemporânea brasileira, e verifique a presença ou não das características apontadas no texto acima. texto 1 o texto que você vai ler a seguir chama-se “tio galileu” e foi escrito por um dos maiores contistas brasileiros vivos: dalton trevisan. ao ler essa narrativa, preste atenção à forma como é revelada a doença moral das personagens. prosa brasileira hoje manuel da costa pinto a ficção brasileira contemporânea está concentrada em solo urbano. e, assim, como acontece com as grandes metrópoles, é difícil encontrar um eixo que a defi-na. não existe homogeneidade de estilos, no máximo uma afinidade temática — que às vezes pode ser surpreendente. assim, se os autores da chamada geração 90 frequentam os mesmos lugares inóspitos que os escritores da periferia — ruas deterioradas, botecos esquálidos, casas traumatizadas pelo desemprego, pela vio-lência e pela loucura —, há uma percepção geral do isolamento e da vulnerabilida-de do sujeito moderno (e urbano). pinto, manuel da costa. literatura brasileira hoje. são paulo: publifolha, 2004. prof.(a), faça as atividades oralmente. o isolamento e a vulnerabilidade do homem moderno. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  295 4/15/10  3:20:43 pm</Page><Page Number="298">alexandre dubiela/arquivo da editora tio galileu 	 dalton trevisan a pobre mãe deu betinho àquele homem: agradasse ao tio galileu, com os dias contados, seria um dos herdeiros. depois de partir lenha, puxar água do poço, limpar o poleiro do papagaio, o menino enxugava a louça para a cozinheira. toda noite, betinho subia a escada, para levar o urinol e tomar a bênção ao tio galileu. batia na porta: entre, meu filho. o rapaz beijava a mão — branca, mole e úmida mãe-d’água. no domingo recebia a menor moeda, que o padrinho catava entre os nós do lenço xadrez. tio galileu raramente saía e, ao tirar o paletó, exibia duas rodelas de suor na camisa. arrastava o pé, bufando, sempre a mão no peito. afagava o papagaio, que sacudia o pescoço e eriçava a penugem: piolhinho… piolhinho… subindo a escada, dedos crispados no corrimão, isolava-se no quarto. o assobio através da porta: ale-gria de contar o dinheiro? diante dele era feita a limpeza, pelo rapaz ou pela negra, nunca por mercedes. sentado na cama, coçando eterno pozinho na perna, vigiava. e não assobiava com alguém no quarto. instalado na cama que, essa, ele mesmo arrumava, sem permi-tir que virassem o colchão de palha. mercedes fazia compras, perfumada e de sombrinha azul. o homem discutia com ela, que o arruinava, por sua culpa sofria de angina. domingo, a negra de folga, betinho preparava o café para mercedes. abria a porta, tateava na penumbra do quarto e, ao pousar a bandeja, sentia entre os len-çóis a fragrância de maçã madura guardada na gaveta. uma noite mercedes surgiu no quarto de betinho. já deitado, luz apagada. sentou-se ao pé da cama, casara com tio galileu por ser velho, que morria de uma hora para outra. grande mentira, de mim e de você fazer um escravo. não sofria do coração, nem sabia o que era coração, a esconder mais dinheiro entre a palha. ao crepitar o colchão lá no quarto o avarento remexia no tesouro. um bruto, que a esquecia, dormindo em quarto separado, com medo fosse roubá-lo. ó diabo, ela o xingou, pesteado como o papagaio louco, que a bicara ali no dedinho. o rapaz inclinou-se para beijar a gota de san-gue. mercedes ergueu-se e jurou que, se o monstro morresse, daria a betinho o que lhe pedisse. 296  unidade 6 vpem3_un6_cap02_295a325.indd  296 4/15/10  3:20:47 pm</Page><Page Number="299">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  297 o rapaz não pôde dormir. meia hora depois, saltou a janela. agarrou no polei-ro o papagaio, cabeça escondida na asa — os piolhos corriam pelo bico de ponta quebrada. torceu o pescoço do bicho e o enterrou no quintal. dia seguinte o homem buscou o papagaio, a assobiar debaixo de cada árvore. betinho sugeriu que a ave fugira. foi colocar o vaso sob a cama e, ao tomar a bên-ção ao padrinho, o piolho correu de sua mão para a do velho — um dos piolhos vermelhos da peste. mercedes voltou ao seu quarto. reclinada na cadeira, amarrava e desamarrava o cinto. noite quente, queixou-se do calor, abriu o quimono: inteirinha nua. — vá — disse a mulher. — vá, meu bem. primeiro o papagaio. agora o velho. betinho ficou de pé. tremia tanto, ela o amparou até a porta: — vá, meu amor. a vez do velho. hora de pedir a bênção. betinho subiu a escada. aos passos no corredor o ava-rento, entre a bulha do colchão, perguntava quem era. aquela noite nada falou. betinho abriu a porta, avançou lentamente a cabeça. tio galileu deitara-se vestido, o saquinho de fumo espalhado no colete de veludo. o último cigarro, sem enro-lar a palha com os dedos imóveis… olho arregalado, a negra boca não abençoou betinho. fazia-se de morto, nunca mais fingiria. tio galileu não gritou. nem mesmo fechou o olho, mais fácil que o papagaio. betinho afogou debaixo do travesseiro a boca arreganhada. os pés descalços de mercedes desciam a esca-da. ele ergueu o colchão, rasgou o pano, revolveu a palha — nada. deteve-se à escuta: os passos perdi-dos da mulher. avisá-la que o velho os enganara. era tarde, abria a janela aos gritos: — ladrão. assassino! socorro… trevisan, dalton. quem tem medo de vampiro?. são paulo: ática, 1998. interpretação do texto 1	o que levou betinho à casa de tio galileu? 2	o texto sugere que o rapaz percebe sofrer algum tipo de exploração? justifique sua resposta. 3	de que modo mercedes envolve betinho em seus planos? o interesse de sua mãe, que esperava fazer do filho, em troca da dedicação ao padrinho, um dos herdeiros de tio galileu. não. ao longo do texto, o rapaz age com resignação. quem chama a atenção para esse tipo de problema é a mulher de seu galileu, mercedes. pode-se dizer que mercedes se faz de vítima e seduz betinho. insinua que ele seria favorecido por ela se o “monstro” morresse. angina: dor espasmódica sufocante. bulha: confusão sonora, tumulto. crepitar: estalar como o fogo. crispado: contraído nervosamente. mãe-d’água: mina de água. pesteado: doente. alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un6_cap02_295a325.indd  297 4/15/10  3:20:50 pm</Page><Page Number="300">298  unidade 6 4	uma atitude de betinho revela, de antemão, que ele estaria disposto a atender todos os pedidos de mercedes. a)	o que ele faz contra o papagaio? betinho torce o pescoço do papagaio e o enterra no quintal. b)	por que ele faz isso? 5	quais parecem ser as intenções de mercedes? 6	releia: hora de pedir a bênção. betinho subiu a escada. aos passos no corredor o ava-rento, entre a bulha do colchão, perguntava quem era. aquela noite nada falou. betinho abriu a porta, avançou lentamente a cabeça. tio galileu deitara-se vestido, o saquinho de fumo espalhado no colete de veludo. o último cigarro, sem enro-lar a palha com os dedos imóveis… olho arregalado, a negra boca não abençoou betinho. fazia-se de morto, nunca mais fingiria. tio galileu não gritou. nem mesmo fechou o olho, mais fácil que o papagaio. betinho afogou debaixo do travesseiro a boca arreganhada. a)	que informações desse trecho sugerem que tio galileu, provavelmente, já estava morto? b)	que ações de betinho, descritas nesse trecho, revelam toda sua ingenuidade diante da situação? destaque uma fala em discurso indireto livre que ilustre essa ingenuidade. 7	os objetivos de mercedes são evidentes para betinho? em sua opinião, isso diminui a culpa do rapaz? 8	em sua opinião, de que maneira o narrador torna evidente a degradação moral das personagens? 9	dalton trevisan é considerado um dos grandes mestres da concisão. para constatar esse dado, basta observar a construção de seus parágrafos, sem excessos, de frases curtas, diretas e precisas. releia: a pobre mãe deu betinho àquele homem: agradasse ao tio galileu, com os dias contados, seria um dos herdeiros. observe a quantidade de informações que podem ser extraídas dessas duas linhas: betinho foi dado pela mãe ao tio galileu, ao qual deveria agradar; tio galileu estava próximo da morte e poderia eleger o sobrinho seu herdeiro. pode-se ainda inferir: a mãe, muito pobre, enxergar naquela atitude um meio de ajudar o filho. tio galileu não tinha filhos e, certamente, tinha algum dinheiro, caso contrário não seria alvo de interesse da mãe de betinho. releia o trecho a seguir e identifique que informações podem ser extraídas dele: mercedes fazia compras, perfumada e de sombrinha azul. o homem discutia com ela, que o arruinava, por sua culpa sofria de angina. desenvolvendo habilidades leitoras para interpretar o texto, você: identificou informações que compõem o enredo;  identificou e analisou características do comportamento das personagens;  inferiu informações a partir de dados presentes nas linhas do texto;  analisou elementos do estilo do autor.  	 ele tomou essa atitude incitado pela reclamação de mercedes de que o animal bicara o seu “dedinho”. com esse tipo de ação, ele demonstra que era capaz de tudo por causa dela. 	 as intenções de mercedes parecem ser: herdar as posses de galileu ou, pelo menos, tirá-lo de sua vida e afastar o afilhado, com quem talvez tivesse de dividir os bens. tio galileu, ao ouvir passos no corredor, sempre perguntava quem era e naquele dia não perguntou nada. estava deitado com roupa, o sa-quinho de fumo estava espalhado no colete, o olho estava arregalado e ele não abençoou betinho. 	 betinho não se deu conta da dife-rença de comportamento; imaginou que tio galileu soubesse que morreria e por isso se fingia de morto. também não estranhou o fato de o velho não se debater enquanto o sufocava. “fazia-se de morto, nunca mais fingiria.” 	 os objetivos de mercedes não são nada evidentes para betinho, que cai numa armadilha. isso, entretanto, não diminui em nada sua culpa, pois, embora ele não tenha matado o velho, sua intenção era matá-lo. prof.(a), destaque que no texto não há nenhum inocente. uma mãe, pensando numa possível herança, oferece o filho para prestar serviços a um padri-nho supostamente endinheirado, mas bastante avaro; a esposa do homem tem hábitos fúteis, quer livrar-se do marido e para isso envolve um rapaz no 	 assassinato dele. o rapaz deixa-se seduzir e não vê problemas em eliminar o velho para ter sua esposa e seu dinheiro. mercedes era vaidosa, consumista e gastava o di- nheiro do marido com suas compras, o que o desa-gradava e o desesperava. além disso, ele atribuía a esses excessos da esposa a causa de suas dores. o emprego do verbo no pretérito imperfeito em “mer-cedes fazia compras...” também revela um hábito de mercedes, mais um indicador de que ela pouco se importava com os problemas do marido, além de considerar que o dinheiro dele deveria ser mesmo gasto com ela. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  298 4/15/10  3:20:50 pm</Page><Page Number="301">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  299 texto 2 leia a seguir um conto do escritor amazonense milton hatoum. acompanhe as cenas descritas, as reflexões sutis do narrador-personagem e a forma contida de alcançar um final surpreendente após o relato de descobertas de diferentes naturezas. varandas da eva 	 milton hatoum varandas da eva: o nome do lugar. não era longe do porto, mas naquela época a noção de distância era outra. o tempo era mais longo, demorado, ninguém falava em desperdiçar horas ou minutos. desprezávamos a velhice ou a ideia de envelhecer; vivíamos perdidos no tempo, as tar-des nos sufocavam, lentas: tardes paradas no mormaço. já conhecíamos a noite: festas no fast clube e no antigo bares, bailes a bordo dos navios da booth line, serenatas para a namorada de um inimigo e brigas na madrugada, lá na calçada do bar do sujo, na praça da saudade. às vezes entrávamos pelos fundos do teatro amazonas e espiá-vamos atores e cantores nos camarins, exibindo-se nervosamente diante do espelho, antes da primeira cena. mas aquele lugar, varandas da eva, ainda era um mistério. ranulfo, tio ran, o conhecia. é um balneário lindo, e cheio de moças lindas, dizia ele. mas vocês precisam crescer um pouquinho, as mulheres não gostam de fedelhos. invejávamos tio ran, que até se enjoara de tantas noites dormidas no varandas. a vida, para ele, dava outros sinais, descaía para outros caminhos. enfastiado, sem graça, o queixo erguido, ele mal sorria, e lá do alto, nos olhava, repetindo: cresçam mais um pouco, cambada de fedelhos. aí levo todos vocês ao balneário. minotauro, fortaço e afoito, quis ir antes. foi barrado no portão alto, cuspiu na terra, deu meia-volta, quase marchando para trás. era um destemido, o corpo grandalhão, e um jeito de encarar os outros com olho quente, de meter medo e inti-midar. mas a voz ainda hesitava: era aguda e grossa, de periquito rouco, e o rosto de moleque, assombrado, meio leso. gerinélson era mais paciente, rapaz melindroso, sabia esperar. já namorava de dar beijos gulosos e acochos, e nos surpreendia em pleno domingo guiando uma lambreta velha, roubada do irmão. na garupa, uma moça desconhecida, de outro bairro. ou estrangeira. a máquina passava perto da gente, devagar, roncando, rodean-do o tronco de uma árvore. depois acelerava, sumindo na fumaceira. ele sempre gostou de desaparecer, extraviar-se. gerinélson era e não era da nossa turma. eu o considerava um dos nossos. ele, não sei. tinha uns segredos bem guardados, era cheio de reticências: não se mostrava o rapaz. marcos guilherme/ arquivo da editora vpem3_un6_cap02_295a325.indd  299 4/15/10  3:20:51 pm</Page><Page Number="302">300  unidade 6 o tarso era o mais triste e envergonhado: nunca disse onde morava. descon­ fiávamos que o teto dele era um dos barracos perto do igarapé de manaus; um dia se meteu por ali e sumiu. raro sair com a gente para um arrasta-pé. ele recusa-va: com esses sapatos velhos, não dá, mano. um cineminha, sim: duas moedas de cada um, e pagávamos o ingresso do tarso. e lá íamos ao éden, guarany ou polytheama. depois da matinê, ele escapulia, não ficava para ver as meninas da escola normal, nem as endiabradas do santa dorothea. tarso queria vender pico-lés e frutas na rua, queria ganhar um dinheirinho só para entrar no varandas da eva. mas era caro, não ia dar. então tio ranulfo prometeu: quando chegar a hora, pago pra todos vocês. tio ran, homem de palavra, foi generoso. […] contamos as cédulas: dava e sobrava, era a nossa fortuna. compramos na casa colombo um par de sapatos, e tia mira costurou uma calça e uma camisa, tudo para o tarso. […] marcamos a noitada para uma sexta-feira de setembro. gerinélson pegou o dinhei-ro, quis ir sozinho de lambreta. tio ran nos levou em seu dalphine, parou quase na porta, nos desejou boa noitada. quando íamos entrar, tarso hesitou: deu uns passos para frente, recuou, quis e não quis entrar. ficou mudo, mais e mais esquisito, fechou- -se. nós o desconhecemos: luz e dança não o atraíam? minotauro puxou-o pela camisa, enganchou a mão no pescoço dele, repetindo: bora lá, seu leso. nosso amigo abaixou a cabeça, concordando, mas com um salto se desgarrou, e correu para a escuridão. tarso, um desmancha-prazer. deixamos o nosso amigo. a vontade não é de cada um e em cada dia? minotauro soltou um grunhido, resmungou: não disse? roupinha nova é mimo pra mocinha. entramos. um caminho estreito e sinuoso conduzia ao varandas da eva. aos poucos uma sombra foi crescendo, e no fim do caminho uma luminosidade surgiu na floresta. era uma construção redonda, de madeira e palha, desenho de oca indí-gena. mesinhas na borda do círculo, um salão ao meio, iluminado por lâmpadas vermelhas. uns casais dançavam ali, a música era um bolero. minotauro apon-tou uma mesinha vazia num canto mais escuro. sentamos, pedimos cerveja, um cheiro de açucena vinha do mato. e gerinélson, se extraviara? na luz vermelha, quase noite, minotauro me cutucou: uma mulher sorria para mim. não vi mais o minotauro, nem quis saber do gerinélson. só olhava para ela, que me atraía com sorrisos; depois ela me chamou com um aceno, girando o indicador, me convidan-do para dançar. não era alta, mas tinha um corpo cheio e recortado, e um rostinho dos mais belos, com olhos acesos, cor de fogo, de gata-maracajá. dançamos três músicas, e dançamos mais outras, parados, apertadinhos, de corpo molhado. ela percebeu minha ânsia, me apertou com gosto, e me levou, no ritmo lento da músi-ca, para fora do salão. por outro caminho me conduziu a uma das casinhas ver-melhas, avarandadas, na beira de um igarapé. ficamos um tempo na varandinha, no namoro de beijos e pegações. depois, lá dentro, ela fechou a porta, e deixou as janelas entreabertas. o som de um bolero morria na casinha avarandada. […] perguntei como ela se chamava. ela disfarçou, e disse, rindo: meu nome? tu não vais saber, é proibido, pecado. meu nome é só meu. prometo. a voz e a risada bastavam, minha curiosidade diminuía. nome e sobrenome não são aparências? vpem3_un6_cap02_295a325.indd  300 4/15/10  3:20:51 pm</Page><Page Number="303">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  301 não quis me ver nem ser vista à luz do dia; quando as águas do igarapé ficaram mais escuras do que a noite, ela pediu que eu fosse embora. obedeci, a contragosto. saí no fim da madrugada, caminhando na trilha de folhas úmidas. naquela manhã o sol teimou em aparecer no céu fechado. voltei ao varandas no mesmo dia, a fim de revê-la; voltei muitas vezes, sempre sozinho, nunca mais a encontrei. o tarso disse que não entrou no varandas porque teve medo. medo? ele sério, e calado. minotauro me contou sua farra, cheia de façanhas. a grande gandaia, noite e dia, ele disse com uma voz que não tremia mais, voz bem grossa, de cachorrão. o gerinélson me olhou de soslaio, sorriu de fininho, desconversou. ele não se mos-trava mesmo. gostava das coisas só para ele, guardando tudo na memória, dono sozinho de seus feitos e fracassos. nos meses seguintes, ainda tentei ver a mulher, pulava de um clube para outro, os lupanares de manaus. até hoje, sinto ânsia só de lembrar. tia mira dizia que eu estava babado de amor. estás tonto por uma mulher, ela ria, observando meu devaneio triste, meu olhar ao léu. o tarso não quis conversar sobre aquela noite. foi o primeiro a se afastar da turma: teve de abandonar a escola, queria ser prático de motor, ou, quem sabe, capataz numa fazenda do careiro. três anos depois, meus tios mira e ran mudaram de bairro; os encontros com meus amigos tornaram-se fortuitos, minha vida procurou outros rumos. o único que cruzou o meu caminho foi minotauro; cruzou por acaso, quando eu saía do bar mocambo e ele ia visitar um amigo no quartel da polícia militar. estava fardado, era soldado s1 e se preparava para o exame de suboficial da aeronáutica. servia na base terrestre, de guerras na selva. não queria voar. sou homem com pés no chão, ele foi logo dizendo. é emocionante a gente se perder na mata, os perigos me atraem, mano. a gente entra na floresta, escuta os ruídos da noite e a noite é escura que nem o dia. é um desafio. toda a cambada tem que caminhar naquele zigue-zague escuro, dormir sem saber onde está, matar os bichos e encontrar a saída para a sede do comando. falava com desembaraço, cheio de si, alisando com os dedos grossos a boina azul. o rosto continuava assombrado, quase feroz, e a risada saía que nem uivo. ele havia topado com o gerinélson: o leso do geri viajou para são paulo. quer ser doutor, médico de mulher. quer se aproveitar delas, riu o minotauro, tenebroso, mostrando dentes de cavalo. tu nem sabes… o geri sempre foi sonso, andou pelo varandas antes da gente, sempre foi caído por mulheres de todas as idades. dei umrisinho chocho, semvontade. minotauro já erameu ex-amigo? está emoutro mundo, nossos pensamentos não se encontram. foi o que eu remoí naquele instante. e o tarso? mais pobre do que eu, ele disse. deve estar caído por aí. pobre pobre não se levanta, mano. nem soldado o coitado do tarso pode ser. o minotauro me tratou com carinho. não sei se naquele dia eu tive pena ou raiva dele. desprezo, talvez. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  301 4/15/10  3:20:51 pm</Page><Page Number="304">302  unidade 6 ele se despediu com um abraço forte, de estalar as costelas. era socado, ummons-tro. pôs a boina na cabeça e saiu andando, desengonçado, cumpridor de deveres. anos depois, num fim de tarde, eu acabara de sair de uma vara cível, e pas-sava pela avenida sete de setembro. divagava. e já não era jovem. a gente sente isso quando as complicações se somam, as respostas se esquivam das perguntas. coisas ruins insinuavam-se, escondidas atrás da porta. as gandaias, os gozos de não ter fim, aquele arrojo dissipador, tudo vai se esvaindo. e a aspereza de cada cacto da vida surge como um cacto, ou planta sem perfume. alguém que olha para trás e toma um susto: a juventude passou. quando andava diante do palácio do governo, decidi descer a escadaria que termina próxima à margem do igarapé; parei no meio da escada e me distraí com a visão dos pássaros pousados nas plantas que flutuavam no rio cheio. foi então que vi, numa canoa, um rosto conhecido. era tarso. remou lentamente até a margem e sal-tou; depois tirou um cesto da canoa e pôs o fardo nas costas, a alça em volta da testa, como faz um índio. o corpo do meu amigo, curvado pelo peso, era o de um homem. subiu uma escadinha de madeira, deixou o cesto na porta de uma palafita, voltou à margem e puxou a canoa até a areia enlameada. à porta apareceu uma mulher para apanhar o cesto. reapareceu em seguida e acenou para tarso. num relance, ela ergueu a cabeça e me encontrou. estremeci. eu ia virar o rosto, mas não pude deixar de encará-la. ela me atraía, e a lembrança surgiu agitada, confusa. a voz dela chamou: meu filho! a mesma voz, meiga e firme, da moça, da mulher da casinha vermelha, no balneário varandas da eva. era a mãe do meu amigo? isso durou uns segundos. por assombro, ou magia, o rosto dela era o mesmo, não envelhecera. mal tive tempo de ver os braços e as pernas, a memória foi abrindo brechas, compondo o corpo inteiro daquela noite. tarso escondeu a canoa entre os pilares da pala-fita, e entrou pela escadinha dos fundos. a mulher já tinha sumido. permaneci ali mais um pouco, relembrando… nunca mais voltei àquele lugar. hatoum, milton. a cidade ilhada. são paulo: companhia das letras, 2009. interpretação do texto 1	releia o primeiro parágrafo e identifique em que momento da juventude se encontra o narrador- -personagem? 2	explicite a oposição existente entre os rapazes da idade do narrador-personagem e tio ran. 3	aparentemente, um evento na vida dos quatro amigos marca a passagem para a vida adulta: a ida ao varandas da eva. a)	como o narrador, inicialmente, vive esse primeiro contato com o mundo adulto? b)	como ele percebe esse contato com o varandas da eva em seus três amigos? 	 o narrador-personagem, bem como seus companheiros, encontra-se na fase das pequenas transgressões juvenis: participam de festas e bailes, provocam os inimigos, entram clandestinamente nos fundos do teatro para observar atores e cantores em fase de preparação. os meninos representam a primeira juventude, cheia de curiosidades, de desejos de transgressão. tio ran representa o cansaço, o enfastio de quem já pode tudo, de quem não enxerga mais tanto mistério nas coisas. ele vive sua primeira experiência amorosa/sexual. sai tomado de paixão e busca reencontrar a moça, mas não consegue. ele destaca a fuga de tarso, aparentemente por causa do medo do que haveria. destaca o modo exibicionista de minotauro ao relatar seu encon-tro com a moça e a discrição e os silêncios de gerinélson. acocho: apertado, arrochado. açucena: planta da família das amarilidáceas, com flores muito vistosas. de soslaio: de viés, de lado. esvair: evaporar, desfazer, desaparecer. fortuito: que acontece por acaso, eventual. gato-maracajá: mesmo que gato-do-mato, jaguatirica. igarapé: riacho que corre entre ilhas ou trechos de um rio. lupanar: prostíbulo, casa de meretriz, bordel. palafita: conjunto de estacas que sustentam habitações construídas sobre a água; designação comum a essas habitações. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  302 4/15/10  3:20:51 pm</Page><Page Number="305">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  303 4	três anos depois desse primeiro contato com varandas da eva, os rapazes não andavam mais juntos. essa distância entre eles é informada de diversas formas, e isso fica bastante claro no reencontro entre o narrador e minotauro. a)	o que nessa conversa revela a distância entre eles. b)	que frases destacam especificamente a distância entre o narrador e minotauro? c)	em sua opinião, o que na fala de minotauro levava o narrador a pensar o que pensava dele? 5	a que momento da vida do narrador corresponde seu reencontro com tarso? como é descrito pelo narrador esse momento? 6	ao rever o amigo de infância, algo é revelado. o quê? 7	essa revelação explica alguns dos comportamentos de tarso, relatados pelo narrador no início do conto? 8	releia: coisas ruins insinuavam-se, escondidas atrás da porta. as gandaias, os gozos de não ter fim, aquele arrojo dissipador, tudo vai se esvaindo. qual a correspondência entre a consciência da perda da juventude e a revelação que viria em seguida? para entender a prosa brasileira contemporânea assim como na poesia, a produção em prosa é marcada pela pluralidade. são vários os gêneros que se desta-cam: o conto, a crônica, o texto teatral, o romance. todos se tornam produtos de consumo na nova sociedade. por esse motivo, as temáticas mudam também. se antes podíamos dividir a produção literária entre romances psicológicos ou regionalistas, na contemporaneidade surgem os romances policiais, os de violência urbana, os de personagens socialmente desequilibradas. a prosa busca retratar a urbanidade, a vida caótica do indivíduo nesse contexto. como nunca, lemos uma literatura contaminada pelo jornalismo, pela denúncia social e pelas cidades. se tivéssemos de apre-sentar este capítulo em uma palavra seria: “(re)inovações”. características da prosa contemporânea o império das narrativas curtas no período entre 1980 e o início do século xxi, a opção pelos textos curtos em prosa reflete um mundo caracterizado pela rapidez e pela agitação. a comunicação em ritmo acelerado e o sofisticado desenvolvimento tecnológico alcançado em algumas áreas só poderiam levar à produção de gêneros literários relativamente curtos, como o conto e a crônica, que podem facilmente circular em jornais, sites e revistas, aproximando ainda mais as pessoas da literatura. com o surgimento dos blogs e da rede twitter, muitos jovens passaram a escrever suas produções online. nunca na história da humanidade se produziu um número tão grande de textos como o que hoje circula na rede nem se produziu e se consumiu tanta leitura como nos dias atuais. a rede encurtou o espaço de tempo entre produtor e leitor e podemos até mesmo dizer que ela desestruturou esses papéis, que nunca ficaram tão ligados. crônicas e contos — reflexos de nossos tempos os contos e as crônicas trazem à tona temas relacionados à sociedade e seu cotidiano. denunciam as mazelas e as preocupações do homem que vive nesse turbilhão de informações, sugestões, sentimentos. o narrador não sabe onde estão os demais. minotauro diz o que está fazendo — era soldado e se preparava para a aeronáutica. gerinélson estava em são paulo estudando para ser médico e tarso estava perdido, sem poder ser algo na vida. “minotauro já era meu ex-amigo?”; “não sei se naquele dia eu tive pena ou raiva dele. desprezo, talvez.” sugestão: talvez porque minotauro fosse cheio de si, talvez porque ironizasse a escolha de um dos amigos e desdenhasse da situação do outro, talvez porque ele tenha revelado coisas — o fato de gerinélson já ter frequentado o varandas — que colocavam o narrador numa situação de alheamento, de desconhecimento do que se passara. 	 o narrador não era mais jovem. “a gente sente isso quando as complicações se somam, as respostas se esqui-vam das perguntas. coisas ruins insinua­vam-se, escondidas atrás da porta. as gandaias, os gozos de não ter fim, aquele arrojo dissipador, tudo vai se esvaindo.” é revelado que a mulher por quem se apaixonara no varandas da eva era a mãe de um de seus amigos. tarso era avesso a festas e teve medo de entrar no varandas da eva, talvez porque soubesse que ali veria sua mãe, talvez porque soubesse o que a mãe fazia e não queria ver em uma das moças a sua representação. nesse caso, trata-se realmente de um rito de passagem: o narrador perde todos os elementos — a energia, o vigor, a vida envolta em mistério — que o prendiam a uma época de inocência. essa revelação ilustra todos os dramas que podem estar por trás de um momento fugaz de felicidade. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  303 4/15/10  3:20:52 pm</Page><Page Number="306">304  unidade 6 no brasil, alguns dos escritores que melhor desenvolvem em sua obra essa característica são: dalton trevisan, ricardo ramos, luiz vilela, moacyr scliar, ignácio de loyola brandão. na crônica, destaca-se o desejo de levar o leitor à reflexão dos fatos mais banais do cotidiano. rubem braga, luis fernando verissimo e alguns autores que também são contistas ou romancistas (fernando sabino, moacyr scliar e ignácio de loyola brandão, por exemplo) representam muito bem esse gênero. romance — o eterno gênero no romance, sobressaem luiz alfredo garcia-roza, moacyr scliar, rubem fonseca, raduan nassar, milton hatoum, patrícia melo, ignácio de loyola brandão, sérgio sant’anna, antônio callado, cristóvão tezza, entre outros. a marca dessas obras é o ecletismo, a mistura de estilos. de modo geral, porém, podemos afirmar que as obras desses autores constituem um olhar crítico sobre a sociedade descrente. há certo desencantamento com o mundo. as personagens não agem segundo a tradição ou os valores do passado, mas movidas pelo aqui e agora. são pessoas simples, sem traços de heroísmos. o papel do leitor é reconhecido cada vez mais como fundamental na dinâmica dessa literatura, pois é quem decifra os mistérios, as pistas do romance contemporâneo. autores da prosa contemporânea em língua portuguesa são muitos os autores de contos, romances e crônicas que se destacam nos dias atuais. por essa razão, não conseguiremos neste espaço enumerar todos os representantes da prosa contemporânea que nos encantam com seus textos. apresentaremos, apenas, alguns nomes significativos e convidamos você, na seção e por falar em…, a buscar outros nomes de destaque na literatura contemporânea em língua portuguesa. cristovão tezza reconhecidíssimo pelo seu trabalho, tezza recebeu, entre outros, o prêmio portugal telecom de literatura e o prêmio jabuti com o romance meu filho eterno, que narra a história de um pai cujo filho tem síndrome de down. muitos críticos literários comentam que se trata de uma obra auto-biográfica, que mistura realidade e ficção. todavia, essa é uma característica da produção contemporânea, a linha entre a realidade e a ficção torna-se muito tênue e escrever passa a ser um retrato do real. leia um trecho do romance meu filho eterno: a manhã mais brutal da vida dele começou com o sono que se interrompe — chegavam os parentes. ele está feliz, é visível, uma alegria meio dopada pela madrugada insone, mais as doses de uísque, a intensidade do acontecimento, a sucessão de pequenas estranhezas naquele espaço oficial que não é o seu, mais uma vez ele não está em casa, e há agora um alheamento em tudo, como se fosse ele mesmo, e não a mulher, que tivesse o filho de suas entranhas — a sensação boa, mas irremediável ao mesmo tempo, vai se transformando numa aflição invisível que parece respirar com ele. talvez ele, como algumas mulheres no choque do parto, não queira o filho que tem, mas a ideia é apenas uma sombra. afinal, ele é só um homem desempregado e agora tem um filho. ponto-final. tezza, cristovão. meu filho eterno. rio de janeiro: record, 2007. cristovão tezza, escritor e professor universitário, nasceu em 1952 em lajes, santa catarina. menino ainda, mudou-se para curitiba, cenário de muitas de suas obras. tornou-se conhecido nacionalmente com a publicação de trapo (1988). em 1998, ganhou o prêmio machado de assis da biblioteca nacional de melhor romance com breve espaço entre cor e sombra. com o o fotógrafo, recebeu o prêmio de melhor romance de 2004 da academia brasileira de letras. cristóvão tezza/divulgação/arquivo da editora vpem3_un6_cap02_295a325.indd  304 4/15/10  3:20:53 pm</Page><Page Number="307">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  305 ricardo ramos ricardo ramos tem a literatura no sangue. filho de graciliano ramos, formou-se em direito, mas logo se entregou à literatura. segundo o próprio autor, sua obra tinha muito de realidade; só havia um pouco de invenção. assim, o que podemos ler dele são contos e romances repletos de referência ao cotidiano, numa denúncia sutil daquilo que nos afoga nos afazeres diários. os contos do livro circuito fechado são importantes para a compreensão dessas características. um cachorro 	 ricardo ramos é pequeno e ruivo. chegou na casa ainda novo, com pou-cos dias e um nome difícil. de boa raça, tinham dito, e assim fora comprado. um cachorro para as crianças. passado o primeiro mês, a linhagem não se fizera. ao contrário, o focinho alongara, o rabo se estendera, o corpo subira desengonçado nas pernas altas, ágeis, que trotavam por entre os móveis. os olhos confirmavam a mistura, des-valiam o embaraço do princípio: eram vivos, alegres, inte-ligentes. apesar do pelo avermelhado, do peito largo, um vira-lata. daí a simpatia, talvez. mudaram-lhe o nome. a dona da casa, que resistira a um bicho para cuidar, sujando e criando caso com as empregadas, que só a custo cedera no seu exercício de atender aos filhos, logo se lembrou do tempo de menina, de um outro cachorro, felpudo e preto, mas também engraçado, assim como esse. — o toquinho mordeu um homem na rua. as reclamações de estilo. como é que deixam pela calçada, solto, atacando quem passa? o homem se controlava, ele o raivoso, grosso, malvestido, tropeçan-do nas palavras. as desculpas, de não se ouvir. afinal o portão vazio. mas só um intervalo, com a radiopatrulha chegando em seguida, os guardas querendo ver o animal, a vacina. a dona da casa mostrou o papel, em ordem. o homem ainda aborrecido, como é que deixam, isso devia ser proibido. então aquilo aparecendo no jardim, miúdo, buliçoso, latindo esganiçado. os policiais rindo, vendo o homem tão grande, o cachorro tão pequeno. e todos indo embora […] a menina, que fizera a escolha do animal, do nome, e o considerava proprie-dade sua, por isso mesmo tinha os modos imperiosos. uma domadora. andava pelos cinco anos e brincava, por vezes se surpreendendo com os movimentos do cachorro, um grunhir, uma patada, afinal ele reagia. feito gente, parecido. e no entanto pouco, obedecendo quase sempre. ela mandava, ele fazia, os dois no meio da zoada, cruzando a sala e desarrumando, os gritos, os latidos, tudo misturado e treloso. a menina passava, puxando o bicho pelas patas dianteiras, dizendo olha aqui, olha aqui, as empregadas riam, a mãe brigava: — deixe o toquinho. — ele é meu. ricardo ramos (1929-1992) nasceu em palmeira dos índios, alagoas. escritor, jornalista, professor de comunicação, seu maior interesse estava nos contos, embora tenha escrito romances, novelas, ensaios. autor premiado, seus contos já foram traduzidos para diversas línguas. entre suas publicações, destacamos circuito fechado (contos), as fúrias invisíveis (romance), os sobreviventes (contos). carlos fenerich/editora abril vpem3_un6_cap02_295a325.indd  305 4/15/10  3:20:56 pm</Page><Page Number="308">306  unidade 6 — estou mandando. o menino maior, festejado desde o chegar, punha o cachorro para dar saltos, correr, depois o alisava sorrindo. estalava os dedos. um ia na frente, o outro seguia atrás. por toda a casa. o menino sentava-se para estudar, o bicho parava ao seu lado. cabeça levantada, olhos fixos até achar que tudo ficaria naquilo. então se aninhava no tapete, em segurança, e dormia ressonando. […] — o toquinho tem medo de bomba. junho chegara com os fogos. esses estouros que só têm sentido no interior, fogueira, foguetes, as insistências de se aligeirar a cidade. os balões subiam, voga-vam e criavam os seus pequenos incêndios, muito ampliados nas advertências, nos comentários. […] — olhe o toquinho. o estampido e ele correndo. a qualquer barulho, vinha em disparada e se aga-chava, trêmulo, aos pés de alguém. apavorado, se escondendo. os meninos riam daquilo. a menor aprendeu a bater palmas, estaladas, para vê-lo correr. a mulher achou que passara o perigo de mordidas e confusão. — coitadinho. o homem da casa, esse que fica na rua da manhã à noite, que nos fins de sema-na recolhe fragmentos de um lar e os imagina em dia útil, o homem descobriu que é bom, simples e natural ter um cachorro a seus pés, feito uma âncora no passado que ele não sabe mas desconfia. ramos, ricardo. circuito fechado. rio de janeiro: record, 1978. moacyr scliar moacyr scliar nasceu no rio grande do sul, em 1937. é médico, professor universitário e membro da academia brasileira de letras. suas produções literárias são representativas do que de melhor se tem produzido nos últi-mos tempos. em suas crônicas, romances, ensaios e ficção infantojuvenil, scliar trata de temas entre o fantástico e o cotidiano. no entanto, engana-se quem pensa que, diante de tanta produção, o autor seja superficial. como médico, faz uma reflexão profunda da reali-dade humana e social. colaborador do jornal folha de s.paulo, suas crônicas — publicadas semanalmente — são, segundo o próprio autor, desencadeadas por notí-cias do cotidiano. moacyr scliar na biblioteca de sua casa na cidade de porto alegre. liane neves/editora abril alexandre dubiela/arquivo da editora treloso: estouvado, travesso; inoportuno, inconveniente. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  306 4/15/10  3:21:01 pm</Page><Page Number="309">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  307 alexandre dubiela/arquivo da editora leia um de seus textos que trata do que, à época da escrita, era novidade: as vendas pelo computador. observe que antes do texto, há uma referência à notícia que originou as reflexões do autor. felicidade não se compra. nem mesmo pela internet 	 moacyr scliar “sofá de dois lugares, seminovo: produtos como esse podem sair de sua casa e serem vendidos com a ajuda da internet.” folha informática, 23 mar. 2005. ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living. a mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living. ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living porque era ali que, todas as noites, se instalava para assistir à tv até altas horas. a mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living porque era ali que, todas as noites, o marido se instalava para assistir à tv até altas horas. e, vendo tv, o marido não queria fazer programas, não queria passear, não queria nem conversar. em desespero, ela ameaça vender o sofá por qualquer preço. o marido não acreditava. porque a mulher não tinha jeito para negociar. não sabia falar com as pessoas, não sabia apresentar seu produto. se dependesse de sua habilidade para a venda, o sofá de dois lugares permaneceria no living por muitos e muitos anos. de modo que ele ficou muito surpreso quando, voltando do trabalho, não encontrou o sofá. vendi, disse a mulher, triunfante. ele não quis acreditar, achou que fosse brincadeira. ela explicou: graças à internet, tinha ven-dido a uma pessoa que nem conhecia, que enviara um portador para entregar o dinheiro e levar o sofá. aquilo deixou-o furioso. queria o seu sofá de volta e exigiu da mulher o nome do comprador. ela simplesmente se recusou a revelar esse segredo. brigaram e, naquela noite, ele dormiu no outro quarto do apartamento, vazio desde que a filha tinha casado. de madrugada, uma ideia lhe ocorreu. correu a verificar os e-mails da esposa e, de fato, ali estava a mensagem enviada pela com-pradora, com nome, endereço, telefone. no dia seguinte, ligou para essa mulher, disse que precisava vê-la com urgên-cia: assunto ligado à compra do sofá. ela relutou, mas consentiu em recebê-lo. ele foi até a casa, num bairro afastado. e ali estava a mulher, ainda jovem, a espe­rá-lo. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  307 4/15/10  3:21:03 pm</Page><Page Number="310">308  unidade 6 no living, diante da tv, o sofá de dois lugares que ele quis comprar de volta. ela recusou; gostara do sofá, não o venderia. ele recorreu a todos os argumentos, sem resultado, quis até pagar o dobro da quantia que ela havia despendido. nada, ela mostrava-se irredutível, e ele acabou desistindo. antes de ir embora, porém, resolveu perguntar quem sentava ao lado dela no sofá. ninguém, foi a resposta. divorciada, estava sozinha havia algum tempo. comprara um sofá de dois lugares porque tinha esperança de, um dia, arranjar um companheiro. ele tem ido à casa da nova proprietária do sofá. senta-se ao lado dela para ver tv, coisa que adora. no começo, ela gostava da companhia. mas agora já não acha o arranjo tão bom: o homem não quer fazer programas, não quer passear, não quer nem conversar. ela pensa seriamente em vender o sofá. não é muito hábil nessas coisas, mas tem certeza de que, através da internet, resolverá o problema. folha de s.paulo, 28 mar. 2005. folhapress. luiz garcia-roza carioca e estudioso da psicanálise, roza mostra-nos uma rio de janeiro pelo olhar de personagens densamente construídas. o autor não se restrin-ge ao lugar-comum da violência e do tráfico, pelo contrário, apresenta-nos um painel de uma sociedade cheia de dramas pessoais mal resolvidos. a maioria de suas obras são romances policiais, e uma personagem surge em quase todos eles: o delegado spinoza. leia um trecho de seu romance policial na multidão. nele a perso-nagem spinoza precisa desvendar um misterioso crime no apartamento onde ele mesmo passou a infância. na multidão 	 luiz garcia-roza espinosa olhou para a mão dele… e ela empunhava uma faca. levou imediatamente a mão às costas para sacar a arma, ao mesmo tempo que tentava dar um passo atrás para evitar o golpe. a faca o atingiu do lado esquerdo do abdome, com toda a vio-lência. espinosa tinha conseguido sacar a arma e disparar, mas o tiro saíra baixo, atingindo a coxa de hugo breno, que caiu de joelhos no chão arenoso. espinosa deu um passo e desabou sobre o banco de ripas de madeira, deslizando pelo encosto curvo até tombar de lado no assento. hugo breno estava sentado no chão de saibro, junto ao mesmo banco, ainda com a faca na mão, a calça empapada de sangue. a pistola de espinosa caíra no chão, ao alcance dos dois. com a barra da camisa, espinosa tentava tamponar seu ferimento, que sangrava abundantemen-te. ele estava sem ar, com a vista embaçada, e fazia um esforço enorme para não fechar os olhos. foi quando viu hugo breno sentado ao seu lado, uma das mãos daniela dacorso/editora abril luiz alfredo garcia-roza (1936) estudou filosofia e psicologia, foi professor titular na universidade federal do rio de janeiro (ufrj) e coordenador de um programa de pós-graduação em teoria psicanalítica. além de romances, escreveu livros sobre psicanálise e filosofia. por sua obra o silêncio da chuva recebeu os prêmios nestlé de literatura e jabuti. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  308 4/15/10  3:21:03 pm</Page><Page Number="311">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  309 tentando deter o sangramento da perna e a outra esticada para o delegado. a vista embaçada não permitia que espinosa distinguisse claramente o que hugo preten-dia com seu gesto, até que percebeu que a mão estendida de hugo breno segurava a pistola que ele pegara do chão. garcia-roza, luiz. na multidão. são paulo: companhia das letras, 2007. fernando bonassi fernando bonassi é a representação da contemporaneidade. nascido na cidade de são paulo, o autor passeia pela produção de romances, contos, roteiros de cinema, textos teatrais e crônicas jornalísticas. reconhecido a partir da década de 1990, o autor tem uma marca conhecida: construir personagens em situações claustrofóbicas, presas, escondidas. relações perigosas 	 fernando bonassi o doutor geraldo é daqueles que sempre digita “aque-le abraço” ao filho eduardo, mas tem uns dez anos que não lhe dá nem a mão pessoalmente. já eduardo, que tem dezenove anos de idade, manda para a mãe, dilma, e-mails com beijos que nunca tem coragem, ou vontade, de dar. dona dilma, em pouco tempo, passou a dar beijos pessoalmente no vizi-nho de porta, o serginho, de dezoito aninhos, que este nem sonha descrever para a namorada, cássia, de vinte e um, que vive dizendo que não quer compromisso, mas visita agências de casamento na finlândia, onde haldor, de vinte e três, quer porque quer uma esposa brasileira. haldor está entre cássia e selma, que não diz a idade, viaja muito e passa o tempo lhe escrevendo que trabalha, mas fica é visitan-do sites de sacanagem. sacanagem mesmo fez o chefe dela, o arquiteto arthur, que a pegou num blog em flagrante e deu advertência só para manter as aparências, já que uns e outros sabem que eles se encontram muito bem um com o outro por essas mensagens cifradas, senhas partilhadas e pedidos de decoro, decoração ou sigilo. marta, enciumada, trainee de área de marketing, até organizou um chat indig-nado para contarem-se esses segredos chatos. o que nem todos sabem é que nos dias de folga a própria marta prefere se apresentar como “wanessa, a devassa”, despindo-se ao comentário dos outros numa sala de bate-papo furado com pala-vras safadas e gozando com a admiração canastra de sua literatura impura. um desses admiradores cheios de culpa jamais pôs a mão num livro que não fosse a bíblia! diz estar apenas curioso, mas pergunta como quem conhece o linguajar das respostas mais sujas. trata-se do doutor geraldo, que não só negou divórcio à esposa como assegurou que vai permanecer-lhe fiel até que a morte os separe; o que deu uma ideias à dona dilma e ao serginho, que estão cada vez mais apaixo-nados e passaram a fazer uns contatos estranhos com uns endereços esquisitos… bonassi, fernando. violência e paixão. são paulo: scipione, 2007. rogerio albuquerque/editora abril fernando bonassi (1962), romancista, contista, dramaturgo, roteirista de cinema, transita com desenvoltura em diversos setores artísticos. entre suas publicações, destacamos violência e paixão (editora scipione). vpem3_un6_cap02_295a325.indd  309 4/15/10  3:21:04 pm</Page><Page Number="312">310  unidade 6 rubem braga nascido na cidade de cachoeiro de itapemirim, no espírito santo, rubem braga formou-se em direito, mas trabalhou como jornalista. talvez a junção desses dois trabalhos tenha provocado no autor um olhar mais crítico e atento à sociedade. considerado um dos maiores escritores brasileiros, ganhou popula-ridade com suas crônicas. nelas retrata o olhar do homem no mundo, nas sociedades modernas. apresenta-nos textos enxutos, objetivos, marcados pela linguagem coloquial e pelas temáticas simples. flor-de-maio 	 rubem braga entre tantas notícias do jornal — o crime do sacopã, o disco voador em bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos barnabés — há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram. não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta d’água, nem do ministério da guerra para insinuar que o país está em paz. não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. é assinada pelo senhor diretor do jardim botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o jardim, porque a planta chamada “flor-de-maio” está, efetivamente, em flor. meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao jardim botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar. agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde, quando há sol — ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão. suspiro e digo comigo mesmo — que amanhã acordarei cedo e irei. digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi — um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao jardim botânico, mas então será tarde, não haverá mais “flor-de-maio”, e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono, e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa “flor-de-maio”. no fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém — uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as “flores-de-maio” do jardim botânico estão gloriosamente em flor. e que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao jardim rubem braga (1913-1990) é considerado por muitos o maior cronista brasileiro desde machado de assis. a marca registrada de seus textos, segundo afrânio coutinho é a "crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma, pelas pessoas, pela natureza". rogério reis/editora abril vpem3_un6_cap02_295a325.indd  310 4/15/10  3:21:07 pm</Page><Page Number="313">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  311 botânico ver a “flor-de-maio” — talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só. ir só, no fim da tarde, ver a “flor-de-maio”; apro­ veitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas cofaps de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escre-ver uma crônica. braga, rubem. crônicas 2. são paulo: ática, 2008. (col. para gostar de ler). fernando sabino fernando sabino nasceu em minas, em 1923, e faleceu em 2004, no rio de janeiro. como ele mesmo pediu, em seu túmulo há a epígrafe: "aqui jaz fernando sabino, que nasceu homem e morreu menino". por influência de murilo rubião, começa a trabalhar no jornalismo mineiro e logo dá início às publicações de seus contos e romances. dono de uma voz de menino, sabino faz um retrato da sociedade brasileira da época. leia um trecho do romance o menino no espelho, publicado em 1982. como deixei de voar 	 fernando sabino […] uma noite tive um sonho maravilhoso: sonhei que sabia voar. bastava movimentar os braços, mãos abertas ao lado do corpo fazendo círculos no ar, e eu me descolava do chão como um passarinho, saía voando por cima das casas e pelos campos sem fim. durante vários dias aquele sonho não me saiu da cabeça. acabei cismando que poderia torná-lo realidade. ia para o fundo do quintal e, longe da vista dos outros, ficava horas seguidas ensaiando meu voo. mexia com as mãos, sem parar, como fizera no sonho, e nada. eu sabia que não era uma questão de força, mas de conseguir estabelecer, com o movimento harmonioso das mãos, ummisterioso equilíbrio entre o meu peso e o peso do ar. como se estivesse dentro d’água e quisesse me manter à tona: qualquer gesto mais forte ou afobado e eu me afundava. […] sabino, fernando. o menino no espelho. rio de janeiro: record, 1996. fernando tavares sabino escreveu romances, crônicas, contos, artigos para jornais e revistas. o encontro marcado é considerado seu romance de maior sucesso. entre seus romances destacam-se o homem nu, o menino no espelho, o grande mentecapto, obra que recebeu o prêmio jabuti e foi adaptada para o cinema e o teatro. flávio ciro/editora abril marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un6_cap02_295a325.indd  311 4/15/10  3:21:09 pm</Page><Page Number="314">312  unidade 6 marina colasanti nascida na etiópia, em 1937, morou onze anos na itália e desde então vive no brasil. dona de uma narrativa poética, marina colasanti, como quase todos os autores contemporâneos, produziu crônicas, contos, romances, poesias, histórias infantojuvenis, roteiros para cinema e para tv, até apresentou programas televisivos. tudo isso sem deixar de lado sua característica fundamental: mostrar a alma feminina ao narrar os fatos do cotidiano e os problemas sociais. o que também é marcante em seus textos é a sensibilidade com que apresenta os temas mais caros para a humanidade. veja como ela trata da solidão em um dos contos do livro a morada do ser. para compor esse livro, a autora desenhou seu prédio e passou a olhá-lo como um edifício de verdade, onde havia uma pessoa sozinha, uma pessoa que não suportava viver com outra, uma televisão ligada… desse modo, localizou os mitos, distribuiu os temas pelos apartamentos e só então começou a escrever os contos. aptº- 403 	 mariana colasanti trouxe primeiro a pomba, animalzinho ferido na praça. depois o carneiro encontrado no terreno baldio. sarada a asa, lavado o pelo, era suave a convivência. arrulhos, balidos, milho na palma, capim na mão, ruminar de três paciências. e mais doce ele ficava vivendo com a pomba, mais manso se fazia acordando com o carneiro. amavam-se nos cômodos estreitos. cuidadoso porém de que a janela se man-tivesse fechada evitando voos, e fosse firme a coleira presa ao pé da mesa. a vida sem seus amigos parecia-lhe impossível. menos nos fins de semana, quando viaja-va sem levá-los, medo de que fugissem e, na volta, saudoso, trazia do campo ramas e a pele tostada pelo sol. arrulhava a pomba, balia o carneiro. mas às vezes voando entre a cômoda e o armário a pomba parecia estonteada, a cabecinha batendo contra os vidros. e sem desgastar-se em raízes os dentes do carneiro se alongavam superando o focinho. foi com o agitar das ramas que ela se assustou? ou com o alvoroço da chegada? difícil dizer por que a fúria tomou-lhe as asas cravando o bico nos olhos e repetidas vezes afundando entre gritos e sangue. mas é certo que o cheiro novo excitou o car-neiro levando-o a patear o corpo caído, sem que bastasse a carne entre os dentes. colasanti, marina. a morada do ser. rio de janeiro: francisco alves editora, 1978. marina colasanti tem uma produção extensa. desde sua primeira publicação, eu sozinha (1968), já escreveu mais de trinta livros. ganhou o prêmio jabuti pelas obras rota de colisão (1993) e ana z. aonde vai você? (1999). sérgio pinheiro/cpdoc jornal do brasil marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un6_cap02_295a325.indd  312 4/15/10  3:21:11 pm</Page><Page Number="315">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  313 patrícia melo uma das mais respeitadas escritoras na atualidade, patrícia melo é paulistana e representa em seus textos a violência e a velocidade das grandes cidades. influenciada por esse ritmo, produz uma narrativa densa e de períodos curtos, fortes, esmagadores. como para ela o humano é corrompido por esse frenesi, suas personagens só poderiam apresentar valores duvidosos e ética adaptada às necessidades. leia um trecho do livro inferno, que conta a saga de josé luís reis, apelidado reizinho, menino de onze anos que se envolve com o tráfico de drogas nos morros do rio de janeiro. […] foi naquela noite que conheceu leitor. o rapaz se apro-ximou, fumando, os dedos sujos de nicotina, querendo saber se reizinho havia prestado atenção nas portas dos barracos. não, não prestara atenção. vai ser esta noite, ele disse. apontou três recém- -fugidos, as estrelas da festa. armados. eles nos apoiam, continou o leitor. nunca fico preocupado com esse tipo de problema, ele falou, acendendo outro cigarro. reizinho não compreendeu o que ele quis dizer com “esse tipo de problema”, nem com todo o resto da conversa. percebe a agitação?, perguntou leitor. sim, percebia, mas passara o dia atordoado, a cabeça latejando, os braços, pernas, sentia dores no abdômen, nas juntas, não conseguia pensar em nada. não notara as portas azuis, e nem sentia vontade de perguntar por que estavam distribuindo tinta no bar do onofre. queria falar com miltão, só isso. queria que seu interlocutor evaporasse, o mais rápido possível. leitor não se importava nem um pouco em parecer indis-creto, olhava o estrago no rosto do reizinho como um comerciante interessado no produto, atento, direto, só falta mesmo perguntar o preço, pensou reizinho, contrariado. miltão, num dos cantos da quadra, conversava com os amigos. a mão na cin-tura de suzana. a ginga de miltão, gesticulando, rindo, suzana por duas vezes fez sinal para que reizinho esperasse. calma, ela disse. […] melo, patrícia. inferno. são paulo: companhia das letras, 2001. dalton trevisan conhecido como o vampiro de curitiba, dalton trevisan é, de fato, o mais misterioso dos autores contemporâneos. sua produção, ao contrário dos demais, baseia-se nos contos, gênero que atinge o ponto máximo com esse autor. os contos de trevisan são cuidadosamente trabalhados, sobretudo no que diz respeito à economia, daí seus textos serem curtos e densos. muito antes dos blogs e do twitter, o autor já produzia micro-histórias que levavam os leitores a profundas reflexões. patrícia melo (1962) é romancista, dramaturga, roteirista. ganhadora de inúmeros prêmios, recebeu, entre outros, o prêmio jabuti de literatura por seu livro inferno. felipe varanda/cpdoc/jornal do brasil arquivo do jornal o estado de s. paulo/agência estado dalton trevisan (1925), escritor curitibano, editou, na década de 1940, a revista joaquim, reunindo ensaios e poemas de grandes nomes da crítica e da literatura brasileira da época. ganhou o prêmio jabuti com suas obras novelas nada exemplares e cemitério de elefantes (ambas publicadas pela editora record). avesso a entrevistas e fotos, esse mestre do conto criou em torno de si mesmo certo mistério. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  313 4/15/10  3:21:14 pm</Page><Page Number="316">314  unidade 6 milton hatoum nascido em manaus, em 1952, milton hatoum é considerado hoje um dos maiores escritores brasileiros de sua geração. sua vida acadêmica iniciou-se ao ingressar no curso de arquitetura e urbanismo da universidade de são paulo. mais tarde, após ter morado em madri e barcelona, fez pós-graduação na universidade de paris iii. foi professor, na universidade federal de manaus, de língua e literatura francesa. seu primeiro romance, relato de um certo oriente, foi publicado em 1989. seus contos e romances revelam o resultado de um intenso cuidado com a construção narrativa, que é concisa, enxuta, precisa. filho de imigrantes libaneses, hatoum recupera, em alguns de seus principais romances, certos conflitos vividos por personagens de famílias de mesma origem, que têm na cidade de manaus o cenário para a reconstrução de imagens que emergem da memória. obras do autor: relato de um certo oriente, dois irmãos, órfãos do eldorado, a cidade ilhada, livro do qual foi tirado o conto “varandas da eva”, que você leu no início deste capítulo. ignácio de loyola brandão escritor de reportagens, roteiros de cinemas, romances, crônicas e con-tos, ignácio de loyola brandão é o protótipo do escritor contemporâneo. costuma sair pela avenida paulista, uma das mais modernas da metrópole de são paulo, para ouvir o que as pessoas conversam, o que veem, o que fazem, material que serve de temas para sua produção. com muitos prêmios de reconhecimento à sua obra, escreve também crô-nicas para o jornal o estado de s.paulo, retratando os temas do cotidiano. o homem que queria eliminar a memória ignácio de loyola brandão entrou no hospital, mandou chamar o melhor neuro-cirurgião. disse que era caso de vida e morte. não se sabe como, o melhor neurocirurgião foi atendê-lo. médicos são imprevisíveis. precisa-se muito e eles falham; subitamente, estão ali, salvando nossas vidas, ele pensou, sem se incomo-dar com o lugar-comum. estava na sala diante do doutor. uma sala branca, anônima. por que são sempre assim, derrotando a gente logo de entrada? o médico: — sim? — quero me operar. quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro. — um pedaço do cérebro? por que vou tirar um pedaço do seu cérebro? — porque eu quero. — sim, mas precisa me explicar. justificar. — não basta eu querer? — claro que não. — não sou dono do meu corpo? — em termos. milton hatoum ganhou o prêmio jabuti de melhor romance com as obras relato de um certo oriente (1990), dois irmãos (2001) e cinzas do norte (2005). josé luís da conceição/agência o globo paulista de araraquara, ignácio de loyola brandão (1936) é jornalista desde os 15 anos. escreveu romances, contos, crônicas, literatura infantojuvenil. recebeu o prêmio jabuti de “melhor livro de contos” por o homem que odiava a segunda-feira (2000). cláudio rossi/editora abril vpem3_un6_cap02_295a325.indd  314 4/15/10  3:21:17 pm</Page><Page Number="317">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  315 — como em termos? — bem, o senhor é e não é. há certas coisas que o senhor está impedido de fazer. ou melhor; eu é que estou impedido de fazer no senhor. — que impede? — a ética, a lei. — a sua ética manda também no meu corpo? se pago, se quero, é porque quero fazer do meu corpo aquilo que desejo. e se acabou. — olha, a gente vai ficar o dia inteiro nesta discussão boba. e não tenho tempo a perder. por que o senhor quer cortar um pedaço do cérebro? — quero eliminar a minha memória. — para quê? — gozado, as pessoas só sabem perguntar: o quê? por quê? para quê? falei com dezenas de pessoas e todos me perguntaram: por quê? não podem aceitar pura e simplesmente alguém que deseja eliminar a memória. — já que o senhor veio a mim para fazer esta operação, tenho ao menos o direito dessa informação. — não quero mais me lembrar de nada. só isso. as coisas passaram, passa-ram. fim! — não é tão simples assim. na vida diária, o senhor precisa da memória. para lembrar pequenas coisas. ou grandes. compromissos, encontros, coisas a pagar etc. — é tudo isso que vou eliminar. marco numa agenda, olho ali e pronto. — não dá para fazer isso, de qualquer modo. a medicina não está tão adiantada assim. — em lugar nenhum posso eliminar a minha memória? — que eu saiba não. — seria muito melhor para os homens. o dia a dia. o dia de hoje para a frente. entende o que eu quero dizer? nenhuma lembrança ruim ou boa, nenhuma neuro-se. o passado fechado, encerrado. definitivamente bloqueado. não seria engraça-do? não se lembrar sequer do que se tomou no café da manhã? e para que quero me lembrar do que tomei no café da manhã? — se todo mundo fizesse isso, acabaria a história. — e quem quer saber da história? — imaginou o mundo? — feliz, tranquilo. só de futuro. o dia em vez de se transformar em passado de hoje, mudando-se em futuro. cada instante projetado para a frente. alexandre dubiela/arquivo da editora vpem3_un6_cap02_295a325.indd  315 4/15/10  3:21:20 pm</Page><Page Number="318">316  unidade 6 —não seria bem assim. teríamos apenas uma soma de instantes perdidos. nada mais. cada segundo eliminado. a sua existência comprovada através do quê? — quem quer comprovar a existência? — a gente precisa. — para quê? o médico pensou. não conseguiu responder. o homem tinha-o deixado total-mente confuso. pediu ao homem que voltasse outro dia. despediram-se. o médico  subiu para os brancos corredores do hospital, passou pela sala de operações. chamou um amigo. — estou pensando em tirar um pedaço do meu cérebro. eliminar a memória. o que você acha? — muito boa ideia. por que não pensamos nisto antes? opero você e depois você me opera. também quero. brandão, ignácio de loyola. contos. são paulo: ática, 1983. (col. para gostar de ler). josé saramago nascido em uma aldeia portuguesa, em 1922, josé de sousa saramago desvendou o mundo social do nosso século. prêmio nobel de literatura, o autor retrata as histórias dos desconhecidos, abandonados e humilhados. para o escritor, é preciso rever a história do ponto de vista daqueles que lutaram, que se sacrificaram e que, portanto, fizeram de fato a história. a voz de suas personagens é a voz dos operários. para criar essa voz, saramago constrói personagens que representam não só o homem português, mas o ser humano, representam as vozes do povo em luta por liberdade, por reconhecimento. suas obras mostram personagens marginalizadas, excluídas. a falas dessas personagens misturam-se à fala do narrador num período longo com pouca pontuação. trata-se de uma de suas características mais marcantes, pois, ao longo da leitura, misturam-se as vozes em total fluxo de consciência. por meio desse tipo de personagem, o autor não só garante a verossimilhança de sua narrativa, como, envolvendo o leitor na rede de suas histórias, leva-o a pensar sobre a vida, questionando-a. suas obras mais conhecidas são: ensaio sobre a cegueira — romance de certo realismo fantástico, mostra uma doença que acomete uma cidade onde todas as pessoas ficam cegas —; memorial do convento — romance histórico mostra a construção do convento de mafra do ponto de vista dos operários —; conto da ilha desconhecida — conto, novela, enfim, a narrativa da ida de um homem simples à porta de um castelo para pedir ao rei uma embarcação, com a qual ele quer encontrar a ilha desconhecida. leia um trecho do romance a caverna, que trata da mão de obra não valorizada, representada pela personagem que fabrica artesanalmente peças de barro, que não têm mais mercado. […] que faz aí o ler, lendo, fica-se a saber quase tudo, eu também leio, algo por-tanto saberás, agora já não estou tão certa, terás então de ler de outra maneira, como, não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for pró-pria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas o escritor português josé saramago em foto de 1988. oscar cabral/editora abril vpem3_un6_cap02_295a325.indd  316 4/15/10  3:21:23 pm</Page><Page Number="319">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  317 pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, a não ser, a não ser, quê, a não ser que esses tais rios não tenham duas margens mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar […]. saramago, josé. a caverna. são paulo: companhia das letras, 2000. antónio lobo antunes psiquiatra, escritor, cronista, antónio lobo antunes nasceu em lisboa, em 1942. tornou-se um dos escritores mais polêmicos da prosa contemporânea em portugal. considerado um estranho no ninho, escreve sobre todas as crises humanas com material científico para isso, uma vez que é médico. lobo é considerado denso. na leitura de sua obra, é importante perceber os jogos entre as vozes dos narradores, a apresentação de personagens atormentadas, de seres humanos únicos, ilhados nessa sociedade que descaracteriza. sua obra é vasta e muito premiada. escreveu entre outros livros memória de elefante, conhecimento do inferno, fado alexandrino, tratado das paixões da alma, livro de crónicas, arquipélago da insônia, ontem não te vi em babilónia, a história do hidroavião (contos). leia um trecho de ontem não te vi em babilónia, romance em que o autor cria uma história sobre perda e desamor. meia-noite 2 	 antónio lobo antunes deve ser meia-noite porque os ruídos cessaram, os do jardim, os da casa e os da minha mulher que afastou os cachorros com a chibatinha de um galho — desandem prendeu a cadela com cio na garagem e aposto que se deitou visto que nenhu-ma luz no corredor ou no quarto onde não entro há séculos, fico aqui longíssimo dela com todo este silêncio e este escuro entre nós, nem o atrito dos lençóis nem uma tábua da cama ao mudar de posição, os candeeiros de évora no outro lado da casa, nesta janela piteiras, até o meu refluxo levou sumiço dos vidros (o que se passa comigo?) e ninguém virá cumprimentar-me ao mesmo tempo que eu, sentia o frenesim dos cachorros em torno da garagem na esperança de uma falha na parede e a cadela enrolada sob o automóvel à espera, havia homens dessa forma quando os prendía­ mos, deitados no chão de olhos abertos ao entrarmos na cela, que faria a minha mulher se escutasse os meus passos sem um automóvel onde esconder-se e um muro de pneus velhos a protegê-la de mim, defender-se-ia com o cotovelo como os homens que tentavam levantar-se a explicar não se entendia o quê, dentes dema-siado numerosos que os impediam de falar, deve ser meia-noite porque os cachorros antónio lobo antunes é considerado por muitos críticos o mais importante romancista português depois de eça de queirós. é um dos autores portugueses mais lidos e traduzidos no mundo. michael zapf/album/akg-images/latinstock vpem3_un6_cap02_295a325.indd  317 4/15/10  3:21:25 pm</Page><Page Number="320">318  unidade 6 desistem, imóveis nos tufos dos canteiros e nos legumes mortos de tal modo que se confundem com pedras, são pedras, estou acordado entre pedras, se calhar uma pedra eu também, uma pedra a minha mulher, uma pedra a que me espera em lisboa, dá-me ideia que uma claridade nos campos, a lua ou isso a aumentar o mato e as estevas des-pertando os cachorros que me respiram debaixo do peitoril a pedir o que não entendia o que fosse (o que se passa comigo?) […] antunes, antónio lobo. ontem não te vi em babilónia. rio de janeiro: objetiva, 2008. mia couto mia couto nasceu em moçambique, em 1955, onde trabalhou como diretor da revista tempo e do jornal notícias de maputo. tal qual guimarães rosa, couto preocupa-se em usar uma linguagem que caracteriza suas personagens. assim, mais do que apresentar aos seus leitores o uso que se faz da língua portuguesa em moçambique, o escri-tor africano de origem portuguesa inventa um jeito de usar as palavras, criando novos vocábulos, brincando com os sentidos. para lê-lo, é preciso perceber-se num jogo fantástico entre o sonho e a realidade. fazem parte de sua temática os dramas pessoais de quem vive em moçam­bi­que após a independência. leia a seguir um exemplo de sua produção. trata-se de um trecho do primeiro capítulo de terra sonâmbula, um romance que apresenta a devastação causada pela guerra civil, mas sem abrir mão da esperança e dos sonhos. a estrada morta mia couto naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. a paisagem se mestiçara de tris-tezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. aqui, o céu se tornara impossível. e os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. a estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhu-ma. está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir. um velho e um miúdo vão seguindo a estrada. andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. fogem da guerra, essa guerra que contaminara toda sua terra. vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. avançam descalços, suas vestes têm a mesma cor do caminho. esteva: arbusto da família das cistáceas, de folhas grandes e de flores também grandes e brancas. frenesim: o mesmo que frenesi (delírio, desvario; agitação, inquietação). antónio emílio leite couto — mia couto — é considerado um dos escritores mais importantes de moçambique. muitos de seus livros já foram traduzidos para diversas línguas. em muitas de suas obras tenta recriar a língua portuguesa com influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. marco antônio teixeira/agência o globo vpem3_un6_cap02_295a325.indd  318 4/15/10  3:21:26 pm</Page><Page Number="321">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  319 bambolento: não encontramos registro; provavelmente é uma variação de bamboleante (sem firmeza, que balança, oscila). berma: passagem estreita. brincriação: não encontramos registo; provavelmente um neologismo (brincadeira  criação). coxear: caminhar com dificuldade, mancar. embondeiro: árvore gigantesca da família das bombacáceas, muito disseminada nas savanas africanas, com flores brancas, às vezes com tons de lilás. o velho se chama tuahir. é magro, parece ter perdido toda a substância. o jovem se chama muidinga. caminha à frente desde que saíra do campo de refugiados. se nota nele um leve coxear, uma perna demorando mais que o passo. quem o reco-lhera fora o velho tuahir, quando todos os outros o haviam abandonado. o meni-no estava já sem estado, os ranhos lhe saíam não do nariz mas de toda a cabeça. o velho teve que lhe ensinar todos os inícios: andar, falar, pensar. muidinga se meninou outra vez. esta segunda infância, porém, fora apres-sada pelos ditados da sobrevivência. quando iniciara a viagem já ele se acostumava de cantar, dando vaga a distraídas brincriações. no convívio com a solidão, porém, o canto acabou por migrar de si. os dois caminhei-ros condiziam com a estrada, murchos e desesperançados. couto, mia. terra sonâmbula. rio de janeiro: nova fronteira, 1995. josé luandino vieira nascido em portugal, em 1935, josé luandino vieira foi morar em angola, áfrica, aos três anos. sua litera-tura sempre serviu para lutar pela independência do país africano, o que o levou a ser preso inúmeras vezes. luandino apresenta a língua portuguesa cortada, atravessada pelo quimbundo, a língua do dia a dia angolano. sua obra busca integrar uma cultura — a angolana — desintegrada pela história. escreveu romances, contos, histórias infantojuvenis, novelas, poesias. são exemplos de sua produção: nós, os do makulusu (romance); a cidade e a infância, luuanda (contos); a guerra dos fazedores de chuva com os caçadores de nuvens: guerra para crianças (infantojuvenil). jorge leal/divulgação/arquivo da editora luandino vieira é pseudônimo de josé vieira mateus da graça, um escritor angolano nascido em portugal. tornou-se cidadão angolano por sua participação no movimento de libertação nacional e escolheu o nome de luandino em homenagem a luanda, capital de angola. marcos guilherme/arquivo da editora vpem3_un6_cap02_295a325.indd  319 4/15/10  3:21:27 pm</Page><Page Number="322">320  unidade 6 leia um trecho de um conto do livro luuanda. estória da galinha e do ovo josé luandino vieira a estória da galinha e do ovo. estes casos passaram no musseque sambizanga, nesta nossa terra de luanda. foi hora das quatro horas. assim como, às vezes, dos lados onde o sol fimba no mar, uma pequena e gorda nuvem negra aparece para correr no céu azul e, na corrida, começa a ficar grande, a estender braços para todos os lados, esses braços a ficarem outros braços e esse ainda outros mais finos, já não tão negros, e todo esse apressado caminhar da nuvem no céu parece os ramos de muitas folhas de uma mulemba velha, com barbas e tudo, as folhas de muitas cores, algumas secas com o colorido que o sol lhes põe e, no fim mesmo, já ninguém que sabe como nasceram, onde começaram, onde acabaram, onde acabam essas malucas filhas da nuvem correndo sobre a cidade, largando água pesada e quente que traziam, rindo compridos e tortos relâmpagos, falando a voz grossa de seus trovões, assim, nessa tarde calma, começou a confusão. sô zé da quitanda tinha visto passar nga zefa rebocando miúdo beto e avisando para não adiantar falar mentira, senão ia-lhe pôr mesmo jindungo na língua. mas o monandengue refilava, repetia: — juro, sangue de cristo! vi-lhe bem, mamã, é a cabíri!… falava verdade como todas as vizinhas viram bem, uma gorda galinha de peque-nas penas brancas e pretas, mirando toda a gente, desconfiada, debaixo do cesto ao contrário onde estava presa. era essa a razão dos insultos que nga zefa tinha posto embina, chamando-lhe ladrona, feiticeira, queria lhe roubar ainda a galinha emesmo que a barriga da vizinha já se via com o mona lá dentro, adiantaram pelejar. miúdo xico é que descobriu, andava na brincadeira com beto, seu mais-novo, fazendo essas partidas vavô petelu tinha-lhes ensinado, de imitar as falas dos ani-mais e baralhar-lhes e quando vieram no quintal de mamã bina pararam admirados. a senhora não tinha criação, como é ouvia-se a voz dela, pi, pi, pi, chamar galinha, o barulho do milho a cair no chão varrido? mas beto lembrou os casos já antigos, as palavras da mãe queixando no pai quando, sete horas, esta voltar do serviço: — rebento-lhe as fuças, joão! está ensinar a galinha a pôr lá! miguel joão desculpava sempre, dizia a senhora andava assim de barriga você sabe, às vezes é só essas manias as mulheres têm, não adianta fazer confusão, se a galinha volta sempre na nossa capoeira e os ovos você é que apanha… mas nga zefa não ficava satisfeita. arreganhava o homem era um mole e jurava se a atrevida tocava na galinha ia passar luta. […] luandino vieira, josé. luuanda. são paulo: companhia das letras, 2006. arreganhar: mostrar os dentes com expressão de cólera ou riso; irritar-se. cabíri (angola): sem raça determinada, diz-se de cães e galinhas. capoeira: gaiola grande, cesto ou casinhola onde se criam e alojam aves domésticas. fimba (termo do quimbundo, língua da família banta, falada em angola): mergulho. jindungo (do quimbundo): malagueta, espécie de pimenta. mona (do quimbundo): criança. monandengue (do quimbundo): menino, garoto. mulemba (do quimbundo): árvore frondosa. musseque: bairro pobre da periferia de luanda, capital de angola. ngá (do quimbundo, sem acento gráfico): tratamento respeitoso dispensado a homens e mulheres: senhor, senhora, amo. refilar: responder grosseiramente, reagir. sô: mesmo que senhor. vavô: não encontramos registro; provavelmente variação de vovô. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  320 4/15/10  3:21:27 pm</Page><Page Number="323">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  321 sintetizando a literatura contemporânea em prosa copie o esquema a seguir no caderno e complete-o com base no que foi estudado no capítulo.  o contexto histórico na segunda metade do século xx foi marcado por intensas . de maneira geral, o mundo vivia o fortalecimento do . a palavra-chave de nossa época é transformações sociais e econômicas; capitalismo; consumir. as características mais marcantes nas manifestações artísticas dessa época são:  	 o domínio de narrativas curtas, a publicação de textos no universo virtual, a perda da clareza dos limites escritor/autor e, sobretudo, a opção por temáticas mais urbanas e psicológicas. os autores fundamentais dessa época na prosa são: miltom hatoum, dalton trevisan, luiz garcia-roza, fernando bonassi, etc. nas literaturas de língua portuguesa de portugal e da áfrica, destacam-se:  josé saramago, antónio lobo antunes, mia couto, josé luandino vieira. desafo responda às questões no caderno. (uel) texto: se não havia ninguém na casa, além dele e maria… intrigado, experimentou o trinco: no quarto cor-de-rosa penteadeira oval. uma, duas, três bonecas de luxo. e, da cama, sentadinha, sorria a gorda senhora. — entre, seu moço. dois passos no reino das bonecas: ar adocicado de incenso, pó de arroz, esmalte de unha. — é parenta da maria? — não adivinha? — e sorria, faceira, lábio muito pintado. — é minha filha. — tão jovem… — bem a avozinha do chapeuzinho vermelho. — parece irmã! no canto do espelho alinhavam-se os galãs de cinema. — muito gentil. você quem é? — amiguinho dela. a gorda afastou o abajur, aninhada na sombra misteriosa. esqueceu no joelho a revista, em gesto pudico fechou o quimono encarnado. — aceita um bombom? — e retirou do lençol uma caixa dourada. — como escondida… lambeu o dedinho curto, a tinir o bracelete: — segredo de nós dois! — de mim ela não vai saber — e beliscava o cacho loiro da boneca. — o moço não quer sentar? ao vê-lo correr o olho, encolheu-se no canto: — lugar para mais um. respeitoso na beira da cama, apanhou a revista de fotonovela. — os dois brigaram? — sabe como ela é. aborrecido virava as páginas: dedo peganhento de chocolate o olhinho gorducho. prof.(a), oriente os alunos para que retomem o contexto histórico do capítulo 2 da unidade 5 (p. 256) antes de preencherem este sintetizando. aceite outras possibilidades de resposta, desde que coerentes com o que foi estudado. prof.(a), as questões de vestibular usadas nesta seção, em geral, foram transcritas literalmente, pois buscamos preservar sua configuração original. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  321 4/15/10  3:21:28 pm</Page><Page Number="324">322  unidade 6 — é recheado de licor! — e oferecia na ponta da língua um bocado meio derretido. era a avozinha ou, no quimono fulgurante de seda, o próprio lobo? largou a revista ao pé da cama — voltar à maria e pedir mil perdões? na mesi-nha o retrato em moldura prateada. — sou eu. a menina com a cesta de amora. — já fui bonita. — ainda é — retrucou alegre —, ainda é. muito sério ao dar na sombra com o olho arregalado de sapo debaixo da pedra. — seu diabinho! — agarrou-lhe o polegar na mão lambuzada e, antes de soltá- -lo, um apertão e mais outro. nada de avozinha, é mesmo o lobo. ao mexer a cabeça, girava a parede e, enxu-gando o suor da testa, voltou-se para ela: — tem alguma bebida? exibiu os dentes alvares de pouco uso: — sou melhor que bebida. entre divertido e assustado, descansou o cotovelo na cama: propunha-se o lobo devorá-lo? vislumbrou a cara na sombra: balofa, sem sobrancelha, o cabelo ralo. por cima do quimono apalpou-lhe o peito: apesar de velha, o seio durinho. — quer minha perdição? —meu deus, a voz dengosa de menina. — ai, diabinho peralta! brincalhona, correu a unha pela nuca. de repente o gemido rouco: — feche a porta. (trevisan, dalton. chapeuzinho vermelho. in: o vampiro de curitiba.  rio de janeiro: record, 2003. p. 72-74.) 1	leia as correlações estabelecidas entre as frases do conto e suas interpretações. 	 i.	“bem a avozinha do chapeuzinho vermelho.” esta frase corresponde à impressão inicial do rapaz sobre a mãe da namorada quando ainda desconhece as suas artimanhas. 	 ii.	“era a avozinha ou, no quimono fulgurante de seda, o próprio lobo?” esta frase corresponde a um momento em que o rapaz ratifica suas suspeitas anteriores quanto à senhora e se sente emocional-mente fragilizado diante dela. 	 iii.	“nada de avozinha, é mesmo o lobo.” esta frase corresponde a uma etapa em que o rapaz sai de seu torpor, ressaltando que, a partir dali, ele estaria recuperando o controle da situação. 	 iv.	“entre divertido e assustado, descansou o cotovelo na cama: propunha-se o lobo devorá-lo?” esta frase corresponde à convicção de que a senhora não era uma vítima e ao espírito de análise demonstrado pelo personagem do rapaz. estão corretas apenas as afirmativas: a)	i e ii b)	i e iv x c)	iii e iv d)	i, ii e iii e)	ii, iii e iv vpem3_un6_cap02_295a325.indd  322 4/15/10  3:21:28 pm</Page><Page Number="325">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  323 2	é correto afirmar que esse segmento do conto corresponde: a)	a um encontro marcado entre os dois personagens que ainda não se conheciam até aquela ocasião. b)	ao momento em que o rapaz, que havia brigado com sua namorada, descobre a presença da mãe na casa, mas depois retorna aos braços da amada, com asco daquela mulher. c)	à descoberta da sexualidade pelo menino, que, após uma briga em seu namoro inocente com a filha daquela senhora, conhece a mãe dela e é por ela seduzido. d)	a uma passagem constrangedora em que o rapaz sente um misto de atração e repulsa, mas se entrega à tentação sem remorso ou grandes conflitos por trair a namorada. x e)	a um duelo entre os personagens, do qual o rapaz sai vencedor, pois ele tortura a senhora, fazendo com que ela se apaixone por ele, abandonando-a em seguida, ignorando suas súplicas. comparando textos leia a seguir o texto do escritor fernando bonassi e compare-o ao conto “tio galileu”, de dalton trevisan, que está na página 296. assistência médica 	 fernando bonassi devido ao fato de não estar aguentando mais levar teus desaforos em casa, cha-mei uma dessas utis móveis pra te internar bem longe daqui. eu tenho direito a quinze minutos desse espetáculo, não? eles vão te amarrar numa maca, te entubar a seco, espetar tua carne e sair correndo, fazendo aquele barulho de guerra pela cidade. teu coraçãozinho vaidoso vai aparecer em diversas televisões que apitam de graça, lançando sinais evidentes da tua maldita presunção. tudo incluído na mensalidade. já vão chegar. não conhecem trânsito. você vai, finalmente, ter o caminho livre. tuas furiosas gripes espanholas serão cuidadas por outros trouxas profissionais. você vai correr à vontade. ter visão de raio x. dar de cara no poste. bonassi, fernando. entre vida e morte. são paulo: ftd, 2004. alexandre dubiela/ arquivo da editora 1	o narrador-personagem do conto “assistência médica” apresenta uma visão de mundo em comum com uma das personagens do conto “tio galileu”. a)	identifique a personagem. trata-se de mercedes. b)	quais os aspectos em comum entre eles? 2	no excerto do texto de manuel da costa pinto (p. 295), indica-se uma característica da prosa contem-porânea que podemos observar nesses dois contos. a)	identifique essa característica. há uma percepção geral do isolamento e da vulnerabilidade do sujeito moderno (urbano). b)	aponte como cada uma das narrativas lidas expressa tal característica. ambos sentem-se explorados pela pessoa com a qual convivem e por isso desejam afastá-la de algum modo. as duas narrativas apresentam personagens de comportamento moral questionável. é como se buscassem saídas desesperadas para os grandes incômodos de seu cotidiano. cada qual age de maneira egoísta, voltando a atenção para suas próprias necessidades, que, por sinal, não carregam nada de nobre. o primeiro texto, narrado em terceira pessoa, permite-nos co-nhecer as personagens a partir da visão seca e direta de um narrador observador. o segundo conto dá voz à personagem, nesse caso temos acesso a alguns de seus sentimentos, ao seu desejo de vingança gerado pelos maus-tratos sofridos. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  323 4/15/10  3:21:30 pm</Page><Page Number="326">324  unidade 6 e por falar em literatura contemporânea… em seu artigo “o direito à literatura”, antonio candido, um dos mais importantes estudiosos da lite-ratura brasileira, defende que, sem os textos literários não há civilização. leia algumas frases retiradas do artigo desse autor: não há povo e não há homem que possa viver sem ela (literatura), isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. […] ela (a literatura) não corrompe nem edifica, portanto; mas, trazendo livre-mente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sen-tido profundo, porque faz viver. […] frui-la é um direito das pessoas de qualquer sociedade, desde o índio que canta as suas proezas de caça ou evoca dançando a lua cheia até o mais requintado erudito […] […] quanto mais igualitária for a sociedade, e quanto mais lazer proporcionar, maior deverá ser a difusão humanizadora das obras literárias e, portanto, a possi-bilidade de contribuírem para o amadurecimento de cada um. candido, antonio. in: ______. vários escritos. 3. ed. rev. são paulo: duas cidades, 1995. como você pôde perceber, antonio candido acredita na literatura como caminho não só de fruição, mas, sobretudo, de formação civil, isto é, de formação de um ser humano que se relacione com os demais por meio do respeito. candido acredita também na “difusão literária” e, pensando nisso, no papel da literatura e na impor-  tância da divulgação dessa arte, propomos que você apresente à classe o livro contemporâneo de que mais gosta. se você não tiver um livro, mas um texto, como conto, crônica, poema, etc., traga-o para a classe assim mesmo. o objetivo da atividade é divulgar a literatura, é criar novos leitores literários com a intenção clara de melhorar o nosso grupo social. no dia combinado com o professor, traga o material que você selecionou e apresente-o à classe. no mundo da oralidade para a apresentação do livro/texto à classe, considere o contexto de produção: quem produz, para quem  e com que intenção. como você sabe, tudo isso resultará em como será produzido o seu texto oral. considere que, de acordo com esse contexto, o ideal é que você use uma variedade linguística mais formal, que evite gírias, que não brinque durante sua fala e que expresse seu texto em tom adequado e ritmado. inicie sua exposição, apresentando o título do livro ou do texto e o autor. mostre a capa e as ilustrações se forem significativas se for um livro. se for um texto, mostre o suporte em que ele foi publicado. em seguida, apresente uma síntese do enredo. só não conte o final para a classe não perder o desejo de conhecer a obra. prof.(a), se sua turma for numerosa, não será possível a apresentação de todos os alunos. sendo assim, combine com eles que fará um sorteio para a realização das apresentações. vpem3_un6_cap02_295a325.indd  324 4/15/10  3:21:30 pm</Page><Page Number="327">capítulo 2 – literatura brasileira contemporânea — prosa  325 aproveite para… … ler quem tem medo de vampiro?  , de dalton trevisan, editora ática livro de contos de dalton trevisan, que exemplificam o estilo conciso do autor e captam aspectos profundos da alma humana. boa companhia — crônicas  , org. de humberto werneck, editora companhia das letras humberto werneck reúne textos dos maiores cronistas brasileiros, uma homenagem ao gênero que nasceu principalmente nos jornais e conquistou o público. a cidade ilhada  , de milton hatoum, editora companhia das letras o livro reúne 14 contos, todos captando fragmentos de experiências que conduzem as personagens ao reconhecimento ora de si, ora do entorno. cadeiras proibidas  , de ignácio de loyola brandão, editora global são diversos contos que tratam dos absurdos da vida moderna. boa companhia — contos  , editora companhia das letras livro que traz contos de alguns dos representantes da prosa brasileira contemporânea. … assistir abril despedaçado  , de walter salles (brasil, 2001) em 1910, no sertão brasileiro, vive tonho (rodrigo santoro) e sua família. ele enfrenta uma grande dúvida, pois, ao mesmo tempo que seu pai deseja que ele (tonho) vingue a morte de seu irmão mais velho, assassinado por uma família rival, ele sabe que, caso se vingue, será perseguido e logo morrerá. angustiado, tonho passa a questionar o porquê da violência e da tradição. lavoura arcaica  , de luiz fernando carvalho (brasil, 2001) andré saiu da casa dos pais devido à rigidez paterna e ao sufocamento da ternura da mãe. pedro, seu irmão mais velho, é encarregado pela mãe de fazê-lo retornar ao lar. cedendo aos apelos da mãe e de pedro, andré volta para a casa dos pais, mas destrói definitivamente os alicerces da família ao deixar clara sua paixão por ana, sua irmã. … ver na internet www.releituras.com  o site oferece textos e dicas, além de biografias de autores nacionais (e internacionais) conhecidos portalliteral.terra.com.br  site com notícias, matérias, críticas e comentários sobre literatura brasileira, com links para os sites oficiais de escritores como luis fernando verissimo, lygia fagundes telles, ferreira gullar, rubem fonseca, zuenir ventura. www.portaldaliteratura.com/literatura.php  o site apresenta textos, biografias de autores, títulos, editoras de literatura em língua portuguesa. miramax/courtesy everett collection/keystone vpem3_un6_cap02_295a325.indd  325 4/15/10  3:21:31 pm</Page><Page Number="328">326 projeto revista chegou o momento de concretizar a publicação de vocês. planejem o aspecto gráfico da revista, pensando no leitor a que ela se destina. os participantes do grupo com mais faci-lidade para desenho e diagramação podem se encarregar da tarefa de ilustrar as páginas, distribuir os textos, criar vinhetas para as seções e montar a capa. anotem no caderno o que for decidido para cada questão a seguir: prof.(a), a esta altura os alunos já produziram textos de opinião, crônicas, cartas argumentativas, resenhas e entrevistas. retome com eles os objetivos do projeto e o projeto editorial de cada grupo antes de dar continuidade à produção da revista. se possível, retome com os alunos a importância da produção de uma revista inovadora, de vanguarda, que traga informações voltadas às expectativas do grupo, que aponte novos movimentos culturais, trate do comportamento juvenil em suas várias manifestações, reflita sobre o impacto da política e da economia na vida dos brasileiros em geral ou dos jovens, etc. prof.(a), caso os alunos queiram produzir reportagens, lembre-os de que esses textos, ao serem passados para a revista, devem ser aperfeiçoados. pode-se, por exemplo, acrescentar olho, intertítulos e imagens e, se for o caso, atualizar dados. prof.(a), oriente os alunos sobre a organização dos textos, que podem ser agrupados por gênero ou por tema. verifique no boneco de cada grupo se os alunos organizaram os textos em uma ordem lógica, se o destaque dado às matérias é condizente com a relevância do assunto que trazem, se reservaram espaços adequados às imagens e previram espaço para legendas, etc. anote eventuais inadequações e devolva os bonecos aos grupos. que tipo de letra será usado na capa?  que imagens vão ser trabalhadas na capa?  quantas e quais chamadas aparecerão na capa?  os textos serão digitados ou escritos à mão?  os textos serão organizados em quantas colunas?  haverá boxes para complementar reportagens e outros textos?  serão usadas só fotos ou também ilustrações? de que tamanho em geral?  o nome dos autores vai aparecer no início ou no fim dos textos?  em que parte da revista entrarão os créditos (ou expediente, o nome das pessoas  que trabalharam na revista) e o sumário? criação do boneco boneco, para quem trabalha em editora e com artes gráficas em geral, é uma espécie de rascunho da revista ou do livro que está sendo produzido. façam o boneco da revista de vocês, para ter uma ideia de qual será seu aspecto depois de pronta, de quantas páginas terá, etc. coloquem algumas folhas de papel sulfite uma em cima da outra e dobrem-nas ao meio. inicia-se assim o livreto que servirá de boneco. na capa, escrevam a lápis o título, já com o tipo de letra que ele terá na revista. em segui-da, marquem nas páginas internas os espaços onde ficarão as fotos, as ilustrações, as cartas ao/do leitor, os artigos de opinião, as crônicas, as resenhas e as entrevistas. produzam, nessa etapa do processo, textos de outros gêneros para incrementar a publicação — reportagens, tirinhas, charges, dicas culturais, curiosidades, sinopses de filmes ou peças de teatro, etc. (a ordem dos textos deve ser definida nesse momento.) apresentem o boneco ao professor. vpem_vol.3_proj.fechamento_326a328.indd  326 4/15/10  3:23:54 pm</Page><Page Number="329">327 diagramar é dispor graficamente os ele-mentos (textos, títulos, ilustrações, legendas, fios, etc.) que deverão fazer parte de uma publicação, geralmente com base em uma programação visual predeterminada. revista istoé/editora três revista veja/editora abril revista língua portuguesa/editora segmento revisão e diagramação em uma revista, todos os textos são revisados antes de serem publicados, e essa tarefa cabe aos revisores. eles leem com muita atenção os textos, as legendas das fotos, os títulos das matérias e das seções, para detectar se não há desvios de ortografia, de pontuação, de concordância ou mesmo informações equivocadas (datas erradas, grafia dos nomes próprios incorreta, etc.). todos os desvios da norma encontrados devem ser corrigidos. revisem os textos de vocês. lembrem-se de que o leitor da revista deve se envolver com as matérias. por isso, verifiquem na revisão se a linguagem usada está adequada a ele. e, mesmo que esteja sendo empregada uma linguagem informal, cuidem para que não ocorram os desvios indicados acima. será que as páginas de vocês se parecem com algumas das mostradas nestas fotos? prof.(a), se a escola tiver sala de informática, o ideal é que a diagramação seja feita lá. caso contrário, pode ser realizada em classe, com folhas de sulfite datilografadas ou escritas à mão. seguindo o boneco e o aspecto gráfico em geral combinado para a publicação, diagramem a revista: passem os textos a limpo nas páginas, colem as fotos e façam as ilustrações. quando ela estiver pronta, providenciem cópias e distribuam-nas ao público-alvo. “a voz de moçambique”, entrevista com o escritor africano mia couto, revista língua portuguesa, n. 33, jul. 2008. “veja recomenda”, revista veja, 31 mar. 2010 (indicação de dvds, filmes, discos, livros). “o 3d quer entrar na sua sala”, revista gadgets info, fev. 2010 (reportagem). resenha crítica do filme “onde vivem os monstros”, de spike jonze, revista istoé, 13 jan. 2010. revista gadgets info/editora abril vpem_vol.3_proj.fechamento_326a328.indd  327 4/15/10  3:24:03 pm</Page><Page Number="330">328 bibliografia abreu, antônio suárez. gramática mínima para o domínio da língua padrão. são paulo: ateliê edi­torial, 2003. alliende, felipe; condemarín, mabel. a leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. porto alegre: artmed, 2005. bagno, marcos. a língua de eulália. 2. ed. são paulo: contexto, 1998. bakhtin, mikhail. estética da criação verbal. são paulo: martins fontes, 1979. bechara, evanildo. moderna gramática portuguesa. rio de janeiro: lucerna, 2003. borba, francisco s. gramática de valências para o português. são paulo: ática, 1996. bosi, alfredo. história concisa da literatura brasileira. são paulo: cultrix, 1984.  et alii. machado de assis. são paulo: ática, 1982. bronckart, jean-paul. atividades de linguagem — textos e discursos: por um interacionismo sociodiscursivo. são paulo: educ, 2003. calkins, lucy mccormick. a arte de ensinar a escrever: o desenvolvimento do discurso escrito. porto alegre: artes médicas, 1989. candido, antonio. na sala de aula: caderno de análise literária. 8. ed. são paulo: ática, 2002. ; castello, josé aderaldo. presença da literatura brasileira. 9 ed. são paulo: difel, 1983. v. 1-3. colomer, teresa. andar entre livros: a leitura literária na escola. são paulo: global, 2007. ; camps, anna. ensinar a ler, ensinar a compreender. porto alegre: artmed, 2002. coutinho, afrânio. a literatura no brasil. 3. ed. rio de janeiro: josé olympio, 1986. v. 1-5. dionisio, ângela paiva; machado, anna rachel; bezerra, maria auxiliadora. gêneros textuais &amp; ensino. rio de janeiro: lucerna, 2003. florin, josé luiz. as astúcias da enunciação: as categorias de pessoa, espaço e tempo. são paulo: ática, 1996.  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4/21/10  11:12:34 am</Page><Page Number="332">2  manual do professor sumário apresentação ............................................................................. 3 orientações gerais .................................................................. 4 pressupostos teóricos ...................................................................... 4 o ensino da leitura ............................................................................ 4 o estudo de textos literários ............................................................ 4 o estudo da linguagem ..................................................................... 4 a produção de texto .......................................................................... 5 percurso da produção textual ........................................................... 6 organização e metodologia da obra ......................................... 7 seções que compõem os capítulos............................................. 8 antes de ler ........................................................................................ 8 interpretação do texto ...................................................................... 8 para entender… ................................................................................. 8 sintetizando... .................................................................................... 8 desafo ................................................................................................ 8 comparando textos............................................................................ 9 conhecimentos linguísticos ............................................................. 9 ortografa e outras questões ............................................................ 9 produção de texto............................................................................... 9 e por falar em... ................................................................................ 10 no mundo da oralidade .................................................................. 10 aproveite para... ............................................................................... 10 projeto anual .................................................................................... 10 estrutura geral da coleção............................................................ 11 avaliação ............................................................................................ 11 como orientar o aluno a preencher o quadro? ............................ 12 textos para atualização teórica ................................................ 13 texto 1 — como enfrentar a literatura nas séries superiores,  de felipe alliende e mabel condemarín 13 texto 2 — noções de texto e linguística de texto,  de luiz antônio marcuschi 15 texto 3 — a exposição oral, de bernard schneuwly (org.) ............ 20 orientações específicas ..................................................... 25 atividades complementares ......................................... 36 indicações de leitura .......................................................... 48 mp_vpem3_01a24.indd  2 4/21/10  11:12:34 am</Page><Page Number="333">manual do professor  3 apresentação colaborar com a formação de um aluno leitor, produtor de texto e conhecedor de muitos dos mecanismos implicados na comunicação mais eficiente é, apesar de ambi-cioso, nosso objetivo. para alcançar tal propósito, nesta coleção para o ensino médio apresentamos um conjunto variado de gêneros textuais em circulação na sociedade, bem como atividades de leitura e escrita relevantes para a consolidação dos diversos conhecimentos adquiri-dos ao longo da vida escolar. organizada em unidades de dois a três capítulos, a coleção propõe ainda relacionar os diversos tipos de conhecimentos implicados no estudo da língua, de modo que cada informação seja não apenas complementar a outra, mas facilitadora da compreensão e da apropriação do novo conteúdo. assim, o primeiro capítulo de cada unidade conta com sequências didáticas envol-vendo o trabalho com a leitura, a reflexão linguística em contextos reais de emprego das sentenças analisadas e atividades de produção que, para além da simples apresentação de uma proposta de escrita, sugerem um percurso um pouco mais longo, mas mais coe-rente com o objetivo de se formar bons produtores de texto. esse trabalho consiste em, inicialmente, destacar as características do gênero, com o qual o aluno já terá tomado contato nas atividades de leitura e de interpretação; sugerir, na sequência, a aplicação de recursos textuais relevantes a uma comunicação mais eficiente, para só então apresen-tar uma proposta de produção de um texto completo de autoria. tudo isso antecipando o estudo dos textos literários do(s) capítulo(s) seguinte(s), os quais terão atividades de interpretação com uso de estratégias leitoras e verificação de recursos textuais já adota-dos nas sequências do capítulo inicial. os capítulos posteriores, portanto, propõem um trabalho bastante sistemático de lei-tura de textos literários — objeto artístico fundamental para o exercício da fruição estéti-ca e para o conhecimento da dinâmica das sociedades e dos seres humanos através dos tempos. dessa forma, parte-se de uma breve contextualização temática para se chegar à análise do texto propriamente, buscando-se destacar, sobretudo, seu valor artístico e não sua importância apenas por fazer parte dessa ou daquela escola literária. ao longo da coleção, o aluno encontrará, ainda, propostas de trabalho que o incitem à busca de solução para diferentes problemas de nossa sociedade, o que o levará a acionar, de maneira integrada, diversos tipos de conhecimentos, além de ampliar sua reflexão acerca das próprias concepções de mundo e das concepções de mundo que orientam muitas das ações das pessoas a sua volta. esperamos, por meio da sequência de ensino proposta, contribuir com a formação de seus alunos e com a preparação de suas aulas, que, sabemos, precisam ser cada vez mais dinâmicas e envolventes para atrair a escuta de um grupo de jovens que divide sua atenção entre a escola, o trabalho e as diversas mídias sedutoras presentes de modo tão efetivo em nossa vida. neste manual você encontrará, além dos pressupostos teóricos que norteiam o tra-balho desenvolvido na coleção, uma indicação dos objetivos de cada seção do livro e comentários que complementam algumas das tarefas propostas ao longo dos capítulos. as sugestões didáticas, as propostas de entrada na leitura dos textos e as sugestões de correção estão no próprio livro do professor. desejamos, sinceramente, que nossa contribuição para a formação de seus alunos seja bastante útil. as autoras mp_vpem3_01a24.indd  3 4/21/10  11:12:34 am</Page><Page Number="334">4  manual do professor pressupostos teóricos o ensino da leitura ler é, antes de tudo, um processo de interação entre o leitor e o texto. nessa atividade interativa, muitas vezes orientada por objetivos claros a serem obtidos (busca de informação, entretenimento, reflexão, etc.), nem sempre são conscientes as estratégias de entrada no texto, tam-pouco os mecanismos textuais utilizados pelos autores para comunicar uma ideia, um fato ou uma experiência estilística. é nesse espaço de inconsciência das estratégias desencadeadoras de uma leitura mais eficiente que se faz necessária a intervenção do professor. ele deve se colocar como mediador entre alunos e texto, propondo atividades que os levem à compreensão do processo de leitura por meio da ativação do conhecimento de mundo já adquirido, do estabelecimento de relações entre esse saber e as informações novas, de antecipa-ções e levantamento de hipóteses e de verificação dos obstáculos à compreensão do sentido global do texto. em síntese, esses procedimentos capacitarão o leitor a identificar os elementos que compõem o texto, bem como a lançar mão de mecanismos para favorecer essa compreensão. nesse sentido, a intenção deste livro é apresentar um conjunto de atividades que favoreçam a ampliação da consciência de habilidades leitoras mobilizadas desde o ensino fundamental. além disso, as atividades foram propostas para guiar a leitura e deixar claros para os jovens leitores fatores como: as possibilidades de entrada autôno-ma no texto, os esquemas mentais a serem ativados durante esse processo enriquecedor de interação e os recursos textuais que colaboram para a construção do sentido. para orientar a elaboração das atividades, foram levados em conta as reflexões e os estudos publicados em trabalhos que chamaram nossa atenção justamente por apresentarem rigor teórico e serem coerentes com uma prática possível no contexto da educação brasileira. são eles: ensinar a ler, ensinar a compreender, de teresa colomer e anna camps (editora artmed), elementos de análise do discurso, de josé luiz fiorin (editora contexto), oficina de leitura: teoria e prática, de ângela kleiman (editora pontes), compreensão e redação de textos: dificuldades e ajudas, de emílio sánchez miguel (editora artmed), estratégias de leitura, de isabel solé (editora artmed) e a leitura, de felipe alliende e mabel condemarín (editora artmed). o estudo de textos literários segundo alliende e condemarín, o desenvolvimen-to da leitura não pode ser considerado completo se, em cada um dos passos, não se inclui uma progressiva aproximação às obras literárias. estas trazem as marcas expressivas de uma língua, bem como o imaginário de um povo, a tradução de seus conflitos pessoais e sociais, patentes e latentes. em síntese, por meio do estudo dos textos literários, pode-se ter acesso a um vasto espectro de imaginários que, se por um lado, representam os conflitos de uma época, por outro traduzem os diversos modos de os seres humanos viverem os dramas e as conquistas em diferentes épocas. as propostas para o ensino de literatura apresentadas nesta coleção consideram que a leitura do texto literário é o melhor ponto de partida para o estudo de um aspecto cultural tão relevante para um conhecimento mais rico de determinada sociedade e do ser humano em geral, sem deixar de lado a forma singular de expressar uma ideia, traço inerente à linguagem literária. com a intenção de não restringir a abordagem do texto a apenas um de seus aspectos — linguísticos, esti-lísticos, históricos ou sociais —, buscou-se integrar esses elementos, enfatizando ora um, ora outro, dependendo das possibilidades de análise apresentadas pelo texto. numa proposta dessa natureza, a história literária não é o ponto de partida, tampouco o principal motiva-dor da estruturação do estudo de literatura, mas um meio de compreender melhor as obras a partir da sua relação com um contexto cultural, social e político.  o estudo da linguagem segundo o artigo 35 da lei de diretrizes e bases da educação nacional (lei 9394/96), o ensino médio tem como uma de suas finalidades a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento dos estudos. aliemos a essa finalidade a crença num ensino de língua que leve em conta um indivíduo com elevado grau de autonomia no uso da linguagem, mas que precisa aprofundar seus conhecimentos com o objetivo de tornar mais eficiente sua comunicação, e teremos uma sequência didática que considera a língua como expressão de uma identidade e como instrumento para a ação cidadã mais efetiva. assim, para o estudo proposto, não se pode mais considerar a gramática como um conjunto de regras imutáveis advindas de modelos de construções de frases que encontramos nos grandes clássicos da literatura. aqui ela é vista como um meio de organizar questões  orientações gerais mp_vpem3_01a24.indd  4 4/21/10  11:12:34 am</Page><Page Number="335">manual do professor  5 de linguagem presentes nos textos antigos e contem-porâneos. não será incomum, portanto, professor e alunos depararem com um quadro de síntese de ques-tões gramaticais vistas no ensino fundamental e, após a recordação dessas informações, iniciar um processo de reflexão e ampliação desses conhecimentos, tendo como foco principal de análise o texto estudado no capítulo. é na realidade desse texto que se buscará a relevância dos itens aí estudados, sua importância para a organização textual e para a construção do sentido. a língua, nesse contexto, é vista em seu funcionamento, na sua possibilidade de variação, uma vez que é viva e por isso dinâmica, sujeita a constantes alterações para alcançar meios expressivos que atendam às necessidades do enunciador.  a produção de texto mais do que apresentar propostas de redação aos nossos alunos, precisamos ensiná-los a redigir. para isso, não basta dar temas ou explicar qual o contexto social, acreditando na produção de bons textos. é comum, como sabemos, alunos que, sendo leitores eficientes, interagem com outros textos e realizam boas produções. todavia, nem sempre é essa a realidade encontrada diariamente em sala de aula. por esse motivo, preocupamo-nos nesta coleção com o ensino da produção escrita, ou seja, com o ensino dos conteúdos que o aluno precisa mobilizar para escrever. ao produzir um texto, o agente verbal dialoga com os modelos dos muitos textos a que já teve acesso. assim, como somos seres dialógicos, o nosso dizer será sempre atravessado por outros dizeres. quando produzimos um texto de autoria, apresentamos as muitas vozes que nos atravessam por meio do ouvir, do ler, do lembrar, etc. o ensino de produção de texto, portanto, passa pela leitura, pelo reconhecimento de modelos comuns em determinadas práticas sociais e, sobretudo, pela elucida-ção de estratégias de escrita. assim, sabemos que uma pessoa é capaz de produzir, por exemplo, um convite de aniversário baseando-se apenas em modelos dos quais inconscientemente detectou características básicas, já que se trata de um gênero de circulação bastante comum e cuja aplicação social em seu contexto de produção é, em geral, imediatamente reconhecida. cientes desse proces-so, nesta coleção buscamos apresentar, primeiramente, diversos modelos de textos de circulação efetiva como fontes para o trabalho de produção. somente depois de um trabalho de leitura e de reco-nhecimento do conteúdo dizível pelo texto, da estrutura comunicativa (para quem diz? por quê? o quê?), da linguagem, dos traços de estilo, etc., podemos mostrar ao aluno como se apropriar das vozes dos autores, per-cebendo seus estilos, seus temas comuns e a construção composicional de seus textos. chegamos, assim, a um conceito fundamental para o ensino de produção em sala de aula: o de gêneros textuais. segundo schneuwly, pode-se resumir da seguinte forma o conceito de gênero desenvolvido por bakhtin: gêneros textuais:  são enunciados relativamente estáveis, elaborados por determinados grupos sociais; são caracterizados pelo conteúdo temático, pelo estilo e pela construção composicional; são escolhidos de acordo com a necessidade da temá-tica, com o conjunto dos participantes da situação comunicativa e com a intenção do locutor. pode-se classificar como um gênero textual, por-tanto, o grupo de textos elaborados por diferentes sujeitos em determinadas situações e que apresentam objetivos semelhantes e certas regularidades em sua estrutura. para agir socialmente, o sujeito produtor de textos conhece e reconhece as características de um gênero e faz uso desse conhecimento. uma conversa em família, um bilhetinho entre colegas de classe, uma carta de amor são exemplos de gêneros textuais, uma vez que cada um deles faz parte de um grupo de textos que apresentam características semelhantes e servem a determinada situação social. no desenvolvimento do trabalho com os gêneros textuais, tratamos também dos tipos textuais e das diferentes sequências que o gênero estudado comporta. ao observarmos os tipos textuais, levamos em conta a composição linguística responsável pela organização de um gênero (aspectos lexicais, sintáticos, morfológicos, etc.). segundo bronckart, trata-se da infraestrutura de um texto. dessa forma, é importante perceber que o tipo textual descrição, por exemplo, poderá compor diversos gêneros, como uma resenha ou um romance. ao leitor cabe compreender, pelo contexto, de que forma se deu o uso dessa sequência na construção daquele texto. defendemos um trabalho que prioriza os gêneros, mas trabalha a noção de tipos, pois os alunos que compreenderem a sequência narrativa poderão ler e produzir quaisquer gêneros que tenham esse tipo como meio de construção. dessa forma, tomamos o tipo como base linguística que compõe o gênero e, em alguns capítulos, são trabalhadas as características dos tipos (bronckart): narração, descrição, argumentação, exposição e relato. embasadas nessa linha teórica, não podemos conce-ber o processo de produção como uma atividade mera-mente de sala de aula. produzir não significa escrever para o professor corrigir, mas, acima de tudo, significa ser lido socialmente. para um trabalho significativo de produção textual a partir da concepção de gêneros, é preciso pensar no processo da produção de texto de forma diferenciada. mp_vpem3_01a24.indd  5 4/21/10  11:12:34 am</Page><Page Number="336">6  manual do professor percurso da produção textual para a realização de um trabalho na linha adotada nesta coleção, precisamos considerar que, mesmo sendo dinâmicos, os gêneros apresentam certa estabilidade em seus fundamentos. daí a possibilidade de explicitar na seção de produção de texto de cada unidade as características específicas de cada gênero trabalhado. isso porque todo gênero tem certa estrutura. conforme afirma schneuwly, “eles definem o que é dizível (e, inversamente: o que deve ser dito define a escolha de um gênero)”. ao desconsiderar a noção de gênero, podemos exigir que nossos alunos produzam um bom texto logo que o tema tenha sido informado, dando a ideia de que pro-duzir um texto é mera inspiração, e não o resultado e a ação da linguagem. todavia, deve ser objetivo da escola colaborar para reforçar o fato de os alunos serem pessoas que escrevem, isto é, colaborar para que se tornem indi-víduos que, em determinadas situações, estão aptos a se valer da escrita para se enunciar no mundo. o sujeito só se configura sujeito se puder fazer uso do texto/escrita, e atuar na construção desse caminho é, sem dúvida, o que move esta coleção. ensinar a escrever no ensino médio exige dois pontos de partida bem definidos. um deles é a importância de fornecer aos alunos, por meio da interação contínua de atividades significativas de leitura, de análise linguística e de produção, a possibilidade de praticarem a escrita através de estratégias que envolvem escrita de parágra-fo, de título, a reprodução para adequação ao leitor, etc. sem esquecer que, nesse estágio de sua formação, socialmente os alunos já produzem textos: currículos, e-mails, blogs, poemas em agendas ou em folhas avulsas de cadernos, peças teatrais para igrejas, convites para festas, etc. outro ponto de partida que se deve estabelecer no ensino de produção escrita refere-se ao trabalho com os textos que circulam nas práticas sociais. esse trabalho implica um redirecionamento das atividades. antes, quando se “dava redação”, o professor não tinha papel: ele indicava o tema e o aluno produzia. em uma atividade de produção pautada no trabalho com gêneros, o professor redireciona seu papel: para ensinar a redigir, parte da elaboração de uma sequên­ cia didática. sequência didática é, segundo schneuwly, “um conjunto de atividades escolares organizadas, de manei-ra sistemática, em torno de um gênero textual oral ou escrito”. o objetivo do planejamento de uma sequência é o desenvolvimento de um sujeito produtor de textos. para isso, inicia-se a tarefa apresentando a situação de produção. nesse primeiro momento, devem ser feitas perguntas como: para quem será escrito o texto? que gênero deverá ser usado? por que suporte será veiculado (rádio, revista, mural, etc.)? em seguida, é fundamental se proporem atividades que levem em conta esse levan-tamento. segundo schneuwly, essas atividades precisam trabalhar as dificuldades dos alunos em seus diferentes níveis (o reconhecimento da situação, a elaboração do conteúdo, o planejamento e a produção propriamente dita) e apresentar propostas diferentes para a apropria-ção consciente, por parte dos alunos, das características do gênero. fundamentada nessa concepção de ensino da escrita, esta coleção parte da ideia de que a produção não pode ser provocada a partir de um tema ou da simples expli-citação de um contexto social, ou seja, não basta dizer “você vai produzir um texto para a dona da lanchonete do bairro, para convencê-la a contribuir com o projeto”. acreditamos que, mesmo com essa explicação, falta ao aluno saber como dizer o texto. portanto, nossa propos-ta toma emprestado o conceito de sequência didática sucintamente apresentado aqui e oferece atividades de produção. assim, partimos de modelos, de leituras, de caracterização do que há de regular nos gêneros textuais para atividades de produção. para realizá-las, os alunos terão de completar, reescrever, não só tendo acesso aos textos, mas principalmente reconhecendo e se apropriando das características de textos com circulação efetiva na sociedade. tendo como base concepção semelhante de sequên­ cia didática, nóbrega também dá preferência a um processo de produção que parte não de temas, e sim da leitura e do reconhecimento da voz do outro. afirma que só se aprende a escrever assimilando textos de outros, interagindo com a linguagem. para a autora, o processo de saber escrever passa, citando bakhtin, por um processo de ventrilocução, ou seja, por um processo em que os alunos falam por meio da incorporação de várias vozes. nesse sentido, as atividades de produção desta coleção, compondo uma sequência didática com várias etapas que precedem a produção de autoria, levam os alunos a tomar emprestadas as vozes de outros autores, a mis-turar a sua voz à voz do outro, a interagir efetivamente com a linguagem. em suma, reiteramos a necessidade de o professor ter uma estratégia de produção. não se trata de estabelecer técnicas de escrita vazias de significado, mas de se apoiar em práticas significativas em que os alunos:  desenvolvam a capacidade de representar em língua materna o tipo de texto a ser produzido em dada situação;  desenvolvam as competências que lhes permitam esco-lher o texto que convém a determinada situação;  estejam prontos a identificar as principais características linguísticas desse texto;  estejam aptos a, em sua produção, levar em conta a estrutura do texto a ser produzido, a enunciação e a gramática;  estejam habilitados a usar as competências linguísticas mais gerais: sintáticas, lexicais e ortográficas. o pressuposto teórico ora apresentado concreti­ za-se em uma prática que colabora para a explicitação dos mecanismos necessários à produção dos sentidos. mp_vpem3_01a24.indd  6 4/21/10  11:12:34 am</Page><Page Number="337">manual do professor  7 repetimos que não basta dar um tema pensando que, unicamente a partir disso, os alunos vão produzir. antes de tudo, é preciso que eles leiam um modelo, façam atividades relativas ao gênero que se pretende ensinar e só depois experimentem uma produção de autoria. para a apresentação das atividades de produção, adotamos a linha de nóbrega, que apresenta atividades destinadas a contribuir para o desenvolvimento da produção escrita dos alunos. são elas:  atividades de reprodução: paráfrases, resumos, ativida-des em que o plano de conteúdo já está definido pelo modelo, é preciso desenvolver o como dizer;  atividades de decalque: modelos com lacunas, em que as questões formais dos gêneros já estão definidas, é preciso completar o conteúdo;  atividades de produção de autoria: nesse momento, chega-se à autoria ou criação, a tarefa é mais com-pleta, pois o sujeito precisará determinar o que dizer e como dizer. durante o processo de produção, é necessário que a atividade de correção seja uma realidade. para tanto, defendemos que o professor deve apresentar, desde o início da atividade de produção, os critérios de avaliação do texto final. não podemos mais acreditar num processo em que a correção final é feita só pelo professor. pelo contrário, o aluno tem de perceber que escrever é um processo de transpiração e que o próprio produtor do texto deve conhecer os critérios de avaliação e ser o responsável pelas correções, reformulando trechos obs-curos, selecionando léxico adequado, revendo elementos organizadores, etc. organização e metodologia da obra destinada ao ensino de língua portuguesa no ensino médio, a obra é composta de três volumes, com seis unidades cada um, além de uma unidade de abertura no primeiro volume. em cada unidade há dois ou três capítulos, que se alternam entre dois objetivos básicos: o trabalho com gêneros textuais e a leitura do texto literário. ao organizar a obra, consideramos que essa alternância favoreceria o ensino da leitura, a reflexão linguística e a produção de textos de circu-lação social, importantes para o aprofundamento da proficiência leitora e de escrita dos alunos, sem deixar de lado o fundamental exercício de fruição estética, de autoconhecimento e conhecimento histórico-cultural proporcionados tão eficientemente pela leitura e pela interpretação de textos literários. assim, temos sempre um capítulo destinado ao estudo de determinado gênero textual que, na medida do possível, prepara os alunos para uma entrada menos árdua no estudo dos textos literários do(s) capítulo(s) posterior(es). dessa forma, no capítulo centrado no estudo do gênero, encontram-se:  uma preparação para a leitura do gênero;  o estudo de um ou mais textos de mesmo gênero com explicitação das habilidades leitoras envolvidas no processo de reconstrução do sentido de um deles;  um estudo dos conhecimentos linguísticos, que tem como base as construções presentes nos textos do capítulo;  uma seção voltada para o ensino de ortografia e outras questões da variedade-padrão da língua;  atividades de produção de texto — nessa parte do capí-tulo o gênero é caracterizado e são propostas atividades de escrita preparatórias para as produções de autoria, textos em que os alunos aplicam as características do gênero estudado, bem como os recursos textuais aprendidos por meio das atividades de leitura. o(s) capítulo(s) destinado(s) ao trabalho de leitura do texto literário apresenta(m) organização diferente, elaborada em função da especificidade do estudo dessa natureza de texto. a sequência inclui:  a preparação para a leitura dos textos que serão trabalhados;  o estudo de dois ou mais textos literários selecionados de acordo com a época de sua primeira edição e com sua participação em uma escola literária específica;  as habilidades leitoras envolvidas no processo de interpretação de um deles;  a contextualização histórico-cultural;  uma atividade de síntese dessas informações;  questões de vestibulares de todo o país que tratam dos assuntos trabalhados no capítulo;  uma análise linguística em que um dos textos da escola literária trabalhada é comparado a outro de diferente época. ao final de cada capítulo, há uma seção de amplia-ção de algum dos conteúdos do capítulo e outra com dicas de filmes, livros, músicas e sites. por meio delas, pretende-se auxiliar no aprofundamento dos temas, o que pode ocorrer fora da sala de aula. os volumes são compostos por seis unidades, cada uma com dois capítulos, com exceção do volume 1 — com um capítulo de introdução — e do volume 3, unidade 2 — com três capítulos, dois dedicados ao modernismo no brasil. em cada volume, encontra-se a proposta de realização de um projeto a ser concretiza-do no final de cada ano, mas aberto antes da primeira unidade. esses projetos têm como principais finalidades: criar uma situação real de circulação dos textos dos alunos; favorecer maior participação da escola na vida da comunidade (e vice-versa); desenvolver o espírito de colaboração, de cidadania e de senso ético. cada uma das seções será mais precisamente des-crita a seguir. espera-se que o professor encontre nesta coleção atividades que realmente favoreçam o desenvol-vimento e o aprofundamento da competência leitora e de escrita de seus alunos. mp_vpem3_01a24.indd  7 4/21/10  11:12:34 am</Page><Page Number="338">8  manual do professor seções que compõem os capítulos antes de ler trata-se de uma preparação para a leitura, que leva em conta o gênero ou alguma característica literária de determinados textos. sabe-se que a leitura é mobilizada por diversos ele-mentos externos à construção propriamente do texto. antes de chegarmos à leitura efetiva das linhas, mobiliza-mos uma série de expectativas, determinamos objetivos, levantamos hipóteses, deixamo-nos seduzir pelo tema ou o rejeitamos de início. ao ter acesso ao texto, deparamos com certos obstáculos à leitura: desconhecimento do tema, do vocabulário, das estruturas, etc. a seção antes de ler pretende ocupar exatamente esse espaço, o da determinação de objetivos de leitu-ra ou da criação de expectativas ou de elucidação de dúvidas que as linhas do texto possam suscitar. é um espaço de motivação para a leitura dos principais textos do capítulo, para a delimitação de certos objetivos de leitura, para o despertar do reconhecimento de certas ideias, abordagens temáticas ou características textuais; enfim, a seção antes de ler deve favorecer uma entra-da mais contextualizada nos textos que são propostos aos alunos de ensino médio por meio de uma situação artificial (distante dos seus veículos reais de circulação), que é a do livro didático, mas não sem importância se considerarmos que muitos deles terão como base para outras leituras exatamente aqueles textos organizados para serem lidos e estudados no contexto escolar. interpretação do texto as questões de interpretação devem ser vistas como meios de elucidação dos recursos de construção de senti-do do texto. a fim de favorecer a ampliação da proficiên-cia leitora de um leitor mais independente e crítico do que aquele do início do segundo ciclo do ensino fundamental, propomos questões que visam ao reconhecimento das informações presentes na camada superficial do texto e questões que levem em conta o exercício constante de associação e inferência. assim, procuramos apresentar propostas de recuperação das informações, a relação desses dados com o conhecimento já adquirido pelos alunos, o levantamento de hipóteses, o reconhecimento dos passos necessários para a identificação do assunto principal e do tema do texto e, em outra sequência, apresentamos propostas de identificação de recursos textuais que estão diretamente ligados ao sentido de superfície e ao sentido profundo do texto. pretendemos com essa dinâmica, envolvendo habili-dades leitoras e identificação de recursos de construção do sentido, indicar aos estudantes as “chaves” necessá-rias de entrada autônoma em um texto, afinal o exercício de leitura fora da escola não é acompanhado por roteiros com questões de interpretação. é também nesse ponto que se dão os contatos iniciais com o gênero, por meio de alguns aspectos que o estruturam. no entanto, ainda não há levantamento de suas principais características, uma vez que não é a caracterização do gênero textual o maior objetivo das atividades dessa seção. nos estudos propostos não foi nosso objetivo esgotar a leitura dos textos, apontando de uma só vez todos os recursos textuais, mas destacar o que poderia haver de relevante para a compreensão global. para completar esse processo, ao final da interpreta-ção de um ou mais textos, inserimos um quadro com a explicitação de certas estratégias envolvidas na resolução das questões propostas. o objetivo é tornar o aluno mais consciente de seu próprio processo leitor e, acima de tudo, mais apto a transferir intencionalmente esse processo para a leitura de qualquer texto, em qualquer contexto social, sem depender de roteiros que orientem sua compreensão.  para entender... nos capítulos de literatura, a seção para entender... estuda o momento histórico em que determinados movi-mentos começaram a surgir. é nessa seção também que se caracterizam os períodos literários e se apresentam os autores representativos da época. além de atender a uma linearidade histórica, a seção preocupa-se em explicar como os fenômenos sociais propiciaram o surgimento de determinado tipo de arte literária. trata-se de um texto em que não se pretende tratar as escolas literárias como momentos estanques ou simples, mas, sim, de mostrá-las como manifestações ficcionais, poéticas e dramáticas de acordo com as crenças, os pensamentos e os sentimentos de uma época.  sintetizando… presente em todos os capítulos de literatura, a seção sintetizando… tem o objetivo de tornar o aluno ator de sua aprendizagem. para isso, é proposta uma síntese em que ele organiza as novas informações em um processo metacognitivo, ou seja, em um momento de reflexão, de reconstrução dos saberes e de registro desse saber. nessa seção, o aluno é convidado a copiar o esquema apresentado e completá-lo com as observações pertinen-tes àquele estudo. o professor pode apresentar sínteses de alunos às classes, pode propor o trabalho em grupos para discussão. o mais importante nessa atividade é a organização desses novos saberes. desafio na seção desafio podem ser encontradas diversas questões de vestibular retomando temas e conteúdos tratados no capítulo. os alunos poderão, dessa forma, testar os conhecimentos trabalhados e conhecer as dife-rentes características de vestibulares de todo o país. em geral, as questões foram transcritas literalmente, pois buscamos preservar sua configuração original. mp_vpem3_01a24.indd  8 4/21/10  11:12:34 am</Page><Page Number="339">manual do professor  9 comparando textos presente apenas nos capítulos de análise dos textos literários, a seção comparando textos é um meio de levar o aluno à percepção da importância do diálogo entre os textos de diferentes épocas. as sugestões de atividades enfatizam a comparação de aspectos linguísticos que encaminham o texto para graus distintos de expressivi-dade, ou enfatizam a comparação de aspectos temáticos, que levem o aluno a observar os variados meios de se desenvolver um assunto. para colomer (2007), “o confronto entre textos lite-rários distintos oferece ao aluno a ocasião de enfrentar a diversidade social e cultural, no momento em que têm início as grandes questões filosóficas propostas ao longo do tempo”. assim, com o objetivo maior de formar a pessoa, o cidadão, a seção comparando textos explicita aos alunos a maneira como gerações anteriores retrata-vam a vida a partir da linguagem. conhecimentos linguísticos a seção que trabalha diretamente os conhecimen-tos linguísticos pretende ampliar o conhecimento dos diversos recursos possibilitados pela língua portuguesa usada no brasil e favorecer a reflexão sobre suas diversas ocorrências nas situações reais de uso da linguagem. para atingir tal objetivo, partimos do pressuposto de que os alunos, por terem passado pelo ensino fundamen-tal, já tenham estudado os diversos tópicos gramaticais retomados no ensino médio. considerando ser essa etapa da escolaridade uma fase de aprofundamento de determinadas informações, optamos por apresentar um quadro com a síntese de alguns conceitos da gramática da língua portuguesa, em lugar de apresentá-los como se os alunos os estivessem estudando pela primeira vez. esse quadro torna-se então ponto de partida para o estudo de estruturas presentes nos textos do capítulo. os conceitos revisados são exercitados por meio de atividades de iden-tificação. a partir desse ponto, o aluno passa a verificar a relevância dos tópicos revistos para a construção do sentido, da coesão ou da expressividade do texto. é importante observar que essa proposta dá novo sentido ao estudo da gramática porque aqui ela não vem revestida apenas de seu caráter normativo. sem deixar de lado os conceitos que padronizam seus tópicos, é sempre proposto um retorno ao texto, espaço em que a língua se realiza plenamente, estejam as estruturas empregadas previstas ou não na variedade-padrão do português praticado no brasil. após a análise dos textos a partir do tópico grama-tical em estudo, apresentam-se algumas atividades de aplicação que têm como objetivo facilitar a transferência do conteúdo, visto agora sob nova abordagem, ou cola-borar para a fixação de uma nova estrutura ou mesmo de uma forma nova de empregá-la.  ortografia e outras questões segundo artur gomes de morais (2003), “discutir ortografia é enveredar por um espaço de controvérsias, pois implica enfocar um objeto marcado por precon-ceitos”. e ele tem toda razão, nem tudo é tão errado a ponto de provocar risos. em seu livro a língua de eulália, marcos bagno explica com detalhes quanto existe de preconceito em nossa forma de conceber a língua desconsiderando suas variantes. no capítulo “o livro de irene”, por exemplo, a própria personagem explica: “em hipótese nenhuma eu reivindicaria a substituição da variedade-padrão pela não padrão como objeto de ensino na escola. a existência de uma variedade-padrão é desejável e necessária para um meio de expressão comum a todas as pessoas cultas de um país. o que eu reivindico, sim, é que ela não seja ensinada como a única existente”, e acrescentamos aqui que ela não pode servir para ridicularizar quem não a siga. levar o aluno a conhecer as regras ortográficas e outras questões da variedade-padrão da língua portugue-sa, longe de ser uma forma de apontar erros e acertos, deve ser um meio de colaborar para que o aluno faça escolhas linguísticas conscientes. afinal, ele sabe que está inserido numa sociedade que avaliará seus conhecimen-tos dessa variedade da língua. para atingir essa finalidade, são propostas atividades de reconhecimento e aplicação de certas regras de ortografia e de acentuação. outras questões relativas à variedade-padrão, em alguns capítu-los, são comentadas como informações complementares aos conhecimentos linguísticos trabalhados.  produção de texto durante anos, o ensino de produção de textos este-ve restrito ao “dar produção” e não ao ensinar como escrever. procurava-se propor (várias) atividades escritas, mas nenhuma que se preocupasse com o ensino formal e sistemático dos recursos de que o escritor pode se valer para escrever um gênero. ressaltamos, no entanto, que trabalhar recursos de escrita não é trabalhar com os esquemas composicionais dos gêneros selecionados. e é isso o que não fazemos nesta coleção. ensinar a escrever por meio de gêneros é levar o aluno a compreender que, embora o trabalho de redigir ocorra sem a presença do leitor, nossas escolhas são determinadas pela imagem que temos desse destinatário e por modelos sedimenta-dos socialmente, no caso, os gêneros. é preciso saber que os gêneros se organizam em um tripé: temas específicos que se organizam em gêneros específicos, isto é, nas diferentes práticas sociais de que participamos se estabelecem diferentes assuntos permiti-dos ou não em alguns gêneros; estrutura composicional, ou seja, modelos típicos de organização quanto às partes que os formam; os gêneros ainda se distinguem pelo estilo, definindo os recursos lexicais e morfossintáticos de cada frase e de suas relações no texto. nesse caso, importa também conhecer os tipos textuais — narração, relato, descrição, exposição, prescrição, argumenta-ção — que estão presentes na produção de diferentes gêneros e contribuem com a caracterização gramatical de determinado gênero. mp_vpem3_01a24.indd  9 4/21/10  11:12:34 am</Page><Page Number="340">10  manual do professor a seção produção de texto é iniciada com a apre-sentação do gênero estudado, a partir de seus aspectos não só composicionais, mas, acima de tudo, voltados à produção, à circulação social e à recepção de tais textos. em cada capítulo, o aluno lê pelo menos dois modelos de um gênero, estuda os recursos gramaticais que organizam esse gênero e volta a ele no item de produção, que propõe exercícios, ou seja, atividades que visam trabalhar recursos de que os alunos podem se valer para produzir bons textos. o gênero seleciona-do dita o tipo comum a ele, bem como seu estilo, sua composição e seu tema mais corrente. dominando essa prática, o aluno terá mais consciência e confiança para produzir. ao final do processo de exercício da escrita, propomos uma escrita de autoria. vale lembrar ainda que toda atividade de produção de autoria é seguida por uma autoavaliação, que servirá também ao professor. por fim, uma vez que, segundo orientações dadas no corpo do texto, essas produções farão parte do projeto de final de ano, ficam determi-nados também os parâmetros de produção: com que intenção, para quem, em que suporte, em que variedade e como será escrito o texto. e por falar em... a seção e por falar em... propõe a ampliação de um dos temas abordados no capítulo. é por meio dessas ativi-dades que os alunos têm a possibilidade de simular num contexto de sala de aula algumas das situações cotidianas que exigirão reflexão sobre o papel do ser humano na sociedade. ciente das características do mundo atual, o cidadão precisa agir de forma mais consciente e deve ser papel da escola favorecer esse tipo de ação. assim, nesta seção, apresentam-se desde atividades de reflexão acerca dos diferentes assuntos tratados no capítulo, passando por pesquisas de diversas manifes-tações artísticas e de linguagem, por trabalhos envol-vendo a mobilização de conceitos tratados nas distintas áreas do conhecimento, até propostas de solução para problemas reais da comunidade na qual está inserido o aluno. os meios de realização e apresentação desses trabalhos são bastante variados e isso ocorre para que o aluno experimente o maior número possível de situa­ ções de aprendizagem além daquelas que levam em conta apenas o espaço escolar. desse modo, é possível encontrar propostas de pesquisa em diversos espaços reais (bibliotecas, por exemplo) e virtuais (internet); propostas de ativação dos conhecimentos normalmente apresentados por outras disciplinas; além dos mais diver-sos meios de circulação dessas informações: debates, exposição de cartazes e de peças confeccionadas em aula, apresentação de seminários, de músicas e tantos outros gêneros que possibilitam a circulação do conhe-cimento na sociedade. em síntese, pode-se dizer que o objetivo da seção e por falar em... é ser mais um meio de desenvolvimento de diversas habilidades e competências necessárias à nova geração. no mundo da oralidade sabe-se que a oralidade atravessa todo o percurso escolar do aluno: leituras em voz alta, participações em aula, apresentação de seminários, etc. entretanto, nem sempre se garante a sistematização de gêneros do oral, extremamente relevantes no cotidiano escolar e sobre-tudo na preparação para o trabalho. à seção no mundo da oralidade cabe a descrição da estrutura dos gêneros do oral usados na atividade em questão. por isso, essa seção não apresenta um lugar fixo no capítulo. poderá aparecer dentro da seção antes de ler ou de interpretação do texto, se aí o trabalho pedido exigir algum tipo de manifestação oral, seja a leitura em voz alta de um texto, seja a exposição de ideias discutidas em grupo. poderá, ainda, aparecer na seção e por falar em... se nesta houver a proposta de realização de um debate ou de apresenta-ção de um seminário, por exemplo. em todos os casos, faz-se não só a caracterização do gênero pedido, mas a enumeração de procedimentos necessários à realização do trabalho de oralidade.  aproveite para... trata-se de uma seção voltada ao desenvolvimento cultural do aluno. sem desconsiderar sua experiência social, sugerem-se filmes, músicas, textos, sites, revistas, etc. que podem contribuir no enriquecimento de uma cultura múltipla, formadora de um cidadão consciente. projeto anual encontrar um meio de valorizar as produções orais e escritas dos alunos, fazendo-as circular na comunidade escolar, é um dos objetivos da proposta de organização de um projeto no final do ano letivo. durante o ensino médio, os alunos que ainda não participam do mundo do trabalho estão preparando-se para isso. é nessa realidade que se dá mais fortemente o exercício da responsabilidade, do senso crítico, da ação cidadã. a escola, nesse contexto, não pode se eximir da responsabilidade de facilitar o acesso efetivo do jovem a esse conjunto de ações. o projeto anual pode promover esse exercício, por isso é apresentado no início do ano letivo, antes da abertura dos capítulos. a finalidade dessa apresentação é permitir a alunos e professor um planejamento mais cuidadoso e intencional dos textos de autoria a serem produzidos. por meio desse processo, os alunos sabem, desde o início, que provavelmente não escreverão apenas para o professor, mas para toda a comunidade escolar, a qual poderão entreter, emocionar, levar à reflexão ou a uma ação concreta. por meio do projeto, a atividade de produção não é considerada um exercício escolar — escrever para o professor —, mas uma prática social. o aluno exercita a produção por meio de atividades que o encaminham à autoria significada na apresentação dos critérios de circulação e de recepção do texto. mp_vpem3_01a24.indd  10 4/21/10  11:12:35 am</Page><Page Number="341">manual do professor  11 estrutura geral da coleção volume 1 – 1 o ano volume 2 – 2 o ano volume 3 – 3 o ano unidade de abertura para começar – língua, linguagem e literatura. unidade 1 trovas e trovadores – cordel – variedades linguísticas – trovadorismo a vida se recria – romance – transitividade verbal e colocação pronominal – romantismo – prosa um olhar crítico – resenha crítica – orações subordinadas adjetivas – vanguardas europeias – modernismo em portugal –  1º- momento unidade 2 a humanidade em cena – texto dramático – a frase – linguagem oral versus linguagem escrita – humanismo do amor, do nacionalismo e  da denúncia – letra de música – figuras de sintaxe: paralelismo, comparação, anáfora, hiponímia e hiperonímia – romantismo – poesia tecendo conversas – entrevista – orações subordinadas adverbiais – modernismo no brasil  1ª- geração – poesia e prosa  2ª- geração – poesia unidade 3 uma forma para a arte – soneto – figuras de sintaxe: anáfora, anacoluto e hipérbato – classicismo histórias que se contam – conto – tipos de predicado – funções sintáticas do adjetivo – realismo e naturalismo outra voz: a voz do outro – carta argumentativa – o papel das conjunções na construção do texto – prosa modernista – geração de 1930 unidade 4 histórias de quem viaja – relato de viagem – tipos de sujeito – coesão e clivagem – quinhentismo a arte da forma – haicai e martelo – formas nominais do verbo – parnasianismo do cotidiano ao extraordinário – crônica – parágrafo – geração de 1945 – poesia e prosa unidade 5 profusão de imagens  e significados – poema – figuras de linguagem: metáfora, hipérbole e antítese – barroco o mundo em símbolos  – anúncio publicitário – vozes verbais – simbolismo pontos de vista – artigo de opinião – concordância verbal e nominal – literatura brasileira contemporânea – poesia unidade 6 o poder do mito e da razão – mito – complementos verbais – arcadismo investigar e documentar  um tema – reportagem – orações subordinadas substantivas – pré-modernismo temas e cenas – dissertação – coesão por referência – progressão – literatura brasileira contemporânea – prosa projeto anual momento cultural sarau de música e literatura revista pergunta: por que se avalia? antes de iniciar um processo de avaliação, é preciso determinar por que o estamos reali-zando. uma vez determinados os objetivos desse processo, deixam-se claros os resultados. avaliamos para saber se os alunos sabem usar a construção sintática estudada, avalia-mos para saber se eles se apropriaram das regularidades de um gênero. estando claras, para alunos e professores, as razões da avaliação e os objetivos a serem alcançados, pode-se determinar quais serão as ações reguladoras da intervenção no processo de aprendizagem das pessoas implicadas na situação educativa.  avaliação segundo charles hadji (2001), a avaliação, em um contexto escolar, tem o objetivo legítimo de contribuir para o êxito do ensino. dessa forma, não se deve avaliar para qualificar ou sancionar. a avaliação deve existir com o propósito de reconhecer no processo as mudanças que precisam ser feitas para que haja aprendizagem. assim, nenhuma ava-liação deve ser feita sem incluir uma resposta à seguinte mp_vpem3_01a24.indd  11 4/21/10  11:12:35 am</Page><Page Number="342">12  manual do professor esse tipo de procedimento funda uma concepção de avaliação de dupla mão: as estratégias adotadas para o alcance dos objetivos definidos por professores e/para alunos foram eficientes? é nesse sentido que, em alguma medida, a avaliação do avanço do aluno torna-se avalia-ção das medidas interventivas adotadas pelo professor, obrigado, nesse contexto, a avaliar para rever e ajustar frequentemente suas práticas. quanto à forma como se avalia, são encontradas questões fundamentais. por exemplo: o que os alunos já sabem sobre o conhecimento que se pretende desenvol-ver? que experiências já tiveram com o conteúdo a ser apresentado? que habilidades poderão ser mobilizadas e quais deverão ser desenvolvidas? quais são as diferen-tes formas de aprendizagem? uma reflexão acerca das respostas a essas questões poderá orientar um trabalho voltado para as diferentes possibilidades de desempenho e, num contexto como esse, o aluno será enxergado sem-pre em relação a suas possibilidades de avanço e não em relação às possibilidades de avanço da média da turma. pode-se concluir, portanto, que a avaliação não pode ser estática, silenciosa; ao contrário, deve ser processual, dialógica. os diferentes instrumentos avaliativos devem dialogar com o que os alunos já sabem (zona processual de desenvolvimento), com o que podem saber e com o modo como aprendem. no modelo apresentado por zabala na obra como trabalhar os conteúdos procedimentais em aula, deve-se partir de uma avaliação inicial — diagnóstica — à qual se seguiria a avaliação reguladora. desta última, equivalente à ideia da sequência didática apresentada por schneuwly, sairiam as tarefas que favoreceriam a aprendizagem em relação aos objetivos, aos conteúdos previstos e às dificuldades dos alunos. em seguida à avaliação reguladora, seria feita uma avaliação final para que, com base no conhecimento inicial, pudéssemos ter um informe do processo da avaliação. independentemente dos vários modos possí-veis de se avaliar, o mais importante é a percepção do desenvolvimento processual, e não meramente do pro-duto final. nessa linha, é preciso que a ação avaliadora observe simultaneamente os processos individuais e os do grupo, abarcando não só a aprendizagem, como também o ensino. ao longo do processo de ensino-aprendizagem, encontram-se pessoas que desejam conhecer o resul-tado da avaliação (por meio de notas e conceitos): os alunos/família; a coordenação/administração; o pro-fessor. a cada um deles pode ser dada uma resposta. primeiro, uma avaliação informa sobre os processos que nós, professores, devemos realizar com os alunos. aos alunos e às famílias, ela deve informar os avanços e as medidas que devem ser tomadas para ajudar o trabalho da escola. à coordenação, a avaliação fornece os dados necessários para garantir a continuidade do percurso do aluno. sem dúvida, sabemos que discutir avaliação deve estar sempre em pauta, uma vez que a ação resultante do processo avaliativo nem sempre é sossegada e serena. ninguém fica indiferente a qualquer tipo de julgamento, o que dirá quando se avalia o conhecimento de um sujei-to. quem avalia sente-se prestigiado e quem é avaliado, muitas vezes, procura se defender daquele resultado. na busca por uma dinâmica menos conflitante, há que se pensar em uma relação didática em que a prova atinja seu objetivo essencial: averiguar até que ponto as práticas adotadas e exercitadas favoreceram o ensinar a aprender. segue uma sugestão de quadro de autoavaliação para que o aluno possa acompanhar o próprio desem-penho. o quadro pode ser preenchido a cada bimestre ou trimestre, de acordo com os conteúdos do livro, em sala de aula ou não, cabendo a professor e alunos definir previamente de que forma será organizado esse instrumento autoavaliativo. conteúdos e habilidades a serem trabalhados o que já sei sobre o assunto o que aprendi inicialmente o que confirmei sobre o conteúdo aprendido o que preciso rever [informação apresentada pelo professor] [devem ser levantadas informações e conhecimentos prévios sobre os conteúdos e habilidades apresentados na primeira coluna] [devem ser considerados os conhecimentos trabalhados a cada período, de acordo com a prévia organização estabelecida entre professor e alunos] [devem ser acrescentadas informações a partir das avaliações feitas por professores e colegas] [devem ser consideradas as habilidades e os conteúdos que necessitam ser retomados a fim de se atingirem os objetivos iniciais] como orientar o aluno a preencher o quadro? o ideal é o professor deixar claro o que espera que o aluno aprenda, que habilidades espera serem desenvolvidas por ele. assim, nas primeiras aulas do bimestre ou do trimestre, é importante sugerir a anotação de todos os conteúdos e habilidades que serão desenvolvidos. a primeira coluna do quadro poderá, por exemplo, ser preenchida da seguinte maneira: mp_vpem3_01a24.indd  12 4/21/10  11:12:35 am</Page><Page Number="343">manual do professor  13 conteúdos e habilidades a serem trabalhados o que já sei sobre o assunto o que aprendi inicialmente o que confirmei sobre o conteúdo aprendido o que preciso rever leitura e literatura leitura e interpretação de textos dos seguintes gêneros: [identificar quais] leitura e interpretação dos seguintes textos literários: [identificar quais] características das escolas literárias estudadas conhecimentos linguísticos conteúdos a serem trabalhados: [identificar quais] produção de texto  produção dos seguintes gêneros: [identificar quais] oralidade gêneros orais e suas estruturas: [identificar quais] além disso, alguns quadros presentes nos capítulos da coleção favorecem um exercício de autoavaliação mais autônomo para os alunos: desenvolvendo habilidades leitoras e preparando a segunda versão do texto. desenvolvendo habilidades leitoras — localiza-dos ao final da interpretação do primeiro ou dos dois primeiros textos da seção de interpretação de textos, explicitam as habilidades de leitura implicadas na reali-zação da atividade, o que possibilita ao aluno verificar os mecanismos usados para uma compreensão mais completa do texto. preparando a segunda versão do texto — locali-zado na parte destinada à produção de autoria, propõe ao aluno uma releitura atenta dos textos, além de uma revisão que atenda aos critérios ali propostos. isso obriga o aluno a reler seu texto, observando se seu trabalho corresponde ao que foi pedido. o professor que pretenda avaliar seu trabalho pode, ainda, enumerar as estratégias adotadas para facilitar a aprendizagem do aluno, observar o desenvolvimento do processo nas suas várias etapas e considerar os resultados obtidos: maior ou menor participação na aula, maior ou menor compreensão dos conteúdos, etc. a partir dos primeiros resultados reais, advindos das produções da classe, o professor pode rever o percurso realizado até então e, ainda, discutir com a turma os ajustes necessá-rios ao maior envolvimento do grupo ao longo do ano.  textos para atualização teórica texto 1 o texto de alliende e condemarín chama a atenção para determinados tipos de compreensão na leitura do texto literário e trata de como o leitor mais autônomo traz contribuições próprias para o texto. como enfrentar a literatura nas séries superiores  felipe alliende e mabel condemarín chega ummomento em que os textos literá-rios são enfrentados por um leitor independente e crítico, capaz de “se meter dentro do texto” (lector in fabula, diria eco, 1981). esse leitor rea-liza dois tipos de contribuições para o texto:  primeiro: é capaz de reconstruir as situações, as demonstrações, as instruções, etc. que o texto dá por subentendidas; como resultado desta operação, o texto adquire unidade e sentido.  segundo: aplica ao texto o conjunto de códigos e subcódigos quemaneja, que podemser muito diferentes dos do autor, e “faz o texto falar”, isto é, é capaz de manejá-lo como uma linguagem. a primeira contribuição é o que se costuma chamar de compreensão literal do que está dito “textualmente”; é a compreensão do significado pela estrutura superficial ou aparente do texto. essa superficialidade da compreensão não impli-ca “má compreensão ou compreensão negligen-te”, significa compreensão parcial de um dos elementos da estrutura textual. é a compreensão básica que permite compreensões profundas. muitas das perguntas ou esforços pela com-preensão de um texto literário apontam para o domínio de sua estrutura superficial. são esforços necessários e perguntas válidas, mas normal-mente insuficientes para captar o texto no que tem propriamente de literário. a segunda contribuição do leitor pode ser considerada como a compreensão da estrutura profunda ou dos conteúdos latentes do texto; também pode ser constituída da captação de mp_vpem3_01a24.indd  13 4/21/10  11:12:35 am</Page><Page Number="344">14  manual do professor sentidos virtuais, ou, mais ainda, do domínio do texto como um sistema gerador de sentidos. a compreensão dos aspectos literários do texto está unida a esta segunda compreensão. podem-se discutir e precisar o tipo e as modalidades exatas dessas contribuições, mas não se pode negar que a verdadeira compreensão e captação dos textos literários vai além da determinação do que se refere à sua estrutura superficial. o leitor independente e crítico de que estamos falando realiza automaticamente uma série de contribuições ao texto. às vezes, essas contribui-ções não conseguem tornar significativa a estrutu-ra superficial do conteúdo. o leitor simplesmente não entende o que o autor quer dizer; extrai do texto significados parciais e desestruturados. outras vezes, o leitor compreende tudo o que está nele, mas continua sem entender o que o autor quer dizer; nesse caso, não entende porque não sabe para onde a estrutura superficial do texto, que não captou perfeitamente, aponta. é o caso, por exemplo, de quem ouve uma piada, entende perfeitamente tudo o que se conta, sem ser capaz no entanto de captar em que está o humorístico. no caso destes dois tipos de falta de com-preensão e quando se quer que esta seja mais completa, é necessário e recomendável guiar a compreensão do leitor, enriquecendo as suas contribuições espontâneas automáticas. examinemos, como exemplo, uma conhecida rima de bécquer 1 : rima xxi o que é poesia — dizes enquanto cravas em minha pupila tua pupila azul. o que é poesia? e tu me perguntas? poesia... és tu. não vamos estudar literariamente este texto. não é matéria deste livro. por esse motivo, não falaremos de suas características métricas, nem estilísticas, nem de outros aspectos pro-priamente literários. simplesmente tentaremos compreender o que o texto diz. parece fácil captar o que está dito “textual-mente”. alguém poderia dizer que é evidente que um jovem se dirige à sua amada, que lhe pergunta o que é poesia, e lhe diz que poesia é ela. na realidade, na interpretação transcrita, há uma enorme quantidade de contribuições do leitor para determinar o “textualmente dito”. o texto é bastante preguiçoso, como diria eco (1981). limita-se a dar indícios. com desinências verbais correspondentes à segunda pessoa do diálogo, com pronomes pessoais de primeira e segunda pessoa em diferentes casos e com pro-nomes possessivos, também de primeira e segun-da pessoa, cria dois personagens: um que fala e outro a quem se fala, um eu e um tu, um falante e um interlocutor. mas não se trata de ninguém em particular; podem ser, é o mais provável, os dois namorados propostos, mas também pode se tratar de um pai que fala com sua filha, ou de qualquer outro casal, apaixonado ou não. não diz que há um diálogo efetivo; pode-se tratar do diálogo imaginário de alguém que se lembra, ou imagina uma situação. os falantes ou o falante não estão em nenhum lugar, não estão sentados, nem de pé, não dialogam em nenhuma hora pre-cisa. no entanto, utilizando todos os indícios que o texto dá, pode-se configurar uma situação mais ou menos clara com a colaboração do leitor. se ao primeiro personagem (ao falante) chamamos de “o amante” e ao segundo personagem (ao interlocutor) chamamos de “a amada”, estamos em condições de compreender o que diz a amada, a quem diz, o que faz quando diz e o que res-ponde o amante. sem sairmos ainda deste tipo de “textualidade”, podemos compreender que a pergunta do amante: “e tu me perguntas?” reflete estranheza ao ver que a pergunta da amada é insólita ou injustificada. o leitor que termina nesse ponto o seu pro-cesso de compreensão certamente entendeu alguma coisa. soube obter um determinado sentido do texto. no entanto, ainda não compreendeu real-mente nada da rima como tal. apenas tem uma base para entendê-la. o sentido fundamental da rima vai além do que dizem, fazem e sentem os dois personagens do texto. alguém pode entender que a estrutura su­perficial da rima é uma história exemplar de uma conversa entre dois amantes que realmente aponta para uma pergunta pela poesia, que é adequadamente respondida por procedimentos poéticos. esse segundo leitor, mais agudo que o primeiro, acha que a rima é uma proclamação de que o poético não se confunde como retórico, nem com o métrico, nem com o que entende o vulgo por poesia; a rima responde que a poesia se con-funde com a beleza, com a vida, em encarnações concretas e atrativas, ingênuas, alheias a toda consciência racional; que omodelo de toda poesia é uma belamulher que inspira amor e paixão, mas não tem consciência de seu ser poético. de onde esse segundo leitor tirou sua inter-pretação? esse leitor parece manejar um código simbólico, ou ter um esquema do simbólico, ou dominar um mecanismo de tradução do 1 gustavo adolfo bécquer (1836-1870), poeta e escritor do romantismo espanhol. mp_vpem3_01a24.indd  14 4/21/10  11:12:35 am</Page><Page Number="345">manual do professor  15 concreto para o abstrato. seja código, esquema ou mecanismo, o leitor tem uma ferramenta ou ins­trumento que lhe permite aprofundar a sig­ nificação da situação básica e projetá-la a outros âmbitos. por outro lado, o fato de saber que a rima xxi pertence à obra chamada rimas, de g. a. bécquer, e conhecer as 85 rimas restantes e ter informação sobre a época em que foram escritas e da biografia de seu autor gera um patrimônio de conhecimentos que permite compreendê-la de determinado modo. em resumo: estamos dizendo que os códigos e subcódigos que o leitor maneje e seu patri-mônio cultural são algumas das fontes que se podem apontar para compreensões profundas. levando essas considerações para o terreno prático, podemos dar as seguintes sugestões para se conseguirem adequadas compreensões dos textos literários:   ter consciência de que a compreensão textual de uma obra literária vai além da captação de sua estrutura superficial ou conteúdo manifesto. não perder de vista que, sendo importante a captação deste aspecto da obra literária, é insuficiente para se conseguir uma compreensão adequada dela.  levar em conta os códigos ou esquemas que os leitores manejam e seu patrimônio cultural para a seleção de obras e para determinar as exigências de compreensão que forem feitas a ele.  enriquecer o manejo de códigos e o patri-mônio cultural dos leitores para chegar a compreensões mais profundas. por exemplo, não ministrar história literária como uma disciplina isolada, mas como um meio de compreender melhor as obras que se leiam. por exemplo, ensinar aos alunos como, ao aplicar um código geográfico, podem ser descobertos muitos elementos significativos de algumas obras literárias.  apelar para o patrimônio cultural e para o manejo de códigos do educador para fazer guias e provas de compreensão que levem os alunos a captarem as significações mais profundas das obras literárias. [...]. a propósi-to, convém lembrar que, para conseguir uma compreensão adequada, não é em absoluto necessário recorrer a metalinguagens (ter-minologia linguística ou literária) complexas; dentro do possível, as categorias de análise devem provir dos próprios textos. alliende, felipe; condemarín, mabel. a leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. porto alegre: artmed, 2005. texto 2 neste capítulo de seu livro, luiz antônio marcuschi expõe a noção de texto com a qual trabalha: trata-se de uma unidade significativa, acima de fonemas e frases, de “tecido estruturado”; além disso, o texto também pode ser visto como “uma entidade de comunicação e um artefato sócio-histórico”. o autor parte da caracterização da noção de texto e da linguística de texto, perspectiva teórica que adota, para discutir como se dá a produção textual, tanto escrita como oral, considerando processos interlocutivos do ponto de vista da enunciação. noções de texto e linguística de texto luiz antônio marcuschi todos nós sabemos que a comunicação linguística (e a produção discursiva em geral) não se dá em unidades isoladas, tais como fonemas, morfemas ou palavras soltas, mas sim em unidades maiores, ou seja, por textos. e os textos são, a rigor, o único material linguístico observável, como lembram alguns autores. isso quer dizer que há um fenômeno linguístico (de caráter enunciativo e não meramente formal) que vai além da frase e constitui uma unidade de sentido 2 . o texto é o resultado de uma ação linguística cujas fronteiras são em geral defini-das por seus vínculos com o mundo no qual ele surge e funciona. esse fenômeno não é apenas uma extensão da frase, mas uma entidade teoricamente nova (como já disse charolles). exige explicações que exorbitam as conhecidas análises do nível morfossintático. o texto pode ser tido como um tecido estru-turado, uma entidade significativa, uma entidade de comunicação e um artefato sócio-histórico. de certo modo, pode-se afirmar que o texto é uma (re)construção do mundo e não uma sim-ples refração ou reflexo. como bakhtin dizia da 2 quanto ao problema de se considerar o texto uma unidade de análise ou não, podem-se consultar as observações de anne reboul &amp; jacques moes-chler (1998). pragmatique de discours. de l’interprétation de l’énoncé à l’interprétation du discours. paris: armand colin, em especial as pp. 21-27, em que se discute que tipo de unidade é o texto. para os autores (p. 25), existem três tipos de unidades linguísticas: (a) unidades indivisíveis (por exemplo: fonemas); (b) unidades emergentes e compostas (por exemplo: morfemas) e (c) unidades formais que emergem pelas regras (por exemplo: frases). o texto não é nenhuma dessas e não pode ser tido como uma unidade linguística para esses autores. para eles (p. 26), “o discurso tem características que não se explicam pelos elementos que o compõem e pelas relações entre esses elementos”. a questão é muito complexa e não pode ser aqui resolvida, no entanto, num ponto os autores têm razão. não se pode dizer que o texto seja uma unidade do tipo frase ou morfema, sintagma etc. caso fosse assim, poderíamos dar-lhe uma gramática rigorosa de boa formação, o que não é possível em hipótese alguma. assim, no caso do texto, estamos diante de uma unidade processual, uma unidade semântica, um evento. mp_vpem3_01a24.indd  15 4/21/10  11:12:35 am</Page><Page Number="346">16  manual do professor linguagem que ela ‘refrata’ o mundo e não refle-te, também podemos afirmar do texto que ele refrata o mundo na medida em que o reordena e reconstrói. neste curso, vamos nos dedicar a essa entidade comunicativa que forma uma unidade de sentido chamada texto. tanto o texto oral como o escrito. pois oralidade e escrita 3 são duas modalidades discursivas, igualmente relevantes e fundamentais, como ainda veremos adiante. aqui, enuncio brevemente a noção de texto que vamos adotar neste curso. ela foi desenvol-vida por beaugrande (1997: 10) e postula que: “o texto é um evento comunicativo em que convergem ações linguísticas, sociais e cogni-tivas.” muitos são os aspectos que devem ser aqui tratados para dar conta dessa definição. em resumo, ela envolve tudo que necessitamos para dar conta da produção textual na perspectiva sociodiscursiva. a linguística de texto (doravante lt), surgida nos meados dos anos 60 do século xx, trata hoje tanto da produção como da compreensão de tex-tos orais e escritos. inicialmente, só se ocupava dos textos escritos e com o processo de produ-ção. seus interesses e objetivos ampliaram-se muito nos anos 90. para uma boa informação sobre o desenvolvimento da lt nos últimos 30 anos, vejam-se os trabalhos de marcuschi (1983), ingedore koch (1999) e anna christina bentes (2001) 4 . de um ponto de vista mais técnico, a lt pode ser definida como o estudo das operações linguísticas, discursivas e cognitivas regulado-ras e controladoras da produção, construção e processamento de textos escritos ou orais em contextos naturais de uso. a lt parte da premissa de que a língua não funciona nem se dá em unidades isoladas, tais como os fonemas, os morfemas, as palavras ou as frases soltas. mas sim em unidades de sentido chamadas texto, sejam elas textos orais ou escritos. a motivação inicial da lt foi a certeza de que as teorias linguísticas tradicionais não davam conta de alguns fenômenos linguísticos que apareciam no texto. e esses fenômenos eram resumidos numa expressão quase mágica: relações interfrásticas. constatava-se que cer-tas propriedades linguísticas de uma frase só eram explicáveis na sua relação com uma outra frase, o que exigia uma teoria que fosse além da linguística de frase. só assim se explicaria a anáfora, as propriedades textuais do artigo e também o problema da elipse e repetição, entre outros. contudo, se no início da lt o argumento era a necessidade de desenvolver uma gramática transfrástica, hoje o argumento para se prosse-guir no desenvolvimento de uma lt já é outro. hoje não se fala mais em gramática de texto. essa noção supunha que seria possível identi-ficar um conjunto de regras de “boa formação textual”, o que se sabe ser impossível, pois o texto não é uma unidade formal que pode ser definida e determinada por um conjunto de propriedades puramente componenciais e intrínsecas. também não é possível dar um conjunto de regras formais que possam gerar textos adequados. imaginemos a dificuldade que teríamos de propor regras para a produção de todos os gêneros textuais; ou então as regras para obter efeitos de sentido específicos; ou as regras para sequenciar conteúdos ou dar saltos temáticos, produzir digressões etc. o projeto seria impos-sível e inviável. foi isso que levou os gramáticos do texto a desistir da ideia. a teoria textual é muito mais uma heurística do que um conjun-to de regras específicas enunciadas de modo explícito e claro. dizer que os critérios definidores das pro-priedades de um texto são heurísticos equivale a propor que sejam indicativos e sugestivos para permitir a produção e a compreensão, mas não regras rígidas e formais como condições necessárias e suficientes para a boa formação textual. a lt, abordada em sentido estrito, é algo bem diverso da análise literária; também é dife-rente da retórica e da estilística, embora evidencie parentescos com ambas. configura uma linha de investigação interdisciplinar dentro da lin-guística e como tal exige métodos e categorias de várias procedências. hoje é a perspectiva que vem fornecendo a base teórica mais usada no estudo da língua em sala de aula. mas não se pode imaginar que haja apenas uma lt. 3 sugiro cuidado com o uso da expressão “escrita”, que aqui está sendo empregada de maneira técnica. refro-me, nesse momento, aos problemas de ordem linguística em sentido mais restrito. há uma expressão que hoje se tornou comum e tem um uso muito mais amplo, isto é, letramento. com a expressão letramento têm-se em mente os usos sociais da escrita numa dada sociedade. não há um letramento apenas, mas sim um con-tínuo de letramentos. é mais do que o simples domínio da escrita formal. não se confunde com a alfabetização nem com o uso da escrita apenas. na segunda parte deste curso, teremos oportunidade de discutir alguns aspectos a esse respeito. 4 além desses estudos, podem-se ler, sobre as noções de lt e texto, os estudos de leonor fávero &amp; ingedore koch (1983) linguística textual. são paulo: cortez. também o trabalho de irandé antunes (1999) coesão lexical. recife: editora da ufpe. recentemente, saiu sobre o mesmo tema o trabalho de irandé antunes (2005). lutar com palavras — coesão e coerência. são paulo: parábola editorial. mp_vpem3_01a24.indd  16 4/21/10  11:12:35 am</Page><Page Number="347">manual do professor  17 a questão à qual devemos responder é: como e onde situar o texto nos estudos linguísticos, já que as definições de texto não fazem alusão a nenhum dos níveis linguísticos de análise? o texto está no nível do sistema ou é simplesmen-te um fenômeno do funcionamento do sistema? aqui, as posições teóricas têm variado. segundo ferdinand de saussure (1916), por exemplo, a frase não é uma unidade da langue e sim da parole (do uso, da fala); noam chomsky (1965) e (1986), por sua vez, já tem na frase a unidade básica da língua (mas sua preocupação se volta para a competência linguística ideal e abstrata e não para a frase em uso). a chomsky, como vimos, não interessa o desempenho. assim como a linguística teórica se dedica ao estudo do sistema virtual da língua, a linguís-tica de texto dedica-se ao estudo da atualização desse sistema em situações concretas de uso. isso faz com que alguns linguistas situem a lt fora do estudo da língua stricto sensu. essa postura será comum aos linguistas que seguem saussure (1916), bloomfield (1933), chomsky (1965) e muitos outros. a lt distingue entre sentido e conteúdo e não tem como objetivo uma análise de conteú­ do, já que isso é objeto de outras disciplinas. o conteúdo é aquilo que se diz ou descreve ou designa no mundo, mas o sentido é um efeito produzido pelo fato de se dizer de uma ou outra forma esse conteúdo. o sentido é um efeito do funcionamento da língua quando os falantes estão situados em contextos sócio-históricos e produzem textos em condições específicas. pelo fato de o texto ativar estratégias, expec-tativas, conhecimentos linguísticos e não lin-guísticos, a lt assume importância decisiva no ensino de língua e na montagem de manuais que buscam estudar textos. ela deve prestar um serviço fundamental na elaboração de exercícios de produção e compreensão de textos (cf. mais alguns elementos a este respeito no trabalho de graça costa val, 2000). de uma maneira geral, as diversas vertentes da lt hoje aceitam as seguintes posições:  a lt é uma perspectiva de trabalho que obser-va o funcionamento da língua em uso e não in vitro. trata-se de uma perspectiva orientada por dados autênticos e não pela introspecção, mas, apesar disso, sua preocupação não é descritivista.  a lt se funda numa concepção de língua em que a preocupação maior recai nos processos (sociocognitivos) e não no produto.  a lt não se dedica ao estudo das propriedades gerais da língua, como o faz a linguística clás-sica, que se dedica aos subdomínios estáveis do sistema, tais como a fonologia, a morfolo-gia e a sintaxe, reduzindo assim o campo de análise e descrição.  a lt dedica-se a domínios mais flutuantes ou dinâmicos, como observa beaugrande (1997), tais como a concatenação de enunciados, a produção de sentido, a pragmática, os proces-sos de compreensão, as operações cognitivas, a diferença entre os gêneros textuais, a inserção da linguagem em contextos, o aspecto social e o funcionamento discursivo da língua. trata-se de uma linguística da enunciação em oposição a uma linguística do enunciado ou do significante.  a lt tem como ponto central de suas preo-cupações atuais as relações dinâmicas entre a teoria e a prática, entre o processamento e o uso do texto. não há dúvida de que a lt se situa nos domínios da linguística e lida com fatos da língua, além de considerar a sociedade em que essa língua se situa. a lt opera com fatos mais amplos que a linguística tradicional. contudo, quando se faz uma análise textual, deve-se ter em mente que os aspectos estritamente lin-guísticos, tais como a fonologia, a morfologia, a sintaxe e a semântica, são imprescindíveis para a estabilidade textual. o que se postula enfaticamente na lt é que a língua não tem autonomia sintática, semântica e cognitiva. o texto não é simplesmente um artefato linguístico, mas um evento que ocorre na forma de linguagem inserida em contextos comunicativos. assim, poderíamos concluir estas observações preliminares com a posição sistemática de que: a linguística de texto é uma perspectiva de trabalho com a língua que recusa a noção de autonomia da língua. metodologicamente, lidamos, na lt, com um domínio empírico (isto é: o funcionamento efetivo da língua) e não formal. assim, a lt é uma perspectiva de trabalho orientada por dados autênticos, empíricos e extraídos do desempenho real. não é uma análise de observações intros-pectivas. é importante determinarmos com certa precisão este domínio, já que não se trata de uma panaceia geral, mas de um estudo controlado. seu tema abrange: (a) coesão superficial (nível dos constituintes linguísticos); (b) coerência conceitual (nível semântico, cog-nitivo, intersubjetivo e funcional); (c) sistema de pressuposições (implicações no nível pragmático da produção de sentido no plano das ações e intenções). em suma: o trabalho com a língua portugue-sa, na perspectiva de uma lt, teria de se ocupar com algo mais do que o ensino e aprendiza-mp_vpem3_01a24.indd  17 4/21/10  11:12:35 am</Page><Page Number="348">18  manual do professor gem de regras ou normas de boa formação de sequências linguísticas. trata-se de um estudo em que se privilegia a variada produção e suas contextualizações na vida diária. hoje em dia, não faz muito sentido discutir se o texto é uma unidade da langue (do sistema da língua) ou da parole (do uso da língua). tra­ ta-se de uma unidade comunicativa (um evento) e de uma unidade de sentido realizada tanto no nível do uso como no nível do sistema. tanto o sistema como o uso têm suas funções essenciais na produção textual. mas, de qualquer modo, o texto não é uma unidade formal da língua como, por exemplo, o fonema, o morfema, a palavra, o sintagma e a frase. é provável que certos aspectos formais da língua tenham influência na sequenciação dos enunciados, assim como certas propriedades comunicativas exercem pressões discursivas sobre o texto. contudo, não há uma regra que diz qual o conteúdo que deve necessariamente se seguir a outro determinado conteúdo numa sequência textual. o que determina a sequência é uma relação muito complexa e não há regras fixas para isso. conhecemos algumas sequências chama-das pares adjacentes na conversação, tais como “pergunta-resposta” ou “afirmação-comentário”, entre outros. essas sequências são comandadas por relações de relevância. mas nem tudo se com-porta dessa forma nas sequências textuais. o que se pode afirmar com certa segurança é que a sequência dos enunciados num texto não pode ser aleatória do ponto de vista linguístico, discursivo ou cognitivo. isto equivale a dizer que, se, por um lado, as operações tipicamente linguísticas como a sintaxe, a morfologia e a fonologia são imprescindíveis e inevitáveis, a análise textual não deve parar nesses aspectos, pois até eles mesmos podem ser comandados por orientações discursivas, como no caso de muitas anáforas e até mesmo de certas concordâncias sintáticas. o texto acha-se construído na perspectiva da enun-ciação. e os processos enunciativos não são simples nem obedecem a regras fixas. na visão que aqui se está propondo, denominada sociointerativa, um dos aspectos centrais no processo interlocutivo é a relação dos indivíduos entre si e com a situação discursiva. esses aspectos vão exigir dos falantes e escritores que se preocupem em articular con-juntamente seus textos ou então que tenham em mente seus interlocutores quando escrevem. usando de uma imagem diria que, do ponto de vista sociointerativo, produzir um texto assemelha-se a jogar um jogo. antes de um jogo, temos um conjunto de regras (que podem ser elásticas como no futebol ou rígidas como no xadrez), um espaço de manobra (a quadra, o campo, o tabuleiro, a mesa) e uma série de ato-res (os jogadores), cada qual com seus papéis e funções (que podem ser bastante variáveis, se for um futebol, um basquete, um xadrez etc.). mas o jogo só se dá no decorrer do jogo. para que o jogo ocorra, todos elevem colaborar. se são dois times (como no futebol) ou dois indivíduos (como no xadrez e na conversação dialogal), cada um terá sua posição particular. embora cada qual queira vencer, todos devem jogar o mesmo jogo, pois, do contrário, não haverá jogo algum. para que um vença, devem ser respeitadas as mesmas regras. não adianta reunir dois times num campo e um querer jogar vôlei e outro querer basquete. ambos devem jogar ou basquete ou vôlei. assim se dá com os textos. produtores e receptores de texto (ouvinte/leitor — falante/escritor) todos devem colaborar para um mesmo fim e dentro de um conjunto de normas iguais. os falantes/escritores da língua, ao produzirem textos, estão enunciando conteúdos e sugerindo sentidos que devem ser cons-truídos, inferidos, determinados mutuamente. a produção textual, assim como um jogo coletivo, não é uma atividade unilateral. envolve decisões conjuntas. isso caracteriza de maneira bastante essencial a produção textual como uma atividade sociointerativa. embora imagens e metáforas sejam heuristi­ camente adequadas para dar uma visão plastica­ mente rica e clara, é necessário, num passo pos-terior, enfrentar as questões teóricas e práticas. e aqui começa o nosso problema: sabemos que para se produzir um texto deve-se seguir algumas normas, mesmo que não sejam regras rígidas. sabemos que não se pode enunciar de qualquer modo os conteúdos, já que isso não favoreceria a compreensão pretendida. também sabemos que deve haver pelomenos uma noção clara de quanto se deve dizer e de quanto se pode deixar de dizer, isto é, sabemos que os textos são desenhados para interlocutores definidos e para situações nas quais supomos que os textos devem estar inseridos. um dos problemas constatados nas redações escolares é precisamente este: não se define com precisão a quem o aluno se dirige. a cena textual não fica clara. ele não tem um outro (o auditório) bem determinado e assim tem dificuldade de operar com a linguagem e escreve tudo para o mesmo interlocutor, que é o professor. e nós sabemos que a mudança de interlocutor leva a se fazer seleções lexicais diversas e níveis de formalidade distintos 5 . muitas indagações surgem nesse contexto. entre elas estão: 5 de grande proveito nesse contexto são as observações trazidas por irandé antunes (2003). aula de português — encontro e interação. são paulo: parábola. para a autora, toda escrita é uma atividade interativa e isso implica sempre duas ou mais pessoas em interação real ou simulada. mp_vpem3_01a24.indd  18 4/21/10  11:12:36 am</Page><Page Number="349">manual do professor  19  quais são os princípios mais gerais que permi-tem a produção de e o acesso a sentidos?  qual o papel das relações entre os atores sociais envolvidos nos processos de enuncia-ção e na atividade de interlocução ao produ-zirem textos?  pode-se afirmar que cada texto teria de reali-zar uma estrutura básica inevitável?  caso todos os textos devessem oferecer uma estrutura básica, os gêneros textuais teriam algum papel importante na determinação dessa estrutura?  em que medida as intenções, os propósitos, os objetivos etc. influenciam na determinação da sequência dos enunciados?  em que medida aspectos como nível de lingua-gem, grau de formalidade/informalidade etc. têm um papel decisivo na produção textual?  os dois modos de enunciação — fala e escri-ta — têm algum papel decisivo na produção textual a ponto de exigirem estratégias de textualização totalmente diversas? essa avalanche de questões serve apenas para expressar a complexidade do problema em foco. não se deve ter a ilusão de que vamos res-ponder a todas as indagações. algumas já estão respondidas acima e outras o serão a seguir. algumas ficarão para o futuro. no momento, vou me ater ao seguinte problema geral: quais são os nossos sistemas de controle da produção textual? o que observar? a que dar importância?  a primeira decisão teórica importante nesse momento deve ser esta: os conhecidos princípios da textualidade (formulados por beaugrande &amp; dressler, 1981) não podem ser tomados como equivalentes a regras de boa formação textual. o mais certo, mas ao mesmo tempo pouco útil, é admitir que o texto se dá como um ato de comunicação unificado num complexo universo de ações humanas interativas e colaborativas. refinando essa visão podemos, com beau­ grande (1997), dizer que: “o texto é um sistema atualizado de esco-lhas extraído de sistemas virtuais entre os quais a língua é o sistema mais importante.” a questão neste caso é: como se dão as relações entre os sistemas virtuais (sistemas linguísticos) e o sistema atualizado e representado pelo texto? 6 uma resposta a essa questão deve orientar-se para as relações entre a teoria e os dados, o geral e o específico, o abstrato e o concreto, o social e o individual, o conhecimento e a ação, a regra e a estratégia, o mental e o comportamental e assim por diante. não para endossar a dicotomia, mas, sobretudo, para evitá-la. no momento, vou me dedicar a alguns aspectos dessa questão e não a todos eles. quando um falante ou um escritor se põe a usar a língua (produzir textos), ele pode fazer escolhas diversas a partir do sistema virtual da língua, mas tem que se decidir por uma escolha. assim, como lembrado por beaugrande (1997), a liberdade virtual passa a ser uma obrigação real na hora da produção. se observarmos a facilidade e a rapidez com que nos desempe-nhamos quando produzimos nossos textos no dia a dia, podemos nos indagar se o fazemos como uma decisão consciente e deliberada ou se isso flui dentro da situação normal em que estamos inseridos. basta observar como produzimos com facili-dade uma enormidade de gêneros textuais orais com as mais diversas formas organizacionais sem titubear e sem planejar o que vamos fazer. baseados nisso, podemos chegar à definição de texto de beaugrande (1997: 10), já lembrada anteriormente, que assim se expressa: “é essencial tomar o texto como um evento comunicativo no qual convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais.” essa definição, no dizer de beaugrande, sugere que o texto não é uma simples sequência de palavras escritas ou faladas, mas um evento. tal definição envolve uma enorme riqueza de aspectos, o que torna difícil sua explanação com-pleta. em essência, podemos frisar as seguintes implicações diretas dessa posição: 1. o texto é visto como um sistema de conexões entre vários elementos, tais como: sons, pala-vras, enunciados, significações, participantes, contextos, ações etc. 6 não há uma oposição dicotômica entre real e virtual, pois ambos são realidades. cada qual a seu modo: uma é a realidade virtual (realidade do sistema) e outra é a realidade concreta (realidade empírica). não há nada de paradoxal nessa formulação, pois oposição se dá entre virtual e concreto e não entre virtual e real. o texto que você está lendo agora, no seu monitor, acha-se num ambiente virtual, mas ele é real, existe a seu modo. tanto assim que você pode ler. isto quer dizer que todo texto é uma atualização ou realização do sistema linguístico. por outro lado, quando falamos em sistema e dizemos que ele é virtual, isso não é o mesmo que falar na “virtualidade do texto no seu vídeo”. ou seja: quando dizemos que um sistema é um fenômeno virtual e como tal abstrato e independente das circunstâncias de uso, tal como o sistema linguístico, falamos num construto teórico. quando dizemos que o texto no seu vídeo é virtual, falamos numa forma típica de realização que não se manifesta na concretude do texto impresso e que tem várias maneiras de ser operado, por exemplo, o hipertexto. mp_vpem3_01a24.indd  19 4/21/10  11:12:36 am</Page><Page Number="350">20  manual do professor 2. o texto é construído numa orientação de multissistemas, ou seja, envolve tanto aspec-tos linguísticos como não linguísticos no seu processamento (imagem, música) e o texto se torna em geral multimodal. 3. o texto é um evento interativo e não se dá como um artefato monológico e solitário, sendo sempre um processo e uma coprodução (coautorias em vários níveis). 4. o texto compõe-se de elementos que são multi-funcionais sob vários aspectos, tais como: um som, uma palavra, uma significação, uma instrução etc. e deve ser processado com esta multifuncionalidade. no último ponto, há uma questão interes-sante apontada por beaugrande (1997: 11). todos nós aprendemos a língua em condições únicas na infância, no contato direto e primeiro com a mãe, com a família, o ambiente direto, nosso meio, na escola etc. e em condições relativa-mente restritas. como se explica então que, em qualquer situação em que nos encontremos (mesmo as que não vivemos ainda diretamente um dia), conseguimos obter tanto consenso sobre o que dizemos, ou seja, conseguimos nos entender de maneira tão admirável? para beaugrande (1977:11), a resposta está no seguinte: “as pessoas usam e partilham a língua tão bem precisamente porque ela é um sistema em constante interação com seus conhecimentos parti-lhados sobre o seu mundo e sua sociedade.” é nessa ideia básica que se funda a essência de nosso tema propriamente, pois ela aponta para o estudo das condições sociocomunicativas identificadas nos processos sociointerativos. na operação com a língua, lidamos mais do que com um simples uso de regras, sejam elas de sequenciação ou outras quaisquer. o que aqui está em ação é um conjunto de sistemas ou subsistemas que permitem às pessoas interagir por escrito ou pela fala, escolhendo e especi-ficando sentidos mediante a linguagem que usam. em suma: todos temos uma competência textual-discursiva relativamente bem desen-volvida e não há o que ensinar propriamente. nosso papel neste momento é compreender como isso funciona e como podemos fazer com que funcione ainda melhor. marcuschi, luiz antônio. produção textual, análise de gêneros e compreensão. 2. ed. são paulo: parábola editorial, 2008. texto 3 o texto a seguir, escrito por pesquisadores suíços como joaquim dolz e bernard schneuwly, apresenta uma caracterização bastante completa e importante para a utilização em sala de aula do gênero exposição oral, o conhecido seminário. a exposição oral 7 joaquim dolz bernard schneuwly jean-françois de pietro gabrielle zahnd 8 parece-nos evidente que a exposição deva ser tratada como objeto de ensino de expressão oral: “fazer uma exposição” — ou, segundo a termi-nologia frequentemente utilizada na escola, um seminário — representa uma das raras atividades orais que são praticadas com muita frequência nas salas de aula, nas aulas de francês, mas tam-bém nas de ciências, história etc. uma pesquisa feita com os professores de 6 a série da suíça francófona (nidegger 1994; de pietro e wirthner no prelo) mostra, por exemplo, que 51% deles recorrem a seminários frequentemente, ou muito frequentemente, e que a exposição oral figura como a quinta entre as 21 atividades propostas no questionário, precedida somente pelas atividades de “leitura em voz alta” (70%), “compreensão oral de narrativa” (68%) e “compreensão de instruções e de manuais de utilização” (65%). além disso, a exposição é a atividade mais frequentemente mencionada por esses mesmos professores, quando se lhes pergunta, dentre as atividades propostas, as três que lhes parecem mais úteis para desenvolver o domínio da oralidade. entretanto, se a exposição vem de uma longa tradição e é constantemente praticada, muitís-simas vezes isso se dá sem que um verdadeiro trabalho didático tenha sido efetuado, sem que a construção da linguagem expositiva seja objeto de atividades de sala de aula, sem que estraté-gias concretas de intervenção e procedimentos explícitos de avaliação sejam adotados. desse ponto de vista, a exposição permanece como uma atividade bastante tradicional, na qual, para qualquer tipo de pedagogia, vêm-se expor diante da classe as aquisições anteriores dos alunos — e mesmo seus dons —, quando não, meramente, a ajuda dos pais no momento da preparação... a exposição representa, no entanto, um ins-trumento privilegiado de transmissão de diversos conteúdos. para a audiência, mas também e sobretudo para aquele(a) que a prepara e apre-7 dolz, j.; schneuwly, b.; de pietro, j.-f.; zahnd, g. (1998). “l’exposé oral”. in: dolz, j. e schneuwly, b. pour un enseignement de i’oral: iniciation aux genres formels à i’école. paris: esf éditeur, pp. 141-162. [n.t.] 8 jean-françois de pietro e gabrielle zahnd são membros pesquisadores e docentes do grupo grafé, equipe de pesquisa do departamento de didática do francês língua materna da universidade de genebra. [n.t.] mp_vpem3_01a24.indd  20 4/21/10  11:12:36 am</Page><Page Number="351">manual do professor  21 senta, a exposição fornece um instrumento para aprender conteúdos diversificados, mas estrutu-rados graças ao enquadramento viabilizado pelo gênero textual. a exploração de fontes diversifi-cadas de informação, a seleção das informações em função do tema e da finalidade visada e a elaboração de um esquema destinado a sustentar a apresentação oral constituemum primeiro nível de intervenção didática, ligado ao conteúdo. do ponto de vista comunicativo, a exposição permite construir e exercer o papel de “especia-lista”, condição indispensável para que a própria ideia de transmitir um conhecimento a um audi-tório tenha sentido. esse gênero caracteriza-se também por seu caráter bastante monologal (roulet et al. 1985) e, por isso, necessita, por parte do expositor, um trabalho importante e complexo de planejamento, de antecipação e de consideração do auditório. a intervenção didáti-ca no trabalho sobre a exposição deve, portanto, levar em conta as dimensões comunicativas que lhe são próprias e que visam à transmissão de um saber a um auditório, mas também questões ligadas ao conteúdo, além, é claro, de aspectos mais técnicos, como procedimentos linguísticos e discursivos característicos desse gênero oral. o modelo didático da exposição oral características gerais do gênero a exposição é um discurso que se realiza numa situação de comunicação específica que poderíamos chamar de bipolar, reunindo o orador ou expositor e seu auditório. assim, a exposição pode ser qualificada, segundo bronckart et al. (1985), como um espaço-tempo de produção no qual o enunciador se dirige ao destinatário por meio de uma ação de linguagem que veicula um conteúdo referencial. mas, se esses dois atores se encontram reunidos nessa troca comunicativa particular que é a exposição, a assimetria de seus respectivos conhecimentos sobre o tema da expo-sição os separa: um, por definição, representa um “especialista”; o outro é mais difícil de caracteri-zar, mas, pelo menos, apresenta-se como alguém disposto a aprender alguma coisa. logo, o enun-ciador, por meio de seu discurso, tende a reduzir a assimetria inicial de conhecimentos. ao longo de sua ação de linguagem, este leva em conta o destinatário, o que imagina que ele já saiba, suas expectativas e seu interesse. as definições dos dicionários permitem dis-tinguir melhor, para fins didáticos, a exposição de outros gêneros que lhe são aparentados: da comunicação em congresso, que é apresentada diante de uma comunidade acadêmica; do relatório 9 , em que é primordial a ideia de lista, de relato, de narrativas; e, sobretudo, da conferência ou do discurso 10 , nos quais, se a temática é a mesma, a dimensão pública — representacional ou ritual, diria goffman (1987) — impõe-se. quanto à expli-cação, esta representa claramente, segundo o le robert 11 , uma dimensão mais local de um “desen-volvimento destinado a fazer compreender algo”, que, de certa maneira, faz parte da exposição. finalmente, podemos, pois, definir a expo-sição oral como um gênero textual público, relativamente formal e específico, no qual um expositor especialista se dirige a um auditório, de maneira (explicitamente) estruturada, para transmitir-lhe informações, descrever-lhe ou explicar-lhe alguma coisa. na perspectiva do ensino, em que se trata de construir um objeto ensinável, é sobre essas características que nos apoiaremos para definir os objetivos e elaborar modalidades de intervenção. as dimensões ensináveis a situação de comunicação — a exposição oral em sala de aula reúne o aluno que produz uma exposição e um público — alunos aos quais ele se dirige —, reunido para ouvi-lo, aprender algo sobre um tema, adquirir ou enriquecer seu conhecimento. a sinalização dos elementos dessa situação de comunicação será perceptível por meio de diferentes marcas dêiticas, como os pronomes pessoais eu/nós e vocês (hoje, eu vou falar a vocês sobre etc.), por exemplo. a exposição constitui, de fato, uma estrutura bastante con-vencionalizada de aprendizagem — tanto para o expositor como para o auditório —, na qual um aluno, de certamaneira, toma o lugar do professor e experimenta esse mecanismo particular e bem conhecido, expresso no dito “é ensinando que se aprende”. por isso, a exposição é também lugar de conscientização de seu próprio comportamento, o que força o expositor a interrogar-se sobre a orga-nização e a transmissibilidade do conhecimento. para atingir esse objetivo, é necessário construir com os alunos a noção de “especialista” 12 , que funda a situação da exposição, pois, em geral, os  9 “compte rendu”, no original, que, nos dicionários bilíngues, tem por tradução “relato”, “relatório”, “ata”, “prestação de contas”. [n.t.] 10 ou da “palestra”. [n.t.] 11 dicionário da língua francesa. no aurélio fguram “justifcação, esclarecimento”. [n.t.] 12 [em francês, expert – n.t.] de certa maneira, sobretudo quando o tema de uma exposição é decidido pelo professor, o aluno não é realmente um especialista; ele se torna. aliás, é interessante constatar que nos documentos orais de referência sobre os quais nos apoiamos para delimitar o comportamento dos especialistas, notamos que estes se sentiam frequentemente obrigados, na abertura de suas exposições, seja a justifcar seu status de especialistas, seja a relativizá-io. entretanto, não retivemos essa dimensão como objeto de ensino, pois nos parecia necessário construir primeiramente o papel de especialista, antes de colocá-io em questão… mp_vpem3_01a24.indd  21 4/21/10  11:12:36 am</Page><Page Number="352">22  manual do professor alunos não representam claramente para si as diferenças de conhecimentos que os separam de seu auditório. o papel do expositor-especialista é o de trans-mitir um conteúdo, ou, dito de outra forma, de informar, de esclarecer, de modificar os conhe-cimentos dos ouvintes nas melhores condições possíveis, procurando diminuir, assim, a assime-tria inicial de conhecimentos que distingue os dois atores desse contexto de comunicação. para fazê-lo, o expositor deve, primeiramente, cons-truir uma problemática, levando em conta aquilo que os ouvintes já sabem sobre o tema abordado, assim como suas expectativas em relação a esse tema. deve, igualmente, ao longo de sua exposi-ção, avaliar a novidade, a dificuldade daquilo que expõe — permanecendo atento aos sinais que lhe são enviados pelo auditório —, e, na medida do necessário, dizer de outra maneira, formular, definir. por fim, ele deve ter uma ideia clara das conclusões às quais quer levar seu auditório. mais concretamente, para assegurar um bom domínio da situação, o aluno-orador deve aprender a fazer perguntas a fimde estimular a atenção dos ouvin-tes e de verificar se a finalidade de sua intervenção está sendo atingida, se todomundo entende. para assegurar uma boa transmissão de seu discurso, deve, igualmente, tomar consciência das condi-ções que a garantem: da elocução clara e distinta à explicitação de aspectos metadiscursivos da exposição (plano, mudanças de tema, de partes etc.), passando pela legibilidade e pertinência dos documentos auxiliares utilizados. a organização interna da exposição — embora a exposição se inscreva, como vimos, num quadro interacional, seu planejamento é, em princípio, monogerado, isto é, gerenciado somente pelo expositor. dito de outra forma, esse gênero nos dá uma ocasião privilegiada para trabalhar as capacidades de planejamento de um texto (rela-tivamente) longo. o planejamento de uma exposição exige, primeiramente, que se proceda a uma triagem das informações disponíveis, à reorganização dos elementos retidos e, por fim, à sua hierarquização, distinguindo ideias principais de secundárias, com a finalidade de garantir uma progressão temática clara e coerente em função da conclusão visada. essas primeiras operações, que precedem o pla-nejamento textual propriamente dito, devem ser objeto de um trabalho em sala de aula, para que as exposições dos alunos não se reduzam a uma sequência de fragmentos temáticos sem ligação entre si. operações tais como a pesquisa de ele-mentos pertinentes num texto-fonte, sua hierar-quização e sua organização podem ser objeto de atividades individuais ou em grupo, com correção coletiva para toda a classe. em seguida, a exposição deverá ser ordenada em partes e subpartes, que permitam distinguir as fases sucessivas de sua construção interna. numa perspectiva de ensino, podem-se distinguir as seguintes partes: a) uma fase de abertura, na qual o expositor toma contato com o auditório, saúda-o, legitima sua fala... é, de fato, o momento em que o expositor é instituído como tal, em que ele se define como um especialista que se diri-ge a um auditório, e em que este também é instituído como tal. essa atividade é bastan-te ritualizada. segundo as circunstâncias, ela exige um trabalho de figuração mais ou menos importante (goffman 1974 e 1987). muitas vezes, aliás, ela é em parte assegurada por uma terceira pessoa que serve de media-dora entre os atores principais. no contexto escolar, provavelmente em razão do caráter evidente ou imposto das tarefas e dos papéis, esta fase reduz-se, com frequência, a uma interpelação por parte do professor (antônio, venha para a frente da turma...). é lamentável a pouca atenção dispensada a esta fase, pois ela desempenha uma função importante na definição da situação, dos papéis e das fina-lidades da exposição que se seguirá. b) uma fase de introdução ao tema, ummomento de entrada no discurso. trata-se de uma etapa de apresentação, de delimitação do assunto, que, alémdisso, fornece ao orador a oportunidade de legitimar as razões de suas escolhas, do ponto de vista adotado, de suas motivações etc. esse primeiro contato do expositor com o público deve também mobilizar a atenção, o